Dentre
os distúrbios de aprendizagem, nota-se
com maior freqüência e intensidade a
deficiência na aquisição e
desenvolvimento da Leitura e Escrita.
Em
nossa prática de consultório, atendendo
crianças, adolescentes, jovens adultos,
bem como os próprios pais, são comuns as
queixas acerca da pouca eficiência do
saber ler e escrever. São comuns ainda,
queixas de professores sobre estas
dificuldades, ou seja quão pouco
eficiente os jovens se encontram em relação
à linguagem oral, quão pouco domínio
eles dispõem da verbalização adequada
como instrumento de comunicação e, o
mesmo ocorrendo com o domínio da leitura
e da escrita.
Relatos
são conhecidos por todos, sobre alunos
que não aprendem Matemática, História,
Ciências, etc., não por serem portadores
de dificuldades específicas nas referidas
áreas, mas por faltarem-lhes o
instrumental básico, ou seja, na leitura
a possibilidade de compreensão, a
capacidade para interpretar, abstrair,
inferir e estabelecer relações entre os
fatos contextuais e na escrita o domínio
da língua (da micro à macro estrutura),
a capacidade para relacionar os dados e
redigi-los de forma clara e coerente,
respeitando os manejos gramaticais
pertinentes e básicos à redação.
A
leitura e escrita são processos muito
complexos e as dificuldades podem ocorrer
de maneiras diversas, além disso temos a
aquisição da leitura e escrita como
fator fundamental e favorecedor dos
conhecimentos futuros; é uma ferramenta
essencial, ou mesmo a estrutura mestra
onde serão alicerçadas as demais aquisições.
É apoio para as relações interpessoais,
para a comunicação e leitura de seu
mundo interno e externo. Uma criança que
não tenha solidificado realmente sua
alfabetização, poderá tornar-se
frustrada diante da educação formal, terá
deficitário todo seu processo evolutivo
de aprendizagem, apresentará baixo
rendimento escolar e pouco a pouco sua
auto estima estará minada, podendo
manifestar ações reativas de
comportamento anti-social, bem como levá-la
ao desinteresse e muitas vezes até a evasão
escolar. O problema pode ainda decorrer em
outros secundários que acabarão se
tornando tão ou mais graves daqueles
originais que produziram a ineficiência
da alfabetização.
Diante
deste fato, objeto de queixas de
educadores, pais e profissionais ligados
à área, torna-se difícil distinguir
onde se encontra a falha, seja de ordem da
dinâmica individual, seja de ordem do
meio, ou seja devido à síndrome
psicossocial, onde estão envolvidas as três
vertentes ao mesmo tempo: o indivíduo, a
escola e a comunidade.
A
fronteira determinante destes aspectos é
frágil e tênue, muito se tem discutido e
pesquisado, todavia são apontadas poucas
conclusões efetivas e menor parece ser a
possibilidade para ações preventivas a
todas as implicações do universo da
aprendizagem.
Iniciando
pela análise da dinâmica do indivíduo,
este terá sucesso na aquisição da
leitura e escrita dependendo da evolução
maturativa e equilibrada dos aspectos
fisiológico, emocional, intelectual e
social.
Consideramos
um indivíduo realmente alfabetizado não
apenas quando mecanicamente decodificar
sons e letras ou seja, quando puder
transpor os sons para as letras (ao
escrever) e das letras para os sons (ao
ler), mas de forma efetiva, ou seja quando
tiver automatizado o processo, sem
precisar recorrer a todo instante aos
passos necessários a esta atividade; e
sobretudo quando puder utilizar-se desta
habilidade para obter outros
conhecimentos; para assimilar e montar
esquemas internos que o permitam
transformar os elementos brutos da
realidade e que possa operacionalizar o
processo contínuo de sua própria
alfabetização (já que ela não é um
fim em si mesma), e da aprendizagem
enquanto um todo. Ajuriaguerra aponta que
enquanto este processo permanece no limiar
do voluntário, seu desenvolvimento é
irregular e forçado; quando se
automatiza, a leitura e a escrita se
tornam fáceis, livres e muito rápidas.
A
aquisição deste processo todavia,
depende da oralidade, da aprendizagem da
fala, que na criança parece evoluir a
partir da compreensão da linguagem
(linguagem interna) para a efetiva expressão
da mesma (fala). Chomski coloca que não
basta: “Penso, logo existo”, mas
“Falo, logo penso, logo existo!”.
Para
desenvolver os estágios superiores da
linguagem: a compreensão da palavra
impressa (a leitura) e a expressão da
palavra impressa (a escrita), a criança
precisa (além de ter sedimentado de forma
harmoniosa as etapas da oralidade), ser
capaz de articular todos os sons da língua,
o que normalmente se determina aos seis
anos (observadas as diferenças
maturacionais de cada indivíduo). Requer
ainda a ampliação e domínio do universo
vocabular. Outra etapa necessária que
precisa ser vencida é a capacitação
para analisar as palavras em seus
segmentos subsilábicos, isto é analisar
os sons, que as compõem. Esta
possibilidade é a chamada consciência
lingüística ou fonológica. Sabemos que
até os seis anos, observando sempre as
características individuais, a criança só
consegue segmentar palavras em sílabas, a
partir desta idade passa a poder segmentá-las
nas unidades mínimas: as vogais e
consoantes.; quando essa habilidade
ocorrer podemos afirmar que a criança
passa a ter uma consciência metalingüística
da mesma, a consciência fonológica, que
a permite analisá-la mais eficientemente.
Ainda
analisando sob o viés do indivíduo,
temos como outro aspecto importante para
garantir este processo, que a criança
tenha um nível suficiente de habilidades
específicas como: o desenvolvimento da
Motricidade Geral, da Integração Sensório-motora
(esquema corporal, lateralidade, sentido
de direção, conceito de direita e
esquerda, ritmo, orientação espaço-temporal)
, das Habilidades Perceptivo-motoras (visão,
audição, memória,...). Estas
capacidades precisam ser estimuladas, já
que contribuem para a viabilização do
processo da leitura e escrita, ou impõem-se
como impedimento para a aquisição do
mesmo.
O
atraso específico na leitura pode ser de
natureza de déficit cognitivo,
especificamente na esfera da capacidade
verbal. A. F. Jorm, em “Psicologia das
Dificuldades em Leitura e Ortografia”,
postula que um componente particular
parece estar associado com dificuldades de
leitura, é a capacidade de lidar com
informações fonológicas na memória.
Outro
aspecto que merece ser analisado refere-se
à compreensão do texto. Sabe-se que há
uma estreita relação entre a capacidade
da leitura mecânica e a possibilidade de
compreensão, assim sendo a criança que
apresenta pouca eficiência na leitura,
conseqüentemente apresentará
dificuldades severas na compreensão do
que lê. Por outro lado há indivíduos
que mesmo não apresentando deficiência
na identificação das palavras, ou seja,
mesmo podendo traduzir literalmente as idéias
propostas no texto, manifestam
dificuldades para compreendê-lo, para
estabelecer uma análise inferencial e crítica.
São os leitores com déficits específicos
de compreensão, encontrados não somente
no Ensino Fundamental e Médio, mas também
e principalmente nos cursos Universitários
e em adultos já formados.
Sobre
os aspectos mais relativos à escrita,
temos que, assim como na aquisição da
fala a linguagem receptiva antecede a
expressiva, no sistema visual a leitura
antecede a escrita. Desta feita, a maior
parte dos distúrbios da expressão da
palavra impressa, a escrita, são
decorrentes da ineficiência da leitura,
todavia há indivíduos que mesmo sendo
bons leitores apresentam distúrbios na
expressão escrita.
Devemos
estabelecer as diferentes situações-problemas
que podem ocorrer na escrita, o primeiro
grupo seria composto pelas crianças e
jovens, que apresentam deficiências na
discriminação e associação fonema/grafema,
ou seja, aqueles que não sistematizaram
efetivamente o processo da escrita mecânica,
como seria esperado pela sua faixa etária
e acadêmica, tendo tido escolaridade
favorecedora e recursos cognitivos
adequados. Esse grupo apresentará deficiências
na aquisição da linguagem escrita,
decorrendo em falhas ortográficas como
trocas por confusões visuais e/ou
auditivas, omissões e acréscimos (de
letras ou sílabas), poderá ainda
apresentar fragmentações e junções de
palavras.
O
segundo grupo caracterizaria os jovens que
dominam o código do grafar, todavia
apresentam dificuldades para compor um
texto, para expressarem- se no papel. São
aqueles que não conseguem transmitir para
a escrita sua ideação ou seus
conhecimentos adquiridos através de suas
vivências e interações no meio. São
indivíduos que na oralidade denotam e
expressam criatividade, expressam ainda um
mundo imaginário explorado e
desenvolvido, assim como manifestam domínio
do conteúdo informativo e conseguem
estabelecer correlações adequadamente,
todavia expressam total incapacidade para
lidar com as estruturas necessárias para
escrever.
Essas
dificuldades não sendo trabalhadas,
acarretarão vivências frustrantes e
limitadoras no processo geral evolutivo da
aprendizagem, isto é, a criança ou o
jovem que não encontram suporte e continência
para sua notação gráfica deficiente,
desestimulam- se frente aos fracassos que
vivenciam, levando-os ao desinteresse, à
impotência na forma de expressarem- se e
comunicarem- se por escrito. Eles
fatalmente passam a escrever cada vez
menos, limitando seu imaginário e
potencialidade criativas, temendo as punições
que sofrerão frente aos seus erros ortográficos.
Outro
fator que causa fracasso neste processo
seriam as crianças portadoras da Dislexia
Evolutiva, que significa, segundo
Galaburda e Aboitz, uma condição clínica,
caracterizada pela dificuldade na
aprendizagem da leitura e escrita nos
indivíduos de inteligência e estado
psiquiátrico normais, que têm tido boas
oportunidades de educação e
oportunidades sócio-culturais adequadas.,
havendo correlação neurológica
subjacente e que manifestam muitos dos
sintomas e das deficiências aqui
descritos.
Em
relação às demais atividades psíquicas
envolvidas diretamente com este processo,
temos por exemplo, a forma como a criança
organiza seu pensamento, as suas características
de personalidade, o como ela investe
afetivamente no meio e, principalmente
qual a função que a linguagem representa
enquanto veio de comunicação.
A
psicanálise através de Freud, coloca o
quanto os aspectos inconscientes
influenciam a aprendizagem e o quanto
nossa harmonia psíquica capacita ou
prejudica esta atividade. Se a nossa
psique é o veio através do qual se dá
nossa relação com o mundo, e, se é
através dela que tomamos contato com o
meio e o introjetamos, estando este
aparelho como o chama Bion, em confusão
ou conflitado em termos emocionais, terá
alterada e prejudicada esta interiorização.
Se uma criança, por exemplo, não teve em
princípio um bom vínculo com a mãe, ou
sua substituta, poderá desenvolver relações
desfavoráveis em seu processo geral de
aprendizagem e especificamente com a
aquisição da linguagem oral, da leitura
e escrita, podendo ser esta a sua forma de
expressão de sintomas reativos
manifestos. A linguagem, neste caso, poderá
estar cumprindo uma função de alerta de
que a comunicação, entre ela (a criança)
e o mundo, está prejudicada.
Entendemos
que além das possibilidades lingüísticas,
perceptivas, motoras e cognitivas, além
dos métodos, dos recursos didáticos,
aprender implica em um sujeito que busca a
aquisição do conhecimento, e significa
sempre uma experiência emocional. Assim
sendo, um indivíduo que não tenha motivação
, não se estimulará para a aquisição
de habilidades tão complexas que exigirão,
capacidade para frustração adequada,
possibilidade para seguir os padrões
fixos e sistemáticos que o processo da
leitura e escrita requer.
Dos
aspectos relativos à dinâmica do meio,
podemos apontar a falta de escolarização
ou à privação cultural adequadas do
meio, à própria marginalização do
sujeito com dificuldades pelo ensino
comum, sofrendo este a pecha de
incompetente e desajustado, desfocando a
responsabilidade da “Instituição-
escola” para o indivíduo, a superlotação
das salas de aula, que impedem a individuação
dos alunos.
Outros
fatores relativos ao meio interferem na
qualidade da aquisição da leitura e
escrita, tais como a inadequação de métodos
específicos às particularidades dos
educandos, a escolha da metodologia
baseada nas diferentes necessidades e
dificuldades que os indivíduos
apresentam, a aplicação de currículos
sem fundamentação teórica, não sendo
respeitados os reais níveis etários e
possibilidades instrumentais dos alunos, o
que acarreta em exigências aquém ou além
da competência dos alunos. A pouca ou
ineficiente estimulação dos professores,
ou mesmo as relações educador/educando
estabelecidas de forma conflitada, a
inabilidade dos educadores para observar e
detectar as reais deficiências
manifestadas pelos seus alunos, o que
impede a possibilidade de diagnóstico e
tratamentos precoces e preventivos.
Em
relação à família observam-se as altas
ou baixas expectativas que são projetadas
nos filhos, muitas vezes por
desconhecimento da capacidade dos mesmos,
ou ainda por projeções baseadas
inconscientemente em suas próprias experiências
escolares, causando-lhes vivências
impotentes e baixa estima, quando não
conseguem corresponder. É bastante comum
referências de pais sobre similaridades
de história de fracassos na leitura e
escrita, suas e de seus filhos,
estabelecendo desta forma uma identificação
de modelos atávicos.
Finalizando,
podemos concluir a relevância primordial
de se ter o conhecimento do sujeito em seu
processo evolutivo de aprendizagem, e
sobretudo focar a atenção em sua
unidade, observando os aspectos
individuais (sejam eles cognitivos ou
afetivo-emocionais) , os familiares e os
da comunidade como um todo, já que esse
todo compõe o universo de cada um.
Importante ainda ressaltar que educadores
por vezes, iniciam precocemente o processo
de aquisição da leitura e escrita, sem
dar a devida estimulação às
habilidades, o que acarretará em prejuízo
à aquisição.
Além
disso, se estas habilidades cognitivas
apresentam-se deficitárias, o estarão,
antes mesmo da criança iniciar o processo
de alfabetização, assim sendo, uma
avaliação precoce possibilitará o diagnóstico
e o tratamento e desta forma teremos uma
alternativa de prevenção para evitar
futuros transtornos acumulativos que
decorrerão dessas deficiências já
constatadas. A observação e o
encaminhamento da criança pelo educador
atento, favorece ainda o planejamento de métodos
adequados e específicos para a aquisição
da leitura e escrita das crianças com
suas características próprias, além de
possibilitar indicações de escolas que
possam ser continentes a essas crianças e
orientação familiar.