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Simaia Psicopedagoga

 

Olhar clínico e sintoma na prática psicopedagógica: considerações importantes

 

Daniela Mazurek Perfeito

Psicóloga, atendimento em consultório, Febem/Tatuapé e empresas. Mestre em Psicopedagogia.

e-mail: daniperfeito@terra.com.br  

 

A prática da psicopedagogia se aplica à aprendizagem, seja ela de caráter individual, grupal ou institucional. Não podemos nos esquecer que a aprendizagem se inicia desde o primeiro contato do sujeito com o mundo externo e se perpetua por toda a vida, portanto tem que se levar em conta os acontecimentos desde a infância à vida adulta, o que nos obriga a considerar a aprendizagem “ad eterno”. Estamos falando, portanto, de um sujeito, cuja subjetividade é marcada e constituída sob uma ótica que abrange as influências histórico-culturais e, portanto, as mudanças oriundas de várias gerações. 

Embora existam muitos conceitos acerca do que é a psicopedagogia, é preciso que haja clareza no que tange à sua definição e principalmente à sua prática, a fim de que se configure uma atuação pertinente e efetiva, já que esta é uma "ciência" que atua na prevenção, análise clínica e na intervenção psicopedagógica.

Para que haja uma intervenção psicopedagógica adequada é necessário que seja feito um diagnóstico psicopedagógico e para tal, é fundamental o "olhar clínico" com o intuito de verificar e compreender qual o sintoma apresentado pelo sujeito e então, através dessa análise clínica, elaborar o diagnóstico psicopedagógico com o intuito de averiguar as dificuldades de aprendizagem apresentadas, a fim de descobrir as causas que geraram o sintoma, lembrando que o sintoma se caracteriza pela manifestação de um conflito, de problemas, ou até mesmo, muitas vezes, por uma somatização, que denota um mal estar psíquico. 

Essa manifestação do sintoma pode se dar de forma consciente, uma vez que o sujeito se comporta de uma determinada forma em virtude de elucidar o problema e que muitas vezes se manifesta na queixa do problema; ou de modo inconsciente, quando o sujeito age de maneira "não adequada" segundo padrões pré-estabelecidos seja pela família, escola ou sociedade ou mesmo quando somatiza em vista da dificuldade existente.

No caso de um sujeito em idade escolar, de acordo com Bossa (2002, p.48) “... o sintoma na aprendizagem escolar pode ser uma resistência sadia a algo que pode transformar-se em uma total violência à natureza humana”.  

A criança percebe o mundo, interage e troca conhecimento, como todos nós, no entanto, não é ainda dotada de um poder de argumentação para se defender do que incomoda, ou para explicar o que não está bem, então a escola passa a ser o terreno da manifestação dos sintomas, já que na maioria das vezes, os pais são contatados pela escola, o que os faz dirigir suas atenções para a criança.

Nos adultos, muitas vezes também há muito mais coisas por trás da dificuldade em aprender alguma coisa, do que a dificuldade propriamente dita, como, por exemplo, algum bloqueio, falta de concentração, podem muitas vezes ser um sintoma causado face à um problema de fundo emocional que está latente ou que não foi ainda elaborado.

Ademais, quando falamos em aprendizagem, estamos falando do relacionamento que se dá entre o sujeito e o objeto de conhecimento e esse pode se dar de várias formas, inclusive de uma forma patológica, adotando um caráter de funcionamento neurótico, psicótico ou perverso.

De uma maneira ou de outra, é necessário que seja feita uma análise eficaz por parte do psicopedagogo, seja relacionada à sua atuação face a solucionar a dificuldade ou ao encaminhamento do sujeito para os profissionais adequados, o que obriga ao psicopedagogo atuar com responsabilidade e de maneira interdisciplinar, reconhecendo, inclusive, o não-saber e os limites da sua atuação, evitando uma atuação castradora.

No momento diagnóstico, é preciso que os “rótulos” e as frases feitas sejam deixados de lado, é importante que o olhar psicopedagógico esteja voltado, primeiramente para a condição da “diferença”, que outorga ao sujeito a singularidade, a possibilidade de ser ele mesmo e de ser diferente dos outros, de pensar diferentemente e de agir de modo distinto.

Roudinesco (2000), diz: “Quanto mais a sociedade ocidental apregoa a emancipação, destacando a igualdade de todos perante a lei, mais ela acentua as diferenças e cada um reivindica sua singularidade, recusando-se a se identificar com as imagens da universalidade”.

Partindo desses pressupostos, não cabe ao psicopedagogo julgamentos precoces e equivocados e tão menos divisões de atitudes baseadas nos conceitos de certo/errado, mas sim, um olhar dirigido a um sujeito, que é único, peculiar e tem sua própria história e portanto suas atitudes ou falta delas são reflexo dessa constituição, mesmo inserido em um cenário social.

É necessário, por fim, considerar o sujeito como um corpo; corpo esse que é dotado de conhecimento, de afetos e emoções, de um organismo, de inteligência e de cultura. À medida que esse sujeito se integra dessa forma, é fundamental que seja feita uma análise que o considere em sua totalidade, até mesmo porque estamos falando de aspectos que atuam em conjunto e interagem entre si.

 

 

BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, M.S. Bases Teóricas da Psicopedagogia: iniciando a discussão. Cadernos de Psicopedagogia, 1(1), 2001.

BOSSA, N.A. Fracasso Escolar: um olhar psicopedagógico. São Paulo: Artmed, 2002.

FERNANDÉZ, A. Os idiomas do aprendente: análise das modalidades de ensinantes com famílias, escolas e meios

de comunicação. Porto Alegre: Artes Médicas, 2001.

KREISLER, L.; FAIN, M.; SOULÉ, M. A criança e seu corpo. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

ROUDINESCO, E. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

Publicado em 07/12/2004

 

 

e-mail para marcação de consulta: simaia@psicopedagogiabrasil.com.br

Simaia Sampaio Maia Medrado de Araújo
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Revisado em: 10/06/2011