|
Resumo:
Este
artigo aborda a utilização do jogo dramático
da mímica como recurso psicopedagógico em ações
que visam o trabalho sensório-motor assim como
aspectos como desinibição e trabalho em grupo,
a partir de uma experiência vivida na cidade de
Pirapora-MG
Palavras
Chave: Ações Psicopedagógicas, mímica,
arte educação, criatividade, psicomotricidade.
Em
nosso oficio de arte-educadores trabalhamos
diariamente com o jogo dramático como mediador
da criatividade do sujeito que se manifesta na
resolução dos problemas propostos pela própria
instrução do jogo. Em sala de aula geralmente
os resultados dos jogos são transferidos para
um molde estético que irá se caracterizar em
cenas e em futuras mini peças ilustrativas,
entretanto as possibilidades do uso do jogo dramático
não findam por aí, muito pelo contrário. Se
dermos um passo atrás perceberemos que o ato de
selecionar os jogos compreende em si uma busca
por um objetivo. Outro ponto a observar são os
resultados, nada estéticos por enquanto, que
emergem de simples instruções, mas que se
intensificadas podem revelar universos que o
aluno mascara no dia a dia.
IMITAÇÃO
E ENTENDIMENTO DE VERDADE
Segundo
Piaget (1962) a
classificação dos jogos se dão em 1) Jogos
Sensório-Motores 2) Jogos Simbólicos
3) Jogos de Regras. Respectivamente,
os sensório-motores dizem respeito aos
indivíduos de 0 a 2 anos, os simbólicos de 2 a
7 anos e os jogos de regras a partir dos 7. Nos
concerne abordar os jogos simbólicos e os de
regras nesta análise. Uma
das formas do sujeito apreender o mundo que o
cerca é a imitação, das pessoas, dos sons,
das formas e mais adiante de suas semânticas; imitação por princípio é a base das
artes representativas que se espelham na vida
para ‘criar’ ou como diria Platão (1981)
para ‘recriar’, posto que “o conhecimento
na verdade é reconhecimento, é retorno, buscar
e aprender não são outra coisa senão
relembrar” portanto a oportunidade de imitar
as formas da natureza sem pré-conceitos
configura-se num retorno necessário às raízes,
ao que é primitivo. Imitar é, num amplo sento,
conhecer e aprender através das formas geradas
pelo outro os movimentos e gestos
significativos, como feições, palavras, sons,
locomoções etc...
Vivemos
uma experiência interessante na cidade de
Pirapora-MG, possibilitada pelo acordo entre o
Grupontapé de Teatro e a empresa Minas Ligas e
as instituições Pingo de Mel e Abelha
Rainha
quando estivemos, em 2003, presentes com
uma equipe de arte-educadores trabalhando com um
grupo de jovens com queixas escolares e, alguns
deles, vandalismo, nossa primeira grande
dificuldade foi a disciplina, o interesse e o
respeito mútuo em sala assim como com os
professores. A violência diária a qual aquele
grupo estava acostumado deixava nosso céu plúmbeo
de dúvidas. Chegamos a ter graves problemas de
depredação e violência dentro do ambiente de
trabalho, esta situação ameaçava nossa
integridade física e de tal forma o bom
andamento da oficina de teatro.
Com
o andamento do curso, ao todo 15 encontros,
fomos percebendo gradativamente sutis diferenças
nos alunos, a agressão gratuita estava se
transformado em agressividade
uma espécie de pedido de socorro que por incrível
que pareça nos ajudou muito; desta forma o que
era raiva tornou-se afeto, elemento essencial no
funcionamento da inteligência do aluno. Nas
nossas conversas diárias, em roda, ouvíamos um
aluno elogiar a cena do outro e acreditar mesmo
que por flashes, que existia uma verdade no que
faziam e que podiam ir tateando que ela estava lá
em algum lugar dentro deles. Ao final do
trabalho nos perguntávamos: “como conseguimos
encontrar doçura nestes alunos que nos
primeiros dias nos atiravam coisas e
eram totalmente indisciplinados?”
TEATRO
E A GRANDEZA DE CADA UM
Foi
revendo nossos planos de aula que descobrimos a
base de todos os nossos jogos teatrais naquela
experiência: o corpo, o gesto, a mimica.
Sabemos que a linguagem gestual nasceu com o
homem primitivo e renasce todos os dias como
parte da necessidade do mesmo se expressar,
comunicar e ajudar no desenvolvimento geral da
comunidade. Os movimentos expressivos fazem
parte das danças rituais e das cerimônias
religiosas assim como das danças pagãs ao
longo da história. Diziam os gregos que o povo
freqüentava o teatro para se entusiasmar – do
grego ‘en thous’ ou cheio de Deus – e para
renovar o “mana” energia vital que habitava
cada espectador. Não é à toa que a divindade grega do teatro seja Dionísio, o deus
da felicidade, do vinho e do delírio. Sábios
os gregos que nos deixaram o legado dos gestos e
de sua amplitude semiótica.
O
gesto aliado ao que se quer dizer é meio pelo
qual se propaga a afetividade e em si abre
canais de comunicação entre o ambiente
e o sujeito que uma vez
‘entusiasmado’ torna-se mais receptivo às
novas informações ou ao confrontamento de
opiniões. Abaixo segue um trecho de um
manifesto da performer Denise Stoklos sobre o
teatro gestual:
Conta
a história que os gregos entendiam o teatro
como um elemento curativo da alma, em doenças
como a falta de compaixão que é tratável, mas
provoca grandes dores e gera perversões,
inclusive sociais. Conta a história que os médicos
receitavam a ida ao teatro junto a poções. As
poções só se processariam quimicamente no
corpo quando no espírito se operasse também
uma transformação. O teatro trazia à cena
temas que moviam o espírito da humanidade. O público
entrava em contato direto com o que era comum à
natureza interior e investigava-se. Os espetáculos
vivificavam, portanto, a grandeza de cada um.
Primamos
nesta breve análise sobre a utilização da mímica
como recurso psicopedagógico pela mesma acepção
em que os gregos utilizavam o teatro como
‘homeopatia’ necessária. A mímica, é o
teatro estilizado, sem falas, sem a necessidade
de quem faz se expor através de suas palavras e
assim ficar a reboque de críticas caindo no
retrocesso do constrangimento e dos olhares
baixos. A mímica, se bem direcionada é uma
ferramenta que pode auxiliar do diagnóstico ao
acompanhamento psicopedagógico como ação de
interface entre o que é subjetivo e autônomo e
o que é público e heterônomo. Atentamos
porquanto dois elementos que podem desvirtuar o
processo de atendimento psicopedagógico se mal
entendidos.
1)
A produção
do sentido é singular
2)
Não é exigido do aluno que compareça
com a qualidade estética exigida no teatro
tradicional.
Dizemos
isto como quem fala “não faça do seu aluno
um Marceu a circunstância aqui é
outra. Nas oficinas de Pirapora, tivemos os
recursos pedagógicos necessários à quantidade
de alunos que tínhamos em sala, alguns bastões,
esferas de plástico e dois jogos de tabuleiro.
Num primeiro momento nos interessava apenas
conhecer o vocabulário corporal da turma por
meio de dança livre, em seguida com as cartas
do jogo “Imagem
e Ação”
guiamos um a dinâmica de mímica livre a
partir das ações propostas pelas cartas do
tabuleiro. É importante lembrar que nem sempre
as regras sugeridas pelos jogos disponíveis no
mercado servem ao psicopedagogo, deverá este
profissional ter o conhecimento prévio do que
se irá aplicar estabelecendo regras próprias
que sustentem a singular ação psicopedagógica.
MÍMICA
E UTILIZAÇÃO DO GESTO
Uma
vez desinibidos pelo ambiente de alegria e
liberdade criado pelo instrutor, passávamos então
para a ‘dança pessoal’ que na verdade era a
mímica dinâmica, ou seja, deixar que os gestos
produzam significado livremente a partir de estímulos
musicais ou temáticos, ex: “Prisão. O que é
estar preso para você? Vamos tentar esta
improvisação?” ou ainda “Ouçam esta música,
o bolero de Ravel, e se movimentem de acordo com
ela.” Pode-se iniciar com os alunos de olhos fechados ou abertos
dependendo da percepção do instrutor do grupo
em questão, este procedimento é bem aceito
pelas turmas de crianças e pré-adolescentes
pela liberdade criativa de quem executa os
movimentos, já em turmas de adolescentes a malícia
é uma questão a ser considerada na instrução
dos jogos e portanto os temas e músicas deverão,
talvez, partir do universo do aluno, ex: “ao
invés de Ravel, utilizaremos o rapper Eminem...”
Dessa
forma fomos nos afastando dos jogos de imitação
para aqueles em que o aluno podiam ter autonomia
sobre seus próprios movimentos, a imitação tal qual a concebemos nos mostra o
que está acontecendo neste momento, não o que
poderia acontecer, portanto se nos mantivermos
apenas nos jogos de imitação o aluno
cristalizará a realidade tendo uma falsa idéia
de que está desenvolvendo seus potenciais. Como
ação psicopedagógica no trabalho com
dislexia, lateralidade ou coordenação motora
simples, o instrutor poderá partir de objetos
concretos para os ‘invisíveis’ da mímica.
Apertar uma bola de borracha, jogando de uma mão
para a outra, ou em duplas atirando bolas de
meia em linhas retas para que o outro as pegue
somente com uma das mãos; Pega vareta
controlando as articulações e os músculos do
braço e clavícula para que as varetas
desnecessárias não se movam, todos estes
trabalhos podem ser feitos com os objetos reais
e repetidos em mímica para dar a dimensão da
consciência corporal, não basta fazer é
necessário saber o que se está executando e o
caminho pelo qual se consegue executar
determinada ação. Em mímica elementos
naturais como pressão e peso são é deslocados
para outras musculaturas que na vida real não
utilizamos para realizar aquele movimento,
pensando assim, no trabalho com
e sem
o objeto estamos desenvolvendo a consciência
completa do sujeito, que podemos chamar de
psicofísica.
Parafraseamos
Piaget quando diz “O homem é sapiens, porque
é loquens” em “O homem é sapiens, porque não
só porque é loquens!” (MACEDO, 1994.).
Nas
oficinas de Pirapora o trabalho com Mímica
desenvolveu o afeto, a disciplina e o
entendimento corporal, ainda que como fagulhas
do que seria o ideal para alunos naquela faixa
etária. Pudemos perceber também que a má
alimentação e a fragilidade dos núcleos
familiares contribuem para o déficit cognitivo
e sensório-motor destes meninos e meninas, e
que nossa contribuição é um grão na
ampulheta, pequeno em proporção mas
significativo na contagem do tempo da vida.
Bibliografia
Publicado
em 26/01/2005
|