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Da
conquista de ser autônoma ao
redescobrimento de ser autora
Aline
Aguiar de Carvalho
Licenciada
em Normal Superior
, Habilitação
em Anos Iniciais
, Centro Universitário Feevale -
Novo Hamburgo – RS. Pós -
Graduanda em Psicopedagogia – Abordagem
Clínica e Institucional, Centro
Universitário Feevale – Novo Hamburgo
– RS.
E-mail:
alineaguiar@gmail.com
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Resumo:
O
presente trabalho apresenta, de forma resumida, os
resultados obtidos até o momento, em dois meses
de sessões psicopedagógicas, entre diagnósticos
e intervenções, realizadas em uma jovem de 23
anos que não se permite ser autônoma e autora de
seus ideais. Paciente essa que, ao ter uma convulsão
quando criança, vem sendo acompanhada
constantemente por neurologistas, psicólogas e
psicopedagogas, além da realização periódica
de exames, ainda faz uso de medicamentos. Enquanto
as terapêuticas das diversas áreas envolvidas
fazem de tudo para que a vida de Tina seja
modificada, de modo que as intervenções possam
lhe mostrar o quanto é capaz de tomar as suas próprias
decisões, a família por ter um esmero demasiado,
trata-a como uma criança incapaz.
Palavras
chaves: psicopedagogia do adulto, autonomia,
autoria,
Introdução
Este texto fundamenta-se num estudo de
caso, realizado em 2006 envolvendo uma moça de 23
anos, a quem chamarei de Tina. Para a efetivação
desse estudo, foram realizadas seções psicopedagógicas,
onde a observação e a intervenção ocorreram de
forma simultânea, tendo como contribuição, as
informações repassadas pela paciente, por sua mãe
e sua psicóloga. O estudo assim tem por fim a
compreensão de como conquistar a autonomia e de
como redescobrir a autoria de uma adulta que até
hoje é tratada pela família como incapaz de
tomar as suas decisões.
A
história de Tina: De um ficar doente, enquanto
criança, a uma não permissão de crescer quando
adulta.
Uma jovem de 23 anos, filha de uma médica
e de um jornalista, que tem dois irmãos mais
velhos por parte de pai. Há dois anos ela está
morando com a sua avó e com um tio, aqui
em Novo Hamburgo
, devido aos seus estudos. Os pais que moram
em Porto Alegre
, já ofereceram um apartamento mobiliado para que
ela volte a morar lá, mas Tina insiste em ficar
aqui, pois diz já ter se acostumado com a cidade
e também porque está namorando um rapaz daqui.
Este relacionamento demonstra ser muito importante
para ela.
Tina
possui uma vasta experiência no que diz respeito
a tratamentos que influenciam em sua saúde e em
sua educação, pois desde o seu primeiro ano de
vida, quando teve uma febre muito alta e começou
a ter ataques convulsivos constantes, a sua rotina
de tratamentos fica em torno de neurologistas,
fonoaudiólogos, psicólogos e psicopedagogos.
Sendo tratada por sua família como uma incapaz, e
até mesmo “como uma pessoal anormal”
(palavras essas escritas por sua mãe, no momento
da realização da história vital de Tina), ou
seja, a consideram uma pessoa, até nos dias de
hoje, com um comprometimento muito grande no que
se refere à saúde e a educação. Não
permitindo que ela conquiste a sua autonomia e nem
consentindo que ela se autorize como um sujeito
desejante e com intenções.
Segundo
Fernandez (p.41, 1991) “Não podemos entender a
patologia no aprender (...) analisando somente o
presente, fazendo unicamente um corte transversal
da situação, ainda que incluamos, além do
individual, o grupo familiar”.
Ou seja, a paciente tem uma história, que
certamente não está contribuindo para que sua
aprendizagem aconteça tranqüilamente; antes
dela, existe uma família, que também faz parte
de sua história e que pode estar interferindo em
seu processo.
Aprendizagem
deficitária devido a não construção de vínculo
escolar e a inexistência de autonomia e de
autoria
Tina freqüentou os colégios mais
conceituados de Porto Alegre, contudo, não ficava
por muito tempo
em nenhum. Era
só encontrar alguma dificuldade em sua
aprendizagem que o vínculo entre ela e a escola
era cortado por seus pais, sendo transferida de
escola e, assim que um novo processo de vinculação
começava a aflorar, novo corte acontecia.
E assim, a amarração necessária entre
aprendente e ensinante nunca era efetivada.
Durante esta caminhada de escola em escola,
Tina reprovou duas vezes. A primeira foi na 3ª série
e a segunda na 5ª série. Nos outros anos pegou
recuperação, sendo aprovada para as séries
seguintes, entretanto, tinha que fazer aulas de
reforço, no turno contrário, nas disciplinas em
que não conseguiu um bom aproveitamento no ano
anterior. Para a sustentação desse problema, as
palavras de Fernandez são colocadas de modo que
seja possível perceber como a família pode
ajudar ou não na aprendizagem do sujeito.
Para Fernandez (1991, p.97):
“Sendo
o aprender um possibilitador de autonomia, tanto
para a criança como para o adulto, e sendo possível
ser atrapado por desejos de ordem
inconsciente, os sistemas familiares estruturados
e estruturantes de indiferenciação são um
terreno fértil para a gestação de sintomas na
aprendizagem.”
Tina não consegue ter voz ativa em sua família.
Já pediu diversas vezes para não utilizar mais o
transporte particular, que a leva e busca para e
da Universidade onde estuda, mas os pais não
permitem que ela ande de ônibus, isso acontece
desde que freqüentava o ensino fundamental. Um
outro pedido que não foi atendido pelos seus pais
foi de começar a trabalhar, “mesmo que fosse um
estágio de pelo menos um mês” (frase de Tina).
Eles alegam que a experiência que ela deseja
adquirir será ofertada durante o seu curso de
graduação, quando for o momento de colocar em prática
a sua aprendizagem. É evidente que a família de
Tina não permite que ela cresça, pois ainda a
trata como criança, oferecendo uma superproteção
em demasia. A
avó e o tio falam para ela desistir do curso
dizendo ser suficiente o que já estudou, mas ela
continua em seu curso, mostrando o quanto é
capaz.
É evidente que o controle que a família
possui em relação à vida de Tina, vem
bloqueando a sua autonomia e a sua autoria. Mesmo
sendo possível observar que ela tem o desejo de
sair dessa proteção familiar em demasia, a opinião
de seus cuidadores ainda pesam bastante, muito
mais do que o seu próprio desejo de libertação.
Segundo Mendes (1994, p.8)
“Fazendo
uma análise sobre o que significa a autonomia,
para a Psicopedagogia pode se dizer que ela só é
conseguida ou conquistada através da autoria, que
por sua vez, para que ocorra, é necessário que o
ensinante permita que o aprendente que ele
aprenda.”
Com as palavras citadas por Mendes, é possível
entender que se tivesse existido interesse por
parte da família,
em tratar Tina
como ela realmente é, uma pessoa “normal”,
que apenas necessita de um tratamento constante no
que se refere à convulsão, e não uma pessoa
incapaz de fazer o que um bebê, uma criança, uma
pré-adolescente, uma adolescente, uma jovem e uma
adulta de mesma idade pode vir a fazer e esperasse
que fizesse, hoje ela seria uma pessoa autônoma e
autora de seus pensamentos.
Para
uma reintegração de desejos, seções de
psicopedagogia clínica auxiliam nesse processo.
A Psicopedagogia clínica procura não só
a compreensão do porquê do sujeito não estar
conseguindo aprender, mas também a forma de como
ele pode aprender e como aprende. Lembrando sempre
que, sendo o sujeito um ser único, seu
desenvolvimento se dá diferente ao dos outros,
devido as suas estruturas cognitivas.
Para compreender o processo de aprendizagem
é imprescindível que saibamos que:
“(...)
todo o sujeito tem a sua modalidade de
aprendizagem, ou seja, meios, condições e
limites para conhecer. Modalidade de aprendizagem
significa uma maneira pessoal para aproximar-se do
conhecimento e constituir o saber. Tal modalidade
constrói-se desde o nascimento, é como uma
matriz, um molde, um esquema de operar que vamos
utilizando nas situações de aprendizagem.”
(Bossa, apud Fernandez, 1994, p.15)
Esta intenção de buscar a igualdade é
ultrapassada e um tanto insignificante, pois dá a
impressão de tornar todos iguais,
descaracterizando a valorização da
individualidade que atualmente é buscada.
Justamente, o que se pretende é desenvolver a
autonomia que possibilita o indivíduo a construir
o saber. Mendes (1994, p.76) explica isso quando
afirma que “(...) poder pensar com autonomia
para possível autoria, partindo do conhecimento
do outro e de diferentes saberes para construir o
próprio saber”.
A nova postura psicopedagógica visa,
conforme (BOSSA, 1994, p.26),
“(...)
desenvolver e expandir a personalidade do indivíduo,
favorecendo as suas iniciativas pessoais,
suscitando os seus interesses, respeitando os seus
gostos, propondo e não impondo atividade,
procurando sugerir pelo menos duas vias para a
escolha do rumo a ser tomado, permitindo a opção”.
Ao oferecer a possibilidade da opção ao
aprendente, está se praticando o exercício da
autonomia, condição essencial para o ser humano
sentir-se livre e pleno.
Existem
ainda os aspectos subjetivos e processos
inconscientes que têm função fundamental na
construção do conhecimento, no desejo de
aprender e nas relações do sujeito com a
aprendizagem.
A leitura psicopedagógica procura lançar
um olhar singular a este aluno, considerando sua
modalidade de aprendizagem, suas potencialidades,
suas expectativas e necessidades. Na verdade é a
totalidade do sujeito, que desta forma, passa a
ser focada.
Segundo (ESCOTT, 1997, p.314),
"(...)
a possibilidade de aprender inscreve-se no sujeito
através da relação entre “organismo, corpo,
inteligência e desejo" (Fernandez, 1990,
p.48). O organismo refere-se à máquina
em funcionamento. O
corpo constituído a partir da
dramática do inconsciente e do organismo;
é o que nos inscreve no mundo. A inteligência é
a dimensão lógica e objetiva da aprendizagem. O
desejo é o que nos impulsiona, é a nossa libido,
nosso instinto de vida;
é a dimensão subjetiva da
aprendizagem"
Aprender significa apropriar-se objetiva e
subjetivamente da possibilidade de construir o
conhecimento. Quando se fala de inteligência,
refere-se a uma estrutura lógica, enquanto que a
dimensão desejante é simbólica.
A
dinâmica de identificação com o imaginário ou
simbólico, permite que a criança refaça
rupturas ocorridas no desenvolvimento, resgatando,
por vezes, sua história pessoal e sua identidade.
Nesse contexto, "(...) quando a criança
brinca, faz-de-conta, joga ou desenha, está
mostrando ao educador como organiza sua realidade,
tanto em nível cognitivo, quanto em nível
afetivo-emocional". (ESCOTT, 1997, p.315).
Todas
as ações e expressões, tanto da criança quanto
do adolescente e do adulto, independente da forma
que se apresenta, quer mostrar algo. Por isso é
preciso que a nossa observação capte estes
sinais, de maneira a canalizar de forma saudável,
através de propostas que auxiliem no
desenvolvimento. Quando estes
sinais
são reprimidos, aparecem na forma de sintoma como
a angústia, agressividade, distúrbios psicossomáticos,
não aprendizagem, etc...
"Numa
perspectiva sócio-interacionista da educação
entende-se que o sujeito realiza suas
aprendizagens através das trocas com o meio, com
o objeto do conhecimento, com o outro. Ora,
entendendo a aprendizagem sob essa ótica,
percebe-se a importância de pensar-se a
aprendizagem e o sujeito incluídos num grupo onde
possa estabelecer-se relações dinâmicas de
troca entre sujeito-grupo, de forma a auxiliar no
crescimento de todos os envolvidos e,
principalmente, na
resignificação da relação com a
aprendizagem." (ESCOTT, 1998)
Desta
forma, a sensibilidade leva à criatividade, à
manifestação livre das pulsões em nível imaginário
e simbólico, promovendo o desenvolvimento livre
dos sentimentos e da comunicação, aparato básico
para a construção do conhecimento. A dinâmica
vivenciada num modo de identificação como imaginário
ou simbólico, refaz rupturas significativas
ocorridas no desenvolvimento, sendo possível
resgatar a identidade e possibilidade de aprender
do educando.
No
que se refere à aprendizagem, o
sujeito só conseguirá aprender quando o assunto
que está sendo ensinado lhe possibilita fazer
conexões com sua vivência, e que certamente não
será aprendido da mesma forma que foi
compartilhado, pois cada indivíduo é único,
possuindo já uma “bagagem” de conhecimento.
Sendo assim, cada sujeito terá um esquema
diferenciado. Só aprenderemos verdadeiramente
quando percebemos o significado e o sentido
daquela aprendizagem.
Todo ensinante sente prazer quando percebe
que seu ensinamento foi conquistado pelo
aprendente. E todo aprendente sente prazer quando
consegue acomodar a sua aprendizagem.
A psicopedagogia é o campo de conhecimento
que focaliza a aprendizagem e numa abordagem crítica,
entende esse processo construído a partir de
interações com o meio, especificamente
considerando as relações familiares.
Assim, para haver aprendizagem, há
necessidade de um corpo representado, e para que
ela seja possível, vai depender que as quatro
dimensões do sujeito estejam em harmonia: o
organismo, o corpo, a inteligência e o desejo.
(...)
“Para que haja conhecimento, o processo de
aprender é construído pelo aprendente, em
inter-relação social, através da intervenção
em quatro níveis: organismo, corpo, inteligência
e desejo, não se podendo falar de aprendizagem
excluindo alguns deles”. (FERNANDEZ, 1991, p.52)
É
essencial definir esses conceitos para a compreensão
da aprendizagem na perspectiva psicopedagógica.
O organismo é uma estrutura organizada,
onde os sistemas de nosso corpo devem estar
trabalhando corretamente, para que seja possível
a aprendizagem. É um des-cobrir (termo psicanalítico),
é um desvelar, é um “tirar a coberta”. É
predeterminado, está na carga genética e não
muda jamais.
O corpo é a parte essencial do sujeito,
que faz parte do processo de aprendizagem, tendo
como serviço, administrar acontecimentos,
resultando assim novas habilidades. O olhar do
outro faz com que o corpo possua coisas
permitidas, reprimidas e sublimadas. Sendo assim,
ele é o organismo subjetivado é apropriação do
organismo e também a representação de sujeito.
A inteligência é a capacidade de
compreender, sendo uma construção coerente de
raciocínio onde toma posse do objeto,
interpretando-o, tornando-o comum e colocando em
uma classificação. É o que nos faz aprender.
O desejo está situado no nível simbólico,
sendo ele o organizador da vida afetiva e das
significações e também conduz á subjetivação,
ao surgimento do original de cada pessoa. É
o espaço de falta, é o inconsciente, o desejo
leva a se apropriar do que almeja.
“
Não é coisa que eu tenha inventado. Me foi
ensinado. Não precisei
pensar. Gostei. Foi para a memória. Esta
regra fundamental desse computador que vive no
corpo Humano: só vai para a memória aquilo que
é o objeto do desejo. A tarefa primordial do
professor: seduzir o aluno para que ele deseje e,
desejando, aprenda”. (ALVES, 2001, p.81)
Portanto,
a continuidade que é dada aos estudos já
iniciados anteriormente, é de grande valia, pois
contribui para que nossas idéias possam ser
transformadas a cada dia. E assim, construirmos
uma nova hipótese em cima de uma já existente.
“O ser humano é incompleto e inacabado” em
formação constante. (Freire apud Gadotti, 2003,
P.27)
Hora
do jogo, um momento angustiante: do aparecimento
de corações, de um sol com características
humanas a de uma flor muito colorida
Tina colocou-se bastante curiosa a respeito
da proposta oferecida. Não precisou de estimulo
da minha parte, para que a caixa da hora do jogo
fosse logo aberta. Contudo, fez um inventário
parcial, pois olhou algumas coisas de dentro da
caixa, sem tirar muitas coisas dela.
Nesse momento, foi evidente o quanto ela
ficou angustiada com a quantidade de materiais que
havia lá dentro. A manipulação dos materiais
ocorreu somente dentro da caixa.
Quando achou as folhas de ofício A3, ela
se tranqüilizou, pois disse que iria desenhar,
que era uma coisa que gostava bastante, pegando
tintas, gliter, cola colorida e pincéis.
Nas observações realizadas, foi possível
constatar que Tina alcançou o objetivo proposto,
a partir de um gostar, que é a pintura e o
desenho. Enquanto construía os seus desenhos, ela
não falava nada sobre os mesmos, apenas sobre a
sua infância e não fazia nenhum questionamento,
mas ia contando de quando ela tinha quatro ou
cinco anos (ela não sabe ao certo), que gostava
muito de pintar, e que na escola, a professora
dizia para a sua mãe que ela já tinha uma
personalidade de líder.
Tina
coloca que até hoje ela tem essa “mania de
querer liderar”, Diz que no Ensino Médio, não
deixavam-na fazer isso, colocando-a de lado. Mas
agora na faculdade, os colegas a tratam como
normal. Mesmo
questionando o porquê dela ter falado isso,
dizendo que ela é normal, nesse momento ela diz
“é verdade”, mas completa a frase
pronunciando: “agora eles me tratam como
normal”.
Segundo
D’Leo (1997, p.13), “Qualquer comentário que
a criança faça, quando mostra um desenho, pode
ser indício de uma atitude, pensamento ou
sentimento”. E nesse sentido, é visível o
quanto Tina tem o desejo de ser autônoma, porém
para que isso seja possível, a família deverá
entrar em acordo e parar de tratá-la como criança,
o que impede seu crescimento e ser realmente uma
adulta. Fase essa que ela já se encontra e que não
consegue perceber.
A atividade durou quase 60 minutos entre o
inventariar e a produção de suas pinturas. Não
se preocupou em nenhum momento com a sujeira que
fazia, porém quando terminou, olhou muito para as
mãos, perguntado se ela queria lavá-las,
confirmou com um leve confirmar com a cabeça,
falando a seguinte frase “se a avó me vir
assim...” e não continuou a sua frase. É nítido
que ela possui muito receio do que a sua família
pode ponderar ou criticar, pela angústia
demonstrada na hora em que viu suas mãos sujas de
tinta.
A construção não foi realizada em cima
de uma única coisa, pois ela fez três pinturas.
Conforme ia terminando a primeira, fez vários
corações, o que é normal ter aparecido, pois
está encantada com o relacionamento que está
tendo com o seu primeiro namorado. Passou para a
sua segunda pintura, que foi o sol com olhos, boca
e nariz, pintura com características humanas, e a
que mais me chamou atenção, por sua idade. A
colocação de rosto no sol, não é mais
oportuna, pois permanece sendo uma adulta
infantilizada.
Finalizando
a seção, passou para a terceira pintura que
representava uma flor, quando falei que faltavam
apenas alguns minutos para terminar o tempo da
consulta, ela fez rapidamente o desfecho colocando
as pétalas em sua flor. Não almejou retratar
nada sobre a sua construção, contudo percebo que
ela está feliz e quer demonstrar esse sentimento
para as outras pessoas.
De
um não saber a descoberta da modalidade de
aprendizagem
Com a descoberta da modalidade de
aprendizagem de Tina, é possível saber de que
forma o seu desejo pelo aprender, ocorre.
Fernandez (p.107, 1991) coloca que: “A
modalidade de aprendizagem é como uma matriz, um
molde, um esquema de operar que vamos utilizando
nas diferentes situações de aprendizagem”.
Após a atividade realizada, foi possível
compreender que a modalidade de aprendizagem de
Tina é a Hipoassimilativa – Hiperacomodativa,
pois percebo que ela tem a necessidade de mostrar
ao mundo o quanto ela tem vontade de viver e de
ser feliz, de conseguir algo concreto para si,
contudo para que isso seja possível, ela precisa
receber atenção de todos com quem tem contato. E
para que isso seja possível, o trabalho a ser
realizado deve ser o preenchimento dessa falta que
ela sente, que é a de expressar os seus
sentimentos, de ser entendida pelos outros e
conseqüentemente fazer com que ela saia do seu
auto-aprisionamento e assim, trabalhar seu amor próprio
e mostrar o quanto é importante o gostar de si e
de permitir-se ser autora de suas idéias e
pensamentos.
Provas
projetivas e a constatação da inexistência de
um esquema corporal
É
claro para quem entende o que é a psicopedagogia,
o quanto as provas projetivas nos são úteis para
que possamos entender o que o nosso paciente pensa
em relação a sua família, a sua vida, a seus
desejos e a sua aprendizagem, e foi com elas que
pude constatar que Tina tem imaturidade psíquica.
D’Leo
(1997, p.41) escreve que as “ Figuras humanas,
em particular, são consideradas como valiosos
indicadores de crescimento cognitivo(...)” e que
é a partir delas que a medição da maturidade
intelectual pode ser observada.
Foram
realizadas cinco provas com Tina, a primeira foi o
PAR EDUCATIVO onde é possível observar o vínculo
do sujeito com a aprendizagem; a segunda prova foi
OS QUATRO MOMENTOS DO DIA que vem auxiliar na
investigação dos vínculos que são criados ao
longo de uma jornada; a terceira foi a FAMÍLIA
EDUCATIVA que visa estudar o vínculo de
aprendizagem com o grupo familiar e cada um dos
integrantes do mesmo; a quarta prova realizada foi
O DIA DE MEU ANIVERSÁRIO, que permite conhecermos
a representação do sujeito e em uma ocasião de
mudança de idade e, finalizando essas provas,
quinta solicitada foi FAZENDO O QUE MAIS
GOSTA que possibilita a investigação de quais são
as atividades que mais sente gosto em realizar.
Todas
essas provas são realizadas com o mesmo material:
uma folha de ofício para cada uma delas, um lápis
preto e se solicitado por parte da paciente, uma
borracha. A única alteração entre elas é o
pedido feito pela psicopedagoga, onde são
solicitadas, nesse caso, as cinco provas já
mencionadas e logo após que ela escrevesse o que
tinha desenhado e o que tinha sentido durante a
realização das mesmas. A escrita sempre foi um
empecilho para Tina, pois alegava que no momento
em que ela precisa escrever alguma coisa, “dá
um branco na cabeça” (frase dela).
Referentemente à escrita, que pouco foi
demonstrada, pude perceber que ela não se permite
imaginar, deixando de colocar os seus sentimentos
e idéias em uma folha.
Com
a efetivação dos desenhos, foi possível
observar que Tina consegue realizar todas as
solicitações feitas, porém foi verificado que
ela não possui um esquema corporal completo, pois
todas as imagens corporais foram realizadas de
forma palito, onde a única parte bem definida
foram os rostos, onde era nítida a diferenciação
entre o feminino e o masculino, pois o resto do
corpo não era diferenciado, já que ambos corpos
foram traçados com riscos, onde as roupas, as mãos
e os pés não apareciam.
A
partir dessas observações, decidi trabalhar com
a imagem corporal de Tina, solicitando que
deitasse em um papel pardo, tendo seu corpo
contornado com caneta hidrocor, para que quando
levantasse, pudesse observar que ela não é um
corpo palito, o que normalmente faz em seus
desenhos. Após o contorno realizado, entreguei a
caixa com sucatas para que completasse seu corpo.
Durante o procedimento, Tina ficou muito
tensa e quando o contorno teve seu término, ela
comentou que não se sentiu bem fazendo essa
atividade. Pedi para que me explicasse o que tinha
sentido, disse que não sabia, que apenas não
tinha gostado de fazer. Mas mesmo assim, escutou a
minha fala, como não quis inventariar a caixa de
sucatas, pediu canetas hidrocor e giz de cera. É
possível observar durante a pintura que sua
motricidade fina possui problemas, pois pega o
bastão de giz de cera, de forma vertical,
tornando a pintura mais difícil, e também mais
demorada. Sugeri que colocasse o giz deitado,
“na horizontal”, pois assim ela teria mais giz
de cera para pintar e conseqüentemente estaria
pintando mais espaços do que antes. Ela escutou a
sugestão, porém colocou o giz de forma
inclinada, pintando com a mesma dificuldade.
Considerações
finais: do nascimento de uma poesia ao
reconhecimento de um corpo
O trabalho com Tina ainda está ocorrendo,
as intervenções psicopedagógicas ainda
continuam, porém já é possível observar uma
melhora incrível no que se refere a sua autonomia
e a sua autoria. Aquisições essas que foram
almejadas, no momento em que observei a falta
dessas na vida dessa jovem que já está se
percebendo como adulta e não mais como criança.
Essas conquistas foram demonstradas no momento em
que se permitiu, demonstrando ser autônoma e
autora, escrever uma poesia alusiva ao sentimento
que possui pelo seu namorado e também no momento
em que foi solicitada para que desenhasse algo que
tivesse pretensão, após a leitura de sua
escrita.
Faz-se
necessária, a reescrita de uma das idéias já
mencionadas nesse artigo, que para haver aprendizagem, há necessidade de um corpo representado, e para
que ela seja possível, vai depender que as quatro
dimensões do sujeito estejam em harmonia, o
organismo, o corpo, a inteligência e o desejo.
Por isso que Tina conseguiu mudar suas concepções
de imagem, uma vez que fez uma representação
onde colocou um sol sem traços humanos, nuvens,
uma flor muito colorida e incrivelmente, uma
figura humana com um corpo muito bem definido,
onde as mãos, os pés e a roupas estavam
apresentados, diferentemente dos desenhos
realizados durante a aplicação das provas
projetivas. Confirmando assim, que as quatro
dimensões do sujeito estão se encontrando, pois
o seu corpo está começando ser reconhecido, o
seu organismo está sendo controlado com a ajuda
dos diversos tratamentos. Não importando a área,
sua inteligência está sendo demonstrada, pois
ela tem se autorizado a demonstrar o que sabe e
por último, está demonstrando seus desejos
verdadeiros. E assim, está conquistando a sua
autonomia e redescobrindo que é capaz de ser
autora.
As
sessões psicopedagógicas com Tina continuarão,
pois mesmo sendo possível observar uma mudança
significativa em seu jeito de ser, ainda são
necessárias outras mudanças como, por exemplo,
fazer com que ela perceba o quanto é bom ser
ouvida por seus pais e quanto é importante
colocar seus desejos em prática, sabendo assim,
argumentar adequadamente com seus reais motivos.
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Publicado
em 03/05/2007