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Resumo:
Reconhecendo
a brincadeira como uma atividade natural
e espontânea da criança, na qual ela
apreende a cultura da qual faz parte,
este artigo traz uma discussão sobre a
importância desta atividade no
desenvolvimento integral da criança pré-escolar.
Palavras-chaves:
brincadeira
– desenvolvimento infantil – criança
pré-escolar – interação social.
O
mundo da criança difere
qualitativamente do mundo adulto, nele há
o encanto da fantasia, do faz-de-conta,
do sonhar e do descobrir. É através
das brincadeiras, atividade mais nobre
da infância, que a criança irá se
conhecer e terá a oportunidade de se
constituir socialmente. É também a
partir da espontaneidade do brincar que
a criança poderá expressar as
diferentes impressões vivenciadas em
seu contexto familiar e social.
A
afinidade da brincadeira infantil com a
natureza da própria criança tem
reconhecimento histórico, por isso, vem
sendo tema de inúmeras pesquisas e
estudos ao longo dos anos. É
interessante destacar que em todas as
concepções teóricas sobre o
desenvolvimento e educação da criança
pequena e na literatura em geral, a
brincadeira aparece como um importante
recurso na construção de conhecimentos
e desenvolvimento integral. A
brincadeira é a atividade que faz parte
do cotidiano de qualquer criança,
independente do local onde se vive, dos
recursos disponíveis, do grupo social e
da cultura da qual faça parte, todas as
crianças brincam. Dentro desta
perspectiva este artigo se propõe a
apresentar algumas das idéias de
autores que relacionam, cada qual à sua
maneira, a brincadeira com o
desenvolvimento infantil, com destaque
maior para os aspectos mais importantes
da teoria histórico-cultural de
Vygotsky e seus colaboradores.
Em
Huizinga (1971) encontramos a expressão
homo ludens para demonstrar que
na vida humana além da capacidade de
raciocinar há uma outra função
importante que é o jogo, o qual se faz
presente também entre os animais. Para
este autor, o jogo é considerado um fenômeno
cultural, reiterando que é no jogo e
pelo jogo que a civilização surge e se
desenvolve. Fica claro que Huizinga
emprega também o termo jogo como sinônimo
de brincadeira no sentido que aqui damos
ao termo.
Brougère
(1997,1998) atribui à brincadeira o
resultado de relações interindividuais, a qual pressupõe uma
aprendizagem social, o que quer dizer
que a brincadeira é uma atividade
aprendida, complementando “brincar não
é uma dinâmica interna do indivíduo,
mas uma atividade dotada de uma
significação social precisa que, como
outras, necessita de aprendizagem”
(p.20).
Château
(1987, p.37) vê no jogo a expressão do
buscar o outro e, em especial, a expressão
do buscar o adulto, a quem a criança
procura imitar, salientando que “[...]
por não poder trabalhar com o adulto a
criança vai primeiramente imitar as
atividades. É por isso que nos jogos de
imitação tão freqüentes entre 3 e 7
anos, as cenas imitadas são quase
unicamente as da vida adulta”.
Orientados
por uma visão psicanalítica do jogo,
Lebovici e Diatkine (1985) vêem a
atividade lúdica como um dos aspectos
mais autênticos do comportamento
infantil. Para os autores o jogo também
supõe uma relação dual, onde “a
experiência psicodramática mostra,
muito claramente, que o papel não
poderia ser assumido sem a presença de
um interlocutor real ou imaginário”
(p.29). E, no entender de Winnicott
(1975), a brincadeira fornece a organização
das relações emocionais proporcionando
o desenvolvimento de contatos sociais, e
assume a função de elo entre a relação
do indivíduo com a realidade interior,
e entre o indivíduo e a realidade
externa.
Foi,
no entanto, a partir da primeira metade
do século XX que as brincadeiras
passaram a ser também objeto de estudo
entre os teóricos que dedicaram suas
pesquisas às representações mentais.
Surgem, então, as contribuições teóricas
de autores como Piaget, Vygotsky,
Leontiev e Elkonin que mostram a importância
e o valor das brincadeiras no
desenvolvimento infantil e na aquisição
de conhecimentos. As pesquisas desses
cientistas influenciaram diretamente o
campo educacional e até hoje suas
ilustres contribuições fazem parte das
atividades curriculares das escolas e de
outras pesquisas na área.
Piaget
(1970, 1975) através dos processos de
assimilação e acomodação, propôs
uma análise de como o jogo se processa
ao longo do desenvolvimento da criança,
realizando uma classificação baseada
na evolução das estruturas mentais que
estão ligadas aos estágios de
desenvolvimento da criança: sensório-motor
(0 a 2 anos), pré-operatório (2 a 7
anos), operatório concreto (7 a 11
anos) e formal (11 a 15 anos), traçando
um paralelo entre o aparecimento desses
estágios de desenvolvimento e dos
jogos.
De
acordo com Piaget (1975), ao longo do
desenvolvimento da criança ocorrem três
formas de jogos: são os jogos de exercícios,
os jogos simbólicos e os jogos de
regras. O jogo de exercício é o
primeiro a aparecer no desenvolvimento
da criança, prolongando-se até os
primeiros dezoito meses de vida. São
jogos que não supõem qualquer técnica
em particular, são apenas exercícios
que implicam no próprio prazer e
funcionamento dos gestos. No jogo de
exercício não está suposto o
pensamento, nem qualquer estrutura
representativa especificamente lúdica,
são jogos que implicam basicamente
atividades motoras de repetição de
gestos e movimentos. Através desses
jogos acontecem os primeiros contatos da
criança com os objetos, com as pessoas
e com o mundo ao seu redor.
Já
o jogo simbólico surge na criança a
partir do segundo ano de vida juntamente
com o aparecimento da linguagem e da
representação, quando a criança começa
a substituir um objeto ausente por
outro. A função do jogo simbólico
para a criança consiste em assimilar a
realidade, ou seja, através da situação
imaginária a criança realiza sonhos,
revela conflitos e se auto-expressa,
reproduzindo diversos papéis, imitando
situações da vida real. Finalmente,
por volta dos 4 e 7 anos surgem as
primeiras manifestações dos jogos com
regras, as quais se desenvolverão dos 7
aos 12 anos, inclusive na vida futura.
Nesta fase, a criança perde
progressivamente o egocentrismo inicial
que vai sendo substituído por um
cooperativismo, tornando sua atividade
mais socializada. Para Piaget
[...]
os jogos de regras são jogos de combinações
sensório-motoras (corridas, jogos de
bola de gude ou com bolas etc.) ou
intelectuais (cartas, xadrez etc.), com
competição dos indivíduos (sem o que
a regra seria inútil) e regulamentados
quer por um código transmitido de gerações
em gerações, quer por acordos momentâneos
(1975, p. 184-185).
Para
Vygotsky (1998) e Leontiev (1998b), o
brinquedo tem intrínseca relação com
o desenvolvimento infantil,
especialmente na idade pré-escolar.
Embora os autores não o considerem como
o único aspecto predominante na infância,
é o brinquedo que proporciona o maior
avanço na capacidade cognitiva da criança.
É por meio do brinquedo que a criança
se apropria do mundo real, domina
conhecimentos, se relaciona e se integra
culturalmente. Ao brincar e criar uma
situação imaginária, a criança pode
assumir diferentes papéis: ela pode se
tornar um adulto, outra criança, um
animal, ou um herói televisivo; ela
pode mudar o seu comportamento e agir e
se comportar como se ela fosse mais
velha do que realmente é, pois ao
representar o papel de “mãe”, ela
irá seguir as regras de comportamento
maternal, porque agora ela pode ser a
“mãe”, e ela procura agir como uma
mãe age. É no brinquedo que a criança
consegue ir além do seu comportamento
habitual, atuando num nível superior ao
que ela realmente se encontra.
No
entender de Vygotsky, é no brinquedo
que a criança aprende a agir numa
esfera cognitiva que depende de motivações
internas. Para uma criança muito
pequena os objetos têm força
motivadora, determinando o curso de sua
ação, já na situação de brinquedo
os objetos perdem essa força motivadora
e a criança, quando vê o objeto,
consegue agir de forma diferente em relação
ao que vê, pois ocorre uma diferenciação
entre os campos do significado e da visão,
e o pensamento que antes era determinado
pelos objetos do exterior, passa a ser
determinado pelas idéias. A criança
pode, por exemplo, utilizar um palito de
madeira como uma seringa, folhas de árvore
como dinheiro, enfim, ela pode utilizar
diversos materiais que venham a
representar uma outra realidade.
Ao
observarmos uma criança em idade pré-escolar
exercendo algum tipo de atividade, é fácil
perceber que o brincar de faz-de-conta
é constante em suas ações e atitudes.
Como essa atividade surge na criança?
De
acordo com Leontiev (1998a, 1998b), o
brinquedo surge na criança no início
da idade pré-escolar, no momento em que
ela sente a necessidade de agir não
apenas com os objetos que fazem parte de
seu ambiente físico e que são acessíveis
à ela, mas com objetos a que ela ainda
não tem acesso, e que são objetos
pertencentes ao mundo dos adultos. Para
superar essa necessidade a criança
brinca, e durante a atividade lúdica
ela vai compreendendo à sua maneira o
que faz parte desse mundo, esforçando-se
para agir como um adulto, por exemplo,
dirigir um carro, andar à cavalo,
preparar uma comida, ou atender um
paciente. A contradição existente
entre a necessidade da criança agir com
os objetos do mundo adulto e a
impossibilidade de operar de acordo com
tais ações, vem a ser solucionada pela
criança através de suas brincadeiras.
É na atividade e, sobretudo, no
brinquedo que a criança supera os
limites da manipulação dos objetos que
a cercam e se insere num mundo mais
amplo.
Para
Leontiev (1998b), o brinquedo é a
atividade principal da criança, aquela
em conexão com a qual ocorrem as mais
significativas mudanças no
desenvolvimento psíquico do sujeito e
na qual se desenvolvem os processos
psicológicos que preparam o caminho da
transição da criança em direção a
um novo e mais elevado nível de
desenvolvimento. É, portanto, na fase
pré-escolar que o brinquedo torna-se a
atividade principal na criança, a qual
se caracteriza como uma atividade cujo
motivo reside no próprio processo e não
no resultado da ação. A atividade da
criança não a conduz a um resultado de
modo que satisfaça suas reais
necessidades. O motivo que a conduz a
determinada ação é, na verdade, o
conteúdo do processo real da atividade.
Como um exemplo disso, podemos citar uma
criança construindo com pequenos blocos
de madeira. O alvo da brincadeira não
consiste em chegar a um resultado final
como montar uma pequena cidade com todos
os detalhes que a caracterizam como tal,
e sim no próprio conteúdo da ação,
no “fazer” da atividade.
A
evolução da brincadeira, conforme
Vygotsky (1998) e Leontiev (1998b), vai
desde uma situação imaginária com
regras ocultas, para um jogo com regras
às claras, contendo uma situação
imaginária oculta. Toda situação
imaginária criada pela criança no início
da idade pré-escolar possui regras de
comportamento implícitas, evoluindo
para o jogo com regras explícitas e uma
situação imaginária implícita. O
interesse da criança pelo jogo com
regras inicia-se no fim da idade pré-escolar,
e desenvolve-se durante os anos
escolares.
Numa
situação de brinquedo, a imaginação
da criança é, segundo Vygotsky (1998),
uma atividade especificamente humana e
consciente, que surge da ação. Em suas
ações, a criança representa situações
as quais já foram de alguma forma
vivenciadas por ela em seu meio sócio-cultural,
ou seja, a sua representação no
brinquedo está muito mais próxima de
uma lembrança de algo que já tenha
acontecido do que da pura imaginação.
Do mesmo modo, Leontiev (1998b) reitera
que a ação numa situação de
brinquedo não provém da situação
imaginária, e sim da discrepância
existente entre a operação e a ação,
explicando: “não é a imaginação
que determina a ação, mas são as
condições da ação que tornam necessária
a imaginação e dão origem à ela”.
(p. 127)
Para
o autor as condições da ação numa
situação de brinquedo podem sofrer
alterações, contando que o conteúdo e
a seqüência da ação correspondam
obrigatoriamente à situação real.
Como um exemplo disso, podemos destacar
uma criança brincando de
“vendedor”. Nesse caso o produto que
se destina à venda pode ser substituído,
mas a seqüência de ações que implica
no ato de vender não pode ser
modificado.
O
prazer também pode ser reconhecido como
um elemento presente na maioria dos
brinquedos. Entretanto, para Vygotsky
(1998), o brinquedo não pode ser
definido somente pelo prazer que a
atividade lúdica dá à criança, pois
a criança pode ter mais prazer em
outras atividades e porque, algumas
vezes, o brinquedo envolve desprazer.
Vygotsky afirma também que uma
brincadeira que interessa a uma criança
de três anos pode não despertar nenhum
interesse a uma criança de seis anos ou
mais; isso ocorre porque a brincadeira não
é uma atividade estática, ela evolui e
se modifica na medida em que a criança
cresce.
Outro
aspecto importante a ser examinado na
brincadeira infantil e sua função no
desenvolvimento da criança é o
conceito de “zona de desenvolvimento
proximal”, ou “zona de
desenvolvimento imediato”, em Vygotsky
(2001). Vygotsky (1998, p.112), afirma
que o brinquedo cria na criança uma
zona de desenvolvimento proximal, que é
por ele definida como
[...]
a distância entre o nível de
desenvolvimento real, que se costuma
determinar através da solução
independente de problemas, e o nível de
desenvolvimento potencial, determinado
através da solução de problemas sob a
orientação de um adulto ou em colaboração
com companheiros mais capazes.
Para
esse autor, o nível de desenvolvimento
real refere-se a tudo aquilo que a criança
já tem consolidado em seu
desenvolvimento, e que ela é capaz de
realizar sozinha sem a interferência de
um adulto ou de uma criança mais
experiente. Já a “zona de
desenvolvimento proximal” refere-se
aos processos mentais que estão em
construção na criança, ou que ainda não
amadureceram. A “zona de
desenvolvimento proximal” é, pois, um
domínio psicológico em constantes
transformações, aquilo que a criança
é capaz de fazer com a ajuda de alguém
hoje, ela conseguirá fazer sozinha
amanhã. É nesse sentido que a
brincadeira pode ser considerada um
excelente recurso a ser usado quando a
criança chega na escola, por ser parte
essencial de sua natureza, podendo
favorecer tanto aqueles processos que
estão em formação, como outros que
serão completados.
Visto
dessa forma, não há dúvidas do quanto
o brinquedo influencia o desenvolvimento
da criança. Ainda que não seja,
conforme Vygotsky (1998), o aspecto
predominante na infância, é através
dele que a criança obtém as suas
maiores aquisições.
A
brincadeira de faz-de-conta também foi
tema de valiosos estudos do autor russo
Elkonin (1998). Para este autor, a base
do jogo de faz-de-conta, também
denominado por ele de jogo de papéis ou
jogo protagonizado, é de natureza e
origem social, tornando-se um meio pelo
qual a criança assimila e recria a
experiência sócio-cultural dos
adultos. Para ele, os temas dos jogos
das crianças são extremamente variados
e são o reflexo das condições
concretas vivenciadas pelas crianças.
Os
estudos sobre o jogo, desenvolvidos por
Elkonin (1998),
tiveram como base as formulações teóricas
de Vygotsky. Assim, para ele, o jogo era
uma forma peculiar de atividade
infantil, apresentando importante
contribuição quando afirma que o jogo
tem como objeto o adulto, suas
atividades e o sistema de relações com
as outras pessoas, conforme descritas em
algumas de suas pesquisas
[...]
deu-se a conhecer às crianças (duas
vezes) o trabalho de uma oficina de
costura, as obras de uma casa, o
trabalho de uma fábrica de jogos de salão
e o funcionamento dos correios. Em todos
esses casos, as crianças só começavam
a brincar depois de saber o que as
pessoas faziam, como trabalhavam e que
relações se estabeleciam entre elas no
processo de produção (ELKONIN, 1998,
p. 34).
Verifica-se,
portanto, que para o autor o jogo
protagonizado está vinculado às relações
pessoais e não simplesmente à percepção
direta dos objetos.
A
partir da leitura desses autores podemos
verificar que a brincadeira é um meio
que a criança utiliza para se
relacionar com o ambiente físico e
social de onde vive, despertando sua
curiosidade e ampliando seus
conhecimentos e suas habilidades, sejam
elas motoras, cognitivas ou lingüísticas,
e assim, temos os fundamentos teóricos
para deduzirmos a importância que deve
ser dada à experiência pré-escolar da
criança.
A
pré-escola, por ser um segmento da
sociedade que se organiza e se estrutura
formalmente, deve oportunizar o
desenvolvimento da criança de acordo
com suas potencialidades e seu nível de
desenvolvimento, pois a criança não
inicia sua aprendizagem somente ao
ingressar na escola, ela traz consigo
uma gama de conhecimentos e habilidades
adquiridas desde seus primeiros anos de
vida em seu ambiente sócio-cultural.
Diante
dessas considerações seria oportuno
salientar também que a pré-escola deve
oferecer à criança um ambiente de
qualidade que estimule as interações
sociais entre as crianças e
professores, e que seja um ambiente
enriquecedor da imaginação infantil,
onde a criança tenha a oportunidade de
atuar de forma autônoma e ativa. E é
neste local que o educador tem papel
fundamental no preparo do ambiente e na
seleção e definição dos objetivos a
serem alcançados por meio da
brincadeira infantil.
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