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Simaia Psicopedagoga

Consciência fonológica e leitura  

Fga. Aline Berghetti Simoni Belleboni

Fga. Luciane Carlesso

Fonoaudiólogas pela ULBRA/ Especialistas em Linguagem com Ênfase em Fonoaudiologia Escolar pelo IPA.

 

 

 

Introdução

Neste estudo, procuramos estabelecer uma relação entre consciência fonológica e leitura. Sendo a leitura um processo complexo onde compreende habilidades cognitivas como a consciência fonológica, achamos necessário relacionar estes assuntos buscando uma compreensão melhor através de estudos e pesquisas que revisamos.

Leitura

A leitura é um processo complexo que compreende muitas habilidades cognitivas. É um processo de aquisição da lectoescrita que, compreende duas operações fundamentais: a decodificação e a compreensão. A decodificação é a capacidade que temos como escritores ou leitores de uma língua  de identificarmos um signo gráfico por um nome ou por um som. Esta capacidade ou competência lingüística consiste no reconhecimento das letras ou signos gráficos e na tradução dos signos gráficos para a linguagem oral ou para outro sistema de signo. A aprendizagem da decodificação se consegue através do conhecimento do alfabeto e da leitura oral ou transcrição de um texto (Martins, 2001). E a compreensão é a captação do sentido ou conteúdo das mensagens escritas. Sua aprendizagem se dá através do domínio progressivo de textos  escritos cada vez mais complexos.

Gutschow (2002) concorda que  a leitura só ocorre de forma competente com a integração dessas duas habilidades essenciais (decodificação e compreensão), se uma das duas estiver comprometida à leitura competente não ocorrerá.

Martins (2001) refere que a leitura compreende três funções essenciais, que são: Transformar, Compreender e Julgar. Transformar se dá quando o leitor  converte a linguagem escrita em linguagem oral. Compreender se efetiva quando o leitor consegue captar ou dá sentido ao conteúdo da mensagem. Julgar é a capacidade que o leitor tem de analisar o valor da mensagem no contexto social.

O autor coloca que o enfoque da  Psicolingüística, ramo interdisciplinar da Psicologia Cognitiva e da Lingüística Aplicada considera a leitura como uma habilidade complexa, na qual intervém uma série de processos cognitivo-lingüísticos de distintos níveis, cujo início é um estímulo visual e cujo final deve ser a decodificação do mesmo e sua compreensão. A percepção visual permite a extração de informações sobre coisas, lugares e eventos do mundo visível. A percepção é uma das primeiras atividades que  toma parte do processo leitor. Aprendemos a ler com o poder do olhar (Martins, 2001). Ao nos engajarmos na leitura, fixamos, inicialmente, nosso olhar nos símbolos impressos, isto é, nas palavras e nos seus grafemas, e se não analisamos em profundidade o que realmente ocorre pode parecer-nos que os olhos percebem as palavras de uma linha ou de um texto de forma contínua. Ler, a rigor, não é apenas ler as palavras nas linhas, na sua dimensão linear sintagmática, mas ler as entrelinhas, o subjacente, o paradigmático, o ausente, o dito não explícito no texto.

Depois da análise perceptiva, o passo  seguinte é chegarmos ao significado das palavras que, no ensino da língua materna, é, realmente, o que interessa aos professores, à escola, à família e aos próprios alunos. Dois são os  caminhos que existem para chegarmos ao reconhecimento das palavras e extrairmos o significado das mesmas. As rotas que nos ajudam no reconhecimento das palavras: a) a fonológica ou indireta ou também chamada via indireta (VI)  e b) a rota visual ou léxica ou via direta (VD). A rota fonológica baseia-se na segmentação fonológica das palavras escritas, por meio da qual o leitor tem ao alcance a chamada consciência fonológica. A rota fonológica consiste em descriminar os sons correspondentes a cada uma das letras ou grafemas que compõem a palavra (Gutschow, 2002). Esta rota permite, na realidade, o reconhecer das letras das palavras e sua transformação  em sons. A rota fonológica é a via, pois, para se atingir a consciência fonológica, através da qual se pode ler todas as palavras em língua portuguesa, já que nosso idioma é alfabético. Alguns objetivos da  via fonológica  no processo de aquisição da leitura são: Identificar as letras através da análise visual; Recuperar os sons mediante a consciência fonológica; Pronunciar os sons da fala fazendo uso do léxico auditivo; Chegar ao significado de cada palavra no léxico interno (vocabulário).

Martins (2001) e Gutschow (2002) concordam que a via fonológica é mais lenta que a via direta já que o processo requerido é muito mais extenso até chegarmos a reconhecer a palavra, no entanto, não é menos importante e, inclusive, podemos afirmar que os estágios iniciais da aprendizagem da leitura dependem da consciência fonológica.

A rota visual ou direta ou léxica é uma rota global e muito rápida já que nos permite o reconhecimento global da palavra e sua pronunciação imediata sem necessidade de analisar os signos (significante e significado) que a compõem. Através da rota lexical podemos analisar globalmente a palavra escrita: análise visual; ativar as notações léxicas; chegar ao significado no léxico interno (vocabulário); recuperar a pronunciação no caso de leitura em voz alta. O modelo de leitura através da rota direta permite explicar a facilidade que temos para reconhecer as palavras cuja imagem visual temos visto com muita freqüência. Isto é, através desta rota podemos ler palavras que nos são familiares ao nível de escrita (Martins, 2001).

Segundo estudos feitos por Frith (1985) e Capovilla e Capovilla (2000) descritos por Gutschow (2002) a criança passa por três estágios: o logográfico, o alfabético e o ortográfico. No estágio logográfico a criança lê de maneira visual direta; a leitura depende do contexto e das cores e formas do texto. Por exemplo, uma criança pode ler logograficamente o rótulo Coca-Cola; logo, se as letras desta palavra forem trocadas, a criança não perceberá o erro desde que a forma visual global e o contexto permaneçam iguais aos da palavra correta. Isto demonstra que a criança não presta atenção à composição da palavra em letras, apesar de conseguir ter acesso ao significado de algumas palavras conhecidas. Por isso, o estágio logográfico é considerado uma forma de pré-leitura, visto que as palavras escritas são tratadas como desenhos, e não propriamente como um código alfabético. No estágio alfabético, a criança compreende que a escrita mapeia a fala e, portanto, começa a escrever como fala. Conseqüentemente podem ocorrer erros na escrita, como, por exemplo, escrever a palavra casa com a letra z em vez de s. Tais erros são esperados neste estágio, visto que a criança está aplicando as regras da escrita intermediadas pelos sons da fala. No terceiro estágio, o ortográfico, a leitura e a escrita ocorrem por reconhecimento visual direto das formas ortográficas de morfemas ou de palavras, pré-armazenadas no léxico. A criança passa, portanto, a ler e escrever corretamente palavras irregulares, como por exemplo, aquelas em que a letra x tem sons irregulares (e.x., nas palavras exército e próximo). Quando a criança dominou todas as estratégias desenvolvidas nos estágios logográfico, alfabético e ortográfico, ela torna-se capaz de ler e escrever palavras novas e palavras irregulares de alta freqüência.

Para Gutschow (2002) há duas formas básicas de ler e escrever de forma competente, que é utilizando as rotas fonológica e lexical. As dificuldades relacionadas à aquisição de leitura estão associadas às diversas competências necessárias ao uso de ambas as rotas, tais como:

Competência léxica: conhecimento que o indivíduo possui de um certo número de palavras da língua e sua aptidão para ter acesso rapidamente ao vocabulário mental assim constituído;

Consciência fonológica: capacidade de segmentar uma palavra em unidades menores, como as sílabas e os fonemas, decompondo-as em seus componentes fonológicos;

Memória operacional: capacidade de operar com conteúdos mantidos por curtos períodos de tempo na memória.  

Consciência Fonológica  

Para Ferreiro (2003) é a possibilidade de fazer voluntariamente certas operações com a oralidade que não são espontâneas.

A consciência fonológica é a habilidade de segmentar a fala e manipular tais segmentos. É a consciência de que as palavras são constituídas por uma seqüência de sons, que se desenvolve gradualmente durante a infância como parte da habilidade metalingüística, ou seja, a capacidade de pensar e operar sobre a linguagem como um objeto (Capellini e Ciasca, 1999).

A capacidade de perceber e expressar que a palavra falada ou escrita é formada por uma seqüência de sons individuais denomina-se consciência fonológica, uma habilidade metalingüística que desempenha um importante papel no aprendizado da leitura (Cielo, 1998). As atividades de consciência fonológica envolvem capacidades de refletir e operar com sílabas e fonemas, envolvendo habilidades como contar, unir, segmentar, adicionar, substituir e transpor.

Para a autora atividades de consciência fonológica contribuem para melhorar o desempenho da criança durante a fase inicial do aprendizado da leitura, repercutindo positivamente em estágios mais avançados do processo.

 Conclusão

 A consciência fonológica é uma habilidade necessária para a aprendizagem da leitura. O sistema de escrita alfabético requer a conversão grafema-fonema, desta forma, por ser uma habilidade de composição e decomposição de sons, a consciência fonológica auxilia a criança no entendimento desta conversão.

Achamos importante verificar nas crianças em processo de aquisição de leitura e escrita o uso das duas rotas de leitura, e investigar se há dificuldades no uso de uma ou outra rota. Se houver dificuldade, atividades devem ser desenvolvidas para promover o uso efetivo de ambos os processos: o fonológico e o lexical.

Acreditamos que a consciência fonológica é um meio facilitador para que as crianças aprendam a ler e a escrever, desenvolvendo assim as habilidades metafonológicas. Crianças que possuem habilidades  metafonoló-gicas tem consciência de que palavras podem rimar entre si, e que são compostas, muitas vezes, pelo mesmo som.

Devemos oportunizar jogos, brincadeiras lúdicas e exercícios para as crianças que envolvam as  habilidades de manipular sons, identificar e comparar. Propiciar palavras onde trabalharemos com a estrutura sonora das mesmas através de rimas, aliterações, etc).

Através dos artigos pesquisa- dos e de leituras complementares concluímos que o nível de consciência fonológica está relacionado ao desempenho na leitura. Portanto, é papel fundamental dos alfabetizadores e principalmente dos fonoaudiólogos escolares introduzirem consciência fonológica na educação infantil,  possibilitando aos alunos um desempenho melhor em leitura.  

Referências Bibliográficas  

CAPELLINI, S.A . e CIASCA, S.M. Aplicação   da   prova   de  consciência fonológica (PCF) em escolares com dificuldade na leitura. Jornal Brasileiro de Fonoaudiologia, n.1, p.11-14, 1999.

CIELO, C.A. A sensibilidade fonológica e o início da aprendizagem da leitura. Ciência em Movimento, n.1, p.52-56, 1998.

FERREIRO, E. Alfabetização e cultura escrita. Revista Nova Escola, n.163, p.27-30, maio, 2003.

GUTSCHOW, C.R.D. A aquisição da leitura e da escrita. Disponível na internet: www.psicopedagogia.com.br. Artigo publicado em dezembro, 2002.

MARTINS, V. A dislexia em sala de aula. Disponível na internet: www.centrorefeducacional.com.br.

Publicado em 22/02/2007

 
 

 

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Simaia Sampaio Maia Medrado de Araújo
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Revisado em: 10/06/2011