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RESUMO
A fala expressa o
pensamento, as emoções, as necessidades da criança e é também o meio
de regulação dos processos psíquicos superiores. O processo de construção
da linguagem é longo e vai do nascimento até a adolescência.
Inicialmente a criança domina mal o código lingüístico, mas muito
progresso ocorre entre 2 e 4 anos de idade. A aquisição da linguagem
verbal, que implica o uso de palavras, tem início entre 12 e 24 meses de
idade, sendo que os 18 meses corresponde à idade média de tal aquisição.
O desenvolvimento dessas habilidades pode ser acompanhado ao longo do
crescimento do bebê, servindo também de indicativo da formação de uma
boa ou má competência comunicativa. Este estudo tem por finalidade
examinar o desenvolvimento da linguagem e sua função reguladora sobre as
ações da criança com o objetivo de esclarecer pontos relevantes no
sentido de evitar equívocos diagnósticos de problemas nesta área.
INTRODUÇÃO
A linguagem é
atividade essencial do conhecimento do mundo do ponto de vista da aquisição.
É o espaço em que a criança se constitui como sujeito e em que os
objetos do mundo físico, os papéis das palavras e as categorias lingüísticas
não existem inicialmente, mas se instauram através da experiência ao
longo do desenvolvimento infantil.
O desconhecimento do
desenvolvimento normal da criança na aquisição da linguagem e dos
mecanismos de regulação da sua ação em decorrência do uso da palavra
pelo adulto, leva o profissional a cometer equívocos no tratamento e/ou
no encaminhamento da criança, perdendo um tempo considerável e, muitas
vezes, crucial para o adequado atendimento. Por outro lado, o
desconhecimento pode acarretar a rotulação do sujeito e a consideração
um estágio normal como transtorno[i]
quando, de fato, não se soube avaliar as diferenças individuais no
desenvolvimento normal da criança.
Assim, é necessário
compreender o modo como as crianças adquirem e desenvolvem a linguagem,
como ocorre essa operacionalização até que a palavra expresse seu
pensamento e como se dá a regulação dos processos psíquicos do sujeito
através da palavra. É imprescindível conhecer esses aspectos do
desenvolvimento infantil e as transformações que vão se operando
gradativamente no sujeito tanto para fazer encaminhamentos quanto para
diagnosticar e tratar adequadamente os problemas apresentados nesse campo.
Primeiramente se tratará,
em termos gerais, do significado, do desenvolvimento e do sentido da
palavra; depois, mais especificamente, do desenvolvimento da
palavra/linguagem em relação ao desenvolvimento infantil, do surgimento
do conceito e da função reguladora da palavra/linguagem das ações da
criança, assim como das implicações psicopedagógicas.
O
significado da palavra
A palavra é a unidade
fundamental da língua.
Luria ensina que o
elemento fundamental da linguagem é a palavra, a qual designa coisas,
individualiza as características desses objetos e os reúne em
determinadas categorias, designa também ações e relações entre as
coisas, ou seja, "a palavra codifica nossa experiência" (1, p.
27).
A palavra tem uma
estrutura complexa com dois componentes básicos: representação
material e significado; cada
palavra constitui um objeto, gerando no sujeito uma imagem deste objeto.
A representação
material - função básica da palavra - é a função representativa
da palavra, considerada a mais importante por ser constituinte da
linguagem que permite ao homem evocar as imagens de objetos
correspondentes até quando estão ausentes.
O significado
- análise dos objetos - função mais complexa que permite distinguir as
propriedades dos objetos e relacioná-los segundo a categoria; esta função
é meio de abstração e generalização do objeto, ou seja, através da
análise dos significados das partes componentes de uma palavra que nomeia
um objeto se pode conhecer as várias significações que a construíram -
o autor analisou a palavra russa que identifica tinteiro, a qual
inicialmente parecia muito simples e se revelou complexa, indicando que
este objeto está relacionado com tinta, serve para realizar alguma coisa
e é um recipiente, ou seja, a análise da morfologia da palavra revela a
complexidade de sua função. Essa análise pode ser utilizada para
descobrir a função de um objeto desconhecido quando se conhece a palavra
que serve para designá-lo ou, no caso dessa palavra inexistir, para se
criar uma palavra adequada para nomeá-lo e que carregue todo o
significado da sua função.
Vygotsky atribui à própria
gênese da palavra a característica de imagem, ensinando que “a palavra
primitiva não é um símbolo direto de um conceito, mas sim uma imagem,
uma figura, um esboço mental de um conceito, um breve retrato dele - na
verdade, uma pequena obra de arte. Ao nomear um objeto por meio de tal
conceito pictórico, o homem relaciona-o a um grupo que contém certo número
de outros objetos” (2, p. 65).
Luria e Yudovich (3)
dizem que a palavra, na sua função básica, indica o objeto
correspondente no mundo externo e abstrai e isola o sinal necessário,
generaliza os sinais percebidos e os relaciona com determinadas
categorias.
Esses autores citam um
exemplo para mostrar que a palavra relacionada à percepção direta do
objeto isola seus traços fundamentais: ao nomear o objeto percebido de
"copo" e acrescentar o seu papel fundamental "serve para
beber", isolam-se suas propriedades essenciais e se inibe as menos
essenciais como o peso e a forma exterior; ao assinalar com a palavra
"como" (para que serve) qualquer copo, independente da forma,
toda a percepção desse objeto é permanente e generalizada.
Lenin (1) observou que
o objeto (nomeado) de conhecimento não são as coisas em si, mas
principalmente a relação entre elas; o mesmo objeto pode ser o objeto de
estudo da física, da economia, da estética, etc., concluindo que as
coisas não são captadas somente pela forma imediata, mas também pelos
reflexos de suas relações, ou seja, o homem transcende aos limites
sensoriais da experiência imediata e forma conceitos abstratos que
permitem penetrar mais profundamente na essência delas.
Desenvolvimento
do significado da palavra
A referência objetal
da palavra não está terminada na criança aos três primeiros anos de
vida, tendo a palavra alcançado seu desenvolvimento pleno de tal forma
que daí em diante haveria apenas um enriquecimento do vocabulário como
se pensava anteriormente, pois, segundo Luria (1), o significado da
palavra não conclui seu desenvolvimento neste período. Depois que o
desenvolvimento da palavra alcança seu significado objetal exato e estável,
desenvolve-se em direção ao seu referencial de função generalizadora,
chegando ao seu significado.
Esta hierarquia
estrutural, com categorias subordinadas entre si, constitui-se no
"sistema de conceitos abstratos, diferenciando-se dos enlaces
situacionais imediatos, característico da palavra nos estágios iniciais
do desenvolvimento" (1, p. 53), mostrando que o significado muda ao
mesmo tempo em que os processos psíquicos se realizam.
A correlação da
palavra com os significados abstratos generalizadores (função
generalizadora) não é sempre a mesma, segundo Luria (4), pois cada grupo
de palavras tem diferenças essenciais como os substantivos em que os
elementos figurados concretos são muito fortes (pinheiro, cão) ou são
afastados pelo significado abstrato generalizador (árvore, animal); nos
adjetivos e nos verbos (surgidos depois dos substantivos) os componentes
materiais ficam em segundo plano e a discriminação da qualidade ou da ação,
abstraídas do objeto remanescente, compõe o significado básico dessas
palavras.
Para Vygotsky (2) a
palavra, tomada como um estímulo e mediada pelo signo, tem como reação
o resgate de conceitos, imagens e sentimentos pelo sujeito, relacionados
ao contexto da produção do estímulo:
[...] o sentido de uma
palavra é a soma de todos os eventos psicológicos que a palavra desperta
em nossa consciência. É um todo complexo, fluido e dinâmico, que tem várias
zonas de estabilidade desigual. O significado é apenas uma das zonas do
sentido, a mais estável e precisa. Uma palavra adquire o seu sentido no
contexto em que surge; em contextos diferentes, altera o seu sentido. O
significado permanece estável ao longo de todas as alterações do
sentido. O significado dicionarizado de uma palavra nada mais é do que
uma pedra no edifício do sentido, não passa de uma potencialidade que se
realiza de formas diversas na fala (2, p. 125).
Esse pensamento pode
ser complementado com a afirmação que “a palavra não alcança sua
significação completa exceto numa sentença, isto é, numa relação
sintática” (5, p. 15), ou seja, a operação de significação não
pode ser deduzida exclusivamente da palavra e do seu conceito, mas sim do
contexto na qual está inserida, do seu significado.
O
sentido da palavra
O sentido
da palavra deriva do "processo de escolha do significado adequado
entre todo um sistema de alternativas que surgem" (3, p. 22), ou
seja, o sistema de relações destacado entre muitos significados possíveis;
o sentido da palavra, assim, depende da tarefa concreta que o sujeito tem
diante de si e da situação concreta em que ele vai empregar a palavra; o
significado pode, então, ser diverso em várias situações, mesmo que
exteriormente permaneça o mesmo.
Além da estrutura
morfológica, a entonação na pronúncia da palavra também permite que
se mude o seu sentido, escolhendo um específico entre tantos outros.
Assim, o emprego
real da palavra é a escolha do sentido adequado ao que se quer
expressar entre os possíveis significados e só com um sistema de escolha
funcionando com precisão, com o realce do sentido adequado e a inibição
das outras alternativas, se pode desenvolver com êxito a comunicação.
O
surgimento do conceito
Compreender não é o
mesmo que perceber: é aperceber, isto é, entender o verdadeiro
significado conceitual do percebido.
Para Vygotsky (2) a
aquisição da linguagem pela criança modifica suas funções mentais
superiores: ela dá uma forma definida ao pensamento, possibilita o
aparecimento da imaginação, o uso da memória e o planejamento da ação.
Neste sentido, a linguagem sistematiza a experiência direta dos sujeitos
e, por isso, adquire uma função central no desenvolvimento cognitivo,
reorganizando os processos que nele estão em andamento.
Todas as funções psíquicas
superiores são processos mediados, e os signos constituem o meio básico
para dominá-las e dirigi-las. O signo mediador é incorporado à sua
estrutura como parte indispensável, na verdade a parte central do
processo como um todo. Na formação de conceitos, esse signo é a
palavra, que em princípio tem papel de meio na formação de um conceito
e, posteriormente, torna-se o seu símbolo (2, p.
70).
As concepções de
Vygotsky sobre o processo de formação de conceitos remetem às relações
entre pensamento e linguagem, à questão cultural no processo de construção
de significados pelos indivíduos, ao processo de internalização e ao
papel da escola na transmissão de conhecimento, que é de natureza
diferente daqueles aprendidos na vida cotidiana. Propõe uma visão de
formação das funções psíquicas superiores como internalização
mediada pela cultura.
Luria (4) estudou
profundamente as experiências de Vygotsky nessa área onde desenvolveu um
grande trabalho, reconhecido pelos estudiosos sobre a formação de
conceitos. Os conceitos espontâneos ou do cotidiano, também chamados de
senso comum, são aqueles que não passaram pelo crivo da ciência. Os
conceitos científicos são formais, organizados, sistematizados, testados
pelos meios científicos, que em geral são transmitidos pela escola e que
aos poucos vão sendo incorporados ao senso comum.
Os conceitos científicos,
conforme Luria (4), adquiridos no processo de aprendizagem da criança, são
formulados verbalmente (pela mediação do professor) e só mais tarde ela
tem condições de juntar a eles um conteúdo válido. A criança adquire
consciência dos seus conceitos espontâneos relativamente tarde: a
capacidade de defini-los por meio de palavras, de operar com eles à
vontade, aparece muito tempo depois de adquirir os conceitos. Ela possui o
conceito, isto é, conhece o objeto ao qual o conceito se refere, mas não
está consciente do seu próprio ato de pensamento. O autor enfatiza que
na formação dos conceitos comuns (espontâneos ou do cotidiano - se
formam a partir da atividade prática e da experiência figurada direta)
predominam as relações circunstanciais concretas e nos conceitos científicos
(formam-se com a participação das operações lógico-verbais), as relações
lógicas abstratas.
Segundo Oliveira (6),
Vygotsky propôs o percurso genético do desenvolvimento do pensamento
conceitual em três estágios. No primeiro estágio, a criança forma
conjuntos sincréticos, agrupando objetos com base em nexos vagos,
subjetivos e baseados em fatores perceptuais como a proximidade espacial,
por exemplo. Esses nexos são instáveis e não relacionados aos atributos
relevantes dos objetos. O segundo estágio é chamado por Vygotsky de
pensamento por complexos: "em um complexo, as ligações entre seus
componentes são concretas e factuais, e não abstratas e lógicas"
(6, p. 33)[ii].
No terceiro estágio,
onde ocorre a formação dos conceitos propriamente ditos, a criança
agrupa objetos com base num único atributo, sendo capaz de abstrair
características isoladas da totalidade da experiência concreta.
Com base nas experiências
realizadas por Vygotsky, Luria observa que em diferentes etapas o
significado da palavra encobre diferentes formas de generalização e
diferentes processos psicológicos e, assim, evolui. Enfatiza também o
autor a importância diagnóstica da formação dos conceitos,
estabelecendo "o nível que a criança pode atingir, estando numa
fase inferior do desenvolvimento intelectual, e as peculiaridades do
processo de formação dos conceitos que caracterizam determinados estados
patológicos da atividade cerebral" (4, p. 47).
O
desenvolvimento da criança x desenvolvimento da palavra
De acordo com Vygotsky,
todas as atividades cognitivas básicas do indivíduo ocorrem de acordo
com sua história social e acabam se constituindo no produto do
desenvolvimento histórico-social de sua comunidade (3). Neste processo de
desenvolvimento cognitivo, a linguagem tem papel crucial na determinação
de como o sujeito vai aprender a pensar, uma vez que formas avançadas de
pensamento são transmitidas à criança através de palavras (8).
A palavra, segundo
Luria e Yudovich (3), influi sobre a criança, enriquecendo e aprofundando
sua percepção direta e conformando sua consciência.
Inicialmente a criança
não tem consciência da composição verbal da palavra que vai surgindo
no decorrer de um período; nas primeiras etapas do desenvolvimento a
criança confunde a palavra com o objeto. Os experimentos que evidenciaram
o caminho percorrido pela criança nessa tomada de consciência da
estrutura verbal da linguagem foram propostos por Vigotsky em 1856 e
depois por Karpona em 1967 e que merecem estudo posterior pela
complexidade e riqueza das suas conclusões.
As etapas normais de
aquisição da linguagem estão especificadas no Quadro 1 e a
variabilidade dessa aquisição, ou seja, as variações dentro do que é
considerado normal, está esquematizada no Quadro 2.
Quadro
1 - Etapas normais da aquisição da linguagem
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0-3 meses
4-6 meses
7-9 meses
10-12 meses
12-18 meses
2 anos
3 anos
4 anos
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Produção
de sons (choro/consolo, gritos, barulhos); discriminação se sons
familiares.
Discriminação
dos sons da fala - compreensão das palavras - balbucio, produção
de vogais e depois de consoantes, expressões faciais.
Balbucio
duplicado (bababa) de forma interativa e produção gestual
comunicativa - aponta para objetos
Primeiras
palavras reais + jargão (balbucio com fala).
Contato
visual, expressões faciais, vocalizações e gestos - se faz
entender por meio dessas formas de comunicação antes mesmo de
falar.
Produção
de 10-50 palavras e algumas frases de algumas palavras - chama a
atenção para receber uma resposta verbal do adulto.
Produz
150-200 palavras e frases de a 3 palavras - nomeia objetos quando
inquirida.
Sentenças
gramaticais - artigo, preposição, plural - formula questões.
Clara
sintaxe - completa inteligibilidade é esperada aos 4 anos e 6 meses
- meninas em média um pouco antes - para fonologia do português e
do inglês.
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Fonte:
Pedroso e Rotta (7)
Quadro
2 - Variabilidade normal da aquisição da linguagem
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Em 25% das crianças
Em 90% das crianças
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I
- Compreensão visual - com 10 meses apontam para os objetos
desejados espontaneamente.
II
- Compreensão auditiva - com 25,8 meses nomeiam e explicam a função
de objetos perguntados pelo examinador.
III
- Expressão falada - com 27,3 meses nomeiam e explicam a função
de 2 objetos espontaneamente.
I
- Compreensão visual - com 17,7 meses apontam para objetos
desejados espontaneamente.
II
- Compreensão auditiva - com 32,6 meses nomeiam e explicam a função
de objetos perguntados pelo examinador.
III
- Expressão falada - com 34,4 meses nomeiam e explicam a função
de 2 objetos espontaneamente.
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Fonte:
Pedroso e Rotta (7)
Como se pode observar
nos quadros anteriores, no início do desenvolvimento da criança a consciência
tem caráter afetivo. Segundo Luria (1) esse caráter reflete o mundo
afetivamente; a seguir a consciência passa ao concreto imediato, assim
como as palavras que se refletem em seu mundo; no estágio seguinte a
consciência passa a ser lógica, verbal e abstrata mesmo que os estágios
anteriores permaneçam encobertos.
O significado da
palavra muda substancialmente quanto ao seu significado no decorrer do
desenvolvimento da criança: inicialmente o papel fundamental da palavra
é desempenhado pelo afeto, pelo agradável ou desagradável; mais tarde,
pela imagem imediata, a memória, reproduzindo uma situação determinada;
para o adulto, são os enlaces lógicos presentes nas palavras que
configuram o papel principal.
A partir do momento que
a criança descobre que tudo tem um nome, cada novo objeto que surge
representa um problema que ela resolve atribuindo-lhe um nome. Quando lhe
falta a palavra para nomear este novo objeto, a criança recorre ao
adulto. Esses significados básicos de palavras assim adquiridos funcionarão
como embriões para a formação de novos e mais complexos conceitos.
Função
reguladora da linguagem
Levando-se em consideração
essas assertivas, caso que nos interessa diretamente no fazer psicopedagógico,
examinamos as considerações de autores como Vygotsky e Luria, em relação
à subordinação da criança ao adulto: quando a criança adquire uma
palavra que designa um objeto em particular e serve como sinal de uma ação
concreta, ela se subordina a esta palavra, assim como à instrução
verbal do adulto. A palavra, portanto, regula a conduta da criança,
organizando sua atividade num nível mais alto e qualitativamente novo.
"Esta subordinação das reações da criança à palavra de um
adulto é o começo de uma longa cadeia de formação de aspectos
complexos da sua atividade consciente e voluntária" (3, p. 13).
Luria enfatiza que
"além da função cognoscitiva da palavra e sua função como
instrumento de comunicação, há sua função pragmática ou reguladora;
a palavra não é somente um instrumento de reflexo da realidade, é o
meio de regulação da conduta" (1, p. 95-96).
Vygotsky (2) ensina que
é indispensável examinar como os processos voluntários se formam no
curso do desenvolvimento da atividade concreta do sujeito e na sua
comunicação com o adulto, cuja organização está baseada no
desenvolvimento lingüístico da criança.
Segundo Luria, a
primeira etapa da função reguladora da linguagem da criança - função
base do comportamento voluntário - é a capacidade de subordinação à
instrução verbal do adulto e, a partir dessa "subordinação
primitiva" (1, p. 96), forma-se o ato voluntário.
Quando a mãe nomeia um
objeto e junta a ele um gesto indicador, está reorganizando a atenção
da criança e separando o objeto mencionado dos demais, assim a criança
começa a se subordinar à ação da linguagem do adulto.
Para fortalecer o papel
regulador da linguagem nessa etapa (até 2-3 anos), é preciso assinalar o
objeto nomeado com gestos ou indicações, reforçando-os pela ação,
permitindo que a criança fixe melhor e possa cumprir a tarefa
corretamente.
Os experimentos de
Luria (1) mostraram que a subordinação da ação do sujeito à instrução
verbal do adulto, não é algo simples e desenvolve-se progressivamente.
Desse modo, observa-se que a linguagem tem uma grande importância na
organização da conduta da criança e no seu desenvolvimento; primeiro a
sua influência é feita de fora para dentro e depois passa a se organizar
de dentro para fora. No início, o controle da conduta é feito pelos
pais, através da linguagem; mais tarde, pela própria criança: a conduta
da criança, inicialmente controlada pelos adultos sob a forma de incitações
e ordens verbais, progressivamente passa a ser controlada por ela própria,
através da linguagem interiorizada.
CONCLUSÃO
A linguagem verbal é a
forma mais característica da comunicação humana e se aceitarmos que o
objetivo do estudo da psicopedagogia é a autoria do pensamento,
precisamos compreender que o pensamento humano se formula e se expressa
através da linguagem, a qual deve ser bem conhecida em todos os seus
aspectos.
Há uma relação muito
estreita entre o pensamento e a linguagem, uma interdependência relativa
entre eles, de tal forma que muitos pensamentos e muitos conceitos seriam
irrealizáveis sem o auxílio da linguagem que, quando exteriorizada, é a
simbolização do pensamento; quando interiorizada é o elemento básico
de sua organização.
Sabe-se também que o
desenvolvimento infantil é uma questão de saúde física e mental. A
aquisição da linguagem, assim como o desenvolvimento de capacidades
comunicativas em geral, deve merecer a máxima atenção uma vez que são
indicadores preciosos de um processo evolutivo que pode estar ocorrendo
bem ou não.
É pré-requisito básico,
portanto, conhecer a construção da expressão: a estrutura da palavra
que permite formar os conceitos e os sistemas que levam à conclusão lógica
do pensamento e regulam as ações para que se possa entender as manifestações
clínicas.
O estudo da apropriação
da linguagem por parte do sujeito é amplo e oferece inúmeras
possibilidades ao pesquisador da área de psicopedagogia. Esta breve
discussão sobre o tema visa suscitar o debate multidisciplinar e
interdisciplinar entre aqueles que se dedicam a essa área de estudo tão
promissora.
Ainda há muito por
fazer, porém, pois o ser humano em sua complexidade é ainda um mistério.
REFERÊNCIAS
1.LURIA
AR. Curso de psicologia geral.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, vol. IV.
2.LURIA
AR; YODOVICH FI. Linguagem e
desenvolvimento intelectual na criança. Porto Alegre: Artes Médicas,
1985.
3.LURIA
AR. Pensamento e linguagem - as últimas
conferências de Luria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.
4.
Luria
AR.
Cognitive
Development: Its Cultural and Social Foundations.
Cambridge
,
MA
:
Harvard
University
Press, 1976.
5.
Murray
TR. Comparing Theories of Child Development. Third Edition.
Belmont
,
California
: Wadsworth Publishing Company, 1993.
6.VYGOTSKY LS. Pensamento e linguagem. São
Paulo: Martins Fontes, 1993.
7.Pedroso FS; Rotta,
NT. Transtornos da linguagem. In: Rotta
NT; OHLWEILER L; RIESGO RS. Transtornos
da aprendizagem - abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto
Alegre: Artmed, 2006.
8.OLIVEIRA MK. Vygotsky
e o processo de formação de conceitos. In:
LA TAILLE Y.
Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias
psicogenéticas
em discussão. São Paulo
: Summus, 1992.
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[i]
Os transtornos da linguagem são bastante comuns na infância e,
segundo Pedroso e Rotta (7), das crianças com problemas de linguagem,
menores de 5 anos, 60% terão algum grau de retardo mental ou distúrbio
de aprendizado aos 9 anos - a dislexia é o mais comum, e a maioria
teve ou tem comprometimento na linguagem oral; outro aspecto relevante
para os autores é que essas crianças correm alto risco de alterações
de conduta e comportamento como a déficit de atenção/hiperatividade
(TDAH), por exemplo.
[ii]
As ligações factuais subjacentes aos complexos são descobertas por
meio da experiência direta e uma vez que um complexo não é formado
no plano do pensamento abstrato, as ligações que o criam, assim como
as que ele ajuda a criar, carecem de unidade lógica: podem ser de
muitos tipos diferentes. Enquanto um conceito agrupa os objetos de
acordo com um atributo, as ligações que unem os elementos de um
complexo ao todo, e entre si, podem ser tão diversas quanto os
contatos e as relações que de fato existem entre os elementos (6).
Publicado
em 03/04/2007
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