Resumo
O autismo infantil é definido como transtorno
global do desenvolvimento pela CID.10 e como transtorno autista
pela DSM.IV, classificações nosológicas internacionais. Caracterizado por
um desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de três
anos, apresentando perturbações características do funcionamento:
interações sociais, comunicação e comportamento focalizado e repetitivo.
Geralmente é diagnosticado por médico neuropediatra, por psicólogo ou por
psiquiatra especializado em autismo, porém ao receber um paciente ainda
não diagnosticado no consultório psicopedagógico, o profissional precisa
ter conhecimento suficiente para reconhecer o transtorno e fazer a
intervenção e o encaminhamento corretos, justificando-se, assim, este
estudo.
Palavras-chave: autismo, transtorno, intervenção.
introdução
Autismo é um transtorno que causa atraso no desenvolvimento
da criança, e compromete principalmente sua comunicação, socialização,
iniciativa, imaginação e criatividade. A maioria dessas crianças nasce
aparentemente sem nenhuma disfunção, algumas se comportam e choram na
maternidade como todos os bebês, mas já nos primeiros meses de vida, às
vezes, até os cinco anos, começam a surgir os sintomas configurando uma
situação dolorosa para os pais: são estranhos comportamentos de crianças
que não falam, são incapazes de olhar as pessoas e isolam-se cada vez mais
num mundo misterioso e impenetrável.
Para se alcançar melhor compreensão sobre o autismo e as
implicações contidas no quadro sindrômico, visando à educação, é preciso
ter conhecimento sobre o desenvolvimento normal da criança para que haja
distinção do que seja realmente um comportamento autista; discernir suas
características principais, seus limites, seu potencial capacitador, suas
necessidades e prioridades, as quais precisam ser estudadas e trabalhadas
com a finalidade de se proporcionar a maior estabilização emocional
possível e o desenvolvimento global mais próximo da normalidade para o
sujeito.
Ainda não são conhecidas as causas do autismo, mas existem
inúmeros estudos e muitas teorias, das quais algumas são examinadas neste
trabalho que tem o objetivo de formar conhecimento sobre a ocorrência e as
possibilidades terapêuticas de portadores de autismo para avaliar e
reconhecer casos clínicos.
Geralmente, o autismo é diagnosticado por médico
neuropediatra, por psicólogo ou por psiquiatra especializado em autismo
(os critérios de diagnósticos utilizados são avaliações completas com base
na DSM.IV ou, no Brasil, o CID.10[i]),
porém ao receber um paciente ainda sem diagnóstico no consultório
psicopedagógico, o profissional precisa ter conhecimento suficiente para
reconhecer o transtorno e fazer a intervenção e o encaminhamento corretos,
justificando-se, assim, este estudo.
Autismo
Segundo a Associação de Amigos do Autista (AMA)[ii],
o autismo é um transtorno de desenvolvimento e não pode ser definido como
uma forma de retardo mental, embora muitos quadros de autismo apresentem
funcionamento intelectual abaixo da média. A palavra autismo atualmente
pode ser associada a diversas síndromes. Os sintomas variam amplamente, o
que explica por que atualmente o autismo é considerado um
transtorno.
Os atuais critérios de diagnóstico do autismo estão formalizados na norma
DSM-IV e no CID 10, que serão examinados posteriormente.
Basicamente, segundo Henriques (2007), quatro fatores
indicam a presença do autismo infantil: problemas de relacionamento
social, dificuldade de comunicação, atividades e interesses restritos e
repetitivos e início precoce. Entretanto, o transtorno autista
necessita de maiores explicações científicas para seu aparecimento. Alguns
autores tentaram estabelecer uma relação da frieza emocional das mães e
dos pais com o desenvolvimento autista, porém tem sido evidente que,
embora a dinâmica emocional familiar seja muito importante no
desenvolvimento do transtorno, esse elemento não é suficiente para
justificar o seu aparecimento. Termos como psicose e
esquizofrenia da infância foram usados no passado para fazer
referência a indivíduos nessas condições, mas, segundo Ballone (2002),
evidências consideráveis sugerem que os transtornos invasivos do
desenvolvimento são distintos da esquizofrenia, embora
ocasionalmente o indivíduo autista possa vir a desenvolver também a
esquizofrenia.
Breve histórico
Inicialmente, o termo autismo foi implantado por
Bleuler (1960) ligado à sintomatologia abrangente que ele havia
estabelecido para unificar, através da esquizofrenia, o campo das
psicoses. Nesse contexto, o autismo era chamado de dissociação psíquica
que se referia ao predomínio da emoção sobre a percepção da realidade.
Em 1943, Leo Kanner define os distúrbios do contacto
afetivo como um autismo extremo, tendo como características a
obsessividade, as estereotipias e a ecolalia. Neste momento, o autismo é
relacionado a fenômenos esquizofrênicos, apresentando como sinal um
alheamento extremo já no início da vida (antes dos três anos de idade),
uma vez que não há respostas aos estímulos externos, vivendo fora do
mundo e mantendo relação inteligente com os objetos, porém sem
apresentar alteração em seu isolamento. Após algumas reflexões, este mesmo
autor, em 1949, define o autismo infantil precoce, caracterizando-o
por dificuldade profunda no contato com as pessoas, um desejo obsessivo de
preservar as coisas e as situações, uma ligação especial aos objetos e a
presença de uma fisionomia inteligente, além das alterações de linguagem
que se estendiam do mutismo a uma linguagem sem função comunicacional,
revelando inversão pronominal, neologismos e metáforas. O autismo infantil
precoce ainda está intimamente relacionado à esquizofrenia infantil,
podendo ser uma manifestação prematura desta patologia (López, 2000).
Em 1956 o autismo é distanciado da esquizofrenia e passa a
ser visto como um problema psicológico, frisando a necessidade de
estudos decisivos para a compreensão do fenômeno em níveis biológicos,
psicológicos e sociais.
É importante ressaltar também, o trabalho pouco
reconhecido, segundo López (2000), de Hans Asperger. Em 1944, este autor
publica artigos com descrições de casos de autismo buscando explicações
teóricas. A sua publicação em alemão durante a Segunda Guerra Mundial foi
ignorada. A definição de Asperger para psicopatologia autista é bem mais
ampla que a de Kanner, incluindo casos que mostravam um dano orgânico
severo e aqueles que transitavam para a normalidade. Atualmente, no
transtorno de Asperger, contrastando com o transtorno autista, não existem
atrasos clinicamente significativos na linguagem (isto é, palavras
isoladas são usadas aos 2 anos, frases comunicativas são usadas aos 3
anos) (Critério D do DSM.IV). Todavia, as reflexões acerca da
conceitualização do autismo continuaram.
Em 1967, O'Gorman, baseado nos conceitos da escola inglesa,
organiza critérios diagnósticos caracterizados por retração ou fracasso
frente à realidade; dificuldades no relacionamento com pessoas; sério
retardo intelectual com ilhotas de normalidade ou habilidades especiais;
dificuldades na aquisição ou na manutenção da fala já aprendida; respostas
anormais a estímulos sensoriais (especialmente os sons); maneirismos ou
distúrbios do movimento (excluindo tiques) e resistência psicológica a
mudanças (López, 2000).
Em 1969, novos critérios diagnósticos são formulados por
Clancy, Dougall e Rendle-Short, bastante semelhantes aos critérios
descritos anteriormente. Ajuriaguerra (1973) logo depois enquadra o
autismo infantil dentro das psicoses infantis, caracterizadas como sendo
transtorno da personalidade dependente de uma desordem da organização do
eu e da relação da criança com o mundo circundante, definida por
conduta inapropriada frente à realidade, com retraimento ou fragmentação
do campo da realidade; restrição no campo de utilização dos objetos;
catexias cognitivas, afetivas e de atividade insuficientes ou parcialmente
exageradas, demasiado focadas ou esparsas, produzindo condutas rígidas ou
inconsistentes; vida imaginativa pobre ou de tipo mágico-alucinatório;
atitude demasiado abstrata ou demasiado concreta, restrita, limitando a
mobilidade do campo do pensamento e da ação e relação inadequada com as
pessoas.
Em 1976, Ritvo fala em um problema de desenvolvimento
colocando as crianças autistas como possuidoras de déficits cognitivos. A
detecção dos déficits é feita a partir do momento em que ocorrem os
primeiros sinais observáveis e por suas características comportamentais,
representadas por distúrbios de percepção; distúrbios de desenvolvimento,
principalmente nas seqüências motora, de linguagem e social; distúrbio de
relacionamento social caracterizado por pobreza no contato através do
olhar, ausência de sorriso social, ausência de movimento antecipatório,
aparente aversão ao contato físico, tendência a relacionar-se com partes
da pessoa, desinteresse em jogos, ansiedade estranha e exagerada;
distúrbios da fala e da linguagem que se estendem desde um mutismo até a
ecolalia e a inversão pronominal; distúrbios da motilidade, observados
através da atitude estranha e bizarra com maneirismos e estereotipias,
principalmente de mãos e dedos. Este autor ressalta que a síndrome autista
seria decorrente de uma patologia do sistema nervoso central numa visão
organicista (López, 2000).
Gilberg, em 1990, considera o autismo uma síndrome
comportamental, com etiologias múltiplas, com distúrbio no curso do
desenvolvimento e caracterizado por um déficit na interação social,
visualizado pela inabilidade em relacionar-se com o outro, usualmente
combinado com déficits de linguagem e alteração de comportamento.
Atualmente, a definição utilizada está nas classificações internacionais,
CID.10 e dsm.IV, que
enquadram o autismo na categoria Transtornos Invasivos do
Desenvolvimento, caracterizados por anormalidades qualitativas na
interação social recíproca e nos padrões de comunicação e por repertório
de interesses e atividades restritas, repetitivas e estereotipadas.
Classificações
internacionais do transtorno
autista
A (CFTMEA)[iii]
considera separadamente o transtorno psicótico da criança e do
adolescente, ao contrário das classificações internacionais de
doenças, CID.10 e DSM.IV, que não têm uma categoria específica para esses
períodos de desenvolvimento. Segundo Ballone (2002), a classificação
francesa considera que os sintomas psicóticos que aparecem na infância e
na adolescência comportam características específicas e diferentes dos
mesmos quadros em adultos, justificando uma consideração e uma
classificação em separado.
Para que a palavra autismo não perca sua precisão médica,
esclarece o autor, especialistas do mundo todo concordam em utilizar
alguns critérios de diagnóstico internacionalmente reconhecidos. O mais
recente esquema de diagnóstico é descrito no DSM-IV-TR; igualmente válida
é a recomendação para diagnóstico do CID-10. Essas classificações passam a
denominar o autismo infantil com o nome de Transtorno Autista.
Na CID.10 (F84.0) o autismo infantil é definido como
transtorno global do desenvolvimento (F84)[iv]
[...] caracterizado
por um desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de
três anos, e apresentando uma perturbação característica do funcionamento
em cada um dos seguintes domínios: interações sociais, comunicação e
comportamento focalizado e repetitivo. Além disso, o transtorno se
acompanha comumente de numerosas outras manifestações inespecíficas como,
por exemplo, fobias, perturbações de sono ou da alimentação, crises de
birra, de agressividade ou auto-agressividade.
O transtorno global do desenvolvimento, ocorrendo após a
idade de três anos ou que não responde aos três grupos de critérios
diagnósticos do autismo infantil é definido por esta classificação como
autismo atípico (F84.1).
Esta categoria deve
ser utilizada para classificar um desenvolvimento anormal ou alterado,
aparecendo após a idade de três anos, e não apresentando manifestações
patológicas suficientes em um ou dois dos três domínios psicopatológicos
(interações sociais recíprocas, comunicação, comportamentos limitados,
estereotipados ou repetitivos) implicados no autismo infantil; existem
sempre anomalias características em um ou em vários destes domínios.
O autismo atípico
ocorre habitualmente em crianças que apresentam um retardo mental profundo
ou um transtorno específico grave do desenvolvimento de linguagem do tipo
receptivo.
Segundo a DSM.IV,
[...] as
características essenciais do transtorno autista são a presença de
um desenvolvimento acentuadamente anormal ou prejudicado na interação
social e comunicação e um repertório marcantemente restrito de atividades
e interesses. As manifestações do transtorno variam imensamente,
dependendo do nível de desenvolvimento e idade cronológica do indivíduo.
Ainda aponta três critérios de classificação principais,
onde o sujeito deve apresentar um total de seis (ou mais) itens dos três
subcritérios do primeiro critério principal.
Características do transtorno autista
Segundo Henriques (2007), a criança autista tem dificuldade
em se relacionar com outros indivíduos, mantém-se distante, evita o
contato visual, demonstra falta de interesse pelas pessoas e não procura
conforto quando se machuca. Em 50% dos casos, o interesse social se
desenvolve com o tempo, mas a reatividade, a reciprocidade e a capacidade
de empatia permanecem prejudicadas. O autista tem dificuldade em ajustar
seu comportamento ao contexto social e não consegue reconhecer ou
responder adequadamente às emoções dos demais. É comum, porém, que a
criança tenha proximidade com os pais, desenvolvendo inclusive a afeição,
mas é mais propensa a abraçar do que a aceitar ser abraçada. As interações
sociais com os pares são restritas. Mesmo autistas adultos têm habilidade
limitada de fazer amizades íntimas.
O autismo é caracterizado por diversos distúrbios, segundo
Assumpção Jr. (2007):
·
de
percepção como, por exemplo, dificuldades para entender o que ouve;
·
de
desenvolvimento, principalmente nas esferas motoras, da linguagem e
social;
·
de
relacionamento social, expresso principalmente através do olhar, da
ausência do sorriso social, do movimento antecipatório e do contato
físico;
·
de fala e
de linguagem que variam do mutismo total à inversão pronominal (utilização
do você para referir-se a si próprio), repetição involuntária de palavras
ou frases que ouviu (ecolalia);
·
movimento
caracterizado por maneirismos e movimentos estereotipados.
Hoje, o tratamento do autismo não se prende a uma única
terapêutica, conforme Assumpção Jr. (2007). O uso de medicamentos, que
antes desempenhava um papel de fundamental importância no tratamento,
devido à crença da relação do autismo com os quadros psicóticos do adulto,
passa a ter a função de apenas aliviar os sintomas para que outras
abordagens como a reabilitação e a educação especial possam ser adotadas e
tenham resultados eficazes.
Diagnóstico
diferencial
O diagnóstico diferencial inclui outros distúrbios
invasivos do desenvolvimento como a Transtorno de Asperger, a Síndrome de
Rett, transtornos desintegrativos e os quadros não especificados. O
diagnóstico diferencial é uma das grandes dificuldades encontradas nas
avaliações, segundo Assumpção Jr.
e Pimentel (2000).
Os quadros do Transtorno de Asperger são reconhecidos antes
dos 24 meses[v],
apresentando também maior ocorrência no sexo masculino, inteligência
próxima da normalidade, déficit na sociabilidade, interesses específicos e
circunscritos com história familiar de problemas similares e baixa
associação com quadros convulsivos. A Síndrome de Rett ocorre
preferencialmente no sexo feminino, sendo reconhecidos entre 5 e 30 meses[vi]
e apresenta marcado déficit no desenvolvimento com desaceleração do
crescimento craniano, retardo intelectual marcado e forte associação com
quadros convulsivos. Os transtornos desintegrativos são observados antes
dos 24 meses[vii]
com predomínio no sexo masculino, padrões de sociabilidade e comunicação
pobres, freqüência de síndrome convulsiva associada e prognóstico pobre.
Os transtornos abrangentes não-especificados têm idade de início variável,
predomínio no sexo masculino, comprometimento variável na área da
sociabilidade, bom padrão comunicacional e pequeno comprometimento
cognitivo (Assumpção Jr; Pimentel,
2000).
O olhar psicopedagógico
Inicialmente, deve-se ter em mente que as grandes
dificuldades do autista são a simbolização e a relação com o mundo a sua
volta, sendo necessário que o terapeuta aproxime-se dele, penetrando em
seu campo consciencial, para poder trazê-lo para fora.
Levin (2001) propõe que é necessário que o terapeuta
envolva-se plenamente nesse labirinto com a criança, para se encontrar na
face e no verso do espelho, junto a ela, mas sem se confundir com sua
imagem, marcando seu contorno, mas deixando que se transborde o incipiente
labirinto que ela irá construindo à medida que se desenvolve na cena
infantil.
Para alcançar este intento podem-se utilizar várias
estratégias como a musicoterapia, exercícios psicomotores, atividades
aquáticas, a convivência com outras crianças, entre tantas outras
atividades que se poderia pensar, onde o fundamental é que terapeuta e
paciente possam interagir para trabalhar a linguagem do corpo, mesmo que
essa seja mínima, pois no autismo, o principal instrumento psicomotor, o
corpo, está ausente em nível simbólico. Como diz Green (1982), um corpo
vivo em relação à vida, mas morto para a consciência. Um corpo onde não se
vislumbra o afeto e, portanto, não há o corpo que fala, mas um corpo
autista. Através do vínculo afetivo, que ultrapasse a barreira silenciosa
do sujeito, essas atividades podem se tornar instrumentos de aproximação e
de construção da relação paciente x terapeuta, paciente x mundo fora de si
mesmo.
Para ilustrar, relata-se a experiência com uma paciente, 11
anos, portadora de um tipo de deficiência mental leve por rubéola
congênita, com grande dependência materna, que a inscreveu no lugar de
deficiente, ao qual ela se adaptou; sem diagnóstico inicial de autismo, se
comportava e agia como tal: em seu mundo interior e silencioso ela se
fechava e apenas olhava para fora quando estimulada e logo se recolhia.
Parecia que nada do que se fizesse a atingia. Ao se observar que ela
sempre escolhia uma caixa com bonecas e brincava aparentemente sem nenhuma
criatividade, pois apenas as manipulava, passou-se a interferir nessa
brincadeira particular, colocando no contexto uma boneca estranha ou nova
que sempre fazia alguma coisa (a terapeuta verbalizava as ações) naquele
universo imaginário sem, no entanto, chamá-la para a brincadeira,
deixando-a livre para escolher. Notou-se que eventualmente ela parava e
ficava observando as ações da terapeuta, o que se repetia cada vez mais
frequentemente, até que em dado momento ela quis entrar na brincadeira com
sua boneca e construiu-se uma história. Mais tarde (esse avanço ocorreu em
mais ou menos três meses de terapia), ela aceitou que se desenhasse seu
corpo numa grande folha de papel (deitou sobre o papel enquanto a
terapeuta a contornava com uma caneta), o qual foi pendurado numa parede e
em todas as sessões ela fazia algum acréscimo como desenhar um colar, uma
pulseira, etc. Mais adiante também colocou seu nome e nomeou as partes do
corpo. A partir daí também começou a aceitar as atividades psicomotoras,
as quais eram sempre realizadas em parceria com a terapeuta e, às vezes,
com a mãe.
Os estudos de Fonseca (1983) reforçam que a criança autista
apresenta uma desintegração de sua imagem corporal, uma motricidade
alterada, um prejuízo da sensibilidade que implica a disfunção da
substância reticulada, ocasionando hipo ou hiperatividade, dificuldades de
espaço, tempo e simbolização, daí a necessidade dos exercícios
psicomotores para a formação e/ou melhora da consciência corporal e
conseqüente alívio dos sintomas.
Em conjunto com este olhar psicopedagógico global do
sujeito, modelos educacionais para o autista podem ser adotados e/ou
adaptados, conforme as características particulares de cada paciente; o
mais importante atualmente, é o método TEACCH, desenvolvido pela
Universidade da Carolina do Norte e que tem como postulados básicos e
filosofia (Schwartzman; Assumpção
Jr, 1995):
a) propiciar o
desenvolvimento adequado e compatível com as potencialidades e a faixa
etária do paciente;
b) funcionalidade
(aquisição de habilidades que tenham função prática);
c) independência
(desenvolvimento de capacidades que permitam maior autonomia possível);
d) integração de
prioridades entre família e programa, ou seja, os objetivos a serem
alcançados devem ser únicos e as estratégias adotadas devem ser uniformes.
Dentro desse modelo, é estabelecido um plano terapêutico
individual, onde é definida uma programação diária para a criança. O
aprendizado parte de objetos concretos e passa gradativamente para modelos
representacionais e simbólicos, de acordo com as possibilidades de cada
paciente.
comentários finais
O autismo infantil corresponde a um quadro de extrema
complexidade, exigindo que abordagens multidisciplinares sejam efetivadas,
visando não somente a questão educacional e a socialização, mas
principalmente a questão médica e a tentativa de estabelecer etiologias e
quadros clínicos bem definidos, passíveis de prognósticos precisos e
abordagens terapêuticas eficazes. Com a maior acurácia das pesquisas
clínicas, grande número de subsíndromes ligadas ao complexo autismo deve
ser identificado nos próximos anos, de forma que os conhecimentos sobre a
área aumentem de modo significativo no futuro.
Concomitantemente, o desenvolvimento de vias de pesquisa
biológicas e cognitivas deve trazer futuras implicações não somente na
questão diagnóstica, mas principalmente na questão terapêutica do
transtorno. Somente a partir de uma visão embasada em modelos científicos
claros é que se poderá contribuir para o estudo da questão; ao mesmo
tempo, reflexões realísticas devem buscar o atendimento eficaz dessa
população afetada.
O indivíduo autista pode ser tratado e desenvolver suas
habilidades de uma forma muito mais intensiva do que outra pessoa que não
tenha o diagnóstico e assemelhar-se muito a essa pessoa em alguns aspectos
de seu comportamento, mas sempre existirá a dificuldade nas áreas
caracteristicamente atingidas como comunicação e interação social.
De acordo com o grau de comprometimento, a possibilidade de
o autista desenvolver comunicação verbal, integração social, alfabetização
e outras habilidades relacionadas, dependerá da intensidade e adequação do
tratamento, mas é intrínseco à sua condição de autista que ele tenha maior
dificuldade nestas áreas do que uma pessoa normal. No entanto,
superar a barreira que isola o indivíduo autista do mundo normal
não é um trabalho impossível. O indivíduo autista, apesar de manter suas
dificuldades, dependendo do grau do comprometimento, pode aprender os
padrões de comportamento aceitos pela cultura, exercitar sua cidadania,
adquirir conhecimento e integrar-se de maneira bastante satisfatória à
sociedade. Neste aspecto, o atendimento psicopedagógico muito tem a
contribuir, ajudando o sujeito a resgatar ou vir a conhecer o prazer de
aprender em todas as suas dimensões.
Este estudo pretendeu contribuir para a formação de
conhecimento sobre o autismo, embora muito ainda tenha que ser feito neste
sentido, pois configurou um primeiro passo para esta busca de informação
que deve ser ampliado e qualificado para uma boa atuação profissional.
refeRências
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- Seção Rio de Janeiro; 2000.
-----------------------------------------------------------------------------------------------
NOTAS
[i]
CID.10: Classificação dos transtornos mentais da Organização Mundial
de Saúde (OMS); DSM.IV: Classificação dos transtornos mentais da
Associação Americana de Psiquiatria (APA).
[ii]
Filiada à ABRA - Associação Brasileira de Autismo.
[iii]
Classificação francesa dos transtornos mentais da criança e do
adolescente.
[iv]
Grupo de transtornos caracterizados por
alterações qualitativas das interações sociais recíprocas e
modalidades de comunicação e por um repertório de interesses e
atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Estas anomalias
qualitativas constituem uma característica global do funcionamento do
sujeito, em todas as ocasiões.
[v]
Segundo o DSM IV-TR “a incapacitação dos indivíduos com o transtorno
se torna mais evidente com o passar do tempo”.
[vi]
Segundo a DSM.IV-TR: desaceleração do crescimento cefálico entre 5 a
48 meses de idade, mais perda de habilidade manual voluntárias
anteriormente adquiridas entre 5 a 30 meses.
[vii]
Conforme a DSM-IV-TR: desenvolvimento aparentemente normal durante
pelo menos os 2 primeiros anos de vida. Na maioria dos casos, o inicio
se dá aos 3-4 anos de idade, podendo ser insidioso ou repentino.
Publicado em 04/07/2008