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Introdução
Neste
estudo, procuramos estabelecer uma relação entre consciência
fonológica e leitura. Sendo a leitura um processo complexo onde
compreende habilidades cognitivas como a consciência fonológica,
achamos necessário relacionar estes assuntos buscando uma compreensão
melhor através de estudos e pesquisas que revisamos.
Leitura
A
leitura é um processo complexo que compreende muitas habilidades
cognitivas. É um processo de aquisição da lectoescrita que,
compreende duas operações fundamentais: a decodificação e a
compreensão. A decodificação é a capacidade que temos como
escritores ou leitores de uma língua de identificarmos um
signo gráfico por um nome ou por um som. Esta capacidade ou competência
lingüística consiste no reconhecimento das letras ou signos gráficos
e na tradução dos signos gráficos para a linguagem oral ou para
outro sistema de signo. A aprendizagem da decodificação se
consegue através do conhecimento do alfabeto e da leitura oral ou
transcrição de um texto (Martins, 2001). E a compreensão é a
captação do sentido ou conteúdo das mensagens escritas. Sua
aprendizagem se dá através do domínio progressivo de textos
escritos cada vez mais complexos.
Gutschow
(2002) concorda que a
leitura só ocorre de forma competente com a integração dessas
duas habilidades essenciais (decodificação e compreensão), se uma
das duas estiver comprometida à leitura competente não ocorrerá.
Martins
(2001) refere que a leitura compreende três funções essenciais,
que são: Transformar, Compreender e Julgar. Transformar se dá
quando o leitor converte a linguagem escrita em linguagem
oral. Compreender se efetiva quando o leitor consegue captar ou dá
sentido ao conteúdo da mensagem. Julgar é a capacidade que o
leitor tem de analisar o valor da mensagem no contexto social.
O
autor coloca que o enfoque da Psicolingüística, ramo
interdisciplinar da Psicologia Cognitiva e da Lingüística Aplicada
considera a leitura como uma habilidade complexa, na qual intervém
uma série de processos cognitivo-lingüísticos de distintos níveis,
cujo início é um estímulo visual e cujo final deve ser a
decodificação do mesmo e sua compreensão. A percepção visual
permite a extração de informações sobre coisas, lugares e
eventos do mundo visível. A percepção é uma das primeiras
atividades que toma parte do processo leitor. Aprendemos a ler
com o poder do olhar (Martins, 2001). Ao nos engajarmos na leitura,
fixamos, inicialmente, nosso olhar nos símbolos impressos, isto é,
nas palavras e nos seus grafemas, e se não analisamos em
profundidade o que realmente ocorre pode parecer-nos que os olhos
percebem as palavras de uma linha ou de um texto de forma contínua.
Ler, a rigor, não é apenas ler as palavras nas linhas, na sua
dimensão linear sintagmática, mas ler as entrelinhas, o
subjacente, o paradigmático, o ausente, o dito não explícito no
texto.
Depois
da análise perceptiva, o passo seguinte é chegarmos ao
significado das palavras que, no ensino da língua materna, é,
realmente, o que interessa aos professores, à escola, à família e
aos próprios alunos. Dois são os caminhos que existem
para chegarmos ao reconhecimento das palavras e extrairmos o
significado das mesmas. As rotas que nos ajudam no reconhecimento
das palavras: a) a fonológica ou indireta ou também chamada via
indireta (VI) e b) a rota visual ou léxica ou via direta (VD).
A rota fonológica baseia-se na segmentação fonológica das
palavras escritas, por meio da qual o leitor tem ao alcance a
chamada consciência fonológica. A rota fonológica consiste
em descriminar os sons correspondentes a cada uma das letras ou
grafemas que compõem a palavra (Gutschow, 2002). Esta rota permite,
na realidade, o reconhecer das letras das palavras e sua transformação
em sons. A
rota fonológica é a via, pois, para se atingir a consciência
fonológica, através da qual se pode ler todas as palavras em língua
portuguesa, já que nosso idioma é alfabético. Alguns objetivos da
via fonológica no processo de aquisição da leitura são:
Identificar as letras através da análise visual; Recuperar os sons
mediante a consciência fonológica; Pronunciar os sons da fala
fazendo uso do léxico auditivo; Chegar ao significado de cada
palavra no léxico interno (vocabulário).
Martins
(2001) e Gutschow (2002) concordam que a via fonológica é mais
lenta que a via direta já que o processo requerido é muito mais
extenso até chegarmos a reconhecer a palavra, no entanto, não é
menos importante e, inclusive, podemos afirmar que os estágios
iniciais da aprendizagem da leitura dependem da consciência fonológica.
A
rota visual ou direta ou léxica é uma rota global e muito rápida
já que nos permite o reconhecimento global da palavra e sua
pronunciação imediata sem necessidade de analisar os signos
(significante e significado) que a compõem. Através da rota
lexical podemos analisar globalmente a palavra escrita: análise
visual; ativar as notações léxicas; chegar ao significado no léxico
interno (vocabulário); recuperar a pronunciação no caso de
leitura em voz alta. O modelo de leitura através da rota direta
permite explicar a facilidade que temos para reconhecer as palavras
cuja imagem visual temos visto com muita freqüência. Isto é,
através desta rota podemos ler palavras que nos são familiares ao
nível de escrita (Martins, 2001).
Segundo
estudos feitos por Frith (1985) e Capovilla e Capovilla (2000)
descritos por Gutschow (2002) a criança passa por três estágios:
o logográfico, o alfabético e o ortográfico. No estágio logográfico
a criança lê de maneira visual direta; a leitura depende do
contexto e das cores e formas do texto. Por exemplo, uma criança
pode ler logograficamente o rótulo Coca-Cola; logo, se as letras
desta palavra forem trocadas, a criança não perceberá o erro
desde que a forma visual global e o contexto permaneçam iguais aos
da palavra correta. Isto demonstra que a criança não presta atenção
à composição da palavra em letras, apesar de conseguir ter acesso
ao significado de algumas palavras conhecidas. Por isso, o estágio
logográfico é considerado uma forma de pré-leitura, visto que as
palavras escritas são tratadas como desenhos, e não propriamente
como um código alfabético. No estágio alfabético, a criança
compreende que a escrita mapeia a fala e, portanto, começa a
escrever como fala. Conseqüentemente podem ocorrer erros na
escrita, como, por exemplo, escrever a palavra casa com a
letra z em vez de s. Tais erros são esperados neste
estágio, visto que a criança está aplicando as regras da escrita
intermediadas pelos sons da fala. No terceiro estágio, o ortográfico,
a leitura e a escrita ocorrem por reconhecimento visual direto das
formas ortográficas de morfemas ou de palavras, pré-armazenadas no
léxico. A criança passa, portanto, a ler e escrever corretamente
palavras irregulares, como por exemplo, aquelas em que a letra x
tem sons irregulares (e.x., nas palavras exército e próximo).
Quando a criança dominou todas as estratégias desenvolvidas nos
estágios logográfico, alfabético e ortográfico, ela torna-se
capaz de ler e escrever palavras novas e palavras irregulares de
alta freqüência.
Para
Gutschow (2002) há duas formas básicas de ler e escrever de forma
competente, que é utilizando as rotas fonológica e lexical. As
dificuldades relacionadas à aquisição de leitura estão
associadas às diversas competências necessárias ao uso de ambas
as rotas, tais como:
Competência
léxica: conhecimento que o indivíduo possui de um certo número de
palavras da língua e sua aptidão para ter acesso rapidamente ao
vocabulário mental assim constituído;
Consciência
fonológica: capacidade de segmentar uma palavra em unidades
menores, como as sílabas e os fonemas, decompondo-as em seus
componentes fonológicos;
Memória
operacional: capacidade de operar com conteúdos mantidos por curtos
períodos de tempo na memória.
Consciência
Fonológica
Para
Ferreiro (2003) é a possibilidade de fazer voluntariamente certas
operações com a oralidade que não são espontâneas.
A
consciência fonológica é a habilidade de segmentar a fala e
manipular tais segmentos. É a consciência de que as palavras são
constituídas por uma seqüência de sons, que se desenvolve
gradualmente durante a infância como parte da habilidade metalingüística,
ou seja, a capacidade de pensar e operar sobre a linguagem como um
objeto (Capellini e Ciasca, 1999).
A
capacidade de perceber e expressar que a palavra falada ou escrita
é formada por uma seqüência de sons individuais denomina-se
consciência fonológica, uma habilidade metalingüística que
desempenha um importante papel no aprendizado da leitura (Cielo,
1998). As atividades de consciência fonológica envolvem
capacidades de refletir e operar com sílabas e fonemas, envolvendo
habilidades como contar, unir, segmentar, adicionar, substituir e
transpor.
Para
a autora atividades de consciência fonológica contribuem para
melhorar o desempenho da criança durante a fase inicial do
aprendizado da leitura, repercutindo positivamente em estágios mais
avançados do processo.
Conclusão
A consciência fonológica é uma habilidade necessária para
a aprendizagem da leitura. O sistema de escrita alfabético requer a
conversão grafema-fonema, desta forma, por ser uma habilidade de
composição e decomposição de sons, a consciência fonológica
auxilia a criança no entendimento desta conversão.
Achamos
importante verificar nas crianças em processo de aquisição de
leitura e escrita o uso das duas rotas de leitura, e investigar se há
dificuldades no uso de uma ou outra rota. Se houver dificuldade,
atividades devem ser desenvolvidas para promover o uso efetivo de
ambos os processos: o fonológico e o lexical.
Acreditamos
que a consciência fonológica é um meio facilitador para que as
crianças aprendam a ler e a escrever, desenvolvendo assim as
habilidades metafonológicas. Crianças que possuem habilidades
metafonoló-gicas tem consciência de que palavras podem
rimar entre si, e que são compostas, muitas vezes, pelo mesmo som.
Devemos
oportunizar jogos, brincadeiras lúdicas e exercícios para as crianças
que envolvam as habilidades
de manipular sons, identificar e comparar. Propiciar palavras onde
trabalharemos com a estrutura sonora das mesmas através de rimas,
aliterações, etc).
Através
dos artigos pesquisa- dos e de leituras complementares concluímos
que o nível de consciência fonológica está relacionado ao
desempenho na leitura. Portanto, é papel fundamental dos
alfabetizadores e principalmente dos fonoaudiólogos escolares
introduzirem consciência fonológica na educação infantil,
possibilitando aos alunos um desempenho melhor em leitura.
Referências
Bibliográficas
CAPELLINI,
S.A . e CIASCA, S.M. Aplicação
da prova
de consciência
fonológica (PCF) em
escolares com dificuldade na leitura.
Jornal Brasileiro de Fonoaudiologia, n.1, p.11-14, 1999.
CIELO,
C.A. A sensibilidade fonológica e o início da aprendizagem da
leitura. Ciência em Movimento, n.1, p.52-56, 1998.
FERREIRO,
E. Alfabetização e cultura escrita. Revista Nova Escola,
n.163, p.27-30, maio, 2003.
GUTSCHOW,
C.R.D. A aquisição da leitura e da escrita. Disponível na
internet: www.psicopedagogia.com.br.
Artigo publicado em dezembro, 2002.
MARTINS,
V. A dislexia em sala de aula. Disponível na internet: www.centrorefeducacional.com.br.
Publicado
em 22/02/2007
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