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Simaia Psicopedagoga

 

Sobre a Sociedade do Conhecimento

 

Patrícia Nunes Tavares

Mestre em Psicopedagogia pela UNISA, doutoranda em Psicopedagogia pela UNISA, docente dos cursos de especialização em Psicopedagogia da UNISA, onde atua também como pesquisadora.

E-mail: ptav@ig.com.br

 

  Um dos objetivos deste trabalho é abordar, através de uma pesquisa bibliográfica, os paradigmas da sociedade do conhecimento, situando o Brasil nesses valores emergentes, visto que , a produção do conhecimento no âmbito da Psicopedagogia está profundamente intrincada com os aspectos sociais vigentes.

A necessidade de um estudo sobre a sociedade do conhecimento é decorrência do reconhecimento das transformações no mundo em que vivemos, o qual, com a virada de milênio, tem-se revelado um cenário para intensas pesquisas. Cada vez de forma mais veloz, as inovações e produtos de todos os tipos são desenvolvidos e difundidos, interferindo em todas as formas de atividades econômicas e na sociedade, de uma maneira geral. As mudanças têm como demanda a introdução de novos procedimentos e a renovação dos procedimentos até então dominantes.

Dentro dessas novas tecnologias, o computador, com todas suas funcionalidades, inclusive o acesso à Internet, tem contribuído em muito para o desenvolvimento da sociedade do conhecimento. Já a Internet está mudando o mundo, porque oferece às pessoas milhões de oportunidades e facilidades. A forma como as informações são oferecidas gera uma necessidade de movimento, de partir em busca do conhecimento, visto que as mudanças ocorrem a velocidades assombrosas a cada segundo. Mas, dentro desse novo “layout”, fica uma questão: será que as pessoas e especificamente os brasileiros estão preparados para as possíveis mudanças ocasionadas pelo uso da internet?

A internet pode mudar o mundo, mas os indivíduos precisam mudar o seu modo de lidar com as informações. Sobretudo no que se relaciona ao mundo virtual, em que a maioria das informações se encontra no idioma inglês, já é preciso derrubar essa primeira barreira e expandir os horizontes na conquista de novas ferramentas de linguagem, pois o conhecimento não é uma arma e muito menos um objeto de poder para se concentrar nas mãos de poucos especialistas. O conhecimento é a expressão de uma vida, de pensamentos, e deve ser encarado pelas pessoas com respeito e não como uma via de controle.

Pessoas capazes de utilizar a Internet, de lidar com o conceito de aprendizagem por vias virtuais, de processar informações de maneira a socializá-las, não se formam da noite para o dia. Mesmo estando com os valores da sociedade do conhecimento em voga, é difícil deixar de lado representações do trabalho, formadas dentro de um conceito da sociedade industrial, as quais determinam o modo de ação das pessoas que ainda podem estar apertando parafusos sem se dar conta do lindo carro que existe no final da linha de produção.

A Internet é uma ferramenta que permite um conhecimento global sobre tudo e todos estamos envolvidos nesse processo. A ferramenta existe, mas nossos olhares precisam superar limites, ultrapassando a nossa ilusão de uma segurança que faz parte do passado e impede o crescimento e a mudança de paradigma. As informações não têm limites e podem produzir ações num sistema global, ainda que haja a tentativa de construir um todo por meio de ações fragmentadas.

Agora, o poder não é mais gerado apenas pelo domínio dos bens tangíveis, pela manipulação da matéria e dos meios políticos e institucionais, mas, sim, cada vez de maneira mais crescente, define-se pelo controle dos bens intangíveis, do uso adequado do que é imaterial, seja no campo das informações ou até mesmo dos conhecimentos. Espera-se que os indivíduos assumam graus cada vez maiores de excelência na manipulação desses meios, na busca do tratamento das novas formas de tecnologia.

É importante, aqui, enfatizar o processo de globalização nessa jornada rumo ao poder. O termo globalização, desde sua origem, sempre foi estruturado dentro de um forte conteúdo ideológico, visando à formação de um mundo sem fronteiras, em que estar inserido nessa imensa rede proporcionaria uma sensação de igualdade e de possibilidades de articulação enormes. Com o desenvolvimento das forças econômicas em escala global, o poder estaria diluído nas mãos de muitos, não importando o lugar do planeta onde as pessoas estivessem estabelecidas. Seguindo a linha de Chesneaux (1995) , a globalização é um processo que envolve transformações nos significados de intensificação das comunicações , temporalidade, espacialidade, desterritorialização, integração mundial, modernidade técnica e reflexividade social.

Mas, segundo Lastres (1999, p. 11):” (...) as análises sobre o atual processo de globalização geralmente não incluem duas grandes regiões do planeta, que juntas comportam mais de sessenta países, a África e a América Latina “.

Ou seja, a globalização pode ser vista como um processo válido somente para os países desenvolvidos.

A produção de conhecimentos, informações e tecnologias, considerados importantes para o desenvolvimento mundial, está concentrada em espaços econômicos e sociedades muito bem delimitadas, fazendo com que a globalização assuma características cumulativas de vantagens para grandes e poucos conglomerados, localizados em pontos extremamente desenvolvidos do mundo.

A delimitação da área de produção dos bens intangíveis torna a proliferação do conhecimento controlada e o acesso às informações regulado pelos países que possuem vantagens competitivas dentro de uma escala sócio-econômica. Observa-se que, com a finalidade de se manter a hegemonia, os grandes talentos, na maior parte dos casos, habitam lugares escolhidos a dedo por uma minoria dominante. O conhecimento é codificado, permitindo um desenvolvimento controlado.

É importante destacar que informação e conhecimento são termos que se correlacionam , mas não são sinônimos. Aliás, convém salientar que a denominação “sociedade do conhecimento” foi o formato encontrado pelos brasileiros para traduzir “sociedade da informação”, expressão conceitualmente mais realista, visto que para Rubem Alves ( apud Nagel, 2002, p.03) “o ato de conhecer ‘é’ fundamentalmente diverso do ato de informar-se”.

Dessa forma, estabelecidas as diferenças entre conhecimento e informação, é importante salientar que dentro do conceito de conhecimento existe o conhecimento codificável, que é passível de ser socializado , reproduzido, compartilhado e comercializado, mas que também existe o conhecimento tácito.

O conhecimento tácito é o conhecimento mais individualizado, que impossibilita a sua universalização, na forma de símbolos, e depende de aspectos específicos para a sua decodificação. Assim, como já foi dito, o desenvolvimento passa a ser limitado a regiões que controlam o conhecimento tácito e que dominam a decodificação dos variados símbolos que compõem essa forma de poder. Com isso, países desenvolvidos garantem sua hegemonia e aumentam a distância em relação aos países em desenvolvimento, os quais não têm acesso ao conhecimento de acordo com as demandas do processo de globalização, ao menos teoricamente.

O Brasil, dentro desse cenário de propagação e expansão do conhecimento, permanece, em muitas situações, à mercê de informações importadas e, portanto limitadas, já que somos um país com recursos financeiros não muito bem aproveitados e submetidos a políticas externas de controle. Independente disso, ao se analisar a situação brasileira do ponto de vista interno, sempre houve uma alta exploração dos recursos naturais e a formação de uma imagem de que o Brasil é um país de riquezas naturais infindáveis, de mão-de-obra barata e de muitas fontes de energia.

A exportação de bens tangíveis é a tônica da economia brasileira, tornando-se a grande luta dos governantes a briga pelo aumento da produção desses tipos de bens e pela instalação de indústria relacionada aos bens tangíveis. Ainda é uma economia baseada em fatores retrógrados, o que a deixa mais vulnerável. Há uma extrema dependência da importação dos bens intangíveis e, conseqüentemente, um baixo investimento em ciência e tecnologia.

O que se sabe é que, no Brasil, ainda existe uma defasagem entre os momentos vividos pelos países da Europa e pelos Estados Unidos. Nessa época de transição da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento, ao Brasil cabe o papel de importador e consumidor de bens intangíveis e exportador de produtos industrializados. Sempre a nossa sociedade permanece em defasagem em relação aos países desenvolvidos, tornando a discussão sobre a sociedade do conhecimento algo inovador e imprescindível para que o Brasil, dentro do possível, esteja num patamar competitivo.

Todas as sociedades necessitam de uma constante renovação, inclusive a brasileira, e a defasagem, em vez de ser encarada com uma ameaça, pode assumir a roupagem de uma oportunidade, tudo depende do ponto de vista. O uso da tecnologia transforma as potencialidades das empresas e, aliado ao uso da criatividade, permite que algumas se destaquem de maneira rápida.

O Brasil é um país com potencial imenso para a produção dos mais variados tipos de “softwares”, produto que pode enriquecer a competitividade brasileira dentro dessa nova economia. Além disso, a biodiversidade existente no território nacional permite o desenvolvimento dos mais variados tipos de medicamentos, bem como sua exportação. O Brasil tem grande destaque na teledramaturgia, produzindo programas de alta qualidade, os quais são assistidos no mundo inteiro. A produção musical brasileira é muito conhecida e apreciada, e a cada ano que passa surgem novos talentos. O cinema está ganhando seu espaço, consolidando a imagem brasileira de um povo criativo e flexível.

Atualmente, a tecnologia da informação é essencial para tornar competitivas as economias em desenvolvimento no comércio global. Dentro dessa realidade, o Brasil, em termo gerais, encontra-se bem colocado. Experiências como a entrega do imposto de renda pela Internet, o uso intensivo de tecnologia pelos bancos brasileiros e nos processos de eleição, assim como a liderança regional do país no comércio eletrônico entre empresas são pontos positivos e de destaque mundial. O que precisa haver é o estímulo  da troca de experiências tecnológicas bem sucedidas entre os países em desenvolvimento.

É preciso haver processos que estimulem o aprendizado, capacitando as pessoas e levando-as a um acúmulo constante de conhecimento. O potencial brasileiro existe, bem como a criatividade para que se faça uso das informações, mas é necessária uma mobilização dos governantes no sentido de incentivar o crescimento da economia do aprendizado, na qual o aprendizado é o processo mais importante.

Autores como Lundvall (1994), Johnson (1994), Foray (1996) e Borras (1998) (apud LASTRES, 1999, p. 50-51) consideram o uso do termo “economia do aprendizado” muito apropriado, visto que o conhecimento agiria apenas como um recurso estratégico que possibilitaria o pleno processo do aprendizado. Para esses autores, “talvez mais grave ainda do que não possuir fontes de acesso a informações seja não dispor de capacidade de aprendizado e conhecimento suficientes para fazer uso das mesmas.”

A capacidade de aprendizado de um país é determinada não apenas pelo investimento em tecnologia da informação, mas também por fatores de base, como alimentação e saneamento básico, fatores que influem em muito para o desenvolvimento global dos seres humanos. Dessa forma, dentro da realidade brasileira, existe um trabalho de  longo prazo a ser realizado para o acesso dos brasileiros ao advento da “economia do aprendizado”.

É necessário que haja uma expansão dos conhecimentos dentro dessa nova realidade que se instaura, para que seus preceitos sejam introjetados de maneira mais consolidada. A discussão entre países precisa ocorrer de modo mais igualitário. O fato é que conceitos como informação, conhecimento e aprendizado são fundamentais para que se possa entender o mundo socioeconômico contemporâneo.

Notava-se, na sociedade industrial, uma maior cobrança de atitudes inteligentes e competentes das pessoas que estavam em cargos de chefia, de coordenação, já que a inteligência era separada do corpo, do trabalho braçal. Portanto, aos operários sobrava a parte relacionada ao esforço físico, não sendo exigido qualquer esforço mental.

O Brasil, com sua economia fortemente voltada para atividades relacionadas à indústria, tem seu processo de gestão, de uma maneira geral, fortemente influenciado pelas diretrizes da sociedade industrial. Mas sabemos que, atualmente, a inteligência e a competência são qualidades imprescindíveis em qualquer tipo de atividade ou nível de atuação, não sendo um atributo apenas dos chefes. Por isso, estimular o processo criativo dentro das empresas e o melhor aproveitamento do potencial brasileiro, com a finalidade de promover a sua melhor integração aos valores da sociedade da aprendizagem, torna-se algo interessante.

 

Referências Bibliográficas

 

Bauman, Z. (1998). Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Cavalcanti, M., Gomes, E. & Pereira, A.(2001). Gestão de empresas na sociedade do conhecimento: um roteiro para a ação. Rio de Janeiro, RJ. Editora Campus.

Chesneaux, J. Modernidade-Mundo. Rio de Janeiro: Vozes, 1995.

Figueiredo, J. C. (1999). O ativo humano na era da globalização. São Paulo. Negócio Editora.

Harvard Business Review. (1999). Gestão do Conhecimento. São Paulo. Editora Campus

Harvey, D.(1993) A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo, Loyola.

Lastres, H. M. M.& Albagli, S. (1999). Informação e Globalização na Era do Conhecimento. Rio de Janeiro, RJ. Editora Campus.

Negroponte, N. (1995). A vida digital. São Paulo: Companhia das Letras.

Nicolaci-da-Costa, A.M. (2000). A tecnologia da Intimidade. Em Sociedade Brasileira de Computação (Org.), Anais do III Workshop sobre Fatores Humanos em Sistemas de Computação (pp. 155-177). Porto Alegre, RS: SBC.

Rebecchi, E.(1990) O sujeito frente à inovação tecnológica. Petrópolis, Vozes / Ibase.

Schement, J.R. e Curtis, T. (1997). Tendencies and tensions of the Information Age. New Brunswick: Transaction Publishers.

Siqueira, H. S. G. & Pereira, M.A .O sentido da autonomia no processo de globalização. Revista Educação. Centro de Educação Universidade Federal de Santa Maria. RS. V.22, n º 02, 1998.

Zaremba, R. (2001). Escrevendo (ou seria 'teclando'?!) o homem do século XXI. Dissertação de Mestrado não-publicada, Curso de Pós-Graduação em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.

 

 

Publicado em 06/09/2004

 

 

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Simaia Sampaio Maia Medrado de Araújo
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Revisado em: 10/06/2011