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Simaia Psicopedagoga

 

Da conquista de ser autônoma ao redescobrimento de ser autora

 

Aline Aguiar de Carvalho

 

Licenciada em Normal Superior , Habilitação em Anos Iniciais , Centro Universitário Feevale -  Novo Hamburgo – RS. Pós - Graduanda em Psicopedagogia – Abordagem Clínica e Institucional,  Centro Universitário Feevale – Novo Hamburgo – RS.

E-mail: alineaguiar@gmail.com

 

Resumo:

 

O presente trabalho apresenta, de forma resumida, os resultados obtidos até o momento, em dois meses de sessões psicopedagógicas, entre diagnósticos e intervenções, realizadas em uma jovem de 23 anos que não se permite ser autônoma e autora de seus ideais. Paciente essa que, ao ter uma convulsão quando criança, vem sendo acompanhada constantemente por neurologistas, psicólogas e psicopedagogas, além da realização periódica de exames, ainda faz uso de medicamentos. Enquanto as terapêuticas das diversas áreas envolvidas fazem de tudo para que a vida de Tina seja modificada, de modo que as intervenções possam lhe mostrar o quanto é capaz de tomar as suas próprias decisões, a família por ter um esmero demasiado, trata-a como uma criança incapaz.  

Palavras chaves: psicopedagogia do adulto, autonomia, autoria,

 

Introdução                

 

Este texto fundamenta-se num estudo de caso, realizado em 2006 envolvendo uma moça de 23 anos, a quem chamarei de Tina. Para a efetivação desse estudo, foram realizadas seções psicopedagógicas, onde a observação e a intervenção ocorreram de forma simultânea, tendo como contribuição, as informações repassadas pela paciente, por sua mãe e sua psicóloga. O estudo assim tem por fim a compreensão de como conquistar a autonomia e de como redescobrir a autoria de uma adulta que até hoje é tratada pela família como incapaz de tomar as suas decisões.

 

A história de Tina: De um ficar doente, enquanto criança, a uma não permissão de crescer quando adulta.

 

Uma jovem de 23 anos, filha de uma médica e de um jornalista, que tem dois irmãos mais velhos por parte de pai. Há dois anos ela está morando com a sua avó e com um tio, aqui em Novo Hamburgo , devido aos seus estudos. Os pais que moram em Porto Alegre , já ofereceram um apartamento mobiliado para que ela volte a morar lá, mas Tina insiste em ficar aqui, pois diz já ter se acostumado com a cidade e também porque está namorando um rapaz daqui. Este relacionamento demonstra ser muito importante para ela.

 

Tina possui uma vasta experiência no que diz respeito a tratamentos que influenciam em sua saúde e em sua educação, pois desde o seu primeiro ano de vida, quando teve uma febre muito alta e começou a ter ataques convulsivos constantes, a sua rotina de tratamentos fica em torno de neurologistas, fonoaudiólogos, psicólogos e psicopedagogos. Sendo tratada por sua família como uma incapaz, e até mesmo “como uma pessoal anormal” (palavras essas escritas por sua mãe, no momento da realização da história vital de Tina), ou seja, a consideram uma pessoa, até nos dias de hoje, com um comprometimento muito grande no que se refere à saúde e a educação. Não permitindo que ela conquiste a sua autonomia e nem consentindo que ela se autorize como um sujeito desejante e com intenções.

 

Segundo Fernandez (p.41, 1991) “Não podemos entender a patologia no aprender (...) analisando somente o presente, fazendo unicamente um corte transversal da situação, ainda que incluamos, além do individual, o grupo familiar”.

 

Ou seja, a paciente tem uma história, que certamente não está contribuindo para que sua aprendizagem aconteça tranqüilamente; antes dela, existe uma família, que também faz parte de sua história e que pode estar interferindo em seu processo.

 

Aprendizagem deficitária devido a não construção de vínculo escolar e a inexistência de autonomia e de autoria

 

Tina freqüentou os colégios mais conceituados de Porto Alegre, contudo, não ficava por muito tempo em nenhum. Era só encontrar alguma dificuldade em sua aprendizagem que o vínculo entre ela e a escola era cortado por seus pais, sendo transferida de escola e, assim que um novo processo de vinculação começava a aflorar, novo corte acontecia.  E assim, a amarração necessária entre aprendente e ensinante nunca era efetivada.

           

Durante esta caminhada de escola em escola, Tina reprovou duas vezes. A primeira foi na 3ª série e a segunda na 5ª série. Nos outros anos pegou recuperação, sendo aprovada para as séries seguintes, entretanto, tinha que fazer aulas de reforço, no turno contrário, nas disciplinas em que não conseguiu um bom aproveitamento no ano anterior. Para a sustentação desse problema, as palavras de Fernandez são colocadas de modo que seja possível perceber como a família pode ajudar ou não na aprendizagem do sujeito.

 

Para Fernandez (1991, p.97):

 

“Sendo o aprender um possibilitador de autonomia, tanto para a criança como para o adulto, e sendo possível ser atrapado por desejos de ordem inconsciente, os sistemas familiares estruturados e estruturantes de indiferenciação são um terreno fértil para a gestação de sintomas na aprendizagem.”

 

Tina não consegue ter voz ativa em sua família. Já pediu diversas vezes para não utilizar mais o transporte particular, que a leva e busca para e da Universidade onde estuda, mas os pais não permitem que ela ande de ônibus, isso acontece desde que freqüentava o ensino fundamental. Um outro pedido que não foi atendido pelos seus pais foi de começar a trabalhar, “mesmo que fosse um estágio de pelo menos um mês” (frase de Tina). Eles alegam que a experiência que ela deseja adquirir será ofertada durante o seu curso de graduação, quando for o momento de colocar em prática a sua aprendizagem. É evidente que a família de Tina não permite que ela cresça, pois ainda a trata como criança, oferecendo uma superproteção em demasia. A avó e o tio falam para ela desistir do curso dizendo ser suficiente o que já estudou, mas ela continua em seu curso, mostrando o quanto é capaz.

 

É evidente que o controle que a família possui em relação à vida de Tina, vem bloqueando a sua autonomia e a sua autoria. Mesmo sendo possível observar que ela tem o desejo de sair dessa proteção familiar em demasia, a opinião de seus cuidadores ainda pesam bastante, muito mais do que o seu próprio desejo de libertação.

 

Segundo Mendes (1994, p.8)

“Fazendo uma análise sobre o que significa a autonomia, para a Psicopedagogia pode se dizer que ela só é conseguida ou conquistada através da autoria, que por sua vez, para que ocorra, é necessário que o ensinante permita que o aprendente que ele aprenda.”

           

Com as palavras citadas por Mendes, é possível entender que se tivesse existido interesse por parte da família, em tratar Tina como ela realmente é, uma pessoa “normal”, que apenas necessita de um tratamento constante no que se refere à convulsão, e não uma pessoa incapaz de fazer o que um bebê, uma criança, uma pré-adolescente, uma adolescente, uma jovem e uma adulta de mesma idade pode vir a fazer e esperasse que fizesse, hoje ela seria uma pessoa autônoma e autora de seus pensamentos.

 

 

Para uma reintegração de desejos, seções de psicopedagogia clínica auxiliam nesse processo.

 

A Psicopedagogia clínica procura não só a compreensão do porquê do sujeito não estar conseguindo aprender, mas também a forma de como ele pode aprender e como aprende. Lembrando sempre que, sendo o sujeito um ser único, seu desenvolvimento se dá diferente ao dos outros, devido as suas estruturas cognitivas.

 

Para compreender o processo de aprendizagem é imprescindível que saibamos que:

“(...) todo o sujeito tem a sua modalidade de aprendizagem, ou seja, meios, condições e limites para conhecer. Modalidade de aprendizagem significa uma maneira pessoal para aproximar-se do conhecimento e constituir o saber. Tal modalidade constrói-se desde o nascimento, é como uma matriz, um molde, um esquema de operar que vamos utilizando nas situações de aprendizagem.” (Bossa, apud Fernandez, 1994, p.15)  

 

Esta intenção de buscar a igualdade é ultrapassada e um tanto insignificante, pois dá a impressão de tornar todos iguais, descaracterizando a valorização da individualidade que atualmente é buscada. Justamente, o que se pretende é desenvolver a autonomia que possibilita o indivíduo a construir o saber. Mendes (1994, p.76) explica isso quando afirma que “(...) poder pensar com autonomia para possível autoria, partindo do conhecimento do outro e de diferentes saberes para construir o próprio saber”.  

 

A nova postura psicopedagógica visa, conforme (BOSSA, 1994, p.26),

“(...) desenvolver e expandir a personalidade do indivíduo, favorecendo as suas iniciativas pessoais, suscitando os seus interesses, respeitando os seus gostos, propondo e não impondo atividade, procurando sugerir pelo menos duas vias para a escolha do rumo a ser tomado, permitindo a opção”.

 

Ao oferecer a possibilidade da opção ao aprendente, está se praticando o exercício da autonomia, condição essencial para o ser humano sentir-se livre e pleno.

Existem ainda os aspectos subjetivos e processos inconscientes que têm função fundamental na construção do conhecimento, no desejo de aprender e nas relações do sujeito com a aprendizagem.

 

A leitura psicopedagógica procura lançar um olhar singular a este aluno, considerando sua modalidade de aprendizagem, suas potencialidades, suas expectativas e necessidades. Na verdade é a totalidade do sujeito, que desta forma, passa a ser focada.

           

Segundo (ESCOTT, 1997, p.314),

"(...) a possibilidade de aprender inscreve-se no sujeito através da relação entre “organismo, corpo, inteligência e desejo" (Fernandez, 1990, p.48). O organismo refere-se à máquina em funcionamento. O corpo constituído a partir da  dramática do inconsciente e do organismo; é o que nos inscreve no mundo. A inteligência é a dimensão lógica e objetiva da aprendizagem. O desejo é o que nos impulsiona, é a nossa libido, nosso instinto de vida;  é a dimensão subjetiva da aprendizagem"  

 

Aprender significa apropriar-se objetiva e subjetivamente da possibilidade de construir o conhecimento. Quando se fala de inteligência, refere-se a uma estrutura lógica, enquanto que a dimensão desejante é simbólica.

 

A dinâmica de identificação com o imaginário ou simbólico, permite que a criança refaça rupturas ocorridas no desenvolvimento, resgatando, por vezes, sua história pessoal e sua identidade. Nesse contexto, "(...) quando a criança brinca, faz-de-conta, joga ou desenha, está mostrando ao educador como organiza sua realidade, tanto em nível cognitivo, quanto em nível afetivo-emocional". (ESCOTT, 1997, p.315).

 

Todas as ações e expressões, tanto da criança quanto do adolescente e do adulto, independente da forma que se apresenta, quer mostrar algo. Por isso é preciso que a nossa observação capte estes sinais, de maneira a canalizar de forma saudável, através de propostas que auxiliem no desenvolvimento. Quando estes sinais são reprimidos, aparecem na forma de sintoma como a angústia, agressividade, distúrbios psicossomáticos, não aprendizagem, etc...

 

"Numa perspectiva sócio-interacionista da educação entende-se que o sujeito realiza suas aprendizagens através das trocas com o meio, com o objeto do conhecimento, com o outro. Ora, entendendo a aprendizagem sob essa ótica, percebe-se a importância de pensar-se a aprendizagem e o sujeito incluídos num grupo onde possa estabelecer-se relações dinâmicas de troca entre sujeito-grupo, de forma a auxiliar no crescimento de todos os envolvidos e, principalmente, na  resignificação da relação com a aprendizagem." (ESCOTT, 1998)

 

Desta forma, a sensibilidade leva à criatividade, à manifestação livre das pulsões em nível imaginário e simbólico, promovendo o desenvolvimento livre dos sentimentos e da comunicação, aparato básico para a construção do conhecimento. A dinâmica vivenciada num modo de identificação como imaginário ou simbólico, refaz rupturas significativas ocorridas no desenvolvimento, sendo possível resgatar a identidade e possibilidade de aprender do educando.

 

No que se refere à aprendizagem, o sujeito só conseguirá aprender quando o assunto que está sendo ensinado lhe possibilita fazer conexões com sua vivência, e que certamente não será aprendido da mesma forma que foi compartilhado, pois cada indivíduo é único, possuindo já uma “bagagem” de conhecimento. Sendo assim, cada sujeito terá um esquema diferenciado. Só aprenderemos verdadeiramente quando percebemos o significado e o sentido daquela aprendizagem.

 

Todo ensinante sente prazer quando percebe que seu ensinamento foi conquistado pelo aprendente. E todo aprendente sente prazer quando consegue acomodar a sua aprendizagem.

 

A psicopedagogia é o campo de conhecimento que focaliza a aprendizagem e numa abordagem crítica, entende esse processo construído a partir de interações com o meio, especificamente considerando as relações familiares.

 

Assim, para haver aprendizagem, há necessidade de um corpo representado, e para que ela seja possível, vai depender que as quatro dimensões do sujeito estejam em harmonia: o organismo, o corpo, a inteligência e o desejo.

 

(...) “Para que haja conhecimento, o processo de aprender é construído pelo aprendente, em inter-relação social, através da intervenção em quatro níveis: organismo, corpo, inteligência e desejo, não se podendo falar de aprendizagem excluindo alguns deles”. (FERNANDEZ, 1991, p.52)

 

É essencial definir esses conceitos para a compreensão da aprendizagem na perspectiva psicopedagógica.

 

O organismo é uma estrutura organizada, onde os sistemas de nosso corpo devem estar trabalhando corretamente, para que seja possível a aprendizagem. É um des-cobrir (termo psicanalítico), é um desvelar, é um “tirar a coberta”. É predeterminado, está na carga genética e não muda jamais.

 

O corpo é a parte essencial do sujeito, que faz parte do processo de aprendizagem, tendo como serviço, administrar acontecimentos, resultando assim novas habilidades. O olhar do outro faz com que o corpo possua coisas permitidas, reprimidas e sublimadas. Sendo assim, ele é o organismo subjetivado é apropriação do organismo e também a representação de sujeito.

 

A inteligência é a capacidade de compreender, sendo uma construção coerente de raciocínio onde toma posse do objeto, interpretando-o, tornando-o comum e colocando em uma classificação. É o que nos faz aprender.

 

O desejo está situado no nível simbólico, sendo ele o organizador da vida afetiva e das significações e também conduz á subjetivação, ao surgimento do original de cada pessoa. É o espaço de falta, é o inconsciente, o desejo leva a se apropriar do que almeja.

 

“ Não é coisa que eu tenha inventado. Me foi ensinado. Não precisei  pensar. Gostei. Foi para a memória. Esta regra fundamental desse computador que vive no corpo Humano: só vai para a memória aquilo que é o objeto do desejo. A tarefa primordial do professor: seduzir o aluno para que ele deseje e, desejando, aprenda”. (ALVES, 2001, p.81)

 

Portanto, a continuidade que é dada aos estudos já iniciados anteriormente, é de grande valia, pois contribui para que nossas idéias possam ser transformadas a cada dia. E assim, construirmos uma nova hipótese em cima de uma já existente. “O ser humano é incompleto e inacabado” em formação constante. (Freire apud Gadotti, 2003, P.27)  

 

 

Hora do jogo, um momento angustiante: do aparecimento de corações, de um sol com características humanas a de uma flor muito colorida

 

Tina colocou-se bastante curiosa a respeito da proposta oferecida. Não precisou de estimulo da minha parte, para que a caixa da hora do jogo fosse logo aberta. Contudo, fez um inventário parcial, pois olhou algumas coisas de dentro da caixa, sem tirar muitas coisas dela.  Nesse momento, foi evidente o quanto ela ficou angustiada com a quantidade de materiais que havia lá dentro. A manipulação dos materiais ocorreu somente dentro da caixa.  Quando achou as folhas de ofício A3, ela se tranqüilizou, pois disse que iria desenhar, que era uma coisa que gostava bastante, pegando tintas, gliter, cola colorida e pincéis.

 

Nas observações realizadas, foi possível constatar que Tina alcançou o objetivo proposto, a partir de um gostar, que é a pintura e o desenho. Enquanto construía os seus desenhos, ela não falava nada sobre os mesmos, apenas sobre a sua infância e não fazia nenhum questionamento, mas ia contando de quando ela tinha quatro ou cinco anos (ela não sabe ao certo), que gostava muito de pintar, e que na escola, a professora dizia para a sua mãe que ela já tinha uma personalidade de líder.

 

 Tina coloca que até hoje ela tem essa “mania de querer liderar”, Diz que no Ensino Médio, não deixavam-na fazer isso, colocando-a de lado. Mas agora na faculdade, os colegas a tratam como normal.  Mesmo questionando o porquê dela ter falado isso, dizendo que ela é normal, nesse momento ela diz “é verdade”, mas completa a frase pronunciando: “agora eles me tratam como normal”.

 

Segundo D’Leo (1997, p.13), “Qualquer comentário que a criança faça, quando mostra um desenho, pode ser indício de uma atitude, pensamento ou sentimento”. E nesse sentido, é visível o quanto Tina tem o desejo de ser autônoma, porém para que isso seja possível, a família deverá entrar em acordo e parar de tratá-la como criança, o que impede seu crescimento e ser realmente uma adulta. Fase essa que ela já se encontra e que não consegue perceber.

 

A atividade durou quase 60 minutos entre o inventariar e a produção de suas pinturas. Não se preocupou em nenhum momento com a sujeira que fazia, porém quando terminou, olhou muito para as mãos, perguntado se ela queria lavá-las, confirmou com um leve confirmar com a cabeça, falando a seguinte frase “se a avó me vir assim...” e não continuou a sua frase. É nítido que ela possui muito receio do que a sua família pode ponderar ou criticar, pela angústia demonstrada na hora em que viu suas mãos sujas de tinta.

 

A construção não foi realizada em cima de uma única coisa, pois ela fez três pinturas. Conforme ia terminando a primeira, fez vários corações, o que é normal ter aparecido, pois está encantada com o relacionamento que está tendo com o seu primeiro namorado. Passou para a sua segunda pintura, que foi o sol com olhos, boca e nariz, pintura com características humanas, e a que mais me chamou atenção, por sua idade. A colocação de rosto no sol, não é mais oportuna, pois permanece sendo uma adulta infantilizada.

 

 Finalizando a seção, passou para a terceira pintura que representava uma flor, quando falei que faltavam apenas alguns minutos para terminar o tempo da consulta, ela fez rapidamente o desfecho colocando as pétalas em sua flor. Não almejou retratar nada sobre a sua construção, contudo percebo que ela está feliz e quer demonstrar esse sentimento para as outras pessoas.  

 

De um não saber a descoberta da modalidade de aprendizagem

 

Com a descoberta da modalidade de aprendizagem de Tina, é possível saber de que forma o seu desejo pelo aprender, ocorre. Fernandez (p.107, 1991) coloca que: “A modalidade de aprendizagem é como uma matriz, um molde, um esquema de operar que vamos utilizando nas diferentes situações de aprendizagem”.

 

Após a atividade realizada, foi possível compreender que a modalidade de aprendizagem de Tina é a Hipoassimilativa – Hiperacomodativa, pois percebo que ela tem a necessidade de mostrar ao mundo o quanto ela tem vontade de viver e de ser feliz, de conseguir algo concreto para si, contudo para que isso seja possível, ela precisa receber atenção de todos com quem tem contato. E para que isso seja possível, o trabalho a ser realizado deve ser o preenchimento dessa falta que ela sente, que é a de expressar os seus sentimentos, de ser entendida pelos outros e conseqüentemente fazer com que ela saia do seu auto-aprisionamento e assim, trabalhar seu amor próprio e mostrar o quanto é importante o gostar de si e de permitir-se ser autora de suas idéias e pensamentos.  

 

Provas projetivas e a constatação da inexistência de um esquema corporal

 

É claro para quem entende o que é a psicopedagogia, o quanto as provas projetivas nos são úteis para que possamos entender o que o nosso paciente pensa em relação a sua família, a sua vida, a seus desejos e a sua aprendizagem, e foi com elas que pude constatar que Tina tem imaturidade psíquica.

 

D’Leo (1997, p.41) escreve que as “ Figuras humanas, em particular, são consideradas como valiosos indicadores de crescimento cognitivo(...)” e que é a partir delas que a medição da maturidade intelectual pode ser observada.

 

Foram realizadas cinco provas com Tina, a primeira foi o PAR EDUCATIVO onde é possível observar o vínculo do sujeito com a aprendizagem; a segunda prova foi OS QUATRO MOMENTOS DO DIA que vem auxiliar na investigação dos vínculos que são criados ao longo de uma jornada; a terceira foi a FAMÍLIA EDUCATIVA que visa estudar o vínculo de aprendizagem com o grupo familiar e cada um dos integrantes do mesmo; a quarta prova realizada foi O DIA DE MEU ANIVERSÁRIO, que permite conhecermos a representação do sujeito e em uma ocasião de mudança de idade e, finalizando essas provas,  quinta solicitada foi FAZENDO O QUE MAIS GOSTA que possibilita a investigação de quais são as atividades que mais sente gosto em realizar.

 

Todas essas provas são realizadas com o mesmo material: uma folha de ofício para cada uma delas, um lápis preto e se solicitado por parte da paciente, uma borracha. A única alteração entre elas é o pedido feito pela psicopedagoga, onde são solicitadas, nesse caso, as cinco provas já mencionadas e logo após que ela escrevesse o que tinha desenhado e o que tinha sentido durante a realização das mesmas. A escrita sempre foi um empecilho para Tina, pois alegava que no momento em que ela precisa escrever alguma coisa, “dá um branco na cabeça” (frase dela). Referentemente à escrita, que pouco foi demonstrada, pude perceber que ela não se permite imaginar, deixando de colocar os seus sentimentos e idéias em uma folha.

 

Com a efetivação dos desenhos, foi possível observar que Tina consegue realizar todas as solicitações feitas, porém foi verificado que ela não possui um esquema corporal completo, pois todas as imagens corporais foram realizadas de forma palito, onde a única parte bem definida foram os rostos, onde era nítida a diferenciação entre o feminino e o masculino, pois o resto do corpo não era diferenciado, já que ambos corpos foram traçados com riscos, onde as roupas, as mãos e os pés não apareciam.

 

A partir dessas observações, decidi trabalhar com a imagem corporal de Tina, solicitando que deitasse em um papel pardo, tendo seu corpo contornado com caneta hidrocor, para que quando levantasse, pudesse observar que ela não é um corpo palito, o que normalmente faz em seus desenhos. Após o contorno realizado, entreguei a caixa com sucatas para que completasse seu corpo.

 

Durante o procedimento, Tina ficou muito tensa e quando o contorno teve seu término, ela comentou que não se sentiu bem fazendo essa atividade. Pedi para que me explicasse o que tinha sentido, disse que não sabia, que apenas não tinha gostado de fazer. Mas mesmo assim, escutou a minha fala, como não quis inventariar a caixa de sucatas, pediu canetas hidrocor e giz de cera. É possível observar durante a pintura que sua motricidade fina possui problemas, pois pega o bastão de giz de cera, de forma vertical, tornando a pintura mais difícil, e também mais demorada. Sugeri que colocasse o giz deitado, “na horizontal”, pois assim ela teria mais giz de cera para pintar e conseqüentemente estaria pintando mais espaços do que antes. Ela escutou a sugestão, porém colocou o giz de forma inclinada, pintando com a mesma dificuldade.

 

Considerações finais: do nascimento de uma poesia ao reconhecimento de um corpo

 

O trabalho com Tina ainda está ocorrendo, as intervenções psicopedagógicas ainda continuam, porém já é possível observar uma melhora incrível no que se refere a sua autonomia e a sua autoria. Aquisições essas que foram almejadas, no momento em que observei a falta dessas na vida dessa jovem que já está se percebendo como adulta e não mais como criança. Essas conquistas foram demonstradas no momento em que se permitiu, demonstrando ser autônoma e autora, escrever uma poesia alusiva ao sentimento que possui pelo seu namorado e também no momento em que foi solicitada para que desenhasse algo que tivesse pretensão, após a leitura de sua escrita.

 

 Faz-se necessária, a reescrita de uma das idéias já mencionadas nesse artigo, que para haver aprendizagem, há necessidade de um corpo representado, e para que ela seja possível, vai depender que as quatro dimensões do sujeito estejam em harmonia, o organismo, o corpo, a inteligência e o desejo. Por isso que Tina conseguiu mudar suas concepções de imagem, uma vez que fez uma representação onde colocou um sol sem traços humanos, nuvens, uma flor muito colorida e incrivelmente, uma figura humana com um corpo muito bem definido, onde as mãos, os pés e a roupas estavam apresentados, diferentemente dos desenhos realizados durante a aplicação das provas projetivas. Confirmando assim, que as quatro dimensões do sujeito estão se encontrando, pois o seu corpo está começando ser reconhecido, o seu organismo está sendo controlado com a ajuda dos diversos tratamentos. Não importando a área, sua inteligência está sendo demonstrada, pois ela tem se autorizado a demonstrar o que sabe e por último, está demonstrando seus desejos verdadeiros. E assim, está conquistando a sua autonomia e redescobrindo que é capaz de ser autora.

 

As sessões psicopedagógicas com Tina continuarão, pois mesmo sendo possível observar uma mudança significativa em seu jeito de ser, ainda são necessárias outras mudanças como, por exemplo, fazer com que ela perceba o quanto é bom ser ouvida por seus pais e quanto é importante colocar seus desejos em prática, sabendo assim, argumentar adequadamente com seus reais motivos.

 

Referências:

 

BECKER, Fernando.  A origem do conhecimento e a aprendizagem escolar.  Porto Alegre: Artmed, 2003.

BOSSA, Nadia A. A Psicopedagogia no Brasil. Porto Alegre, Rio Grande do Sul: Artes Médicas Sul, 2000.

______________. ________________________. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

DI LEO, Joseph H. A interpretação do desenho infantil. 3. ed. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 1991.

FERNANDEZ, Alicia.  A inteligência aprisionada: Abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. (tradução de Maria Lúcia  Spedo Hildorf Barbanti e Antonieta Barini; direção da coleção Fanny Abramovich). Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

GADOTT, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar a aprender com sentido. Nova Hamburgo: FEEVALE, 2003. 

MENDES, Glória Maria Siqueira.  O desejo de conhecer e o conhecer do desejo: mitos de quem ensina e de quem aprende. Porto Alegre, Artes Médicas, 1994.

PARENTE, Sonia Maria B. A. Pelos caminhos da ignorância e do conhecimento:Fundamentação Teórica da Prática Clínica dos Problemas de Aprendizagem. 2.ed. São Paulo:Casa do Psicólogo, 2000.

VISCA, Jorge.  El diagnostico operatorio en la practica psicopedagogica. 2. ed. Buenos Aires:1997.

___________.  Técnicas proyectivas psicopedagógicas. 3. ed. Argentina: 1997.

WOLFFENBÜTTEL, Patrícia, Fundamentos Psicopedagógicos: Reflexões sobre alguns saberes básicos. In: ESCOTT, Clarice Monteiro; WOLFFENBÜTTEL, Patrícia (organizadoras). A Formação em Psicopedagogia nas Abordagens Clínica e Institucional: uma construção teórico-prática. Novo Hamburgo, Feevale, 2001

 

 Publicado em 03/05/2007

 

 

e-mail para marcação de consulta: simaia@psicopedagogiabrasil.com.br

Simaia Sampaio Maia Medrado de Araújo
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Revisado em: 10/06/2011