“Distúrbio
do barulho” é comum em crianças,
especialmente nas com dislexia
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Muitas
crianças com dislexia têm também deficiências
e comorbidades em outras áreas cognitivas. Uma
destas pode ser o distúrbio do processamento
auditivo central, ou DPAC.
“O
DPAC é um defeito no canal do ouvido que leva o
som para o cérebro. A criança ouve bem, porém,
na hora de processar o som tem dificuldades. Ela não
consegue lidar com os sons que escuta”, explica
a fonoaudióloga e psicopedagoga Maria Angela
Nico, da Associação Brasileira de Dislexia
(ABD). A criança com o distúrbio tem dificuldade
de separar os sons, por isso em ambientes
barulhentos – como uma sala de aula – quando o
professor fala e outros alunos também falam, fica
difícil separar o que um e outro está falando.
“O
colorido do som é perdido. É como se você
tentasse ouvir música em um fone de ouvido de má
qualidade e compensasse isso aumentando o som. É
assim que uma criança com DPAC ouve”, explica a
fonoaudióloga Liliane Desgualdo Pereira, da
Universidade Federal de São Paulo, pioneira no
diagnóstico da DPAC no Brasil.
Segundo
Liliane, não existe um consenso sobre as causas
da desordem, que podem estar relacionadas à falta
de estímulos sonoros durante a infância, razões
genéticas ou neurofisiológicas (agravos no
sistema auditivo nervoso central). O certo é que
não se trata de uma doença, mas pode ser
resultado de doenças no ouvido como, por exemplo,
uma inflamação que atrapalhe o desenvolvimento
do sistema nervoso central. “Como o sistema público
de saúde é falho em muitos lugares do Brasil, é
comum uma criança ter otite uma, duas, três
vezes – a otite de repetição. Isso pode causar
um agravo no sistema nervoso central que gera o
distúrbio de processamento”.
Estima-se
que 10% das crianças em idade escolar apresentem
a DPAC. Deste total, 1% tem dislexia. “Na evolução,
quem ouve mal, fala, lê e escreve mal. Por isso a
comorbidade entre os dois distúrbios”, diz.
Diagnóstico
e tratamento
Alguns
sinais indicam que a criança apresenta a DPAC. Se
o seu filho tem dislexia, além das dificuldades
de aprendizagem típicas do transtorno, a criança
age como se não quisesse escutar ou apenas
ouvisse quando há interesse. Nos primeiros anos
de alfabetização, a criança não identifica sílabas
e vogais, tem a memória atrapalhada, é
desatenta, parece que tem preguiça. Por volta dos
2 anos de idade, a criança já tem capacidade de
saber de onde vêm os sons. Caso você chame seu
filho da sala e ele, no corredor, não consiga
identificar onde você está, isso também pode
ser sinal da DPAC. Um jovem com o distúrbio não
compreende entonações de voz diferentes, piadas
ou frases de duplo sentido. Uma tarefa simples
como falar ao telefone se torna um tormento.
Segundo
Maria Angela, durante o diagnóstico da dislexia
é possível identificar o DPAC, já que a criança
passa por exames com uma equipe multidisciplinar.
“Durante os exames de fonoaudiologia é possível
perceber se a criança pode ter o distúrbio”.
Identificada a desordem, ela deve ser encaminhada
para o profissional de fonoaudiologia
especializado no DPAC. A partir daí, a criança
passa por uma série de exames, além de uma
avaliação neurológica, com o objetivo de
identificar e quantificar o nível e o grau do
distúrbio.
A
reabilitação do paciente com DPAC é feita sem
medicamentos. O objetivo é “arrumar” o
caminho do som até o cérebro por meio de estímulos
auditivos. O destaque deste processo de reabilitação
diz respeito ao uso de recursos tecnológicos como
o audiômetro – equipamento que permite
apresentar sons de fala e tons puros por fones de
ouvido. Quando acoplado a um aparelho de CD, ele
reproduz estímulos diferentes um em cada orelha,
a escuta dicótica. Este procedimento é feito em
uma cabina acústica ou sala silenciosa.
Os
resultados são animadores: em até 80% dos casos,
os pacientes se recuperam totalmente. E os
resultados podem ser vistos em até dois meses.
Tem início, então, outro processo que visa a
compensar o “tempo perdido”. O foco é
aumentar o vocabulário, melhorar a linguagem,
aprender o conteúdo curricular perdido e
trabalhar as dificuldades emocionais de interação.
“Este tratamento é mais longo e pode durar de
seis meses a um ano ou mais, e necessita de uma
equipe multidisciplinar de profissionais”,
conclui Liliane.
por
Marina Teles
Fonte:
http://oqueeutenho.uol.com.br/portal/2011/06/07/%E2%80%9Cdisturbio-do-barulho%E2%80%9D-e-comum-
em-criancas-especialmente-nas-com-dislexia/
Publicado
em 10/06/2011