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CONTRIBUIÇÕES
PSICOPEDAGÓGICAS PARA UMA CRIANÇA
PORTADORA DA DISTROFIA MUSCULAR DE
DUCHENE
RELATO
DE CASO
Rosemary
Kennedy Silveira
Pedagoga
Laureada (Unisinos) e pós-graduada em
Psicopedagogia Clínica e
Institucional - Unilasalle
E-mail:
rk.silveira@hotmail.com
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RESUMO
A
Distrofia Muscular de Duchenne - DMD, também
chamada de Distrofia pseudohipertrófica, é uma
doença de padrão genético recessivo, ligada a
alteração no cromossoma X, que afeta 30/10.000
meninos nascidos. Caracteriza-se pela perda
progressiva da força muscular, agravando-se até
atingir as funções respiratórias. Este artigo
pretende explorar a forma como a
psicopedagogia pode contribuir para
melhorar o bem-estar e a qualidade de vida e
consequentemente a aprendizagem destes pacientes,
assim como a auxiliar pais e professores no manejo
com estas crianças, entrelaçando,
estudo de caso e
revisão bibliográfica.
PALAVRAS-CHAVE: Distrofia
Muscular de Duchenne, psicopedagogia,
aprendizagem.
ABSTRACT
Duchenne
Muscular Dystrophy - DMD, also called
pseudohypertrophic dystrophy, is a disease of
genetic recessive pattern, linked to a change in
the X chromosome, which affects 30/10000 born
boys. It is characterized by progressive loss of
muscle strength and deteriorated respiratory
function. This article will explore how
phsycopedagogy can contribute to improve the
well-being, quality of life and the learning of
these patients consequently, as
well as
to help parents
and teachers
to handle with these children, through,
case study and literature review.
KEYWORDS: Duchenne
Muscular Dystrophy, phsycopedagogy, learning.
1.1
INTRODUÇÃO
Este trabalho tem por finalidade prática
oferecer contribuições psicopedagógicas, aos
portadores da Distrofia Muscular de Duchenne (DMD),
e a todos os envolvidos no processo de
aprendizagem.
A prática clínica, aliada a literatura,
buscou conhecer melhor, aprofundar e dar sustentação
ao caso em estudo, para compreender como se
processa as questões relativas à aprendizagem, e
a partir daí oferecer suporte aos pais, à escola
e à própria criança.
No
campo da psicopedagogia é importante conhecer o
paciente afetado por Duchenne em todos os
sentidos: sua história de vida, suas
necessidades, seus desejos. Identificar as
necessidades da família: pais, parentes próximos,
círculo de amizades, espaço físico no lar,
rotina diária assim como, as necessidades da
escola: professores, colegas, currículo,
propostas de atividades, espaço físico, e possíveis
barreiras que possam impedir seu acesso ao
conhecimento, para assim poder contribuir para o
bem-estar, qualidade de vida e aprendizagem desta
criança.
Ao
ingressar na escola as crianças estão cheias de
expectativa e as atividades propostas a elas desde
a pré-escola, trabalham tanto aspectos da
motricidade fina quanto da motricidade global.
Neste sentido os portadores da DMD vão sendo
submetidos, exatamente na fase em que a doença dá
seus primeiros sinais, a desafios diários que
exigem deles grandes esforços. Essa doença não
apenas causa problemas na locomoção, mas também
pode prejudicar a criança com relação à
aprendizagem, tanto cognitivamente, quanto com
relação aos cuidados consigo mesma, abalando sua
capacidade de autonomia para vida diária, assim
como para vida escolar.
O
sucesso da vida escolar de uma criança portadora
de DMD dependerá também do grau de participação
e conscientização de todos os envolvidos no
processo de ensino-aprendizagem, iniciando pelo
suporte que o paciente terá a partir de sua própria
vivência nas atividades mais simples do dia a
dia.
A
finalidade deste artigo é misturar estudo de caso
e aprofundamento
teórico, buscando dar
suporte, informação e apoio à família, a
escola e ao próprio portador da Distrofia
Muscular de Duchenne , para que conheçam e se
familiarizem com esta miopatia de forma que possam
conduzir a criança afetada a melhor interação
com a aprendizagem, promovendo melhora na função
física, social, emocional, e/ou cognitiva.
1.2
Histórico da
Distrofia Muscular de Duchenne –
Compreendendo a doença
De
acordo com a AGADIM - Associação Gaúcha de
Distrofias Musculares (2009), a forma mais comum e
severa de distrofia muscular humana foi descrita
pelo neurologista francês Guillaume Duchenne, em
1861. A distrofia muscular de Duchenne é
determinada por uma mutação no gene da
distrofina, situado no cromossomo X. A primeira
tentativa para classificar as distrofias veio de
William Erb. A classificação descrita por ele se
baseava na faixa etária.
Erb
acreditava que a distrofia se dava devido a nutrição
inadequada. A partir de 1879 William Gowers
analisou a forma como se levantavam os portadores
de DMD, uma forma característica desta doença.
Esta forma específica do portador de DMD
levantar-se passou a chamar-se de “Sinal de
Gowers” (ACADIM -Associação Carioca dos
Portadores de Distrofia Muscular, 2009).
A
distrofia muscular progressiva é definida por
Florense, apud Tecklin, como “um grupo de
miopatias, determinadas geneticamente e que têm
curso degenerativo e progressivo.” (2002,
p.188).
Segundo
Araújo
(2006, p.6-7), a DMD é o tipo mais comum das
distrofias musculares.
De origem genética, ocorre em geral nos meninos dando sinais de
fraqueza muscular, normalmente a partir dos três
anos de idade, sendo
sua principal característica, o enfraquecimento e
a atrofia muscular, que leva o portador à cadeira
de rodas.
[...]
se diferencia das demais porque qualquer esforço
muscular que leve ao mínimo de fadiga contribui
para a deterioração do tecido muscular. Isto
acontece porque o defeito genético ocorre pela
ausência ou formação inadequada de proteínas
essenciais para o funcionamento da fisiologia da célula
muscular (Cooper et al., apud Alves, et al.,
2009, p.100).
De
acordo com dados da ABDIM -
Associação Brasileira de Distrofias
Musculares (2009), para cada 2.000 criança
nascida viva, uma é portadora de algum tipo de
distrofia muscular, incidência que supera,
inclusive o câncer infantil que registra 1\4.500
nascidos.
É
uma afeccção recessiva ligada ao cromossomo X. O
gene Xp 21 no cromossomo X foi descrito como
responsável pela DMD em 1985, por Worton e
colaboradores.
Na
DMD, os primeiros sintomas são geralmente
percebidos na idade pré-escolar, dos tres aos
cinco anos, por professores ou cuidadores. Além
do grau de comprometimento da habilidade de locomoção,
esta doença pode causar prejuízo a várias
outras funções, tais como habilidades de
autocuidados e cognitivas (BILLARD, apud PENA;
ROSOLÉM; ALPINO, 2008, p.449)
A fraqueza inicialmente é das pernas (dos músculos
que movimentam a coxa), fazendo com que estes
meninos caiam com freqüência, não consigam
correr tão bem quanto os amigos de mesma idade,
tenham dificuldade para subir escadas, e se
levantem do chão com dificuldade. Costumam também
andar nas pontas dos pés.
( ARAÚJO et al., 2006, p.7)
Segundo
Florence, apud Tecklin (2002, p.186), esta
incapacidade se dá, devido à “atrofia muscular
[...] ocasionada pela substituição do tecido
muscular por tecido adiposo e conjuntivo, causando
uma pseudo-hipertrofia.”
Além
das dificuldades motoras que acometem membros
inferiores e superiores, o
tempo estimado de vida dos afetados pela Distrofia
Muscular de Duchenne, varia em torno dos 19 ou 20
anos de idade, assim “Ao
final da adolescência, insuficiência respiratória
devida ao acometimento dos músculos respiratórios
é comum e introdução de ventilação mecânica
freqüentemente necessária” e,
normalmente, o óbito se dá por infecção
respiratória.
(MARTINEZ, 2006, p. 349)
Segundo
Mehler, apud Sampaio e Oliveira (2004, p.39), os
portadores de DMD apresentam déficits leves e
complexos na cognição e no comportamento,
comprometendo e gerando dificuldades de
aprendizagem. O autor aponta também para a alta
incidência de comunicação e interpretação
deficitárias, atribuídas às falhas na forma
como captam, integram e armazenam as informações
no cérebro. Destaca ainda que embora essas crianças
sejam inteligentes, o déficit de atenção, a memória
imediata e a linguagem, acabam interferindo no
desempenho delas, gerando baixa no rendimento,
podendo causar aprendizagem não adequada.
Cerca
de 75% dos casos apresentam quociente de inteligência
(QI) abaixo de 75, mas a questão referente ao
fato desta desvantagem estar relacionada
diretamente à doença
ou ser uma seqüela da mesma ou, ainda uma
somatória de ambos, até hoje não está
respondida de forma definitiva. (YOSHYOKA, apud
SANTOS et al., 2006, p.21)
Nos
pacientes com
DMD, “Cerca de 30% a 50% [...] apresentam
algum grau de déficit cognitivo.”
(MELO; VÁLDES; PINTO, 2005, p.28) E em
alguns casos, tem se registrado nestes pacientes,
“Um quadro de retardo mental moderado ou grave
[...] .” (CAROMANO, 1999, p.214),
O
fato da DMD causar grande fraqueza muscular,
debilitando seus portadores, interfere na escola e
na família de forma incondicional, causando
problemas de ordem comportamental e psicológica.
Witte, (1985) citado por Gonçalves, et
al. (2008, P.278),
afirma que:
[...]as
crianças com DMD, apresentam um risco estimado
significante de desenvolver, durante a infância,
problemas psicológicos, emocionais, sociais ou
comportamentais, três vezes maiores do que as
crianças saudáveis. Problemas de comportamento,
depressão e sentimentos de revolta [...]
Os problemas resultados na não aprendizagem
sugerem a presença de psicopedagogo inserido numa
equipe multidisciplinar que atuará com o portador
da distrofia Neste
sentido a presença do psicopedagogo, e as
contribuições que poderá prestar auxiliarão,
pois o diagnóstico precoce, seguido de terapias múltiplas
e acompanhamento médico adequado, poderá reduzir
estas dificuldades.
1.3 Sintomas da
Distrofia Muscular de Duchenne
De
acordo com dados da ABDIM - Associação
Brasileira de Distrofia muscular (2009), a
característica que estará presente por toda a
vida dos portadores de DMD é a degeneração
progressiva dos músculos. Com o avanço da idade,
avança também a doença e diversos sintomas vão
aparecendo, debilitando cada vez mais os
portadores. Em
90% dos meninos com distrofia muscular de Duchenne,
o aumento e o enfraquecimento do miocárdio,
acarreta distúrbios no coração. A associação
esclarece ainda que os sintomas mais rapidamente
percebíveis são: marcha vacilante, quedas freqüentes,
dificuldade para subir escadas e levantar- se da
posição sentada (Sinal de Growers).
Souza,
apud Wernec (2000, p.8) afirma que: “A fraqueza
das mãos dificulta uso de lápis ou caneta, as
pessoas perdem a firmeza para manipular abjetos
com as mãos.”
Gómez-Palacio,
apud Carvalho, (2006, p.119) diz que embora crianças
funcionem bem em geral, há áreas que a criança
não consegue dominar, daí a importância de
socializar as áreas nas quais o aluno apresentar
problemas, para que se possa trabalhar com ele, ou
seja é preciso identificar as necessidades
educacionais e nossos alunos.
Em
crianças portadoras da Distrofia Muscular de
Duchenne observa-se que:
O
retardo mental é comum, o que levou à suposição
inicial de que a doença fosse de origem cerebral:
1/3 dos casos tem Q.I. menor que 75, sendo que o
Q.I. médio é de 70 a 85 .A habilidade verbal é
mais comprometida e não ocorre deterioração
intelectual progressiva. Não há relação entre
a gravidade do comprometimento muscular e o
comprometimento intelectual [...]. (MUSTACCHI ;
PERES, apud OLIVEIRA JORGE, et.al. 2005, p.19).
Quanto
a idade adulta, sabe-se que pacientes com DMD
possuem sobrevida em torno dos 18 aos 25 anos e, vão
a óbito por comprometimento cardíaco ou insuficiência
respiratória. (ACADIM, 2009)
1.4 Diagnóstico
De acordo com Fabris (2009, p.5) para que
se dê o diagnóstico da DMD, os profissionais além
de se basearem no quadro clínico do paciente e no
histórico familiar, solicitam o CK, (dosagem da Creatinofosfoquinase,
que se muito elevado caracteriza a doença)
,exame de DNA (para verificar a deleção no gene
da distrofina) e biópisia muscular (retirada de
um pequeno pedaço do músculo para observar se o
músculo está apresentando tecido morto e fibras
musculares exageradamente grandes - fora da
normalidade). A confirmação do diagnóstico pode
se dá através da eletromiografia (exame que
verifica através de eletrodos a função
muscular) e exames da condução dos nervos.
1.5 Tratamento
É
uma doença que ainda não tem cura, embora
registrem-se muitos avanços no “conhecimento
das bases moleculares e genéticas” (Martinez et
al., 2006, p.347)
[...]as
únicas medidas terapêuticas são os testes de
drogas que visam retardar ou suprimir a degeneração
muscular nos pacientes DMD e a Fisioterapia, que
visa melhorar a qualidade de vida dos seus
portadores, retardando a progressão da doença.
Infelizmente, ambas terapias não foram capazes de
impedir sua progressão e a morte dos pacientes.
(MARQUES, 2005, p.7).
A
terapia com células tronco pode produzir
resultados notáveis para a ciência médica e
para a vida dos seres humanos, diminuindo a dor,
curando doenças e prolongando a vida, podendo ser
aplicada à DMD. Pacientes com o diagnóstico de
doenças degenativas aguardam com expectativa os
resultados, que favoreçam a cura. (ROSENFIELD,
2005, p.12).
De
acordo com a UPA[1]
- “Unidos Por Amor”, Organização
Ibero-Americana para portadores de Distrofias
musculares, em http://dmdla.org/acerca-de-upa.php
acessado em 13/09/2009, o acompanhamento das crianças
portadoras da DMD com diferentes especialistas
serve para amenizar o quadro e aprender a conviver
com a doença. A associação destaca que as famílias
com membros que apresentam a distrofia muscular de
Duchenne são aconselhadas a buscar um
aconselhamento genético, para avaliação do
risco de transmissão do traço da distrofia
muscular aos descendentes.
A
Vice-Presidente da Associação Brasileira de
Distrofia Muscular e Pediatra do Centro de Estudos
do Genoma Humano e do Hospital Israelita Albert
Einstein, Ana Lúcia Langer (2009) diz que “A
prednisona, é a droga mais amplamente usada para
o tratamento da DMD. Em alguns casos a capacidade
de caminhar pode ser prolongada por dois anos ou
mais.” Por outro lado a pesquisadora alerta para
os efeitos colateriais, tais como: retenção de líquido
e sal, catarata, hipertensão, diabetes,
osteoporose, aumento do apetite e alterações
comportamentais.
A ciência, com o advento das pesquisas com células-tronco
embrionárias, já tem os recursos necessários
para acelerar a cura de todas as doenças
degenerativas até então consideradas incuráveis.[...]Estas
“células milagrosas”, conforme a expressão
de David Baltimore, Prêmio Nobel de Medicina,
contribuirão para melhorar a qualidade de vida
dos doentes, restituindo-lhes a auto-estimaAs
pesquisas ora em andamento vêm sendo acompanhadas
com muita ansiedade pelos portadores de distrofia
e seus familiares, mas ainda terão que aguardar
cerca de cinco anos, para que possam ser aplicadas
com toda segurança em seu uso clínico. .(ACADIM,
2009 p.3)
A
ICFDH (OMS, 2002), Organização Mundial de Saúde,
distingue intervenção com vistas a melhorar
limitações individuais e/ou funcionalidade
social pela modificação de funções intrínsecas/estruturas
corporais, com intervenções primariamente médicas
ou reabilitadoras. Essa classificação aborda,
ainda, a existência de outras estratégias de
intervenções reabilitadoras, focadas no contexto
real de desempenho do indivíduo, orientadas tanto
para melhorar sua capacidade, quanto para
modificar o ambiente por meio da eliminação de
barreiras e/ou criação de facilitadores
ambientais, no sentido de expandir o desempenho de
ações e tarefas da vida.
1.6
Apresentação da observação clínica
A.T.
é uma criança de 7 anos com diagnóstico de
Distrofia muscular de Duchenne há 4 anos.
A
mãe de A.T., a qual chamaremos de S., é bem
participativa e interessada no tratamento do
filho. Compareceu sempre que chamada, sem faltar a
nenhuma sessão o que possibilitou ao paciente uma
continuidade linear no tratamento. Já o pai de
A.T. que chamaremos de G., não compareceu a
nenhuma sessão.
A
mãe expressa, cansaço, sobrecarga, e
dificuldades de relacionamento familiar,
mencionando o enteado (filho do primeiro
casamento do pai).
A
mãe S., ressalta sua inteligência do filho, mas
lamenta ser apenas ela pessoalmente quem conduz o
filho a médicos, exames e tratamentos, sendo que
o pai contribui financeiramente. “Parece que só
eu invisto e acredito”.
Ressalta
suas qualidades como administradora da empresa que
possui, e sugere que o pai é desorganizado
financeiramente, assim como em sua rotina diária.
Admite que em casa e na empresa, é ela que está
à frente de tudo.
Não
se mostra à vontade quando fala da escolaridade,
sua e do seu marido, afirmando que ambos tiveram
que parar de estudar para trabalhar, desde muito
cedo.
O
ponto de destaque nesta família é a necessidade
da urgência por diagnósticos e tratamentos
adequados, para facilitar a vida do filho. A mãe,
S., já visitou diversos especialistas, na cidade
onde reside, em Porto Alegre e em Curitiba.
Mencionou a mobilização familiar para levar A.T.
para a China. O objetivo é tentar um tratamento
eficaz que supra especialmente as necessidades
motoras do filho que em conseqüência da DMD,
tende a se agravar, com o passar dos anos,
prejudicando não apenas suas atividades diárias
em casa, como limitando suas atividades escolares,
escrever, desenhar, brincar.
Negou-se
a realizar qualquer exame com anestesia, em
virtude dos riscos apresentados. A mãe afirma que
não vale correr tanto risco, pois o
enfraquecimento do coração pode fazer seu filho
não resistir a este tipo de procedimento. “Não
sendo com anestesia faço tudo por ele”. Tudo
que foi sugerido como de grande importância para
o tratamento de A.T. foi acatado, inicialmente com
uma certa resistência, mas seguido: avaliação
psicomotriz, manter as sessões de fisioterapia,
manter as sessões de psicopedagogia, fazer um
mapeamento com um geneticista e procurar fazer
psicoterapia familiar. ”Acredito que todas as
tentativas são válidas para ajudar meu filho,
tenho esperança que a cura apareça a tempo”.
1.7
A vida escolar de um portador da DMD
A.T.
foi encaminhado pela escola, desde a idade pré-escolar,
para que a família buscasse ajuda, mas a mãe
alega só ter conseguido o atendimento agora. Dois
anos depois. Nunca havia sido avaliado,
anteriormente.
A
queixa escolar transcrita abaixo, na íntegra
caracteriza o desenvolvimento de A.T.e suas
dificuldades.
1.7.1 Em
sala de aula
Na pré-escola aos 5 anos de idade: “Não
se concentra para realizar as atividades, não
brinca com ninguém, apenas sozinho, não realiza
diálogos, mas monólogos absolutamente solitários,
chora com facilidade, não senta, mas circula
durante todo o período de aula entre as cadeiras
da sala, não efetua rasgaduras, nem recortes, não
pinta, apresenta em seus desenhos apenas pequenos
e suaves riscos (nenhuma garatuja – nem
circular)”
No primeiro ano do ensino fundamental aos 6
anos de idade:
“Não interpreta questões pedidos e ordens,
tanto pessoais quanto para realizar os exercícios.
Responde apenas eventualmente o que lhe é
perguntado. Demora para copiar. Chora com
facilidade. Repete falas.
1.7.2 No pátio
e na pracinha
Aos 5 anos: “Não
se embala no balanço, não sobe as escadas do
escorregador, não transpõe pequenos obstáculos,
não salta nem com apoio, não corre e se cai não
levantava sem apoio, apresenta também marcha em
descompasso.”
Aos 6 anos:
“Executa algumas atividades com muita ajuda.
Caminha com grande dificuldade. Cai com
facilidade. Tem dificuldade para agarrar objetos,
mas arremessa com facilidade. Não utiliza os
brinquedos da pracinha.”
1.8
O olhar psicopedagógico sobre o caso
A
presença de um psicopedagogo, na vida de um
portador de DMD é já é por si só, uma grande
contribuição, pois o fato de ter uma criança
com necessidades especiais na família já pressupõe
a necessidade de um acompanhamento, inicialmente
aos pais, depois à escola e à própria criança.
A
atuação psicopedagógica vai trabalhar
diretamente com as dificuldades de aprendizagem,
mas indiretamente pode também envolver a prevenção
destas dificuldades.
Planejar
um atendimento psicopedagógico adequado às
necessidades da família, dos professores e do próprio
portador da DMD é, sem dúvida um dos grandes
passos para melhoria da qualidade de vida do
portador da DMD.
Ao
iniciar as intervenções o spicopedagogo irá se
focar ainda mais na formação do vínculo,
conduzindo o trabalho com vistas clarear os
objetivos, e atribuir papéis, compromissos e
responsabilidades aos adultos que cuidam desta
criança, para que sejam co-responsáveis em seu
tratamento. Somente a partir de uma intervenção
bem objetiva junto à família, é que esta terá
possibilidades de se fortalecer e oferecer apoio
à escola, para que atue da maneira mais adequada
e autônoma, pois na família em estudo o que se
foi, em algumas ocasiões; “a dificuldade em
permitir mecanismos de avanço, que levem o indivíduo
à autonomia, criando vínculos mútuos de dependência
e paralisação. (POLITY, 2004, p.116)
Informações
sobre as peculiaridades do quadro clínico e os
cuidados inerentes à condição se fazem necessários,
e eles precisam entender e aprender a lidar com um
novo corpo de conhecimento relacionado ao diagnóstico
e ao sistema de apoio disponível.
No
caso em estudo, ao descobrir que o filho era
afetado pela DMD, os pais se sentiram
fragilizados, e, segundo a mãe “sem saber
exatamente o que fazer e como lidar com a situação”,
o que passou a provocar fantasias de culpa e muita
ansiedade.
Vistos
como uma projeção dos pais, estes filhos
representam a perda de sonhos e esperanças e a
obrigatoriedade em lidar com as limitações e
fazem com que muitos pais se sintam despreparados
para a tarefa que devem assumir.(POLITY, 2001,
p.49)
As
fantasias de culpa da mãe, seguido de outros
sentimentos como medo de encarar o problema,
receio de lidar com a demanda, preocupação com o
impacto da notícia aos familiares e amigos, a
busca por informações, o desgaste emocional e a
alteração na rotina, passaram a rodear a família,
que negou enquanto pode a doença do filho. Estes
são pontos a serem considerados e bem
trabalhados, com a família de A T. , neste
sentido, Buscaglia (1997) citado por Lemes e
Barbosa (2007, p.442), afirma que “a deficiência
quase sempre causa sofrimento, desconforto, embaraço,
lágrimas e confusão para todos os integrantes da
família, além de grandes exigências de tempo e
recursos”.
Os
pais de A T, com certeza buscam que seu filho
tenha as mesmas chances e condições de acesso a
educação e a escola que as demais crianças, mas
a situação da família é bem difícil, pois
“A presença de uma criança especial na família
faz com que todos os membros vivenciem o choque e
o medo com relação ao evento, bem como a dor e a
ansiedade de imaginar quais serão as implicações
futuras.” (BARBOSA, apud LEMES; BARBOSA, 2007,
p.442)
Este
tipo de atuação dos pais, muitas vezes vai de um
extremo a outro, pois passa do equilíbrio das
orientações necessárias
a este convívio, a brigas e discussões
acerca dos direitos de seus filhos, dentro de
qualquer contexto em que esteja inserido.
O
trabalho psicopedagógico deve oferecer contribuições
aos pais, de forma a orientá-los a jamais colocar
esta criança na posição de incapaz ou de vítima.
Sendo
o aprender um possibilitador de autonomia, tanto
para a criança como para o adulto, e sendo possível
ser atrapado
por desejos de ordem inconsciente, os sistemas
familiares estruturados e estruturantes de
indiferenciação são um terreno fértil para a
gestação de sintomas de aprendizagem. (FERNÁNDEZ,1991
p.97)
As
adaptações a nível de facilitar o desempenho da
vida diária de um portador de DMD deve ser feita.
As limitações estarão presentes, mas não será
impossível aprender a conviver com elas.
Preservar as crianças com DMD entendendo suas
limitações, mas tratá-las de maneira igual as
demais crianças, de forma a somar para o
desenvolvimento de sua autonomia é sem dúvida o
passo mais importante a ser dado com relação ao
manejo para pais e educadores.
1.9
Manejo para os pais
O
primeiro movimento a se fazer, em termos de
oferecer manejo é auxiliar aos pais através de
informações práticas, a investir e acreditar na
criança oferecendo subsídios que ajudem a criança
a se tornar o mais autônoma possível para que
obtenha êxito na sua vida pessoal e
consequentemente escolar.
Padres
de niños con Distrofia Muscular Duchenne (DMD)
buscan naturalmente que su hijo tenga las mismas
oportunidades de educación y opciones que sus
compañeros. Sin embargo, familias que han sido
recientemente diagnosticadas se encuentran comúnmente
en una situación complicada en la que hay que
explicar a los maestros y profesores cuál es el
desorden que presenta su hijo y como manejarlo. (UPA,
2009)
Dentre
as atribuições do psicopedagogo estará oferecer
aconselhamentos psicopedagógicos, que
possibilitem o manejo adequado da família à
criança, neste sentido a mãe de A.T. foi
orientada à:
-
Conhecer os limites da criança afetada, com base
no que pode vir a evoluir e superar obstáculos
deve ser o ponto de partida para os avanços.
-
Manter com precisão os combinados realizados nos
atendimentos, informando para irmãos, familiares
e amigos, de forma a não extrapolar limites e
tornar-se permissivo
frente à criança;
-
Considerar as capacidades das pessoas, mas evitar
expor a criança a exercícios extenuantes.
-
Aceitar os aconselhamentos profissionais que
conduzam a aceitação e ao aprendizado das emoções
que se desencadeiam ao lidar com o fato de ter um
filho afetado pela DMD.
-
Cuidar os excessos, pois a superproteção pode
prejudicar o desenvolvimento da criança.
-
Auxiliar e dá carinho ao filho, mas diferenciando
de mimar.
O
acompanhamento psicopedagógico não é apenas
importante para os familiares, o paciente será
beneficiado também a partir das orientações e
acompanhamento feito junto a escola, equipe
diretiva e professores.
O
uso da cadeira de rodas, acaba “interferindo
na independência funcional e auto-estima
e conseqüentemente na qualidade de vida
desses pacientes”, tornando a vida deles
mais que um eterno aprendizado, um desafio
permanente para autonomia e auto-superação,
sendo assim, as tarefas mais simples do dia-a-dia
precisam ser repensadas e adequadas às
necessidades do paciente.
(GONÇALVEZ, et.al, 2008, p.276)
Um
trabalho psicopedagógico efetivo com estes
pacientes passa também pela orientação nas
atividades de rotina, tirando o paciente da inércia,
da acomodação às limitações.
[...]
a passividade e a inércia são movimentos a serem
evitados, visto estarmos num tempo em que o que
prevalece é a noção de relação constante
entre o todo e as partes, entre as partes e o
todo, processo de renovadas e contínuas reflexões.
(BEAUCLAIR, 2008, p.59.)
Assim,
fizemos intervenções junto à família,
solicitando a atenção aos respectivos pontos:
-
Vestir-se e despir-se: sugerimos a utilização de
velcros (puxar e grudar) e cintos (enfiar e
puxar), e a retirada de botões das roupas, que
exigem coordenação mais precisa.
-
Escovar os dentes e utilizar o banheiro -
salientar a importância de adequar o espaço físico,
para facilitar o acesso a pia e vaso sanitário.
Deixar ao alcance das mãos creme dental, escova,
papel, etc. De preferência optar por escovas
automáticas.
-
Tomar banho - Adaptar puxadores fixos ao banheiro,
para apoio das mãos. Deixar uma cadeira no box.
Os objetos necessários a higiene devem estar ao
alcance das mãos em local de fácil acesso.
-
Tarefas escolares - acompanhar e orientar a criança
nas suas tarefas, estimulando a utilização dos lápis,
canetas, tesoura e todos os demais materiais
necessários à construção do tema proposto.
Sugerir que evitem mochilas com muitos fechos.
Outro
ponto importante é manter contato com o
psicopedagogo que acompanha esta criança para
trocar informações e buscar alternativas a
respeito das evoluções e possíveis problemas
com a aprendizagem.
1.10
Orientações para a escola
Professores
e diretores devem receber informações para o
manejo adequado quanto às desordens que possam
ocorrer em relação à aprendizagem, próprias
das necessidades do portador da DMD. Sugerimos aos
professores que queiram atender melhor estas crianças,
conhecerem melhor como se caracteriza a DMD. “O
espaço educativo deve ser um espaço de confiança,
de liberdade, de jogo.” (FERNÁNDEZ, 1991, p.
60)
Conhecer
e entrevistar os pais da criança, sempre é um
bom começo, pois as informações poderão servir
de base,
para estruturar o dia a dia em sala de aula com
esta criança. Pais que já estejam bem
orientados, e em acompanhamento, podem fornecer
aos professores boas direções, boas pistas para
o manejo.
O
que enfraquece com a DMD é a musculatura do
paciente e não o desejo de aprender, isso deve
ficar claro para os professores. Por isso o olhar
psicopedagógico diante deste caso nos conduz a
orientar os professores no sentido de:
-
Desenvolver diferentes formas de atuar em sala de
aula, mantendo na criança a vontade de crescer,
de se divertir e de explorar tudo que a vida
escolar tem para oferecer.
-
Realizar em sala de aula, atividades de pintura,
desenho, colagens, produções artísticas, massa
modelar, dobraduras, além de confraternizações
e passeios (jamais deixando de levar a criança
portadora de DMD, insistindo com os pais a importância
de sua participação efetiva nestas atividades
fora da escola.
-
Proporcionar coletivamente peças teatrais e de
fantoches, como também apresentações artísticas.
Estas atividades, além estimular o movimento, a
criatividade, e a desinibição, trabalharão as
emoções e promoverão a integração do portador
de DMD com seu grupo de convívio, diminuindo a
tendência de isolar-se, devido à distrofia e
aumentando a socialização.
O
movimento que o psicopedagogo faz em busca de
auxiliar um portador da DMD, vai além dos limites
do consultório, as contribuições oferecidas
passam por visitas domicilares e escolares, pela
proposta de atividades diferenciadas, e pela
reestruturação da rotina do paciente em casa e
na escola. “O tratamento psicopedagógico poderá
contribuir, de um modo geral, para a mais rápida
superação do sintoma na área escolar” (WEISS,
2007, p.144)
Ao
se tornar cadeirante, é importante que o afetado
pela DMD continue, de alguma forma tendo acesso a
objetos e materiais de uso pessoal, brinquedos,
aparelhos eletrônicos e às dependências físicas
da casa e da escola, o que ressalta a
importância do psicopedagogo em realizar
visita domiciliar e escolar, com o objetivo de
orientar aos cuidadores para que sejam removidas
quaisquer barreiras que impeçam ou obstruam o
deslocamento do paciente, como também para
orientar a própria criança a deslocar-se com o mínimo
de ajuda possível com vistas a garantir sua
autonomia.
Outro
ponto relevante, é propor ao paciente atividades
com movimentos, objetivando manter a função dos
músculos e aliviar os sintomas da doença, neste
caso, o psicopedagogo deve oportunizar atividades
que envolvam movimento, para isso podem ser usadas
músicas, colchonetes e demais suportes, para
fazer com que a criança se mexa, e exercite a
postura mais adequada.
Na
visão de Schirmer, (2007, p.11):
Postura
e equilíbrio são a base da atividade motora, que
por sua vez é a plataforma onde se apoiam os
processos de aprendizagem. Não somos capazes de
explorar o meio, mantendo atenção em tempo
prolongado e interferindo nele em processo
criativo, se não forem resolvidas as questões
fundamentais de alinhamento e estabilidade
postural.
Segundo
a AGADIM - Associação Gaúcha de Distrofia
Muscular, em (2009),
os exercícios
feitos com portadores da DMD,
jamais podem utilizar peso, pois estes aceleram
o comprometimento muscular, sendo
assim devem ser priorizados, exercícios lentos de
alongamento, que além de acalmar, trabalham a
musculatura ampliando os movimentos. A
hidroterapia é sugerida como um ótimo recurso,
pois amplia a capacidade respiratória e viabiliza
a autonomia na água.
1.11
Discussão
De
acordo com a ABDIM - Associação Brasileira de
Distrofia Muscular (2009), “Apesar das limitações
físicas, a grande maioria dos afetados pelas
distrofias musculares tem preservada sua
capacidade intelectual.”
A
maioria dos educadores, muitas vezes fazendo o
melhor possível para lidar com as inclusões em
suas salas de aulas estão muitas vezes
desprovidos de recursos necessários a tal prática
como espaço físico adequado, material pedagógico,
falta de especialização, neste sentido a
devolutiva do psicopedago à escola irá dá-lo
suporte e apontar novas possibilidades para
trabalhar com este aluno.
O
objetivo de um atendimento psicopedagógico bem
sustentável, no caso dos portadores de DMD, visa
superar dificuldades presentes no ambiente escolar
e no ambiente social, com vistas a adequar as suas
necessidades.
A
proposta de atendimento psicopedagógico clínico
para crianças com DMD irá se focar no desempenho
do indivíduo, no que ele consegue realizar,
visando manter sua autonomia, e no que não
consegue, para tentar melhorar suas capacidades,
assim como o ambiente onde vive e estuda,
eliminando barreiras e bloqueios, tanto para seu
deslocamento e praticidade de locomoção, quanto
para viabilizar o acesso a escola, materiais pedagógicos
e a construção do conhecimento.
A
medida em que a criança vai crescendo seus
movimentos vão se ampliando e, com ele, a
necessidade de deslocar-se, explorar e sentir o
mundo. A aprendizagem, passa, necessariamente pelo
ato de movimentar-se, de experimentar diferentes
formas de agir e explorar os objetos. Neste
sentido a criança afetada pela DMD fica limitada,
pois suas possibilidades de exploração de mundo
ao passo que a doença avança, tornam-se diminuídas.
As intervenções psicopedagógicas devem atentar
para os cuidados relativos à aprendizagem desta
criança para que ela não se sinta diferenciada e
nem rejeitada “[...] essa situação dolorosa de
estar à margem as estigmatiza durante todo o
tempo escolar. E as consequencias para a vida
adulta são potencialmente grandes.” (GOLEMAN,
1992, p.265)
A
deficiência física é definida pelo MEC (1999)
no documento "Parâmetros Curriculares
Nacionais - Adaptações Curriculares (PCNs)"
como "uma variedade de condições não-sensoriais
que afetam o indivíduo em termos de mobilidade,
de coordenação motora geral ou de fala, como
decorrência de lesões neurológicas,
neuromusculares e ortopédicas, ou ainda, de
malformações".
Fatores
vinculados à locomoção e comunicação também
serão trabalhados na atuação psicopedagógica,
de forma a oferecer conforto e segurança a estes
pacientes.
Sabe-se
que é na primeira infância que a criança
experimenta as sensações com o meio, para poder
conhecer e se apropriar do objeto, também é
justamente neste momento que a DMD dá seus
primeiros sinais. Cada sensação que a criança
experimenta é carregada de significados que irão
se vincular a seu desenvolvimento afetivo, social,
cognitivo e motor.
As experiências vivenciadas vão servir de
informação posterior para construção de
pensamentos mais complexos e abstratos, com o
passar dos anos.
As
ações da criança sobre o meio: fazer coisas,
brincar e resolver problemas podem produzir formar
de conhecer e pensar mais complexas, combinando e
criando novos esquemas, possibilitando novas
formas de fazer, compreender e interpretar o mundo
que o cerca”. (MEC, 2003)
A
criança portadora da DMD não pode estar isolada,
vivendo num mundo distinto. O acesso às infinitas
possibilidades de aprendizagem que toda criança
deve ter e precisa, deve ser mantido. Nada a pode
impedir de desenvolver suas habilidades, Schirmmer,
(2007) diz que “o indivíduo, pode, assim, ter
uma deficiência, mas isso não significa
necessariamente que ele seja incapaz, a
incapacidade pode ser minimizada quando o meio lhe
possibilitar acessos.”
Na
escola as crianças, correm, falam, brincam,
realizando movimentos constantes de ir e vir.
Goleman (1992, p.265) considera que “ É no
caldeirão das amizades íntimas e no tumultuo das
brincadeiras que as crianças aprimoram as aptidões
sociais e emocionais que levarão para
relacionamentos posteriores na vida”.
No
início de sua vida escolar a criança afetada
pela DMD, estabelece uma comunicação precária
com seus colegas, brinca pouco em grupo, raramente
interage com seus colegas e professora, não dá
respostas com coerência, por este motivo precisa
cada vez mais conviver com crianças falantes.
“Comprometimento
cognitivo de diferentes gravidades e transtornos
neuropsiquiátricos eram frequentemente observados
em pacientes com [...] DM e outras doenças
musculares hereditárias”. (STREHLE, 2009,
p.381)
Por
suas dificuldades tanto em casa quanto na escola,
a atenção especial aos portadores da DMD é inegável.
A criança e seus cuidadores passam por situações
delicadas que podem provocar mal-estar, e quando
este desconforto começa a respingar na
aprendizagem é preciso ajuda imediata, neste
sentido se faz tão importante as intervenções
psicopedagógicas. [...] o atendimento psicopedagógico
tentará resolver um ponto de urgência, [...]
poderá contribuir de um modo gerla, para a
mais rápida superação do sintoma na área
escolar.” (WEISS, 2007, p.144)
A
criança portadora de Duchenne se sentirá muito
mais acolhida, segura e, portanto mais predisposta
à aprendizagem, quanto se perceber mergulhada num
ambiente onde haja convivência natural, compreensão
e participação de todos, sem segregá-la.
Incluir esta criança, é fazê-la participar de
fato de todas as propostas de atividades, e não
deixá-la de lado. São as oportunidades que farão
a diferença na vida desta criança.
Sob
essa ótica é importante entender a aprendizagem
que, mesmo como processo individual, exige de nós
conhecer e reconhecer o contexto em que se
desenvolve. Esse aspecto é da maior relevância
para evitarmos os rótulos injustamente aplicados
ao aluno, gerando lamentáveis conseqüências.
Percebido com incapaz cria uma imagem negativa de
si mesmo que além de sofrimento psíquico, caba
produzindo mecanismos
reativos de acomodação ou de
agressividade manifesta. (CARVALHO, 2006, p.58)
Será
importante que tanto pais quanto professores
saibam como se dá o quadro evolutivo desta doença.
Reconheçam cuidados, medicações, manejo, para
auxiliar na condução do trabalho sobre as questões
específicas à DMD. Dessa forma, “Quanto mais o
meio promove situações desafiadoras ao indivíduo,
mais ele vai responder a esses desafios e
desenvolver habilidades perdidas ou que nunca
foram desenvolvidas.” (SCHIRMER, 2007).
O
aumento progressivo das incapacidade funcionais e
os problemas de saúde associados a doença poderão
ser mais freqüentes, com o passar dos anos,
entretanto se continuarmos propondo as mesmas
situações, sem novos desafios, a criança se
acomodará em sua limitação, não encontrando
motivação para avançar, para ir além de suas
atuais possibilidades.
Ta
tentativa de preservar a criança, e de diminuir a
própria ansiedade os cuidadores acabam por fazer
as tarefas e atividades pela criança.
Esta
ansiedade dos pais diminui quanto mais aumenta o
conhecimento que adquirem a doença, mas aumenta
quando se dão conta da condição crônica e
progressiva e da possibilidade tão precoce do óbito
.
Vale
salientar que doenças progressivas, podem
afastar em determinadas épocas a criança
da escola, e isso pode comprometer a aprendizagem.
A criança pode ter sua freqüência às aulas
reduzida, por motivos de saúde, o que poderá
provocar queda no desempenho escolar e
desinteresse. O professor deverá estar atento
para suprir estas necessidades, viabilizando o
resgate do interesse e acesso à aprendizagem.
Neste momento a criança que conta com um
acompanhamento psicopedagógico, poderá obter
ajuda extra.
O
psicopedagogo que acompanhar o caso, além de
oferecer suporte ao professor, poderá propor um
acompanhamento hospitalar ou domiciliar, até que
a criança tão logo esteja com a saúde
estabilizada e, novamente disposta para voltar à
escola.
Outro
fator que pode acarretar problemas na aprendizagem
dos portadores
de DMD segundo
dados da ABDIM (2008), em estudo recente com 351
afetados por DMD, aponta que a incidência de
enfermidades neuropsiquiátricas, Transtorno de Déficit
de Atenção e Hiperatividade, Autismo e
Transtorno Obsesivo-Compulsivo, é mais elevada
nestes, que na população normal. Há uma prevalência
mais alta de problemas cognitivos e de
aprendizagem, ambos afirmam que “(...) a
distrofia muscular Duchenne não é só um
transtorno muscular, mas também uma desordem que
afeta o cérebro.”
Todas
essas questões somam com relação a dificuldade
de avaliar esta criança cognitivamente, por isso
vem a ser tão comum que antes de uma orientação
precisa pais e professores acabem atribuindo a
criança portadora de Duchenne, rótulos como,
deficiente mental, autista, ou
deficiente auditivo.
De
acordo com a limitação física apresentada é
necessário utilizar recursos didáticos e
equipamentos especiais para a sua educação
buscando viabilizar a participação do aluno nas
situações prática vivenciadas no cotidiano
escolar, para que o mesmo, com autonomia, possa
otimizar suas potencialidades e transformar o
ambiente em busca de uma melhor qualidade de vida.
(BRASIL, 2006)
Na
nossa rotina diária nem nos damos conta de
quantas coisas repetidas realizamos, porém o
mesmo não ocorre com as crianças com a Distrofia
Muscular de Duchenne, por exemplo o simples ato de
amarrar os sapatos pode exigir um esforço terrível.
Não participar das atividades em nada irá somar
para o desenvolvimento desta criança. A criança
com DMD atuar, participar, agir e interagir com os
sujeitos envolvidos no mesmo processo, para
realizar descobertas, conhecer e construir sua
aprendizagem, especialmente porque como Fernández
(1991, p. 51) “encaramos a aprendizagem como um
processo e uma função, que vai além da
aprendizagem escolar e que não se circunscreve
exclusivamente à criança.”
O
trabalho psicopedagógico deve propor alternativas
que possibilitem ao portador de Duchenne realizar
atividades funcionais na escola e em casa, seja
introduzindo novos recursos ou mesmo
modificando a atividade, para que esta seja
concluída com êxito. Parafraseando Carvalho:
Estou,
com ousadia, propondo uma virada linguística a
serviço da construção do imaginário individual
e coletivo em torno das diferenças da pessoa com
deficiência, sem negá-las ou banalizá-las, mas
reconstruindo-as numa nova rede de significações
na qual as narrativas dos próprios deficientes e
de suas famílias sejam constitutivas. (2006,
p.55)
O
ambiente escolar, assim como o da própria residência,
nem sempre é acolhedor. A maioria dos prédios é
construída sem levar em consideração qualquer
característica para acolher as crianças com
necessidades especiais, especialmente as que
utilizem andadores ou cadeiras de rodas. Nota-se
ainda nas construções muitas escadas, poucas
salas nos pisos térreos, e quando muito uma rampa
de acesso, faz parte da obra, entretanto um
ambiente adequado é prioridade para os portadores
desta distrofia. É preciso analisar as condições
do ambiente, observando as necessidades de cada
caso.
Sobre
a necessidade de espaços bem estruturados que
contemplem a demanda de necessidades especiais na
escola Schirmer (2007, p.105), destaca os princípios
do desenho universal que diz que “ [..] toda
escola deve promover ambiente acessível,
eliminando as barreiras arquitetônicas e
adequando os espaços que atendam à diversidade
humana.” De acordo com o autor embora “escolas
acessíveis” sejam um direito adquirido por lei,
o que se tem na prática ainda serve apenas para
cumprir normas técnicas e não para facilitar o
acesso da criança a todas as dependências da
escola.
Concordamos
com o autor, pois tomando por base as falas
trazidas pela mãe do paciente e em visitação à
escola percebemos que nossos espaços ainda não são,
em termos de adequação arquitetônica, espaços
inclusivos. É preciso, portanto adequar os espaços
que já existem, às necessidades, assim como
abrir espaço nos novos para se contemplar a
inclusão de crianças com necessidades especiais,
causando assim bem-estar para todos. A criança não
pode estar na escola restrita apenas a sala de
aula, mas sim
ter acesso a todas as dependências dela.
Concordando com Carvalho (2006, p.155)
“Considero a remoção de barreiras para a
aprendizagem e para a participação na escola,
como o eixo vertebrado da implementação da educação
inclusiva.”
A
criança com DMD precisa ser incluída, ter acesso
a biblioteca, ginásio, salas de informática,
dentre outros espaços com a maior facilidade e
segurança possível, e não apenas estar restrita
a sua própria sala de aula e ao banheiro.
Durante
este estudo, soubemos por exemplo que o paciente só
teve acesso à biblioteca escolar e a sala de
informática, poucas vezes, com a justificativa de
que não havia como conduzi-lo uma vez que estas
salas ficam no piso superior da escola que freqüenta.
O
diagnóstico psicopedagógico de A.T., foi
realizado em um total de 11 sessões, nele foram
utilizados os seguintes instrumentos para avaliação:
EOCA, provas piagetianas, provas projetivas,
provas pedagógicas, anamnese, teste gráfico de
Pressey, testes psicomotores, etc., indicando Déficit
de Atenção e falha na linguagem. A.T. apresenta
dificuldades motoras graves, e um défict
cognitivo que remete a desatenção,
dispersividade e à liguagem egocêncrica.
Sua
dificuldade de aprendizagem é notada apenas
quando se faz necessário responder a perguntas
com objetividade e interpretar textos. Possui ótima
memória, mas há falha na linguagem
interpretativa e expressiva. Não interage
diretamente, algumas vezes repete o que lhe é
perguntado, ou se remete a acontecimentos
passados, que nem sempre justificam a resposta
dada. Registra-se presença de ecolalia. Lê com
boa fluência e domínio. Escreve por ditado e cópia,
mas não estrutura palavras, a partir de
fragmentos delas própria, também não compõe
textos concatenado idéias. Apresenta defasagem
cognitiva (idade cognitiva cerca de dois anos
inferior a idade cronológica), com presença de
agitação motora, característicos da distrofia.
Encontra-se no nível silábico-alfabético.
A
insegurança e a falta de experiência dos pais
e da escola
em lidar com a nova situação de A.T.,
necessitou de orientações, especialmente no
sentido de reorganizar o ambiente de forma que se
torne mais acessível às necessidades favorecendo
a aprendizagem, é preciso conhecer as
necessidades como um todo, conhecendo a realidade
do caso e respeitando as diferenças:
“É
preciso substituir um pensamento que isola e
separa por um pensamento que distingue e une. É
preciso substituir um pensamento disjuntivo e
redutor por um pensamento do complexo, no sentido
originário do termo complexus. O que é tecido
junto.” (MORIN, 2001, p.89)
A
professora da turma em que o paciente se encontra
questionou inicialmente, a necessidade da
pscicopedagoga em sua sala de aula, embora
destaque a importância do atendimento para ele,
exigindo maiores explicações, sobre o que e como
seria o procedimento, entretanto é uma professora
dinâmica com quem a família e a criança
formaram um bom vínculo. Na devolutiva à escola,
a professora mostrou-se envolvida e empenhada no
auxílio a A.T. Segundo a professora: “Não
deixo que nenhum colega faça as coisas por ele, o
movimento tem que ser dele, para me alcançar
cadernos, pegar brinquedos e se deslocar. Eu o
incentivo a buscar. Na pracinha sento no balanço
com ele, ponho um colega sentado na gangorra para
dar apoio as costas dele, para que ele participe
de tudo. Não trago livros da biblioteca, eu o
levo no colo, pois não tem outra forma e lá
deixo que ele explore o ambiente.”
Tanto
os pais de A.T., quanto a escola, atual professora
e equipe diretiva têm se mostrado interessados em
investigar mais sobre a DMD, buscando descobrir a
maneira mais adequada de lidar com a situação.
Inicialmente o que era um problema praticamente
omitido pela família, acabou se expandindo e
envolvendo toda a escola, entretanto a mãe do
paciente ressalta que a família já buscou
inclusive, apoio legal, encaminhando o caso para
SMEC (Secretaria Municipal de Educação) da
cidade, para que A.T. pudesse avançar do pré-escolar
para o 1º ano, uma vez que a escola se recusava a
colocá-lo no 1º ano do Ensino Fundamental,
alegando a impossibilidade da escola em ter que
mexer em toda sua estrutura física, mesmo diante
do parecer da professora e da supervisora
informando que A.T. havia atingido todos os
objetivos propostos para idade e turma em que se
encontrava. “Sei que a Direção precisava que
eu aprovasse a colocação para deixar meu filho
mais um ano no pré, até porque prezinho não retém
aluno e ele não tinha dificuldade, era só
acomodação da escola. Eu não concordei e fui a
luta por ele.” Diz a mãe.
1.12
Conclusão
O olhar psicopedagógico
sobre o caso faz destacar que qualquer dificuldade
encontrada no cotidiano de uma criança portadora
da Distrofia muscular de Duchenne, independente da
dimensão que tenha, não deve representar
barreira para o acesso à escola.
As contribuições da
psicopedagogia subsidiarão ações que ofertarão
os recursos necessários para promover: adequação
curricular, integração no grupo de convívio,
inserção em projetos e atividades escolares, e
alternativas de melhoria do acesso físico para
deslocamento no espaço, favorecendo assim, a
inclusão desta criança ao meio escolar e social.
É importante que o
psicopedagogo possa desenvolver uma ação
conjunta de atuação entre pais e escola, que
somem para o desenvolvimento da aprendizagem desta
criança.
Neste contexto
ressaltamos a importância das contribuições
psicopedagógicas para crianças portadoras da DMD,
sugerindo o avanço dos estudos para publicação,
nesta área.
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[1]
“UPA!
es una expresión utilizada para motivar a los
niños a levantarse”, comenta Leslie Guzmán,
fundadora de UPA! y mamá de un niño con
Duchenne. “Refleja el amor de los padres
cuando sostienen a
su
hijo y lo motivan a continuar, transmite amor
entre nuestras familias y comunidades. A través
de este nombre deseamos inspirar los valores
de optimismo, esperanza, positivismo,
determinación y amor.
Publicado
em 15/01/2010