A psicopedagogia como promovedora de resiliência
Por:
Simaia
Sampaio

Sempre estivemos em contato com a resiliência, mas
ainda não havíamos percebido este fenômeno que tem
sido estudado por especialistas de diversas áreas.
A humanidade sempre passou por tragédias que
marcaram suas vidas, tais como morte dos pais ou
de filhos, perda da casa por incêndio ou
deslizamentos, guerras, acidentes, separação dos
pais ou do cônjuge, abuso sexual, estupro, dentre
outros. Muitas pessoas que passaram por algumas
destas situações conseguiram refazer a sua vida e
seguir em frente ao invés de ficarem se lamentando
inertes, tornarem-se usuários de drogas e álcool
ou mesmo chegar ao extremo de cometerem suicídio.
A estas pessoas denominamos de resilientes.
Resiliência é um termo emprestado da engenharia e
da física que é definida nestas áreas como a
capacidade de um corpo físico superar uma pressão
voltando ao seu estado original sem ser alterado.
Na área de humanas este conceito teve uma
reinterpretação significando a capacidade que o
indivíduo tem de, ao passar por determinada
situação dolorosa, seja em grupo ou
individualmente, conseguir se sair bem. Neste caso
ele não voltaria ao seu estado anterior, mas
sairía melhorado. As pessoas resilientes conseguem
superar estas dificuldades sem se desesperar ou
perder a cabeça. Elas conseguem pensar mesmo sob
enorme pressão buscando soluções para suas
dificuldades.
Estas pessoas têm sido o grande alvo das empresas,
que estão preferindo contratar e conservar
funcionários que saibam lidar com pressões e
frustrações sem se deixarem abater. Nestas
empresas há cada vez menos espaço para pessoas que
se lamentam e se queixam. Eles vêem este
comportamento como contagioso e não vêem vantagem
em mantê-las.
As empresas estão valorizado ainda mais pessoas
que conseguem atravessar obstáculos de forma
flexível, sem perder a cabeça. Valorizam o bom
humor, o otimismo, a confiança observando que
estes comportamento também são contagiosos, mas de
forma positiva e é isto que buscam.
O resiliente dentro de uma empresa não se deixa
abater, não desiste, está sempre em busca de novas
soluções procurando entender onde errou e acertar
em cima deste erro.
Resilientes dizem que têm buscado no auto
conhecimento o equilíbrio necessário para
aprenderem a transformar emoções negativas
em positivas. Afirmam
também que o trabalho voluntário é um ótimo
aprendizado na medida que observam pessoas em
situações piores que as suas e mesmo assim ainda
são capazes de sorrir.
Entretanto, para que haja resiliência não basta
que somente a pessoa seja forte o suficiente para
aguentar pressões. Um elástico, mesmo sendo
flexível, sob pressões inadequadas demora, mas um
dia se rompe. A instituição precisa criar
condições para que seus funcionários sitam-se bem
onde estão trabalhando e sintam-se úteis.
Koshiro Otani diz que:
“É preciso que os funcionários estejam felizes no
desempenho de suas funções. A felicidade é
diretamente proporcional ao respeito que a empresa
dedica à dignidade dos seus colaboradores. Em
outras palavras, organizações que em sua essência,
desconsideram a dignidade dos seus funcionários,
jamais terão pessoas resilientes em seu quadro”.
Isto também se aplica aos alunos. Não teremos
alunos resilientes se estes não forem respeitados,
não tiverem a oportunidade de errar e alguém lhes
dizer que errar é normal e que é uma forma de
aprendizagem, se não forem olhados como sujeitos
em processo de formação de caráter e identidade à
medida que se desenvolvem e amadurecem.
“Trabalhar no sentido de criar um ambiente
agradável e livre de tensões na sala de aula. O
aluno precisa aprender a ser feliz na escola,
descobrir o prazer de aprender e de fazer as suas
atividades bem-feitas, aprender que é permitido
errar e que o erro nos faz crescer. Não ter medo
de descobrir, assumir e desenvolver a própria
potencialidade” (BOMTEMPO, 1997, p.9).
O aluno que não se sente acolhido pelo professor
tende a desenvolver antipatia por este e
consequentemente não conseguirá lidar com as
dificuldades porque não encontra apoio. Diante
disto muitos desistem no meio do caminho.
A afetividade é primordial para um bom equilíbrio
mental, desenvolvendo a competência de aprender
com as dificuldades e superá-las, desta forma
também estamos desenvolvendo a resiliência neste
ser.
O professor que não elogia e que só vê defeito no
aluno taxando-o de inquieto, danado, perturbador,
tende a desenvolver neste um sentimento negativo
de incompetência e insegurança, baixando sua
auto-estima, sentimento que inevitavelmente levará
para a vida. Crianças que passam por estas
situações possivelmente terão dificuldade em saber
lidar com uma tragédia em sua vida. Poderá ser um
sujeito não resiliente, já que isto não foi
desenvolvido desde pequeno, pelo contrário, não
teve alguém que pudesse ajudá-lo, e olhar para
suas traquinagens como um pedido de ajuda ou
carência afetiva.
Outra situação difícil para as crianças é saberem
lidar com os apelidos por ser gorda, por ter
orelhas de abano, por ser dentuça. São situações
que poderão atingí-la profundamente tendo reflexos
na sua aprendizagem, já que sua auto-estima
tenderá a baixar. Devemos estar atento para as
situações que incomodam a criança e desenvolver um
projeto de boa convivência respeitando as
diferenças.
O professor Haim Grunspum afirma que a resiliência
pode ser desenvolvida e aquele que ajuda a
desenvolvê-la é chamado de promovedor de
resiliência. Pessoas que passam por catástrofes em
conjunto ou sozinhos e recebem ajuda de
promovedores poderão adiquirir resiliência como
foi o caso da tragédia da derrubada das torres
em Nova York onde as famílias, filhos, vizinhos passaram por uma
promoção de resiliência tendo um grande sucesso.
Um promovedor seria portanto uma pessoa que
consegue identificar que uma criança é hiperativa,
dislexa, possui déficit de atenção, e que se
propõe a ajudar seja ajudando em sala de aula da
melhor forma possível, seja encaminhando para um
especialista como um psicopedagogo.
O psicopedagogo pode ser um promovedor de
resiliência ajudando o sujeito a desenvolver
autonomia, independência, novas alternativas para
resolução de situações, novas reflexões para suas
atitudes, aprender a lidar com as frustrações,
desenvolver a criatividade, aceitar e respeitar a
si mesmo e aos outros.
Muitas crianças, principalmente as pequenas, não
conseguem falar sobre o assunto somatizando e
apresentando diversos sintomas desde queda de
cabelos, dores de barriga, diarréia, constipação
até amnésia parcial ou total, agressividade, que
poderá refletir no baixo rendimento escolar.
É no contexto lúdico como o jogar, o brincar, o
falar, o se expressar através de desenhos,
pintura, modelagem, arte, dramatização, que o
psicopedagogo estaria proporcionando à criança uma
nova abordagem, uma reestruturação, uma
reelaboração, buscando o entendimento e a
superação da situação conflitante provocando a
melhora no rendimento escolar.
Os pais também exercem papel fundamental na ajuda
à superação das dificuldades da criança. Dar
afeto, compreensão, limites, dar oportunidades
para desenvolver sua criatividade, oportunidades
para se expressarem, auxiliar na sua autonomia,
orientação religiosa, são ingredientes
fundamentais para desenvolver resiliência.
Estarão, desta forma, promovendo resiliência em
seus filhos preparando-os para no fututo saberem
resolver problemas com bom equilíbrio emocional e
saindo destes não deprimidos ou traumatizados, mas
sim mais fortalecidos.
De acordo com Vicente
(1995), a resiliência pode ser promovida
através de três fatores:
-
Modelo de desafio – o sujeito consegue entender a dimensão do
problema, o reconhecimento das possibilidades e
enfrentamento, e o estabelecimento de metas para
sua resolução;
-
Vínculos afetivos – aceitação incondicional do indivíduo enquanto
pessoa, principalemente pela família;
-
Sentido de propósito no futuro – estabelecimento de metas, criação
de objetivos, fé num futuro melhor.
Portanto, é essencial que o psicopedagoga promova
a resiliência no sujeito, ajudando-o a elevar sua
auto-estima. Quando a pessoa se valoriza ela é
capaz de
resistir aos embates buscando um sentido de
continuidade da vida,
de superar com mais facilidade os acontecimentos
ruins. Ela deseja melhorar, cuidar de si e do
outro, traçar objetivos, transformando suas
experiência negativas em novas aprendizagens para
tornar-se alguém melhor seja no campo pessoal,
social ou profissional.
Provavelmente todos nós já passamos por alguma
situação em que proferimos a velha frase: nunca
imaginei que isto fosse acontecer comigo. É neste
momento em que decidimos o que fazer de nossas
vidas, nos lamentarmos ou tomar esta dificuldade,
aprender com ela e seguir em frente.
Bibliografia:
GALIETA, Isabel Camilo. Resiliência, o verdadeiro
significado in http://www.fae.edu/publicador/conteudo/foto/2082004Isabel%20Camilo%20Galieta.PDF
GRUNSPUN, Haim. Educação resiliente: um longo e
bom caminho a percorrer. In abceducatio, ano 6, m
42, fevereiro/05.
MONTEIRO, Denise Schulthais dos Anjos et al.
Resiliência e Pedagogia da presença: intervenção
sócio-pedagógica no contexto escolar in http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/fundam01.htm
OTANI, Koshiro. Resiliência. In
http://www.nippobrasil.com.br/2.semanal.saude/263.shtml
VICENTE, Cenise Monte. Resiliência.
Palestra proferida no Centro de Treinamento de
Recursos Humanos de Ponte Formosa. Espírito Santo,
1996. in http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/fundam01.htm
Publicado
em 05/07/2005