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Há
algum tempo temos ouvido falar muito em
construtivismo, cujo caráter
pedagógico de muitas escolas vem
sofrendo transformações. Muitas tentam
adequar-se de forma coerente preparando
seus profissionais, oferecendo cursos de
extensão, de relações interpessoais e
exigindo dos mesmos a prática
construtivista dentro da sala de aula,
no caso dos professores e fora dela como
coordenadores, orientadores,
supervisores e até mesmo os
“esquecidos” funcionários da
secretaria, tesouraria, portaria. Porém
outras escolas, aos trancos e barrancos,
meio que “remendado”, tentam fazer o
que não é nem construtivista nem
tradicional. Na verdade é uma mistura,
cujo conceito ainda tento elaborar, cujo
método ainda tento desvendar.
A analogia feita com o refrão da
música: Onde está o dinheiro? O gato
comeu! O gato comeu!, ilustra uma
realidade conhecida de muitos
educadores: dúvida, incerteza,
insegurança quanto à aplicabilidade do
construtivismo, idealizado por Piaget,
ficando reduzida a uma tentativa
frustrada cuja prática permanece longe
daquilo que realmente se constitui.
A escola faz para os pais, aquele belo
discurso de época de campanha
eleitoral. Usa termos familiares e
envolventes: “nosso filho” está
indo muito bem, “nosso fulano” está
brincando muito em sala de aula, anda
muito desatento. O pronome possessivo em
questão mascara uma imagem puramente
falsa fazendo os pais acreditarem que
seus filhos estão seguros ali, tal qual
os eleitores que, iludidos pelo
discurso, acreditam naquele político
que certamente votarão.
Os pais acabam acreditando que naquela
escola seus filhos estarão realmente
aprendendo. Mas aprendendo o que? A
decorar conceitos do tempo de seus
avós? A receber tudo pronto sem
questionamentos? A não pensar e sim a
reproduzir?
É lamentável ver a empolgação de
professores que entram nestas escolas
com toda energia e gás, querendo
colocar em prática tudo que aprenderam
ou estão aprendendo na faculdade.
Lamentável porque esta empolgação
geralmente não dura mais que seis meses
em sala de aula. E até mesmo aqueles
professores que não freqüentaram a
faculdade, mas que tem grandes idéias
afins ao construtivismo, sentem-se
frustrados ao restringirem-se às
exigências impostas pela escola.
Ao depararem-se com um sistema pronto,
com módulos ou livros adotados pela
instituição que servirão de guia para
as aulas, os professores ficam obrigados
a usá-los até o fim da unidade, não
restando mais nada a fazer senão
extrair o máximo dali, isto é, se der
tempo.
O professor prepara uma bela aula
construtivista, recheada de exemplos
práticos tirados do cotidiano dos
alunos. Maravilha! Só tem um problema:
uma aula assim precisaria de algum tempo
para os alunos darem tudo de si, exporem
tudo que pensam sobre aquele assunto,
sem falar que um assunto puxa outro e
surgem as intermináveis, mas
construtivas dúvidas. No entanto muitas
escolas não estão dispostas a abrir
mão de seu programa, de seu
planejamento. Assim, cabe ao professor
cumprir este programa com pressa, cujos
alunos são os maiores prejudicados,
tornando-se vítimas deste processo
ilusionista.
A conseqüência de tudo isto são os
problemas de aprendizagem, já
conhecidos em nosso meio escolar. E
porque será que estes problemas são
tão constantes?
A maioria dos professores não faz
distinção ou não tem conhecimento dos
quatro períodos, identificados por
Piaget, que correspondem ao
desenvolvimento das estruturas da
inteligência. Dolle (2002, p. 104)
expõe estes períodos da seguinte
maneira: período sensóriomotora (até
os 2 anos); período da inteligência
simbólica ou pré-operatória (de 2 aos
7-8 anos), período da inteligência
operatória concreta (de 7-8 a 11-12
anos), período da inteligência
operatória formal (a partir de 12 anos,
com equilìbrio entre 14-15 anos).
Identificar estes períodos é de grande
relevância para o trabalho pedagógico
pois, é baseado neles que o professor
saberá quais atividades mais adequadas
para cada idade.
É este um dos grandes problemas
enfrentados pelos alunos e que
aparentemente ainda não foram
solucionados. Professores aplicam
problemas matemáticos correspondentes
ao nível de inteligência operatória
formal (a partir dos 12 anos) para que
estas crianças, que ainda atuam no
operatório concreto, tentem solucionar.
Levantar hipóteses, fazer suposições
ainda não corresponde a esta faixa
etária, isto só irá acontecer mais
tarde. “Não estaria aí a origem do
horror à matemática tão comum entre
nossos alunos? Parece então ser de
primordial importância para o educador
conhecer as etapas do desenvolvimento
cognitivo da criança para poder adequar
o ensino a essas etapas” (CARRAHER,
2002, p. 80)
Segundo Piaget (1987), a criança dos 7
aos 11-12 anos encontra-se no período
operatório concreto, ou seja, ela só
opera sobre o concreto sem a
possibilidade de levantar hipóteses.
“A inteligência operatória consiste,
pois, em classificar, seriar, enumerar
os objetos e suas propriedades no
contexto de uma relação do sujeito ao
objeto concreto direto e sem a
possibilidade de raciocinar sobre
simples hipóteses”. (PIAGET, p. 116,
1987).
O professor que tem conhecimento dos
termos assimilação, acomodação e
adaptação, retirados por Piaget da
Biologia tem grandes chances de tornar
sua aula mais atraente. Na assimilação
o aluno irá incorporar um novo objeto
ou idéia ao que já é conhecido. A
acomodação é a transformação que o
organismo sofre para lidar com o
ambiente, ou seja, diante de uma nova
idéia o sujeito modifica seus esquemas
adquiridos anteriormente para adaptar-se
à nova situação (GOULART, 1995, p.
16). Por isso a importância de se fazer
um pré-teste antes de iniciar um
assunto para que se verifique o quanto
deste assunto os alunos sabem e a partir
daí elaborar sua aula com o objetivo de
facilitar o processo de aprendizagem.
Carraher (2002, p. 19) nos fala que
aprender a pensar sobre assuntos é mais
importante que aprender fatos sobre os
mesmos assuntos. Que o ensino e a
aprendizagem deverão ser vistos como um
convite à exploração e à descoberta
ao invés de transmissão de
informações e de técnicas. Conforme
Weiss (2003, p. 100) “...há
professores que contribuem para a
construção de bloqueios e condutas
aversivas com a Matemática, pelo seu
discurso autoritário e ameaçador,
exigências absurdas, criação de clima
geral de insegurança em sala de aula,
contribuindo para a formação de baixo
autoconceito”.
Outro problema é que, a maioria dos
professores, tendem a reproduzir ali, em
sala de aula, mais precisamente no
quadro negro, o assunto tal como está
no livro. Alguns alunos realmente
possuem mais facilidade para entender,
mesmo sendo desta forma tão
tradicional, tão pouco estimulante,
porém outros não. Desta forma, poderá
dar-se início a uma diferenciação
entre os próprios colegas: “como
você não conseguiu entender, é tão
fácil!” E o professor, que não
estiver atento aos seus alunos,
certamente passará por cima das
dúvidas de alguns que, envergonhados,
não questionarão, não participarão,
e possivelmente não aprenderão.
O professor atento é aquele que,
percebendo que alguns não estão
participando da aula e das atividades,
procuram saber o motivo, tentando
modificar esta situação.
A não assimilação do conteúdo pelo
aluno poderá gerar, no mesmo,
frustração e baixa auto-estima já
que, possivelmente, sentir-se-á
diferente do grupo. Muitas vezes, este
mesmo grupo passa a discriminá-lo com
apelidos pejorativos,depreciando ainda
mais sua auto-imagem, o que poderá
levá-lo a acreditar que não é capaz e
sua aprendizagem ficará refém desta
segregação.
Weiss (2003) nos diz que “Casos há em
que tal desinteresse é visto como um
problema apenas dos alunos, sendo ele
encaminhado para diagnóstico
psicopedagógico por ‘não ter o menor
interesse nas aulas’ e ‘não estudar
em casa’, baixando assim sua
produção”.
Quando esta criança chega ao
psicopedagogo, seja através de um
encaminhamento da escola, seja pela
preocupação da família, ela já está
carregada de frustrações. E o que
fazer agora?
O psicopedagogo, a princípio, fará um
diagnóstico através do qual iniciará
uma investigação para “obter uma
compreensão global da sua forma de
aprender e dos desvios que estão
ocorrendo nesse processo” (WEISS,
2003, p. 28).
É importante observar que a forma de se
operar na clínica para se fazer um
diagnóstico varia entre os
profissionais dependendo da postura
teórica adotada.
Na linha da Epistemologia Convergente,
Visca nos informa que o diagnóstico
começa com a consulta inicial (dos pais
ou do próprio paciente) e encerra com a
devolução (1987, p. 69). Portanto, o
profissional que segue esta linha, fará
o diagnóstico dentro de oito a dez
sessões seguindo as seguintes etapas:
1. Entrevista inicial de contrato com os
responsáveis; 2. Realização da
E.O.C.A. (Entrevista Operativa Centrada
na Aprendizagem) com o sujeito; 3.
Aplicação das provas operatórias de
Piaget e provas projetivas
psicopedagógicas; 4. Anamnese com os
pais ou responsáveis; 5. Entrevista,
com o sujeito e os responsáveis, para
devolução e encaminhamento.
Os profissionais que optam pela linha da
Epistemologia Convergente realizam a
anamnese após as provas para que não
haja “contaminação” do relato
trazido pela família, pois “... os
pais, invariavelmente ainda que com
intensidades diferentes, durante a
anamnese tentam impor sua opinião, sua
ótica, consciente ou inconscientemente.
Isto impede que o agente corretor se
aproxime ‘ingenuamente’ do paciente
para vê-lo tal como ele é, para
descobri-lo. (Visca, 1987, p. 70).
Após estas sessões o psicopedagogo
irá verificar se há realmente a
necessidade de um atendimento
psicopedagógico. Em algumas situações
faz-se necessário mais de um
encaminhamento além do psicopedagogo,
tais como psicólogo, fonoaudiólogo,
neurologista etc. Só após o
diagnóstico, o psicopedagogo irá
verificar tais necessidades.
Confirmada a necessidade do tratamento e
iniciado o atendimento psicopedagógico,
a criança poderá sentir-se mais livre
das pressões e mais confiante, já que
estará num lugar onde terá a
possibilidade de trabalhar com jogos
diversos, objetos e atividades de seu
interesse e que poderão ajudá-la a
sentir-se mais confiantes em suas
atitudes. É possível que perceba que o
olhar do psicopedagogo é de ajuda, que
não será cobrada pelo certo ou errado,
que lhe será ensinado como aprender a
aprender e assim poderá dar um grande
passo para sua aprendizagem sentindo-se
mais capaz e acreditando em seu
potencial.
Para finalizarmos, deixarei um
questionamento para todos aqueles que,
direta ou indiretamente, são
responsáveis pela educação destes
alunos que, através de um grito de
silêncio, clamam para serem ouvidos.
Relatando todo este processo, será que
esta criança precisaria estar num
consultório psicopedagógico? Será que
se a escola abandonasse um pouco o seu
egocentrismo esta criança não teria
novas chances de mostrar suas
capacidades? Será que o professor não
poderá reverter esta situação
colocando-se no papel de advogado de
defesa destas crianças que só esperam
a chance de provar que são inocentes e
capazes?
Devo, é claro, fazer uma ressalva:
existem casos de crianças que realmente
possuem dificuldades de aprendizagem,
por mais que tenham todo o
acompanhamento do professor. Daí a
importância de um encaminhamento ao
psicopedagogo, para que seja feito um
diagnóstico e observadas todas estas
variáveis.
O construtivismo não está perdido. Ele
poderá ser facilmente encontrado nas
esquinas do comprometimento com a
educação, nas lojas de
responsabilidade, nas vitrines da
paciência, nas avenidas de um olhar
atencioso e nas escolas que já
superaram o modelo tradicional e
passaram a acreditar nesta nova, embora
não tão nova possibilidade de fazer
educação, sem que o aluno seja visto
como o único responsável por seu
fracasso escolar.
Bibliografia:
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Brasil: contribuições a partir da
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2000.
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________________. Para compreender Jean
Piaget: Uma iniciação à Psicologia
Genética Piagetiana. Rio de Janeiro,
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GOULART, Íris Barbosa (org.). A
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SEBER, Maria da Glória.
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WEISS, M. L. L. Psicopedagogia Clínica:
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