Dislexia
Introdução
Em
1945, a Field Foundation recebeu verbas
para uma pesquisa das características
neurológicas e perceptuais de quinze
crianças que apresentavam dificuldades
de leitura. A pesquisa foi realizada na
Mental Hygiene Clinic do Bellevue
Hospital, e os seus resultados foram
apresentados pela Dra. Lauretta Bender
na Seção de Neurologia e Psiquiatria
da New York Academy of Medicine, em 1950
e em Congresso da Orton Dyslexia
Society, em 1951.
Lauretta
Bender era, conforme seus próprios
relatos uma disléxica e, por isso
dedicou-se muito aos estudos que a
auxiliassem a compreender o problema que
ela diz ter sentido na pele.
O parágrafo acima é histórico: a
Orton Society realizará neste ano, o
seu 43º Congresso Anual (e logo veremos
porque o seu título é Language and
Literacy in the l990’ s); mas, em
vista da quantidade de teorias e
pesquisas científicas surgidas desde
então, poderia parecer pré-história.
Levando ainda em consideração alguns
críticos do assunto talvez ficção
científica.
Infeliz,
ou felizmente, não é ficção científica.
Estamos falando de uma pessoa que
existiu e faleceu em 1987 - e que
declarou ter sentido essa dificuldade em
escritos que podemos ler ainda hoje, que
possuía comprovada seriedade
profissional e que nos legou pelo menos
um teste, ainda muito usado. Nada a ver
com as teorias que citam Leonardo da
Vinci ou mesmo Thomas Edison; essas sim
podem ter sabor de ficção científica,
uma vez que nada nos comprova os reais
motivos da escrita espelha de Leonardo
da Vinci. Aí sim ficamos no campo do
nada científico da mera especulação.
A partir do título que me foi proposto
para este artigo pensei que seria útil
trazer antes um breve resumo da tendências
diversas surgidas desde aquela apresentação
de Lauretta Bender para em seguida citar
também brevemente algumas tendências e
pesquisas atuais. Alguns leitores já
estudiosos e usuários de alguma teoria
aqui exposta acharão partes conhecidas
ou mais do que conhecidas. Outros acharão
que omiti justamente aquela teoria que
eles seguem ou seguiram em determinado
momento.
Quero frisar que nem meu resumo do
passado nem o das tendências atuais
pretendem esgotar o assunto que é muito
vasto. Por falta de espaço nem falarei
sobre as pesquisas desenvolvidas na Bélgica
e Canadá algumas das quais com
analfabetos ou semi-analfabetos
brasileiros;das pesquisas francesas e
inglesas; das alemãs e holandesas ou
das que são desenvolvidas no Instituto
Weizmann de Israel. Seria uma pretensão;
seria inclusive impossível de realizar
em algo menor do que um compêndio, tal
a quantidade de teorias que têm surgido
em relação as dificuldades de
leitura/escrita e suas causas enquanto
pertencentes ao campo da linguagem e,
por conseqüência ao pensamento e aos
processos cognitivos.
Cito
três exemplos:
Ajuriaguerra,
em 1952, dizia: "a nossa experiência
nos demonstra que não é possível
encontrar explicações unicausais aplicáveis
a todos os disléxicos em geral.
Encontramos disléxicos com ou sem
dificuldades de lateralização, com ou
sem dificuldades no desenvolvimento da
linguagem, com ou sem dificuldades espaço-temporais,
com ou sem problemas emocionais.
Todavia, cada uma dessas disfunções
pode influir na organização léxica, e
muito freqüentemente se trata de
dificuldades conjuntas".
Ou
como dizia F. Kocher da Universidade de
Genebra: "as dificuldades de
leitura às vezes têm outra origem, que
aliás pode se associar à dislexia,
tais como: rebaixamento mental, deficiências
visuais e/ou auditivas, problemas na
linguagem falada e compreensão,
plurilinguismo, transtornos motores,
doenças freqüentes, trocas freqüentes
de escola ou professor etc., e, de
resto, o termo dislexia evolutiva é
usado para se insistir no fato de que a
dificuldade para aprender a ler
desaparece completa ou parcialmente no
decorrer dos anos "
Conceito justamente oposto ao de Clarke,
que considera o uso de termo dislexia
específica a de evolução ser devido
ao fato de a criança não ser
prejudicada pela dificuldade até que
entre a escola, sendo que o quadro
evolui (piora) quando não tratado, e
conforme aumentam as solicitações...
Fica
claro, antes de mais nada, que se formos
entrar em detalhes de cada uma dessas
definições, a discussão pode ser
longa e frustrante. Ou, como diria
Ochsner, professor de didática
preventiva em Zurique:
"as explicações continuam sendo,
ou fáceis de entender erradas, ou difíceis
de entender e confusas"
Conforme Vellutino, em artigo publicado
no Scientific American Ameriban em março
de 1987 dislexia é um termo genérico
aplicado a crianças de inteligência
normal que têm dificuldades para
identificar a palavra impressa, como
resultado de defeito constitucional,
cuja origem está provavelmente no
sistema viso-espacial. É caracterizada
por versos e espelhamentos e indefinição
da lateralidade.Diz ainda que a criança
cuja primeira língua de alfabética, ao
invés de ideográfica ou pictográfica,
é mais suscetível de apresentar o
problema. Diz também que a (dislexia
pode ser corrigida por um ensino muito
estruturado ( highly structured) e
treinamento viso-espacial.
Vellutillo
da State University of New York at
Albany, em 1989, apenas dois anos depois
de publicação do artigo, ponderou que
cada um dos critérios ali citados
deveria ser atentamente revisto, já que
a maioria das definições ali
constantes era baseada em teorias já
comprovadamente superadas por pesquisa
científica. Apenas dois anos depois,
sugeriu que deveríamos ter cuidado com
critérios superados limitantes para o
desenvolvimento da criança.
Ainda
citando Oshsner, "é mais atual
termos uma visão global da criança do
que dividi-la em fraquezas parciais para
depois tratá-la..." ( 1989)
Ninguém
quer negar a existência nem o
sofrimento daqueles que lutam para ler
um parágrafo ou um texto que seria
simples para outros; ou dos que, após
ler com certa lentidão, perdem a noção
do conteúdo, ou seja, sua preocupação
com a decodificação (aspecto parcial)
faz com que percam o aspecto profundo e
global - o sentido do texto, o
significado. Quem lida com estas crianças
sabe que muitas, ainda que não todas, têm
muita dificuldade em compreender certos
significados da linguagem oral não
escolar, como trocadilhos ou mesmo
piadas. Mais importante do que o nome ou
rótulo que se dê a este conjunto de
sintomas e poder compreendê-los a ao
indivíduo que os apresenta. O caminho
é diferente para cada um; a solução
também.
ASPECTOS HISTÓRICOS
Quase
um século se passou desde as primeiras
publicações sobre problemas de fala e
linguagem, aliás por Sigmund Freud, em
1891, ocasião em que criticava Broca e
Wernicke. Para explicar os diversos
tipos da afasia motora preferia deixar
de lado os aspectos topológicos e realçar
os funcionais.
Mais
tarde, com o conceito do inconsciente,
Freud evoluiu para um paralelismo entre
erros de leitura e escrita com os lapsos
de linguagem. Em Psicologia da Vida
Cotidiana (1905) apontou para o fato de
os equívocos na leitura e na escrita se
submeterem aos mesmos princípios que
governam os lapsos de linguagem, da
estreita relação entre todos os
empregos da linguagem. "o que não
é absolutamente surpreendente se nos
recordarmos da relação interna dessas
funções, a saber. que a fala e a
comunicação oral precederam a escrita
e com ela a leitura" Nesse mesmo
trabalho (página 778), citou como
oposto ao seu um trabalho de Meringer
& Mayer ( 1895) sobre Erros da
Expressão Oral e Leitura. cujos autores
teriam Investigado as regras que regem
estes erros, esperando poder deduzir
destas regras a existência de um
determinado mecanismo psíquico, no qual
estivessem ligados de um modo especial
os sons de uma frase ou palavra e também
a palavras entre si, além da descrição
de trocas, omissões, substituições e
contaminações, explicadas pelo valor
psíquico dos sons fonéticas.
Nos
anos seguintes, houve intensas
pesquisas, a maioria de cunho médico
sobre as causas desta dificuldade, além
de um contínuo debate sobre a sua existência.
Existência enquanto entidade médica -
qualquer que seja a área - ou conseqüência
de perturbações emocionais? Existência
enquanto patologia ou apenas parte de um
processo normal de aprendizagem? Poderíamos
citar mais uma dúzia de questões
levantadas pelas diversas especialidades
profissionais que também foram surgindo
durante o século.
Em 1930, o neurologista americano Samuel
T. Orton chamou a atenção para a relação
existente entre as dificuldades de
leitura em crianças na faixa de
primeira a quinta séries primárias e
dificuldades que elas teriam na
linguagem oral como um todo já nos anos
da pré-escola, chamando, assim, a atenção
para um transtorno básico, anterior à
leitura, nas funções da linguagem.
Nos
anos 50 e comício dos anos 60, houve
uma onda de entusiasmo, apoiada também
pelas novas tecnologias surgidas no pós-guerra,
pelas teorias que enfatizavam os
aspectos perceptuais. Naquele período,
a distinção entre aprendizes visuais e
auditivos deu lugar ao anteriormente
citado conceito lingüístico, levando
à toda mais do que conhecida gama de
exercícios para treinar estes aspectos
da percepção visual e/ou auditiva.
Neste período, surgem também as divergências
causais - o "splitter"
reconhece não somente dislexia, mas
também diversos subtipos; o
Lumper" extremista considera que
todos os sintomas são rnanifestações
de uma única e abrangente síndrome de
dificuldades de aprendizagem, controvérsia
esta que permanece até hoje.
Em
1962, no clássico Reading Disability, e
em 1964, em Developmental Dyslexia,
MacDonald Critchley definiu a dislexia
da seguinte forma:"'dislexia
significa leitura defeituosa. Esta
leitura defeituosa pode ser devida à
incompetência em conseqüência de lesão
cerebral ou degeneração; ou pode
representar um fracasso evolutivo para
tirar proveito das instruções de
leitura" Che Kan Leong, da
Universidade de Saaskatchewan (Canadá),
em artigo publicado no Annals of
Dyslexia (1991 ), criticou certos termos
desta definição. Disse ele:
"leitura defeituosa significa
dificuldade apenas com a palavra ou também
com o discurso, além do nível da
palavra? Se apenas da palavra, significa
decodificar, e SE, de que maneira? Se
for a nível de compreensão, significa
"gramática funcional na sala de
aula " e/ou compreensão geral? Além
disso qual o papel da capacidade de
raciocínio na capacidade específica de
leitura? Segundo Leong, os conceitos ali
citados - defeito dificuldade e/ ou
diferença - estão entre aqueles que
continuam a atrapalhar os pesquisadores
e os clínicos. É que na verdade,
estamos lidando basicamente com um
processamento pouco eficiente da
linguagem e do sistema de escrita destas
crianças. Considerou, ainda, que seria
instrutivo e razoável comparar estas
definições com outra mais atualizada e
neuropsicológica feita por Steven
Mattis (1978): "Dislexia é um
diagnóstico de desenvolvimento atípico
da leitura) quando a criança é
comparada com crianças de idade,
inteligência, programa instrucional e
oportunidade sócio-cultural semelhante
que, sem tratamento, deve persistir e é
devida a um defeito bem definido em
qualquer uma das diversas funções
corticais específicas .
Esta
definição fica praticamente impossível
de ser usada no Brasil, pela inexistência
de oportunidades sócio-econômicas-culturais
semelhantes. Uma discussão mais
completa desse problema sócio-cultural-educacional
é um tema vasto e atual que mereceria
um artigo à parte, pois é um quadro
que não influi apenas na
leitura/escrita. De qualquer modo, é
verdade que, em muitas regiões da
periferia de São Paulo, maior centro
cultural da América Latina (!??!), ler
e escrever se torna um artigo de luxo e
de consumo quase inútil: ler o que
quando não se tem o que comer?
Voltando
a Orton, convém assinalar que sua
teoria sobre inversão de símbolos
parece um pouco limitada - a proporção
de inversões visuais comparadas com a
de segmentos silábicos ou encontros
consonantais é pequena. O que não
evitou teorias sobre os problemas de
coordenação visomotora e de movimento
dos olhos, havendo desde as teorias que
prescreviam treinamento ocular (Tinker,
1958) até os mais recentes e elegantes
estudos que consideram que o movimento
dos olhos reflete processos de
monitoramento cognitivo (Rayner, 1978, e
diversos outros autores alemães). Devem
ser destacados os resultados de Stein
& Fowler (1982), que falam de uma
dominância ocular instável provocando
problemas na visão binocular, levando
Benton (1985) a notar que o fator visual
não deve ser totalmente descartado na
dislexia.
Houve
e há ainda diversas teorias
neurologizantes que tentam estabelecer
uma relação causal entre problemas
neurológicos menores e problemas de
aprendizagem, inclusive os de
leitura/escrita, sendo muito duvidosa a
relação causal entre estes sinais
menores e a capacidade de aprendizagem
escolar. Atualmente, vem sendo
levantada, nos Estados Unidos, a
bandeira do ADD (attention déficit
disorder) ou dificuldades de atenção-concentração,
como uma síndrome causadora de muito
mais problemas práticos do que na
realidade se verifica, e devendo,
segundo seus defensores, ser tratada
quimicamente com o metilfenidato
(Ritalina), mesma droga que serviria
também para harmonizar a coordenação
cerebral-vestibular (que estaria
relacionada com uma incoordenação
visomotora).
Não
quero entrar em maiores detalhes nesta
área médica que não é minha, mas
quero lembrar que um ardoroso defensor
americano desta teoria e medicação foi
duramente criticado por médicos
brasileiros presentes no último
Congresso da ABENEPI em Blumenal/91. A
mim, parece que, entre os leigos, o
sucesso destas teorias ou rótulos de
cunho mais médico-neurológico, com a
possibilidade de exames definitivos tipo
eletroencefalograma, tomografia
computadorizada e outros, e com medicação
no final da consulta, seria devido ao
fato de fornecerem aquela resposta rápida
e tão desejada para abaixar rapidamente
a ansiedade em relação à busca de uma
compreensão para o problema do filho ou
aluno.
Existem
também, nos Estados Unidos, pesquisas
interessantes, como as feitas com gêmeos
e na área genética. Outra,
desenvolvida há anos no Dyslexia Unit
do Beth-Israel Hospital, coordenado pelo
Dr. Albert Galaburda, professor de
Neurologia em Harvard, faz uma correlação
com uma doença auto-imune da mãe, lúpus
eritematoso que, mesmo quando não se
manifesta na mãe, poderia afetar o cérebro
do feto durante a gestação através de
uma descarga de anticorpos, criando
Utopias e displasias que afetariam a área
da linguagem. Estive visitando este
centro e conversando com Galaburda,
inclusive para saber a incidência desta
malformação nos cérebros estudados e
qual seria o seu uso prático dos
resultados. Segundo ele, estas Utopias e
displasias aparecem em cerca de 30% de
todos os cérebros, mas em 100% dos cérebros
de disléxicos, e o objetivo da pesquisa
seria conseguir uma espécie de vacina
ou outra intervenção ainda intra-útero,
ou seja, preventiva.
São
muitas as teorias e causas, muitas delas
conflitantes entre si, muitas ainda a
serem confirmadas, e parece-me que o
cuidado maior que deve ter o
profissional a lidar com o ser humano é
estar atento e não embarcar em modismos
que poderiam prejudicar, ao invés de
ajudar uma criança. E nunca esquecer
que todas estas teorias estão, na
verdade, direta ou indiretamente,
colocando a causa ou o problema na criança,
o que é outro ponto que nunca podemos
perder de vista, principalmente em um país
onde o ensino é o que é.
Não há diferenças significativas em
termos causais entre as teorias e
estudos americanos e europeus. O que
prejudica, no meu ponto de vista
(endossado por diversos pesquisadores
americanos com os quais discuti esta
questão), na visão americana, é o
excesso de pesquisas que devem ser
feitas por causa do sistema de ascensão
acadêmica e de distribuição de verbas
que existe nos EUA. Esta forma de
trabalho acaba dissecando tanto os
problemas que faz com que os próprios
pesquisadores percam de vista a questão
global, o indivíduo e os aspectos
psicodinâmicos, mais respeitados e
considerados na Europa. De qualquer
modo, ambos priorizam hoje os estudos no
campo da psicolingüística e
neuropsicologia.
A
visão atual
O
antigo enfoque para dificuldades da
leitura como um déficit visoperceptual
foi desmontado por Vellutino já em
1979, quando reviu as evidências e
enfatizou o papel das habilidades
verbais ou lingüísticas da dislexia. A
teoria de Vellutino sugere que maus
leitores (poor readers) tem dificuldades
em usar códigos semânticos (apreensão
do sentido de uma frase ou de um
conjunto de frases/ texto), sintéticos
(a estruturação gramatical) e/ou fonológicos
(associações som-símbolo,
significado-significante), tanto para
armazenar como para resgatar informações.
Mais
recentemente, pesquisadores como Siegel
& Stanovich (1988, 1989) propuseram
que habilidades lingüísticas gerais
(por exemplo, semântica) são
importantes componentes no conceito de
inteligência, mas que a dificuldade de
leitura independe da inteligência,
sendo considerada mais como um déficit
fonológico específico do que como uma
deficiência lingüística geral (Wagner
e col., 1987).
Wagner
e col. (1987) examinaram três grupos de
pesquisas que se desenvolveram
independentemente, todas, porém,
relacionando as habilidades fonológicas
com a leitura: (1) a consciência Monológica
(consciência de e acesso ao sistema
Fonológico ou de sons da língua); (2)
recodificação Monológica para obter
acesso léxico (conseguir ir de uma
palavra escrita ao seu referente léxico
pela recodificação dos símbolos
escritos num sistema baseado em sons);
(3) recodificação fonética para
manter a informação na memória.
Embora
haja evidências que apontam para uma
habilidade lingüística geral, Wagner e
col. ( 1987) fornecem bases para uma
distinção entre consciência fonológica
e recodificação Monológica na memória,
e apresentam uma relação causal entre
consciência Monológica e aprendizado
da leitura. Tanto Stanovich quanto Frank
Duff,v e col. ( 1991 ) confirmam o fato
de que os testes gerais de inteligência
nada têm a ver, pois medem as tarefas
cognitivas verbais, o mesmo podendo ser
dito para os testes de prontidão, que não
medem habilidades de leitura
especificamente, mas apenas dificuldades
ou habilidades globais, em que se podem
identificar os maus leitores tipo garden
variety e em que a dificuldade de
leitura se associa a outras dificuldades
globais, enquanto que o disléxico tem
uma dificuldade específica a nível da
consciência fonológica. Sugerem eles
que a dislexia deveria ser definida por
uma tarefa Monológica, mais
especificamente a leitura de logatomas,
ou seja, uma tarefa de recodificação
Monológica para acesso ao léxico. Há
ainda, segundo eles, evidências de que
a consciência Monológica e o processo
de leitura sejam recíprocos: o fato de
ler melhora a consciência fonológica,
mas sem ela a leitura fica muito
dificultada, gerando assim um círculo
vicioso. Recentes estudos de Liberman e
col. (1991) trazem a dislexia como uma
deficiência da consciência fonêmica,
teoria amparada por uma variedade de
pesquisas anatômicas, psicofisiológicas
e neuropsicológicas.
Esta
pesquisa também ajuda a entender certos
dados clínicos que antes confundiam os
estudiosos: o fato da descodificação
fonológica ser uma habilidade muito
específica explicaria o fato de algumas
crianças terem dificuldades nesta
tarefa - portanto disléxicos para esses
autores - e terem bom desempenho verbal
em testes ou serem lingüisticamente hábeis
de outras formas.
O
fato de ainda existirem dúvidas sobre a
existência da dislexia, segundo
Rosenberger, do Massachusetts General
Hospital de Boston, reside em que a
maioria das pesquisas são feitas com
crianças pré-selecionadas, por serem
população de clínicas; quando as
mesmas pesquisas são realizadas com
população não selecionada - grupos
aleatórios - de alunos, surgem dúvidas
sobre a relevância de todas estas variáveis
como fatores de má leitura em geral.
Conforme
Shaywitz, assume-se geralmente que o
fracasso em aprender a ler representa
uma entidade ou síndrome específica,
distinta da distribuição normal de
maus leitores. Ao invés de representar
o final de um continuum composto por
bons e maus leitores, a dislexia é
vista como uma desordem biologicamente
coerente e distinta de outros problemas
menos específicos de leitura. Esta
teoria de bolo que os disléxicos
formariam no final da curva normal de
leitura é sustentada inclusive por
Rutter & Yule, que consideram estas
dificuldades específicas de leitura
como uma discreta entidade específica,
teoria que serve de base para uma série
de pesquisas sobre a neurobiologia de
dislexia, seu diagnóstico e tratamento.
Esta teoria tem ainda muitos seguidores,
pelo menos nos Estados Unidos.
O
próprio Shaywitz coordenou talvez o
mais recente e bem controlado estudo
longitudinal com população de
comunidade regular, o Connecticut
Longitudinal Study, no qual foram
avaliadas crianças de escolas públicas
durante os anos de 1983-84. Foram
escolhidas crianças representativas da
comunidade de forma aleatória, sendo o
critério de exclusão apenas a presença
de dificuldades sensoriais marcantes e
de problemas psiquiátricos graves.
Participaram 445 crianças (235 meninas
e 210 meninos) divididas da seguinte
forma: 84,3% brancos não-hispânicos;
11,2% negros; 2% hispânicos; 0,9% asiáticos;
1,6% de raça ou grupo étnico
desconhecido. A dificuldade específica
de leitura foi definida como sendo um
inesperado fracasso para leitura em função
da discrepância entre o nível previsto
de leitura - em função do nível de
inteligência avaliado pelo WISCR e o nível
real de leitura. Este estudo permitiu
discordar da crença geral de que a
dislexia é uma entidade diagnóstica
específica, pois os dados não
confirmaram esta hipótese. Antes
sugerem que a dislexia ocorre ao longo
de um continuum que se mistura
imperceptivelmente com a habilidade
normal de leitura. Isto significa que não
há um ponto de corte exato que possa
distinguir crianças disléxicas de
outras com dificuldades normais de
leitura (poor readers), mas que os disléxicos
simplesmente representam a porção
final deste continuum de habilidades
para leitura.
Shaywitz,
finaliza considerando que esta
dificuldade para leitura ocorre em graus
de maior ou menor severidade, assim como
a hipertensão, e que a variabilidade
inerente ao diagnóstico de dislexia
pode ser tanto quantificada como
prevista com a aplicação da escala ou
curva normal de distribuição.
Considerações
Finais
Apesar
da citada divergência entre os que
defendem fatores pluri ou unicausais,
fica patente que a maioria das pesquisas
é voltada para a busca de soluções
unicausais, que já Ajuriaguerra
descartava. Claro que isso é também
uma decorrência do próprio
procedimento de pesquisa, que deve ter
uma hipótese a confirmar,
principalmente as do campo biológico,
neuroquímico etc. Na verdade, a prática
clínica nos mostra uma predominância
de fatores pluricausais, incluídos aí,
além dos individuais, os familiares,
sociais e psicodinâmicos. Isto sem
falar da qualidade do ensino no Brasil e
da incongruência de, no Brasil, sermos
obrigados a nos apoiar em dados e
pesquisas estrangeiros -
predominantemente - uma vez que o aluno
que nos vem sai do sistema educacional e
social brasileiro.
De
qualquer forma, a conclusão de
Shaynvitz, citada acima, permite uma
abertura talvez sugerida pelo próprio título
da próxima Conferência da Orton
Dyslexia Society Language and Literacy-,
termo mais amplo que dislexia. Ou talvez
uma outra tradução do termo dislexia,
conforme cita Drake Duane, da Arizona
State University: "Dislexia pode
ser derivado do termo puramente grego
"dys") pobre ou inadequado)
"legein" (falar), portanto
palavras no sentido léxico ao invés de
gramatical, e, portanto, linguagem em
geral. Linguagem em sentido amplo, mais
do que um conjunto de símbolos gráficos,
mas mesmo a nível de discurso do
sujeito, envolvendo aspectos
inconscientes e culturais profundamente
arraigados de visão do mundo".
Como diz Mannoni: "...importante não
é suprimir o sintoma, e sim procurar
decifrá-lo, entender sua causa,
entender o que a criança procura dizer,
de maneira ruidosa, numa linguagem sem
palavras". ou numa linguagem
alterada.
Certo que essa escuta não satisfaz pais
e escolas numa sociedade competitiva,
onde o objetivo principal é passar de
ano, e não o bem estar da criança. Só
este bem estar poderá torná-la sujeito
do desejo, sujeito da ação que
transforma o significaste em
significado. De qualquer forma, parece
que temos muitas teorias, nada de
definitivamente conclusivo, e muito a
pesquisar. Se, neste vai e vem de
teorias, conseguirmos enriquecer nosso
trabalho com uma ótica isenta de pré-julgamentos
e abrangente, no sentido de uma visão
multidisciplinar, o ser humano visto por
nós será apenas beneficiado.
Fonte:
http://www.psicopedagogia.com.br/atuacao/disturbios/dislexia.shtml
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