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TRANSTORNO  DE  DÉFICIT  DE ATENÇÃO E  HIPERATIVIDADE  EM CRIANÇAS: DIAGNOSTICANDO PARA PODER TRATAR

Paula Silvana Cezar Pereira Koenig[1]

   Pedagoga e aluna do curso de  Pós-Graduação  em   Psicopedagogia    Clínica e Institucional Unilasalle Canoas- RS

E-mail:  paula_koenig@hotmail.com


Resumo: O presente artigo trata de crianças que têm dificuldades em manter a atenção. São crianças que geralmente apresentam temperamentos difíceis, impulsividade, agressividade, falta de atenção, planejamento, organização, além de falhas na inibição comportamental. Também traz os aspectos históricos  do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade   (TDAH) e realiza um estudo de caso, visando esclarecer questões relacionadas a este transtorno.

Palavras-chave: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade – Estudo de caso – Desatenção – Impulsividade.  

 

Abstract: This article deals with children who have difficulty sustaining attention. These are children who often have difficult temperament, impulsivity, aggression, lack of attention, planning, organization, and gaps in behavioral inhibition. It also provides the historical aspects of the disorder Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) and conducts a case study in order to clarify issues related to this disorder.
Keywords: Disorder Attention Deficit Hyperactivity Disorder - Case Study - Inattention - Impulsivity.
 

1.1 Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade: onde começou a história  

Na atualidade, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é considerado um distúrbio bio-psicossocial, isto é, envolve fortes fatores genéticos, biológicos,  sociais e ambientais que contribuem para a intensidade dos sintomas.  Rodhe, Mattos e cols. (2003), escreveram que  o TDAH já foi entendido como um transtorno comportamental que afetava apenas os meninos, porém, hoje em dia, é facilmente diagnosticado também em meninas, adolescentes e adultos.

Rohde, Barbosa, Tramontina & Polanczyk (2000) datam o primeiro registro na literatura médica que faz referência aos sintomas do TDAH na  metade do século XIX. Desde então, vários foram os nomes atribuídos a este transtorno e ao longo do século XX, muitas foram as opiniões e discussões em torno de suas causas e efeitos na vida das pessoas.

Em 1999, Scahill e colaboradores, estudando 449 crianças da zona rural  perceberam que o TDAH também pode estar associado à baixa renda familiar, à crianças que vivem em lugares superpovoados, à história de doenças maternas psiquiátricas e à famílias desestruturadas.

Segundo Barkley (2006, p. 15), em 1865 já havia referências de  crianças com TDAH e foi na poesia do médico alemão Heinrich Hoffman que o transtorno apareceu pela primeira vez, porém, o crédito científico acabou ficando com George Still e Alfred Tredgold que foram os primeiros autores a se dedicarem a este comportamento infantil que hoje identificamos como TDAH. 

Still acreditava que crianças impulsivas, agressivas e desafiadoras possuíam um “defeito no controle moral” e que na maioria dos casos se apresentava como crônico. Pensava ainda que estas crianças tinham adquirido o defeito em decorrência a uma doença cerebral aguda.

Em 1908, Tredgold e anos após, Pasamanick, Rogers e Lilienfeld usaram a teoria das lesões precoces, leves e despercebidas para justificarem déficits de aprendizagem e comportamento. Tanto Still, como Tredgold observaram ser possível obter melhoras temporárias na conduta de crianças com TDAH , a partir de medicamentos ou alterações no ambiente, mas ainda assim, enfatizaram a permanência relativa da deficiência nestes casos.

 Desde então, o TDAH passou a ser associado com doença cerebral com patologias comportamentais. Motivo pelo qual, alguns investigadores começaram a estudar outras causas potenciais destas “lesões cerebrais” e manifestações comportamentais. Shirley (1939) apontou os traumas natais,  Meyers e Byers ( 1952) a encefalite e outras infecções como o sarampo, Byers e Lord (1943)  a toxicidade do chumbo, Levin ( 1938)  a epilepsia, Blau (1936) Werner e Strauss (1941) os traumatismos cranianos.

Para Srtauss e Lehtinen (1947), as crianças que sofriam deste transtorno, deveriam estudar sob fortes recomendações de que as salas de aula deveriam ser pequenas, com reduzidas quantidades de estímulos visuais e de que até mesmo as professoras deveriam privar-se de adornos, ou vestimentas muito coloridas para não chamar demais a atenção para si, desviando o foco de aprendizagem do aluno.  

De acordo com Barkley ( 2006, p. 18):

Foram necessárias muitas décadas para que pesquisadores separassem as contribuições de retardos intelectuais, dificuldades de aprendizagem, ou outras deficiências neuropsicológicas das contribuições dos déficits comportamentais para a falta de adaptação destas crianças. 

Embora ecos destas recomendações ainda sejam muito comuns em salas especiais, pouco ou nenhum respaldo científico são encontradas para a sua eficácia.

Como visto, o TDAH já foi considerado de muitas maneiras, a partir de diversos estudos que aos poucos foram sendo aprimorados e esclarecidos.  

O que sabemos é que o TDAH é muito mais do que um transtorno de comportamento, embora muitas vezes seja confundido com o mesmo, é uma disfunção orgânica por falta da produção de substâncias químicas pelo cérebro. 

1.2 O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade na criança e suas implicações 

Rodhe, Mattos e Cols. (2003, p. 53), definem o TDAH como uma disfunção no funcionamento cerebral. Devido a variações nas manifestações clínicas e possivelmente, a complexidade dos processos biológicos implicados na origem de seus sintomas, supõe-se que há alterações em diferentes sistemas de neurotransmissores que devam estar envolvidas.

Mattos (2005, p. 42) afirma que: 

[...] existem muitas teorias que envolvem os genes relacionados à dopamina, uma substância existente no sistema nervoso, que permite a comunicação das células nervosas. A noradrenalina também parece estar envolvida. Também sabemos que os circuitos que envolvem o lobo frontal (a parte anterior do cérebro) e suas conexões estão envolvidos.  

 Barkley ( 2002, p.35), um importante contribuidor das pesquisas sobre TDAH, afirma que este transtorno é uma falha no desenvolvimento de autocontrole que consiste em problemas com períodos de atenção com o controle do impulso e com o nível de atividade.

Segundo Rohde & Benczick (1999) o portador do TDAH apresenta três características principais: desatenção, agitação e impulsividade. Contudo, para que o diagnóstico de TDAH possa ser confirmado, é necessário que a criança[2] tenha a avaliação de um profissional capacitado, pois, tais características também podem ser encontradas em crianças sem o transtorno.

Barkley (2002), em um de seus livros, nos traz mais alguns sintomas que devem ser considerados na hora da avaliação de uma criança com TDAH: excesso de atividades, emotividade, baixa tolerância e aparente falta de limites.

Goldstein ( 2001) nos aponta quatro tipos de TDAH[3] que  classifica como :

a) Tipo desatento – quando a criança não enxerga detalhes ou comete erros por falta de cuidado, quando ela tem dificuldades em manter a atenção, parecendo não ouvir, quando não consegue seguir instruções, nem se organizar, quando evita ou não gosta de tarefas que exigem um esforço mental prolongado, quando distrai-se  com facilidade ou quando esquece atividades diárias.

b)      Tipo Hiperativo/Impulsivo – quando a criança manifesta grande inquietação, mexendo as mãos, os pés ou se remexendo na cadeira além do normal, tendo dificuldades em permanecer sentada, quando corre sem destino ou sobe em móveis e árvores, quando encontra obstáculos para engajar-se numa atividade silenciosa, quando fala excessivamente e responde perguntas antes delas serem formuladas e quando interrompe ou se intromete em assuntos alheios.

c)      Tipo combinado – quando a criança apresenta a combinação dos dois conjuntos de critérios (Desatento e Hiperativo/Impulsivo).

d)      Tipo não específico – quando a criança apresenta algumas características, mas não o suficiente para chegar a um diagnóstico completo. 

Mattos (2005, p. 22) nos aponta que para se concluir um diagnóstico preciso é obrigatório que os sintomas se apresentem antes dos sete anos de idade e que causem problemas em pelo menos em dois contextos diferentes ( por exemplo, casa e escola). Entretanto, diagnosticar TDAH quanto a criança apresenta um quadro clássico ( os quatro tipos citados anteriormente) não é tarefa difícil. O diagnóstico só começa a ser dificultado quando há comorbidades, ou seja, quando há outros distúrbios aliados ao TDAH.  Segundo Barkley (2008), entre as comorbidades mais freqüentes encontramos : 

1.3 Diagnosticando e tratando a criança portadora do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade 

Rohdes e Mattos (2003, p. 56) apontam os exames de neuroimagem (NI) como um apoio para diagnosticar o TDAH. Salientam que há diferentes possibilidades de exames NI’s, porém, os principais métodos funcionais são a tomografia por emissão de pósitrons (PET) e a tomografia por emissão de fótons únicos (SPECT). Ainda nos apresentam  a ressonância magnética funcional (RMF) que difere do PET e do SPECT por não ser invasiva, não requerendo radiofármaco. Já os principais  métodos estruturais são a tomografia computadorizada de encéfalo (TC) e a ressonância magnética (RM). A TC analisa a estrutura cerebral e não apresenta aplicabilidade nas pesquisas sobre o TDAH. A ressonância magnética (RM) não utiliza radiação e também permite avaliar a estrutura cerebral, porém, com maior precisão que a TC.

Pesquisas podem ser realizadas com PET e SPECT requerem radiofármacos que marcarão a atividade cerebral, ou a ligação de receptores neuronais, que posteriormente será quantificada.

Burkley ( 2008, p. 95) também enfatiza o uso do DSM-IV ( diagnóstico usado oficialmente) que foi desenvolvido pela American Psychiatric  Association no ano de 1994 e revisado em 2000. Os critérios do DSM-IV estipulam que os indivíduos devem ter apresentado sintomas de TDAH por pelo menos seis meses consecutivos e que estes sintomas devem ocorrer em um grau que represente inadequação ao nível de desenvolvimento, sendo apresentados até os sete anos de idade.

Enfim, como vimos, há diferentes técnicas de se diagnosticar corretamente um portador de TDAH, porém, é necessário que  a  pessoa suspeita deste transtorno tenha acesso à médicos qualificados.

O TDAH é considerado uma deficiência educacional tratável, mas não curável, considerando isto, muitas intervenções podem ser feitas com o intuito de amenizar os sintomas que podem causar a repetência escolar, rejeição por parte dos colegas, suspensão escolar, desempenho abaixo da média, entre outros.

Visando  amenizar estes sintomas,  Ballone (2005), nos traz o Metilfenidato que no Brasil, chamamos de  Ritalina. Este, é um remédio que pertence a um grupo de psicoestimulantes e é considerado a melhor escolha pela Associação Brasileira de Déficit de Atenção - ABDA, ( 2009) que afirma que “a Ritalina deve ser considerada a primeira opção no tratamento do TDAH”. Ainda em nosso país, encontramos outra denominação para o Metilfenidato que chamamos de “Concerta”.

Segundo Mattos (2005, p. 149).:

Os medicamentos de primeira escolha, os estimulantes são considerados muito seguros e trazem benefícios enormes em pouco tempo [...] Quando o portador de TDAH está tomando a medicação (e portando tem sua produção de neurotransmissores regularizada), qualquer outra abordagem que se faça, em especial a psicoterapia e a modificação do ambiente, traz resultados muito melhores do que se ele não usasse medicamentos.

 

Entretanto sabemos que além do remédio, muito do sistema educacional deve ser analisado, a fim de darmos melhores condições de tratamento à crianças portadoras do TDAH. Benczik apud Rohde e Mattos (2003, p. 199) aponta a superlotação escolar como fator contribuinte para o baixo rendimento não só das crianças portadoras de TDAH, mas para as demais também.

Rohde e Mattos ( 2003, p. 204) afirmam que na hora dos pais matricularem seus filhos portadores de TDAH procurem escolas que “ tenham a preocupação com o desenvolvimento global do aluno”, visto que algumas escolas visam apenas um tipo específico de sucesso , seja ele acadêmico, artístico ou esportivo. A escola que melhor atenderá a um portador de TDAH é aquela cuja visão está focada para o desenvolvimento potencial individual, respeitando as diferenças. Também é necessário que pais e professores trabalhem juntos, em estreita colaboração um com o outro.

Além do tratamento farmacológico e da intervenção escolar, os pais de crianças portadoras de TDAH ainda podem contar com a ajuda de um psicopedagogo a fim de complementar o tratamento de seus filhos.

De acordo com Mattos ( 2005, p. 150): 

 [...] a psicoterapia não vai diminuir os sintomas básicos do transtorno (desatenção, hiperatividade e impulsividade) mas permitir, isto sim, que se administre melhor esses sintomas no dia-a-dia e também que se atenue o impacto que eles têm na vida do indivíduo.  

Enfim, a Psicopedagogia não promete reduzir os casos de TDAH, mas sim, tornar o dia-a-dia dos portadores deste transtorno, um pouco melhor. Ajudando a formar cidadãos auto-confiantes e cientes da realidade a sua volta.   

1.4 Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade em meninas 

Rohde e Mattos ( 2003, p. 59) afirmam que em casos de TDAH “a população feminina é a menos estudada”. Segundo Mattos (2005, p. 29), isto se dá porque:

 

[...] o TDAH é mais comum em meninos do que em meninas. Entretanto, como a forma hiperativa é mais comum no sexo masculino, os meninos tendem a criar mais confusão e incomodar mais em sala de aula, sendo, então, encaminhados para avaliação médica a pedidos dos professores. Ora, como são mais encaminhados, também são os mais diagnosticados! As meninas apresentam mais frequente a forma desatenta e não perturbam tanto. Ou seja, não são frequentemente encaminhadas para uma avaliação e, assim, passam muito tempo, ou toda a vida, sem um diagnóstico.

 

Ainda , segundo Cantwell (1996) e Biederman ( 1999), as meninas são subjugadas pois tem poucos sintomas de agressividade/impulsividade, baixas taxas de transtorno de conduta e alto nível de co-morbidade com transtorno de humor e ansiedade. De acordo com os mesmos autores, o tipo combinado em meninas é mais freqüente em relação ao tipo desatento, e o de menor freqüência é o tipo imperativo/impulsivo, conforme vemos no gráfico a seguir:

 

 

 

Sendo assim, fica fácil entender porque há tantas disparidades quando o assunto é incidência entre meninos e meninas portadores de TDAH.

De acordo com Rohde e Halpern (2004), existe uma proporção (em estudos populacionais) entre meninos e meninas afetados de aproximadamente 2x1. Já em estudos clínicos, esta variação pode aumentar significativamente, evoluindo de 9x1. 

Entretanto, algumas pesquisas mostram que a taxa de prevalência de TDAH é semelhante entre os sexos. No ano de 1990, Breen e Altepeter, estudando as diferenças comportamentais e cognitivas de meninos e meninas com TDAH, observaram que não havia diferença significativa entre os sexos. Este foi o primeiro trabalho a divergir dos pesquisadores da época, quando, de acordo com Gaião ( 2001), ainda não se predizia a igualdade da freqüência do TDAH em ambos sexos.

Quanto ao tipo de crianças que este transtorno afeta, as pesquisas que indicam que não há conclusões claras quanto à classe social ou diferença racial, mas ainda assim, Rohde e Ketzer (1997) apontam grande  incidência entre as crianças das classes menos favorecidas.

 

1.5 Estudo de caso: análise da observação clínica de uma menina portadora do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade

 

L.K. é uma menina de três anos, esperta e bastante inteligente para sua idade, porém, segundo seus pais, é também agitada, agressiva e de temperamento um tanto difícil. Eles procuraram atendimento psicopedagógico para sua filha durante o ano corrente, visto que consideraram que as atitudes da menina, tanto em casa, quanto na escolinha ,estavam ultrapassando os limites de sua idade.

L.K. é a terceira filha de sua mãe, B. que já tinha outras duas meninas de outro relacionamento quando se casou com C.

B. confidenciou-me que o início de sua gestação foi bastante tumultuado, pois L.K.  foi  gerada em meio a brigas constantes de seus  pais, o que lhe causava agitação, mesmo quando ainda estava dentro da barriga de sua mãe. Quando nasceu, a menina sempre teve muitas cólicas e devido a isto, chorava bastante.

A mãe de L.K. é professora e seu pai é  mecânico. Ambos são participativos na educação das filhas e exigem bastante das meninas.

Inicialmente, B. comparecia a todas as sessões, porém o pai da menina dificilmente conseguia participar, alegando dificuldades de conseguir dispensa em seu trabalho, porém, aos poucos, C. foi conscientizando-se e percebendo a importância de sua participação também neste aspecto da vida de sua filha. 

Percebi a mãe de L.K. bastante solícita, mas muito cansada, pois além das três filhas já mencionadas, agora possui mais um bebê, ao qual também precisa dedicar seu tempo e seus cuidados.

Quando realizado o Genograma, constatei que o pai de L.K., em sua infância, já havia sido diagnosticado TDAH Bipolar e que realizou tratamento durante um curto período  de tempo.

De acordo com a mãe B., C. pai de L.K., costuma ser agressivo, desconfiado e bastante agitado, sintomas que também são comuns na menina.  B. inclusive já solicitou ao marido que procure profissionais habilitados a fim de ajudá-lo. Ele porém, resiste e afirma não necessitar de remédios para poder “controlar-se”.

Enquanto isto, L.K. cresce, espelhando-se no pai, tendo dificuldades em obedecer regras, brigando e fazendo birras quando contrariam sua vontade. 

1.6  L.K. na Escola de Educação Infantil e em casa 

Quando L.K. tinha quatro meses, sua mãe precisou deixá-la numa escolinha de educação infantil, a fim de retornar a seu trabalho.

L.K. adaptou-se bem e em pouco tempo, estava inteiramente inserida no contexto escolar.

Alimentava-se normalmente, porém, seu sono era sempre muito agitado e L.K. acordava muito durante este período que era entrecortado por choros e gritos.

No decorrer do tempo, conforme a menina se desenvolvia, foi ficando cada vez mais chorona e irritadiça. As “tias” da escolinha começaram a perceber na menina uma certa dificuldade em realizar as atividades e muita resistência em dividir brinquedos com seus coleguinhas. ( Hoje em dia, L.K. só o faz se ela tem vontade de manipular o brinquedo do coleguinha).

L.K. passou a mostrar-se agitada,  agressiva e totalmente sem limites. Certa vez, na escolinha, enquanto almoçava, brigou com seus coleguinhas, retirando-lhes os guardanapos da mesa. Quando a “tia” tentou impedi-la, L.K. jogou a sua comida no chão, brigando e chorando muito.  

Outra vez, durante uma brincadeira, L.K. começou ( sem motivos aparentes) a bater em seus colegas, atirando-lhes brinquedos e xingando a todos. Quando a “tia” tentou intervir, L.K. gritou, brigando com ela também.

Segundo a mãe de L.K., situações como estas também são comuns em sua casa e quando um adulto tenta repreendê-la, a menina começa a gritar, agitando-se muito. Nem mesmo depois de umas “ palmadas” e muita conversa L.K. acalma-se. Este processo dá-se lentamente e,  aos poucos, normaliza-se o temperamento da menina.

A mãe B. comenta que a menina não gosta de ouvir “Não” e que quando sente-se contrariada, argumenta e desafia quem quer que seja.

L.K. também gosta de testar seus limites e  por vezes, “escala” móveis como sofás, mesas, cadeiras e armários.

Por muitas vezes, L.K. apresenta um temperamento difícil, que os pais tentam contornar com muito amor, sempre explicando como deve agir em determinadas situações e corrigindo-a quando não faz o esperado. 

1.7 L.K.  vista sob um novo olhar 

Muitos autores mencionam em seus livros que para se diagnosticar TDAH é necessário que a criança tenha por volta dos cinco ou seis anos de idade. Entretanto, também afirmam que :

As causas da hiperatividade geralmente se encontram em partos complicados, traumatismos, convulsões, em que o cérebro  deixa de receber a oxigenação adequada, etc.  Estes problemas geram agitação e extrema falta de concentração (SKRZYPCZAK apud CHAMAT, 1996, p. 59) . 

Ainda encontramos a informação de que quando há TDAH, podemos falar numa predisposição ou influência genética:

O que acontece nestes transtornos é que a predisposição genética envolve vários genes, e não um único gene (como é a regra para várias de nossas características físicas, também). Provavelmente não existe, ou não se acredita que exista, um único "gene do TDAH". Além disto, genes podem ter diferentes níveis de atividade, alguns podem estar agindo em alguns pacientes de um modo diferente que em outros; eles interagem entre si, somando-se ainda as influências ambientais. (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO DÉFICIT DE ATENÇÃO, 2009).[4]

 

Ora, se o TDAH é um transtorno de base congênita ou se dá através de uma predisposição genética, ele deve estar presente na criança desde seu nascimento e os sintomas do mesmo devem ser vivenciados desde quando o bebê ainda está na barriga da mãe.

Por outro lado, quando há queixas de crianças briguentas, inquietas e agitadas deve –se analisar muito bem, pois estas características podem ser típicas da fase pela qual a criança está passando.

Entretanto, com L.K. não foi e nem é apenas uma fase, pois de acordo com sua mãe que já a levou a um neuropediatra,  a menina possui fortes indícios de ser portadora de TDAH, com comorbidade indicando TOD ( Transtorno Opositivo Desafiador).

Desde então, toda família sente-se mobilizada, procurando a melhor maneira de ajudar L.K. a superar suas dificuldades, cientes de que o TDAH ainda não tem cura, mas que pode ser tratado a fim de amenizar os sintomas.

 

 

 

REFERÊNCIAS 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DÉFICIT DE ATENÇAO. O que é TDAH. Disponível em : < http://www.tdah.org.br/oque01.php>.  Acesso em:  12 nov. 2009.

 

ABUCHAIM, Cláudio; GALVÃO, Ana Luiza. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Disponível em <http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?420>. Acesso em 12 nov. 2009. 

 

MATTOS, Paulo. No mundo da lua. Perguntas e respostas sobre Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade em crianças, Adolescentes e Adultos. São Paulo: Editora Lemos, 2005.

 

MIRANDA, Hubner Neto Marcílio. Transtorno de Déficit de Atenção/ Hiperatividade. Maringá: EDUEM, 2004.

 

ROHDE, L. A.; HALPERN, R. Transtorno de Déficit de   Atenção/ Hiperatividade: atualização. Jornal de Pediatria, Rio de Janeiro, v. 80,  n. 2, out. 2004. Disponível em: <http: //www.scielo.br/scielo.php?script=sciarttext&pid=S0021. 75572004000300009&lng= en&nrm=iso>. Acesso em: 07 nov. 2009.

ROHDE, L. A.; KETZER, C. R. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. In: FICHTNER, N. (Org.). Transtornos mentais da infância e da adolescência: um enfoque desenvolvimental. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

ROHDE, L. A. ; MATTOS, Paulo. Princípios e Práticas em TDAH. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade. Porto Alegre : Artmed, 2003.

RUSSEL,  A.  Barkley. Transtorno de Déficit de Atenção / Hiperatividade  (TDAH). Guia Completo para Pais, Professores e Profissionais da Saúde. Porto Alegre: Artmed, 2002.

 

RUSSEL, A. Barkley. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). Manual para Diagnóstico e Tratamento. Porto Alegre: Artmed, 2008.

 

SCAHILL, L., et al. Psychosocial and Clinical Correlates of ADHD in a community sample of school-age children. Journal of American of Academy of Child and Adolescence Psychiatry,  New York, v.31, n.38, apr. 1999.

 

SILVA, Ana Beatriz B. Mentes Inquietas. Entendendo melhor o mundo das pessoas distraídas, impulsivas e hiperativas. São Paulo: Editora Gente, 2003.

VASCONCELOS, M. M.; MALHEIROS, A. F. de A.; WERNER JR., J.; BRITO, A. R.; BARBOSA, J. B.; SANTOS, I.S.O.LIMA, D. F. N. Contribuição dos fatores de risco psicossociais para o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade. Arquivos de Neuro-Psiquiatria,v. 63, n. 1, 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004>. Acesso em: 07 nov. 2000.