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Simaia Psicopedagoga

 

“Brasil, mostra tua cara”

Ana Regina caminha Braga

Professora da Língua Inglesa e Tradutora graduada pela Universidade Paulista. Especialista em Metodologia e Tradução da Língua Inglesa pela Universidade Católica do Paraná. Atualmente cursa pós-graduação em Psicopedagogia pela Universidade Católica do Paraná.

E-mail: anaregina_braga@hotmail.com

 

 

   

“(...) Se amar fosse fácil... nem soldados haveria, pois ninguém agredia, no máximo ajudariam no combate ao cão feroz. Mas o amor é um sentimento que depende de um “eu quero” seguido de um “eu espero”. E a vontade é rebelde, o homem, um egoísta que maximiza seu “eu”. Por isso o amor é difícil”.

                       

Tempo de Germinar.

 

 

Sabemos que a teoria muitas vezes não funciona na prática. Os benefícios oferecidos pelo governo são muito bons como planos, porém não passam da folha de papel. A população mereceria, de fato, receber os auxílios descritos nos projetos de nossos governantes. Os projetos são discutidos incansavelmente, alguns até colocados em prática, porém, quem recebe os auxílios nem sempre são os mais necessitados. É impressionante como a cada dia que passa o número de desabrigados, mendigos, famintos e desempregados no Brasil aumenta mais e mais. Como olhamos essas pessoas que estão da desigualdade social, menosprezados, direito de propriedade e sem ter condição alguma de resgatá-los?

Isso incomoda, e como educadora sinto-me impotente diante da situação; não encontro justificativas plausíveis no ato de colocar essas crianças na escola sem um amparo psicológico, pois muitos não têm nem mesmo o alimento diário, estando em contato, com a desnutrição, o pranto desesperado da mãe, as drogas usadas pelo pai, a gravidez precoce da irmã, sujeitos à possibilidade de serem espancados ao retornar à sua própria casa por não ter ido atrás do sustento diário da família. Não compreendo como os pais dessas crianças não sentem a necessidade de colocá-las dentro de uma escola para receber uma instrução diferenciada da deles, olhá-las como uma esperança para o futuro, ao invés de levá-las para catar lixo. Isso se deve, possivelmente, à falta de escolaridade deles próprios ou à baixa estima. Há, de fato, um preparo, uma base familiar capaz de sustentar a idéia de educação como meio de solucionar esses problemas familiares e sociais? Será que essas crianças estão com seu psicológico estruturado para entrar em sala de aula?

Em que mundo estamos? O que queremos para as nossas crianças, as quais chamamos de futuro? Muitas vezes, nos deparamos com a transferência dos problemas supracitados à metafísica dizendo: "Se está assim é porque Deus quer" ou agimos com um discurso individualista: "Parem de ter filhos" e ainda continuamos: "Cada um tem o que merece”. Será que devemos agir assim? Não estaria no momento de refletirmos sobre como está nosso país? Somos tão brasileiros quanto eles, ou seja, cidadãos com os mesmos direitos. Como não enxergamos e exigimos de nossos governantes atitudes para a melhoria de tal situação? “Quem cala consente”, e estamos calados, deixando nossos concidadãos enfrentarem grandes dificuldades.  

  É inaceitável esse quadro, que desconsidera o princípio da isonomia e dos Direito Universais do Homem, no Brasil. Se  a educação é a solução para essas questões sociais, boa parte do problema já estaria solucionado, visto que muitos políticos freqüentaram uma universidade, são sociólogos, médicos, empresários, engenheiros, assistentes sociais, professores e advogados (como fica isso? Advogando para quem? Ou contra quem?). Todos passaram por cadeiras escolares e fazem parte de uma família "estruturada”, na sua maioria, sem terem presenciado tantos problemas sociais ou se preocupa com o sustento diário, enquanto crianças. Onde está a responsabilidade social?

Nosso Brasil está desse jeito: uns com tanto e outros tão pouco, pouquíssimo. Governantes participando de operação sanguessuga, ministros cometendo erros inexplicáveis, presidente com a mesa repleta de comida, wisky, vinhos, queijos, mais caviar e lagosta. Religiosos sendo julgados, presos por enviar dinheiro ilegal para o exterior, envergonhando nosso país com tal atitude; e a comunidade vendo esses escândalos sem tomar as providências cabíveis. Uma “montanha russa” (sobe e desce) de acontecimentos, famílias abaixo da linha da miséria reivindicam o sagrado direito de ter salvaguardado sua dignidade humana, necessitando um pouco mais de compreensão, de amor, de sentimento, tentando amenizar sua dor, seu sofrimento.

A filosofia, trouxe o legado de grandes pensadores, suas noções de governabilidade contemplando direito de propriedade, igualdade, liberdade: foi proposto o contrato  social, colocando que os governos são instituídos pelo povo e para o povo, não em benefício dos governantes, conforme observa-se atualmente; fato que se traduz pela preocupação de nossos [1]politiqueiros em receber maiores salários. Os filósofos tinham poderes de premonição, mas já vivenciavam esses impactos e alertavam o povo do que estava por vir, querendo de algum modo diminuir os conflitos sociais.
         Não gostaria, de por meio dessa reflexão, concluir que o ser humano não é capaz de atitudes coerentes, íntegras, honrar sua palavra, como no caso daqueles que possuem cargos atribuídos pelo povo; se possível, que pelo menos deixem-se planejamentos individualistas e privilegie-se o bem da coletividade. Conforme Rosseau: “Não se trata mais de levar as pessoas a agirem bem, basta distraí-las de praticar o mal”.

Será que diante dos aspectos político-filosóficos abordados acima, nós, enquanto educadores e ideólogos, estamos preparados para colocar essas crianças em sala de aula, fazendo-as assimilar somente conteúdos sistemáticos? Ou estamos preocupados com o cidadão em sua completude, o [2]ser cognoscente, aquele que pensa, sente, age e interage com a sociedade? Obteremos o sucesso? O que precisamos mudar na educação de nossas crianças? Onde está a fonte dos problemas sócio-políticos e educacionais no Brasil?

 O primeiro passo para contribuirmos com nosso país é realizarmos nosso papel de educadores com amor e dedicação. Nossos alunos precisam ser estimulados e sentir o desejo em buscar o novo, o conhecimento. Nós, como educadores, somos instrumentos para mostrar aos alunos uma parte desse conhecimento e deixá-los buscar a outra parte, pois a falta, a lacuna renova a vontade de aprender. Sejamos otimizadores de uma educação solidária, em que seja posto o conhecimento, como guia do aluno até o aprendizado, fazendo com que possa colher seus frutos. Não tornemos uma aprendizagem dependente, mas apontemos sua importância, incentivando o “futuro” de nosso Brasil, ou seja, as crianças. Esqueçamos a educação bancária, na qual se fazia do aluno depósito do que falamos em sala, fazendo de nossa palavra uma única verdade.

Outra contribuição para o progresso da nação, que deve ser mais humana e melhor sob vários aspectos, é nossa convicção enquanto educadores que lutam pela formação de seres reflexivos. Não no sentido de simplesmente pensar por pensar. Falamos no sentido de receber o conteúdo, e encontrar meios de colocá-lo em prática no seu cotidiano, fazer relações com sua realidade. Os alunos também precisam ter livre arbítrio para argumentar, perguntar e, quando necessário responder suas próprias dúvidas baseado em suas pesquisas e estudos. Pode ser que com uma nova concepção de educação consigamos enfim, construir um Brasil melhor, colocando toda essa reflexão na prática.

Temos em nossas mãos o instrumento mais valioso, capaz de alavancar a vida do ser humano, a construção do saber. Logo, precisamos estar envolvidos com o processo de aprendizagem dos alunos. Cada qual possuindo um estilo de aprendizagem o qual deve ser respeitado com devida atenção. Nas palavras de nosso querido Paulo Freire fica bem claro a necessidade da relação professor – aluno em sala de aula: “Diz-me e esquecerei. Ensina-me e lembrarei. Envolva-me e aprenderei”. Se esse vínculo professor-aluno for bem estabelecido será um grande facilitador para uma aprendizagem satisfatória. Deve-se ensinar e instruir com paixão, cuidando do outro, entendendo o olhar do nosso aluno e evidenciando suas habilidades e compreendendo suas limitações. Isso é envolver-se com aprendizagem do outro.

Aqui não saberemos a resposta para inquietações levantadas acima, por outro lado temos idéias que oferecerão caminhos e alternativas para um Brasil melhor, mais humano, com alunos mais preparados psicologicamente e, dispostos a ingressar na sala de aula. Os problemas sociais, políticos e filosóficos aqui apontados podem continuar a existir, porém, nossa esperança deve continuar acesa, firme para que continuemos na luta por uma educação melhor e capaz de aperfeiçoar os seres humanos acima de tudo.

O momento de escrever este artigo, foi também a oportunidade de colocar ao leitor algumas dúvidas, angústias e encontrar também a esperança. Compreender que nem tudo está perdido no Brasil, nem na educação. Basta encontramos uma solução para que a nossa chama, enquanto educadores, não apague. Quando todos cumprem seus papéis consegue-se alcançar objetivos com certa facilidade e sucesso. O maior legado deixado por Paulo Freire é justamente a esperança. Antes de qualquer reação, tenhamos em mente uma “razão encharcada de emoção”.  


[1] Definição segundo o dicionário Houaiss: Indivíduo que pratica política baixa e vil, usando de processos poucos corretos.

[2]  Termo utilizado na Epistemologia Convergente (Psicopedagogia) fundada por Jorge Visca.

Publicado em 15/04/2007

 

 

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Simaia Sampaio Maia Medrado de Araújo
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Revisado em: 10/06/2011