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Simaia Psicopedagoga

 

A noção de conservação de substância na criança: um estudo piagetiano1  

 

Luciana Wagner Schöffel2

é pedagoga e mestre em Educação pela Faculdade de Ciências e Letras – Unesp de Araraquara/SP.

 

Sandra Lúcia da Silva3

é pedagoga, mestre em educação e doutoranda pela Faculdade de Ciências e Letras – Unesp de Araraquara/SP.

e-mail: luschoffel@hotmail.com

          

Resumo: A realização de um estudo envolvendo a aplicação do método clínico de Jean Piaget surgiu em decorrência da disciplina “Pesquisa Psicogenética e Educação” realizada no curso de Pós-graduação em Educação Escolar da FCL/Unesp de Araraquara/S no segundo semestre de 2002. Baseados nos princípios de conservação de quantidade de substância da teoria piagetiana, este estudo propôs-se identificar em 6 crianças participantes a crença da permanência do objeto sólido, caracterizando-as individualmente em fases de desenvolvimento. Para a coleta dos dados utilizou-se um roteiro de questões para as entrevistas com as crianças, e duas bolas de massa de modelar para a aplicação da prova operatória sobre noção de conservação de substância. Os resultados da pesquisa mostraram que duas das seis crianças (6 e 7 anos) participantes não possuem a noção de conservação de substância, duas (7 e 9 anos) encontravam-se na fase intermediária, e duas (de 11 anos) encontravam-se na fase da conservação de substância, representando a existência de variações entre elas referente ao domínio da noção de conservação de substância. Os resultados obtidos estão de acordo com a teoria piagetiana, a qual propõe que até os seis/sete anos a criança ainda não domina a noção de conservação, já a fase intermediária pode prolongar-se um pouco mais do que supõe a teoria, até os nove anos, como foi um dos casos observados.

 I - Introdução

A teoria psicogenética surgiu das observações de Jean Piaget (1896-1980) com relação a seus próprios filhos. Notando a forma como eles compreendiam o mundo ao seu redor, Piaget, um biólogo suíço, passou a interessar-se pelo modo como o conhecimento era formado na mente infantil.

Deste modo, por meio de várias pesquisas com outras crianças, começou-se a perceber características de pensamento muito semelhantes entre crianças de uma mesma faixa etária; estas características, porém, modificavam-se em crianças de outra faixa etária, e eram semelhantes para este mesmo grupo.

Tais achados levaram Piaget a levantar uma importante questão de pesquisa - a de saber como se passa de um estado de menos conhecimento para outro de mais conhecimento. Ele estava interessado em conhecer a gênese, ou seja, a origem do conhecimento infantil; nome este, que deu origem à teoria elaborada por ele e por colaboradores denominada psicogenética ou epistemologia genética, que significa origem do conhecimento.

Dentro desta perspectiva, o conhecimento se dá através da interação indivíduo-meio, o que quer dizer que sua formação depende das condições internas do indivíduo e da interação deste com o meio em que vive. Por meio desta interação, o conhecimento vai se formando e se estruturando e isto se dá por meio de um processo de assimilação e acomodação.

Tanto um como outro ocorre devido a um desequilíbrio interno entre esquemas novos e esquemas já existentes. Quando, por exemplo, uma criança começa a aprender a andar ela tem um desequilíbrio com relação a seus esquemas anteriores (engatinhar); necessita assimilar um conjunto de ações novas (levanta-se apoiando-se em um objeto, entre outras) e adaptar-se a esta nova habilidade (andar). Isto leva tempo e segue todo um processo que leva à equilibração. Quando a criança aprendeu a andar ela restabeleceu o equilíbrio, que será perturbado quando tiver que aprender algo novo, e assim terá que assimilar e adaptar-se.

Este equilíbrio-desequilíbrio pode levar a refinamentos de esquemas de ação e de estruturas de pensamento fazendo com que a criança passe de um estágio de desenvolvimento para outro mais elaborado. Piaget (1998) identificou três estágios de desenvolvimento: o estágio sensóriomotor, o das operações concretas e o das operações formais. Faremos uma breve descrição deles.

I - No primeiro estágio, o sensóriomotor, que compreende aproximadamente a faixa etária do zero aos 2 anos, a criança exercita e elabora seus esquemas reflexos como sugar e agarrar. Acontecem os primeiros contatos da criança com os objetos, as pessoas e com o mundo ao seu redor. Estes primeiros contatos vão aos poucos tomando várias diferenciações permitindo que a criança identifique as pessoas familiares das estranhas, imite sons e movimentos, desenvolva hábitos com relação a seu próprio corpo (reações circulares primárias) ou com relação a objetos (reações circulares secundárias), e que consiga encontrar objetos escondidos, entre outras coisas. São aquisições simples, porém de fundamental importância na formação de uma base que dará suporte para um refinamento maior no estágio seguinte.

II - O estágio das operações concretas abrange dois períodos: o pré-operatório (2 a 7/8 anos) e o operatório concreto (7/8 a 11/12 anos).

a) O primeiro período, o pré-operatório, se caracteriza pelas primeiras manifestações da capacidade simbólica e da representação mental das relações entre a própria criança e o mundo a seu redor, ou seja, começam a aparecer as primeiras manifestações de pensamento. Estas, podem ser notadas por meio das brincadeiras, da linguagem, das respostas e especialmente das perguntas que as crianças fazem ao adulto. Todos estes aspectos são marcados por uma característica muito acentuada na criança pré-operatória: o egocentrismo, que pode ser definido como “a incapacidade que tem a criança de colocar-se do ponto de vista do outro” (Chakur, 2002, pg. 38).

É interessante observar como este egocentrismo aparece nas explicações das crianças a respeito de vários fenômenos físicos. Piaget as classificou em quatro grupos: Animismo – a tendência em achar que as coisas que se movimentam tem vida; realismo – o conteúdo da própria consciência torna-se real; artificialismo - a tendência em achar que os objetos e fenômenos naturais são fabricados por mãos humanas e divinas e, finalismo – toda causa tem uma finalidade.

Estas tendências mostram como é difícil para a criança pré-operatória entender o acaso e que os fenômenos ocorrem independentemente de sua vontade. Além disso, uma outra limitação muito marcante para esta criança é a de entender a reversibilidade das coisas, operação esta, possível no final da infância, ou seja, na pré – adolescência onde insere-se o período das operações concretas.

b) Período das operações concretas – ao longo deste período o pré-adolescente consegue adquirir várias aquisições. Uma delas é a perda progressiva do egocentrismo inicial que vai sendo substituído por um cooperativismo. De maneira semelhante, no domínio lógico-matemático, há um avanço quanto ao entendimento da reversibilidade, que é a compreensão de que uma operação pode voltar ao seu estado anterior. Há também um domínio de operações como classes, relações e número, entre outras. E embora é comum que haja significativos progressos em vários aspectos, as ações neste estágio se pautam ainda no concreto; a capacidade de fazer abstrações, por exemplo, é um ganho cognitivo que somente será obtido no estágio seguinte.

III – O último dos estágios estudados por Piaget (opus cit) é o das Operações Formais (11 a 12 anos em diante). Ele é especialmente importante pois se caracteriza por um refinamento de todas as aquisições adquiridas desde o estágio sensóriomotor. Neste estágio, o adolescente já não necessita do concreto para tirar conclusões pois pode tirá-las por meio do abstrato. Sua capacidade de abstrair faz com que ele possa solucionar problemas mais complexos, lançar hipóteses e deduções, ou seja, usar do raciocínio hipotético-dedutivo, que é primordial para efetuar operações mais elaboradas e, deste modo, promover o desenvolvimento. 

Estes são os estágios piagetianos de desenvolvimento, são estágios de desenvolvimento intelectual. Resta-nos, no entanto, falar brevemente sobre o desenvolvimento na esfera social.

A transição de um estágio para outro não se dá somente nos domínios físico e lógico - matemático, ocorre, também, no domínio social, onde insere-se o âmbito da moralidade. No livro O Juizo Moral na Criança (1994), publicado inicialmente em 1932, Piaget reúne trabalhos seus e de seus colegas em entrevistas com crianças de 4 a 13 anos. Estas entrevistas envolvem conteúdos como prática e consciência das regras do jogo, a noção de mentira e de justiça.

Por meio destas entrevistas, Piaget (ibid) identificou duas morais: a da coação e a da cooperação - a primeira diz respeito à regra pela regra e a última, à consciência da mesma. A tendência é que a criança inicialmente apresente a moral de coação e que posteriormente vá desenvolvendo um sentido de cooperação. Em todos os conteúdos estudados por Piaget foram identificados vários estágios, mostraremos apenas dois extremos deles:

1. De um modo geral, a criança considera as regras como algo imutável. A verdade e a justiça estão em conformidade com o que é determinado pelo adulto. Da mesma forma, as regras de um jogo não podem ser modificadas. Não se deve mentir por que se é punido.

2. As regras podem ser modificadas se houver acordo entre as pessoas e impostas com o consentimento mútuo. A justiça varia conforme as circunstâncias e não se deve mentir para não perder a afeição e a confiança das pessoas.

Outras pesquisas foram desenvolvidas com relação ao domínio social, elas abrangem noções como dinheiro, riqueza-pobreza, poder, papéis sociais, entre outras noções e, em todas estas pesquisas foram identificados, também, alguns estágios de desenvolvimento. Uma descrição destas pesquisas pode ser encontrada no trabalho de Chakur (2002).

Devemos destacar, ainda, que todas estas pesquisas são realizadas tendo como fundamento o método clínico piagetiano. Esta metodologia é muito utilizada na pesquisa psicogenética por permitir ao entrevistador dialogar, argumentar e contra-argumentar com a criança, dando-lhe, assim, a possibilidade de acompanhar seu pensamento a respeito de uma dada noção, que pode ser de domínio físico, lógico-matemático e social.

Para identificar como a criança raciocina sobre determinada noção é necessário que sejam introduzidas provas compatíveis, ou seja, provas piagetianas específicas. Estas provas podem envolver ou não o uso de material concreto, mas em algumas delas, como as de domínio físico, é imprescindível.

E, assim, por meio de entrevistas e provas é possível identificar se a criança conserva ou domina uma determinada noção e em que estágio de desenvolvimento ela se encontra. Geralmente, são encontrados três estágios – um em que a criança não conserva/domina, um intermediário no qual a criança não está segura de sua resposta e, por fim, o estágio no qual a criança conserva/domina a noção estudada.

Como vemos, o método clínico oferece vantagens com relação a outros métodos quando se trata de estudar a gênese do conhecimento na mente infantil. Diferentemente, por exemplo, do método experimental e do teste que possuem uma estrutura mais fechada, o método clínico permite ao entrevistador dialogar, ou seja, conversar livremente com o entrevistado. No entanto, para que a pesquisa não seja invalidada, este dialogar deve ser muito bem elaborado.

Devido a esta estrutura aberta, o método clínico pode ser considerado como o de aplicação mais difícil, pois requer que o entrevistador tenha preparo para lidar com respostas inesperadas do entrevistado. Além disso, deve ter o cuidado de não interferir no raciocínio da criança de modo que estas passem a produzir respostas sugestionadas.

Delval (1994) classificou alguns tipos de respostas que freqüentemente surgem na entrevista clínica. Algumas delas são relevantes para a pesquisa psicogenética e outras devem ser desconsideradas e evitadas.

As respostas espontâneas, por exemplo, são muito importantes, pois referem-se às respostas contextualizadas que a criança dá sem intervenção alguma por parte do entrevistador. No mesmo grau de importância estão as respostas desencadeadas que se caracterizam como as que surgem em decorrência da entrevista, de modo favorável. Isto já não ocorre no caso das respostas sugestionadas, que surgem devido à intervenção indesejável do entrevistador. Estas devem ser evitadas assim como as respostas fabuladas – respostas que não se contextualizam com a entrevista, quase sempre são histórias que a criança inventa – e, as respostas “não-importistas”, que consiste em qualquer resposta que a criança dá para livrar-se da entrevista.

 

II.     Objetivos.

 Baseados nos princípios de conservação de quantidade de substância da teoria piagetiana - conhecimentos do domínio físico, este estudo propôs-se a identificar nas crianças participantes da pesquisa, a crença da permanência do objeto sólido, ou seja, verificar se a criança possui ou não a noção de conservação de substância, caracterizando-as individualmente em qual fase de desenvolvimento o pensamento da criança se encontra, sendo estas a fase I – não conserva, a fase II – fase de transição, e fase III – conserva a noção de substância.

 III.   Método.

 1.         Participantes.

 Participaram desta pesquisa 6 crianças (4 meninos e 2 meninas), com idades variando entre 6 e 11 anos, alunos de duas escolas públicas de um município do interior do Estado de São Paulo, cujas características de identificação encontram-se descritas no quadro 1 abaixo.

O único critério utilizado para a escolha dos sujeitos da pesquisa foi com relação à faixa etária das crianças, as quais caracterizam, de acordo com a teoria piagetiana, o período das operações concretas, período em que são desenvolvidas várias noções no pensamento da criança.

2Nome

Sexo

Idade

Série

Isabela

F

6 anos

Pré-escola

Gustavo

M

7 anos

Pré-escola

Eduardo

M

7 anos

Pré-escola

Ronaldo

M

9 anos

1° Série

Laís

F

11 anos

4° Série

André

M

11 anos

4° Série

Quadro 1. Relação das crianças participantes da pesquisa.

 2.    Instrumentos utilizados.

 Para a coleta dos dados utilizamos um roteiro de questões para a realização do interrogatório com as crianças participantes, e duas bolas de massa de modelar de aproximadamente 5 cm de diâmetro cada uma, de cores iguais, e para o registro cursivo dos dados utilizamos folhas e caneta.

 3.    Procedimentos de coleta e análise dos dados.

 Para a realização deste estudo, aplicamos nas seis crianças participantes da pesquisa uma prova operatória sobre a noção de conservação de substância, que de acordo com a teoria piagetiana consiste em apresentar à criança duas bolinhas de massa de modelar de cores e tamanho iguais dialogando com ela a fim de que ela reconheça a mesma quantidade de substância nas duas bolinhas.

Após o reconhecimento da equivalência, modifica-se uma das bolinhas transformando-a em uma “salsicha”, mantendo-se o diálogo com a criança, fazendo questionamentos sempre levando em conta suas respostas anteriores. Em seguida são feitas novas transformações em uma das bolinhas, transformando-a em uma “bolacha” e em seguida picando-a em vários pedacinhos, questionando a criança se continua tendo a mesma quantidade de substância. Se a criança responde negativamente, questiona-se em qual delas possui mais substância, se é na bolinha ou na “bolacha”, procedendo-se da mesma forma sobre a bolinha picada.

Para realizarmos o interrogatório com as crianças usamos um roteiro de questões previamente elaborado, sendo este utilizado apenas como apoio, pois as perguntas feitas às crianças devem considerar sempre as “pistas” deixadas em suas respostas anteriores, de modo a elucidar em quais aspectos a criança se centra ao dar a sua resposta. Por conta disso, o interrogatório aconteceu de forma bastante flexível, onde procuramos questionar a criança livremente, sempre levando em conta a última resposta dada por ela.

Em conseqüência disso, e na ânsia de usarmos as contra-argumentações necessárias e, sobretudo criativas, que incidissem sobre o argumento dado pela criança, fez com que nós, duas entrevistadoras sem experiência anterior com a aplicação do método clínico, sentíssemos algumas dificuldades relacionadas com a forma de entrevistar a criança, dificuldades que, ao nosso ver, não poderiam passar desapercebidas estando, então, destacadas e comentadas na parte conclusiva deste trabalho.

Desta maneira, a aplicação do método clínico piagetiano, através de uma prova operatória de conservação de substância teve seu início após visitarmos duas escolas públicas e obtermos a anuência das coordenadoras destas para realizar o estudo com alguns de seus alunos, sendo três crianças provenientes de uma escola da rede municipal de ensino, e três crianças de uma escola da rede estadual de ensino.

A aplicação do interrogatório com as crianças ocorreu de forma individual, sendo realizado em suas respectivas escolas, com duração aproximada de 15 minutos com cada criança.

Em ambas as escolas as coordenadoras nos indicaram as crianças participantes e nos cederam uma sala para que realizássemos o estudo. Desse modo, quando as crianças dirigiam-se até a sala pedíamos que entrassem uma por vez, dizendo que elas iriam participar de uma forma de brincadeira com massa de modelar, e que uma criança não poderia interferir na brincadeira da outra, e assim que acabava o interrogatório agradecíamos a colaboração da criança e a encaminhávamos novamente à sua sala de aula. Antes de iniciarmos o interrogatório, procurávamos conversar cordialmente com a criança de modo que ela não ficasse constrangida com a nossa presença, além de perguntar seu nome, sua idade, e a série em que estudava.

Como éramos duas pesquisadoras, optamos por registrar os dados cursivamente. Assim, enquanto uma pesquisadora interrogava a criança, a outra anotava todos os dados de identificação da criança, as respostas dadas por elas, assim como as condutas da entrevistadora, tanto em seu aspecto corporal como da linguagem. A cada nova criança que interrogávamos procedíamos da mesma maneira, porém a pesquisadora que antes interrogava a criança, agora registrava os dados.

Após concluída a parte prática da aplicação do método, transcrevemos todos os protocolos das crianças, tendo o cuidado para abarcar todos os detalhes do interrogatório. A seguir foi feita a análise dos dados, de forma essencialmente qualitativa, tomando como base os critérios que caracterizam os três estágios de desenvolvimento da noção de quantidade de substância descritos por Inhelder et al. (1977), conforme pode ser visto no quadro 2 a seguir. 

 

 

 

Não-conservação

Quando é apresentada para a criança não-conservadora a primeira deformação da bolinha de massa de modelar, esta irá julga-la maior, mantendo este julgamento mesmo que o experimentador insista sobre a dimensão negligenciada pela criança (ex. salsicha mais fina, mas mais comprida).

O problema da “volta empírica” é resolvido corretamente ou não pela criança.

 

 

 

 

Intermediário

Oscila entre a conservação e não-conservação: numa mesma deformação a criança pode alternar seus julgamentos ora como iguais ou diferentes; faz julgamentos de conservação e não-conservação alternada nas diversas deformações; e pode apresentar alternância de julgamentos quando é contra-argumentada pelo entrevistador.

As justificativas da criança são pouco explícitas e incompletas.

O problema da “volta empírica” é resolvido corretamente pela criança.

 

 

Conservação

As quantidades são sempre julgadas iguais, usando o argumento de “identidade”, de “reversibilidade”, ou de “compensação”.

Os julgamentos de conservação se mantêm apesar das contra-argumentações.

Quadro 2. Caracterização dos estágios de desenvolvimento da criança sobre a noção de conservação de substância

IV.  Resultados e Discussão.

 Os resultados obtidos durante a aplicação da prova piagetiana sobre a noção de conservação de substância com seis crianças estão apresentados neste texto, considerando como critério de análise as descrições da não-conservação, das condutas intermediárias, e da conservação de substância encontrados em Inhelder et al. (1977), como mostra o quadro 2.

Dentre as seis crianças entrevistadas, observou-se que duas crianças não possuem a noção de conservação de substância, duas crianças encontram-se na fase intermediária, e duas crianças encontram-se na fase de conservação de substância, conforme podem ser verificadas nos seguintes protocolos.

Fase I - não-conservação.

Gustavo (7anos)

A entrevistadora transforma uma das bolinhas numa “salsicha”. – E agora? Tem mais, menos ou mesmo tanto nas duas? Esse aqui tem mais (salsicha). – E se fizermos novamente uma bolinha, teria mais, menos ou o mesmo tanto? A entrevistadora faz novamente as duas bolinhas. Aqui tem mais (a que foi transformada em “salsicha”). Na segunda deformação, a criança diz que virou uma rodela de abacaxi. - O abacaxi tem mais, menos ou o mesmo tanto de massa? O abacaxi tem mais. – E se fizéssemos novamente uma bolinha desse abacaxi? Continua sendo maior. Faz-se a terceira deformação: Na bola tem mais. – Por quê? Porque esses pedaços picou e ficaram pequenos.- E se juntássemos todas as bolinhas? Esses iam ficar maior (pedaços).

Isabela (6 anos)

A entrevistadora faz a primeira deformação e a criança diz que parece uma cobra. – Você acha que tem mais menos ou o mesmo tanto de massa? O mesmo tanto. – Por quê? Porque eu já fiz isso. – Mas uma menina me disse que aqui (a salsicha) tem mais, você acha que ela pode estar certa? Acho que ela tá certa. São feitas as bolinhas novamente. – E agora? Tem o mesmo tanto. Na segunda deformação a criança julga a “bolacha” como sendo maior. – E se eu fizer novamente uma bolinha? Fica em dúvida... Iguais. Na terceira deformação: Essa tem mais (migalhas). – Mas as bolinhas de antes não eram iguais? São. Então, porque agora você acha que tem mais? Porque tá picada. – E se fizermos novamente duas bolinhas? Tem o mesmo tanto. A entrevistadora faz novamente as bolinhas. A que virou picadinho tem mais.

Analisando os protocolos do Gustavo e da Isabela, percebe-se que ambos ainda não dominam a noção de conservação de substância, encontrando-se na fase I - da não-conservação, pois a cada deformação apresentada, a quantidade que sofreu a transformação é julgada como sendo maior. Assim, a “salsicha” é considerada maior que a bolinha, uma vez que é mais comprida, da mesma forma que a “bolacha” e as “migalhas” são consideradas maiores que a bolinha. Quando é apresentada a primeira deformação da bolinha à Isabela, esta julga permanecer a mesma quantidade de substância, mas cai duas vezes em contradição quando é contra-argumentada. Ao perguntarmos se uma outra menina poderia estar certa em considerar a “salsicha” maior ela responde afirmativamente, mas logo muda sua opinião quando é contra-argumentada novamente, dizendo que tem o mesmo tanto.

E referindo-se a questão da “volta empírica”, encontramos diferenças entre essas duas crianças. Gustavo, por exemplo, não resolve de forma correta, para ele a quantidade que sofreu a deformação continua sendo a que possui maior quantidade de matéria, mesmo refazendo a bolinha anterior. Já Isabela, em algumas situações, consegue resolver corretamente e em outras não. A “bolacha”, por exemplo, é considerada por ela a mesma coisa quando volta a ser uma bolinha, mas as “migalhas” num primeiro momento são consideradas a mesma coisa, e num segundo momento é considerada maior, afirmando que a que virou picadinho tem mais.

Diante do exposto, e de acordo com a leitura de Piaget et al. (1971), depreende-se que essas duas crianças, por encontrarem-se na fase da não-conservação, são incapazes de perceber a invariação da quantidade de substância quando a bolinha sofre alteração em sua forma, estando o pensamento da criança impressionado apenas pelas diferenças de espessura, comprimento ou diâmetro.

 Fase II – intermediária.

 Eduardo (7 anos)

A entrevistadora faz a primeira deformação: - Você acha que as duas têm o mesmo tanto de massa? Sim. – Por quê? Porque eu vi o tamanho dessa e dessa aqui. - E se eu fizesse novamente uma bolinha, terá o mesmo tanto? Tem. Na segunda deformação: - A “bolacha” tem mais, menos, ou o mesmo tanto que a bolinha? A bola tem mais. – Mas como é que antes as duas bolinhas tinham a mesma quantidade? Antes já é passado. – Tem uma criança que disse que as duas têm a mesma coisa. Ta certo? É. Tem. III deformação: Tem o mesmo tanto (a bola e as “migalhas”). – Por quê? Porque as “migalhas” são mais grossas.

Ronaldo (9anos)

I deformação: - Agora tem mais, menos ou mesmo tanto de massa? Tem o mesmo tanto. – Como você sabe? Dá pra ver. – Como? Aquela hora da bolinha. II deformação: - A “bolacha” tem mais, menos ou o mesmo tanto de massa? Tem o mesmo tanto. – Como você sabe? Porque sim, porque eu vi. III deformação: Tem mais. – Onde? Na bolinha. – Mas antes como estava? Igual. – Por que agora tem menos? Porque tá picado. 

Ao analisarmos os protocolos de Eduardo e Ronaldo foi possível observar algumas contradições em suas respostas, dando mostras de que o pensamento destas crianças oscilou entre a fase I – da não conservação, e a fase III – da conservação de substância.

Eduardo, por exemplo, durante a primeira e a terceira deformação conservou a mesma quantidade de massa, apesar das contra-argumentações da entrevistadora. Já na segunda deformação não obteve o mesmo êxito, afirmando que a bolinha possuía mais massa que a “bolacha”, e ao ser questionado sobre o retorno das duas bolinhas iniciais responde imediatamente que “antes já é passado”, atribuindo alguma diferença para essa nova situação.

Ronaldo, por sua vez, mantém seu julgamento de conservação de substância durante a primeira e a segunda deformação da bolinha, afirmando confiantemente que nada mudou porque “dá pra ver ... aquela hora da bolinha”, indicando a alteração apenas no formato e não na quantidade. Porém ao ser questionado sobre a terceira deformação, Ronaldo afirma que na bolinha tem mais massa, porque a outra foi picada e tem menos.

Diante disso, os protocolos dessas duas crianças nos deram mostras claras de que seus julgamentos sofreram variações diante das três deformações da bolinha, vindo a indicar que o pensamento delas encontra-se na fase intermediária, conforme demonstram Inhelder et al. (1977).

 Fase III – conservação de substância.

 Laís (11 anos)

I deformação: Tem o mesmo tanto. – Se comêssemos a bolinha e a “salsicha”, estaríamos comendo o mesmo tanto nas duas? Ia. – Por quê? Porque era uma bolinha. II deformação: - E agora? São iguais. – Mas uma menina me disse que ela comeria esse (“bolacha”) porque ela estaria comendo mais. Você acha que ela está certa? É tem mais na “bolacha”... são iguais, mas na “bolacha” parece que tem mais. III deformação: É a mesma coisa. – Por quê? Porque antes era uma bolachinha e só foi quebrada. – E se voltássemos a fazer as duas bolinhas, continuaria a mesma coisa? Não. Tem mais nos pedaços.

André (11 anos)

I deformação: - Tem a mesma quantidade de massa nas duas? Tem. – Por quê? Porque tirou do mesmo tanto (bolinha). II deformação: - E agora? Tem o mesmo tanto numa e noutra? De formato não, mas tem o mesmo tanto. – Se fôssemos comer, estaríamos comendo o mesmo tanto de massa? Sim. III deformação: - Continua tendo o mesmo tanto? Separada não, mas juntando tudo tem a mesma quantidade.

 As respostas obtidas durante o interrogatório com essas duas crianças nos dão mostras suficientes de que elas possuem a noção de conservação de substância. Nas respostas de Laís, nota-se a insistência em afirmar que a “salsicha” e a “bolacha” parecem possuir mais quantidade de massa e, embora, não faça nenhum comentário que justifique sua opinião, a resposta “parece que tem mais” refere-se ao novo formato da bolinha, que alterado causa a impressão que aumentou de tamanho, mas que em quantidade continua sendo a mesma coisa. Essa idéia, no entanto, é confirmada quando Laís justifica que as “migalhas” possuem a mesma quantidade de massa que a bolinha, porque antes esta era uma “bolacha” que apenas foi quebrada. Ela consegue perceber que o seccionamento da “bolacha” não altera a quantidade de substância, somente se alteram as dimensões, que agora são vários pedaços menores.

Quando é apresentada ao André a primeira deformação da bolinha, este usa um argumento dito de “identidade”, afirmando que a “salsicha” continua tendo a mesma quantidade porque foi tirada do mesmo tanto (da bolinha), chegando até num dado momento julgá-la maior, o que prontamente nos leva ao entendimento que seu julgamento refere-se apenas ao formato da “salsicha” e não à quantidade de substância, mantendo suas conclusões apesar das contra-argumentações feitas pela entrevistadora. Por sua vez, na segunda e na terceira deformação, são usados argumentos de “compensação”, uma vez que a “bolacha” achatada fica maior (no formato), mas é o mesmo tanto (em quantidade), da mesma forma que as “migalhas” separadas não são consideradas a mesma coisa por ele, mas se juntarmos tudo passa a ter a mesma quantidade, notando-se novamente a diferenciação somente no formato.

Assim, as respostas dessas crianças nos conduzem a compreensão de que o pensamento perceptivo não se detém apenas na ótica da mudança de dimensão (comprida, achatada), o que poderia conduzir à idéia de aumento de quantidades. Contrariamente, elas são capazes de perceber que uma simples alteração no formato da bolinha não acarreta em alteração da quantidade de substância, permanecendo a mesma coisa numa e noutra quantidade e, como afirmam Piaget et al. (1971), as relações perceptivas da criança cedem às relações operatórias, tornando-se aptas a coordenar-se entre si.

 V.   Conclusão.

 Neste trabalho pode-se verificar que existem variações entre crianças referente ao domínio da noção de conservação de substância. Os resultados obtidos durante a aplicação da prova operatória piagetiana com seis crianças estão de acordo com a teoria, a qual propõe que até os seis anos a criança não domina a noção de conservação. No entanto, os resultados sugerem ainda, que a fase intermediária pode prolongar-se um pouco mais do que supõe a teoria, podendo prolongar-se até os nove anos, como foi um dos casos observados. Entretanto, haveria a necessidade de um número maior de amostras para confirmar ou não essa tendência.

Mas, de um modo geral, a aplicação do método clínico piagetiano, através de uma prova operatória com massa de modelar não somente atingiu o objetivo estabelecido, como nos permitiu conhecer por meio das respostas e argumentações das crianças os caminhos percorridos para se chegar ao pensamento operatório.

Outras considerações que devemos ressaltar, diz respeito, também, ao modo como experienciamos a aplicação do método clínico, considerando nosso primeiro contato com esta metodologia.

Ao serem feitas as primeiras aplicações destas provas e ao levá-las para a discussão em sala de aula, foram notadas várias dificuldades vivenciadas pelo entrevistador, que em nosso casso, nunca havia tido experiências anteriores com a aplicação do método clínico. São dificuldades com relação à forma de entrevistar, dificuldades estas que envolvem desde o cuidado para não influenciar as respostas da criança, até aquelas com relação ao receio de não conseguir acompanhar o roteiro de perguntas estabelecidas previamente. Por outro lado, foi notada também a presença de um impacto, que se refere ao momento em que a criança dá uma resposta inesperada, exigindo, assim, que o entrevistador possa intervir de modo eficaz e, ao mesmo tempo, criativo.

São dificuldades que, sem dúvida, serão superadas com outras experiências, dando-nos, assim, um melhor refinamento quanto à forma de entrevistar. No entanto, devemos ressaltar que dar o primeiro passo nesta direção foi para nós uma aprendizagem muito significativa.

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1 Pesquisa desenvolvida durante a disciplina Pesquisa Psicogenética e Educação Escolar, ministrada pela Prof. Dra. Cilene Ribeiro de Sá Leite Chakur, do curso de Pós Graduação em Educação Escolar da Faculdade de Ciências e Letras – Unesp, Campus de Araraquara/SP.

2 Os nomes das crianças são fictícios para preservar suas identificações.

 

Publicado em 03/02/2007

 

 

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Simaia Sampaio Maia Medrado de Araújo
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Revisado em: 10/06/2011