|
A
IMPORTÂNCIA DA BRINCADEIRA NO
DESENVOLVIMENTO DO SER HUMANO.
Marina
Miranda Fiuza - pós-graduada em
Psicopedagogia Institucional e graduada em
Letras pelas Universidade Federal de Minas
Gerais. Atua como professora de inglês,
atualmente em São Paulo.
E-mail:
marinafiuza@yahoo.com.br
|

|
A
partir da década de oitenta o Brasil vem
assistindo um forte e constante crescimento da
população economicamente ativa feminina
(Nogueira, 2004). Junto a esse crescimento também
aumentaram estatisticamente a esperança de vida
das mulheres e o seu nível educacional. Essa
emancipação feminina no âmbito profissional
é de fato uma grande conquista para a autonomia
das mulheres. Contudo, a inserção da mulher no
campo de trabalho causou grande impacto sobre a
vida familiar. Além de mudar a estruturação
da família e de reduzir o número de filhos,
consideramos aqui uma mudança íntima na relação
entre mãe e filho nos primeiros anos de vida.
As mulheres dispõem, por lei brasileira, de 120
dias de licença maternidade, tendo que encerrar
a amamentação e deixar os filhos muito cedo
para retornar ao trabalho. Não é
intuito, porém, neste trabalho, discutir nem
julgar as razões das mulheres que decidem ou
precisam trabalhar fora de casa, mas, sim,
ressalvar a importância da qualidade do momento
em que a mãe se faz presente ao filho.
De acordo com
Neumann (1905-1960) a fase embrionária, em que
o bebê está intimamente ligado à sua mãe física
e psicologicamente, compreende os nove meses
intra-uterinos e um ano pós-uterino1
. Ao voltar para o trabalho após a
licença maternidade, a mulher concede a uma
outra pessoa ou instituição a responsabilidade
de executar tarefas essenciais para a sobrevivência
de seu filho, quebrando essa relação direta de
dependência entre mãe e filho. A partir deste
momento, as limitações do bebê serão
complementadas por outra pessoa capaz de
proporcionar conforto, proteção, higiene e
alimento. Supridas essas necessidades, e somadas
a um ambiente estimulante que acarretarão nas
maturações das funções inatas da espécie
humana, estima-se que a criança se desenvolva
plenamente.
Mais que
sobreviver, todos sabemos, as relações
afetivas são de extrema importância neste
processo de desenvolvimento da inteligência
infantil. De acordo com Neumann (1905 – 1960)
a ausência da mãe durante a fase primal
(primeiro ano de vida) representa mais que a
perda de uma fonte de alimentos.
Para um recém-nascido
– até mesmo quando continua sendo bem
alimentado – equivale à perda da vida. A
presença de uma mãe amorosa que fornece
alimentação insuficiente não é de forma
alguma tão desastrosa quanto à de uma mãe
pouco afetuosa que fornece alimento em abundância.
2
Gerda
Verden-Zöller, psicóloga alemã, dedicou-se à
observação e estudo da relação afetiva entre
mãe e filho nos primeiros anos de vida e seus
reflexos na formação da consciência social e
individual da criança. Mais especificamente, a
psicóloga observou os efeitos das interações
corporais entre esses dois seres, as quais ela
definiu como “o brincar”.
O biólogo
chileno Humberto Maturana, quem colaborou com o
trabalho da psicóloga alemã, afirma que:
(...) uma criança
necessariamente chegará a ser, em seu
desenvolvimento, o ser humano que sua história
de interações com sua mãe e os outros seres
que a rodeiam permitir, dependendo de como sua
corporeidade se transforme nessas interações. 3
O que observamos
nas relações de uma sociedade onde “tempo é
dinheiro” é uma constante necessidade de se
justificar o propósito e a intenção de
qualquer ato, além de estipular resultados
dessas relações. Ao focar nas conseqüências
e resultados das nossas ações, acabamos por
nos afastar daquilo que fazemos no momento em
que o fazemos. Assim, “nos tornamos
indiferentes para o presente como ponto de
partida de qualquer coisa que fazemos”.
(Verden-Zöller, 2004, p. 128)
A mãe que
depois de um dia de trabalho fora de casa vai
brincar com o filho se sentindo culpada por sua
ausência, não está, de fato, presente na
brincadeira, pois sua orientação interna está
presa no trabalho ou até mesmo na ausência. Da
mesma forma, a mãe que brinca de médico com o
filho querendo despertar nesse interesse pela
medicina, também não está presente na
brincadeira porque tem sua orientação interna
focalizada no futuro promissor que deseja ao
filho. Em ambos os casos citados não ocorrem,
de acordo com Verden-Zöller, o brincar.
“Brincar”
seria, então, o envolvimento entre uma mãe e
seu filho em “qualquer atividade vivida no
presente de sua realização e desempenhada de
modo emocional, sem nenhum propósito que lhe
seja exterior.” (Verden-Zöller, 2004, p. 144)
A mãe que, se sentindo culpada, brinca com o
filho para compensar o tempo que passou
trabalhando fora de casa e a mãe que injeta na
relação com o filho suas aspirações futuras,
não respeitam a legitimidade do presente dessa
relação, por isso, não brincam. Elas não
prestam atenção no processo da brincadeira em
si mesmo, mas sim nos resultados esperados da
brincadeira.
Por isso, não são
os movimentos ou as operações realizadas que
caracterizam um comportamento específico como
brincadeira ou não, mas sim a atenção
(orientação interna) sob a qual ele é vivido
enquanto se realiza. (Verden-Zöller, 2004, p.
145).
É natural,
entretanto, que mães não estejam presentes na
brincadeira com os filhos. Visto o crescimento
no indicie de mulheres que trabalham fora de
casa, é bastante provável que todas elas que
deixaram filhos em casa se sentiram culpadas uma
ou, mais provavelmente, várias vezes. Enquanto
estão no trabalho, pensam nos filhos em casa e,
assim, não se encontram de fato presente na sua
atividade profissional. Ao chegar a casa e
tentar suprir o tempo ausente, a culpa lhes
afasta da brincadeira. Também, mesmo que não
propositalmente, toda mãe já manifestou seus
desejos para o futuro dos filhos enquanto
relaciona-se com ele. Trata-se de manifestações
emocionais naturais das mães que buscam o
melhor para os filhos e que se angustiam na
separação de seu rebento. Não há nada de mal
nisso, desde que essas ausências não aconteçam
de forma sistemática.
Ao se
ausentar compulsoriamente das brincadeiras
projetando-as no passado ou no futuro a mãe
nega a presença do filho e sua biologia,
podendo causar-lhe distúrbios de crescimento.
Como resultado desta falta, Verden-Zöller diz:
O resultado é
que, em geral, enquanto interagimos com outros
seres humanos nossa atenção está voltada para
mais além da interação, isto é, para as
conseqüências que esperamos. Desse modo, não
vemos o outro como um participante efetivo do
encontro, não vemos as circunstâncias nas
quais este acontece, ou não vemos a nós mesmos
com o outro. Se essa limitação acontece a uma
mãe, ela não encontra seus filhos na interação
e estes vivem uma privação de contato corporal
que interfere no desenvolvimento normal, tanto
em sua corporeidade quando em sua auto-consciência
e consciência social. Em outros termos, a criança
não se auto-aprende como um Eu integral no
respeito e aceitação de si mesma; não aprende
a si própria como um ser social no respeito ao
outro e, assim, não desenvolve consciência
social. (Verden-Zöller, 2004, p. 143)
Ao contrário, as
crianças que se percebem presentes aos olhos da
mãe durante a brincadeira, se confirmam
enquanto seres, crescendo como adultos normais
psíquica e fisiologicamente.
Brincar
consiste num ato que se vive no presente e
somente nele, guiado pelo puro prazer de sua
realização. A brincadeira oferece um momento
de intensa intimidade entre mãe e filho,
proporcionando uma aceitação afetiva e
corporal mútua, fator que é, por sua vez,
fundamento da saúde psíquica e do
desenvolvimento da consciência corporal e
social.
O fenômeno
social fundamenta-se na disposição
corporal de uma pessoa que, através de uma ação,
constitui o outro em coexistência. Sob o ponto
de vista biológico, essa disposição corporal
é chamada amor. (Maturana, Verden-Zöller,
2004).
A criança
que vive com amor na brincadeira do viver alcançará
a autoconsciência e crescerá, mesmo longe dos
pais, com a efetiva corporeidade de um ser
social seguro pela aceitação e respeito próprios,
capaz de orientar-se sozinha sem temer ou
corromper-se pela integração social.
Para tal não
é necessário que a mãe esteja constantemente
presente na vida do filho. Basta que, nos
momentos em que ela dispor desse convívio, ela
esteja, de fato, presente.
O
trabalho da Dr. Verden-Zöller, além de alertar
as mães para o crescimento dos seus filhos na
construção de pessoas dignas e independentes,
sugere a recuperação da capacidade de brincar
de seres já formados. Aquele que ama pintar,
por exemplo, encontra-se em sua essência
enquanto segura o pincel e, pelo prazer da ação,
brinca enquanto pinta. Da mesma forma brinca o
professor enquanto ensina e brinca o médico ao
realizar uma operação num paciente.
A cultura
ocidental moderna salienta as competições e
focaliza os resultados, criando pessoas num
vazio existencial que só será preenchido por
aqueles que sabem viver o cotidiano num contínuo
e prazeroso brincar.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
Avaliação
psicopedagógica da criança de 0 a 6 anos /
VeraBarros de Oliveira e Nádia A. Bossa orgs. –
Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. – (Coleção
Psicopedagogia e psicanálise)
MATURANA, HUMBERTO
R. , 1928 Amar e brincar: fundamentos esquecidos
do humano do patriarcado à democracia / Humberto
R. Maturana, Gerda Verden-Zöller; tradução de
Humberto Mariotti e Lia Diskin. –São Paulo:
Palas Athena, 2004.
NOGUEIRA, CLAUDIA
MAZZEI. A Feminização no mundo do
trabalho:
entre a emancipação
e a precarização. Publicado in: PARTICIPACÇÃO
BOLETIM DO BLOCO DE ESQUERDA PARA O TRABALHO,
nº 10, Nov/Dez. 2004. Lisboa/Porto, Portugal.
Disponível em: <
http://www.espacoacademico.com.br/044/44cnogueira.htm
>.
PORTILLO, VANILDE
GEROLIM. O Relacionamento Mãe-Filho nos primeiros
meses. 2001. Disponível em <
http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos/Relacionamento%20mae%20filho.htm
>.
SPITZ, R. A. O
Primeiro Ano de Vida. 7 ed. São Paulo: Martins
Fontes, 1996. 279p.
Publicado
em 17/06/2009
|