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REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DE EDUCADORES NA REDE REGULAR DE ENSINO
QUANTO A INCLUSÃO SOCIAL
Tatiane
Peres Zawaski
Graduada
em Pedagogia - Orientação Educacional
pela ULBRA Canoas/RS e Pós-Graduanda em
Psicopedagogia Institucional pela Cesuca
– Complexo de Ensino Superior de
Cachoeirinha – E-mail:
tatyzawaski@terra.com.br
E-mail:
tatyzawaski@terra.com.br
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RESUMO
A inclusão de
pessoas com necessidades educacionais especiais é
uma tendência que emergiu na década de 90, além
de trazer novas perspectivas para os alunos trouxe
também novas exigências para educadores e
escola, visto que como sabemos, vivemos em uma
sociedade marcada por uma forte exclusão a todo e
qualquer tipo de diferença. Atualmente
é comum ouvirmos nas redes escolares o termo
“inclusão”, mas qual é o seu real
significado? Estamos incluindo as crianças ou
apenas integrando-as nos bancos escolares. A
inclusão está sendo um dos maiores desafios que
a educação vem passando nos últimos tempos.
Sendo assim, o presente artigo pretende investigar
como está sendo realizada a prática dos
educadores quanto à inserção de alunos com
necessidades educativas especiais na rede regular
de ensino. Sabemos ser uma tarefa que além de
conhecimentos necessários exige carinho, dedicação,
comprometimento e principalmente acreditar no ser
humano e suas potencialidades.
PALAVRAS CHAVE
Integração - Inclusão –
Escola - Necessidades Educativas Especiais.
ABSTRACT
The inclusion of people with educational
necessities special is a trend that emerged in the
decade of 90, beyond bringing new perspectives for
the pupils also brought new requirements for
educators and school, since as we know, we all
live in a society marked for one strong exclusion
and the any type of difference. Currently is common to hear in the pertaining to school nets
the term “inclusion”, but which is its Real
meant? We are including the children or only
integrating them in the pertaining to school
banks. The inclusion is being one of the biggest
challenges that the education comes passing in the
last times. Being thus, the present article
intends to investigate as she is being carried
through the practical one of the educators how
much to the insertion of pupils with educative
necessities special in the regular net of
education. We know to be a task that beyond
necessary knowledge demands affection, devotion,
to compromise and mainly to believe the human
being and its potentialities.
KEYWORDS
Integration - Inclusion - School - Special Educative
Necessities.
INTRODUÇÃO
Iniciamos
nossa discussão, partindo do pressuposto que
parece vivermos em uma sociedade integradora e não
inclusiva. O presente estudo pretende discutir
mediante uma perspectiva inclusivista, como é a
prática de educadores frente o ingresso de alunos
com necessidades educativas especiais na rede
regular de ensino. Para isto realizamos uma
pesquisa com educadores de escolas públicas e
privadas nas séries iniciais do ensino
fundamental no município de Canoas/RS.
Presenciamos em nosso cotidiano que a
diferença entre as pessoas é um processo não
trabalhado. Como podemos pensar em movimentos
inclusivos se nossa sociedade silencia, ou melhor,
faz com que desapareça o “feio”, o
“diferente”, o que “foge dos padrões ditos
normais”. É comum ouvirmos discursos do tipo
“somos todos iguais”, mesmo sabendo que se
somos seres dotados de capacidades, tempos,
limites, aprendizagens, potencialidades e características
únicas, fatores que nos tornam seres
“diferentes” uns dos outros.
Este princípio de
diferença estende-se da sociedade até os bancos
escolares, pois muitas crianças ditas
“anormais” chegam a nossas escolas sendo
consideradas diferentes por fugirem dos padrões
“normais” dos quais estamos acostumados. A prática
pedagógica é um assunto que vem sendo discutido
há muito tempo e atualmente um dos
questionamentos que acerca o quadro educacional é
o papel do educador na escola em relação à meta
de educação para todos.
Sabemos
que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação –
LDB/1996 garante o direito educacional a todas as
crianças, sendo assim, no decorrer do artigo
abordaremos os aspectos legais assim como,
discutiremos como está sendo desenvolvida à prática
dos educadores nas escolas de ensino regular
frente à inclusão de alunos com necessidades
educativas especiais, quais suas ações, metas e
como o trabalho pedagógico vem sendo realizado.
1 REFLEXÕES INICIAIS: INCLUSÃO OU INTEGRAÇÃO?
1.1 Diferenciando os termos ‘Inclusão’ e ‘Integração’
O termo inclusão e
integração atualmente são utilizados com múltiplos
significados. Porem é importante assinalar que não
estamos nos referindo a termos do modismo ou até
mesmo uma tendência educacional, mas sim um ato
dotado de muitos significados e quão necessários
na sociedade atual.
Estes vocábulos têm semelhantes
significados o que de certa forma causam divergências
com pais, educadores e alunos.
Inicialmente vamos
definir o verbo “integrar”, de acordo como
dicionário o termo significa formar, coordenar ou
combinar, enquanto o verbo “incluir” significa
compreender, fazer parte, participar. Como podemos
observar há uma grande diferença que de certa
forma distancia os termos, mas aqui cabe o
questionamento frente o que nossas escolas fazem
hoje? Incluem, integram nenhuma das alternativas.
É
um fato a se pensar, pois de acordo com Baptista
(2009),
nas terminologias fica claro que a integração
pode ser considerada uma prática seletiva com
vistas que o aluno deficiente deva adaptar-se aos
parâmetros da normalidade, enquanto a inclusão
deriva da inserção de modo que os alunos tenham
a possibilidade de estar nas escolas regulares
recebendo um ensino adequado e adaptado a suas
reais necessidade. De acordo com Sassaki (2002)
jamais houve ou haverá um termo correto que seja
válido em todos os espaços, porém, é
importante atentarmos para certas terminologias
que evidenciam-se muitas vezes como classificatórias
ou excludentes.
1.2 Educação Inclusiva: Analise da trajetória
Quando falamos em educação inclusiva,
remete-nos primeiramente ao processo de inclusão
social, termo este que surgiu, ou melhor, dizendo,
evoluiu com a proposta institucional nos anos
noventa, caracterizando-se como um novo princípio
educacional. Mas o que vem ser a “educação
inclusiva”? Podemos definir a educação
inclusiva como um processo o qual permite a
participação na vida, no trabalho e em todas as
instâncias sociais as PNEEs.
De um modo geral, é importante ressaltar mais uma
vez que a educação inclusiva é um dos grandes
desafios da educação de hoje porque imputa na
escola a responsabilidade de deixar de
“excluir” para “incluir” educando a todos
de tal forma que estes tenham sucesso independente
de sua falta de habilidade ou deficiência,
objetivando assim que todos possam ter os mesmos
direitos de tomar o seu lugar na sociedade.
Durante muitos anos
para alfabetizar as PNEE, era necessário que elas
freqüentassem escolas especiais. Estas instituições
ocupavam-se apenas daqueles que eram fora da
normalidade concebida pela escola regular, lá
permaneciam todos aqueles que acreditavam ser
diferentes, sendo assim, estes deveriam ficar fora
de determinados espaços e excluídos de certos
contextos.
Com base em leituras
e pesquisas realizadas acerca de pessoas com
necessidades especiais, ressalta-se que escolas
especiais são importantes para o desenvolvimento
destas pessoas, desde que seja um complemento a
escola regular. A diferença dar-se-ia que na
escola regular estas pessoas se socializariam com
os demais que conviveriam com as diferenças e de
acordo com Vygotsky (2007) construiriam o
conhecimento. Já a escola especial teria outro
papel, contando com profissionais especialistas
esta demanda de alunos trabalhando assim cada
dificuldade de forma diferenciada.
É
importante ressaltarmos que a escola inclusiva,
tem como base um processo educativo entendido como
um processo social. Ou seja, ele promoverá uma
revolução educacional, pois envolverá uma
escola eficiente, comunitária, solidária e
democrática, onde a multiplicidade ultrapassará
o limite de integração alcançando assim a
inclusão social, porém, cabe ressaltar que para
as escolas receberem esta demanda de crianças em
suas classes regulares, é importante contar com
profissionais que acreditem em suas
potencialidades, porém é essencial a capacitação
dos educadores, pois os conhecimentos teóricos
trazem a eles contribuições importantes às
quais permitirão fundamentar suas ações.
2 ASPECTOS LEGAIS: MÚLTIPLOS OLHARES ACERCA DA INCLUSÃO
Podemos considerar a
Declaração de Salamanca (1994), como um marco
histórico para educação especial, apesar de que
desde o ano de 1993 já havia várias implementações
através de documentações oficiais do MEC
como a “Política Nacional de Educação
Especial” e a “Declaração Mundial sobre
Educação para todos”.
A Declaração de
Salamanca é um documento que foi elaborado na
cidade de Salamanca na Espanha, o qual prevê que
a educação de pessoas com deficiência seja
parte integrante do sistema educacional na rede
regular de ensino, visto que toda criança tem
características, interesses, habilidades e
necessidades de aprendizagem únicas, sendo assim,
é certo afirmar que toda escola tem o dever de
desenvolver uma pedagogia centrada na criança,
visando satisfazer suas necessidades, o que
evitaria o grande número de repetência que causa
a evasão escolar.
Este documento também
traz muito claro o fator da formação dos
educadores para trabalhar com esta demanda de
alunos, sendo uma obrigação política a realização
de cursos complementares como medida de qualificação
dos mesmos. Outro ponto muito forte demarcado pela
declaração evidencia que as inserções destes
alunos em escolas regulares constituem meios
eficazes de combater atitudes discriminatórias e
exclusão social, sendo assim fica claro o princípio
fundamental da escola inclusiva onde todas as
crianças devem aprender juntas independentes de
quaisquer dificuldades ou diferenças.
Outro aspecto legal o
qual devemos nos deter é a própria Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB
– Lei nº. 9394/96) que decreta em seu art. 58
que a educação especial é uma modalidade da
educação escolar e deve ser oferecida
preferencialmente na rede regular de ensino para
as PNEE. Porém neste mesmo artigo no seu parágrafo
primeiro fica evidente a necessidade de serviços
de apoio especializados para atender estes
educandos. É claro também no art. 59 que os
sistemas de ensino oferecerão currículos, métodos
e técnicas específicas para atender esta
demanda, professores qualificados, ou seja,
especialistas no assunto e uma educação voltada
para o trabalho com acesso igualitário a todos os
benefícios.
Questiona-se até que
ponto as escolas regulares estão atendendo as
exigências legais da LDB e demais decretos que
acercam a inclusão de pessoas com necessidades
educativas especiais. Eis aqui o impasse o qual me
refiro no próprio título deste artigo onde o não
cumprimento da referida Lei segundo a concepção
de pesquisadora do assunto acerca o fato de
estarmos integrando estas pessoas nos bancos
escolares e não as incluindo visto que já é de
nosso saber que muitas escolas as quais se dizem
inclusivas não tem as premissas básicas para
atendimento destes educandos.
3 O PROFESSOR E A INCLUSÃO: DESAFIOS EDUCACIONAIS NA REDEFINIÇÃO DOS
PAPÉIS
“Para entender é preciso esquecer quase
tudo que sabemos. A sabedoria precisa de
esquecimento. Esquecer é livrar-se dos jeitos de
ser que se sedimentaram em nós, e que nos levaram
a crer que as coisas têm de ser do jeito que são
(...) Rubem Alves (2003).
Educação, esta
palavra tão encantadora traz grandes desafios
para seus seguidores e fazem das escolas partes
integrantes de seu contexto, lugares onde novas
competências devem ser adquiridas, reconhecidas
desenvolvidas.
E quem são os atores que fazem parte deste
contexto? Educadores...
Trabalhar com crianças
com necessidades especiais sempre foi um desafio
para os profissionais da área da educação. Ao
longo da caminhada que tange a educação especial
muitos ignoraram a existência destes alunos
deixando assim a responsabilidade para algum grupo
de professores mais “piedosos” os quais lançavam-se
para o desafio.
Muitos professores têm
receio em receber alunos com necessidades
especiais e justificam-se com o despreparo para
trabalhar com estas crianças. O receio é natural
e pertinente à medida que não houve uma formação
adequada para atender esta demanda de alunos, mas
cabe aqui o questionamento frente a outros
profissionais que com a mesma formação
desenvolvem o trabalho com estas crianças. Aqui
encontramos uma diferenciação e talvez a
resposta que estamos buscando com a pesquisa
realizada.
A diferenciação
recai quando muitos educadores trabalham com matérias
diferenciadas com seus alunos porque eles não
dominam as questões que são postas aos outros.
Estes profissionais ditos inclusivos são capazes
de trabalhar um desenho com um aluno visto como
‘incapaz’, enquanto os demais ‘capazes’
realizam cálculos matemáticos ou outros conteúdos
pré-programados os quais tem de cumprir para no
próximo ano cursar a outra série. Que forma de
inclusão é esta? Do que estamos falando? Que
escola inclusiva é esta? Para Baptista (2009, p.
106),
“a escola
tem que ser um espaço aberto, um espaço de
segurança onde o risco seja possível, o erro
tolerado e as tentativas aceitas sem gracejos, sem
humilhações nem julgamentos definitivos”.
Com o passar dos anos
muitas leis, decretos e convenções foram
surgindo como vimos anteriormente e a sociedade
tomou consciência do verdadeiro papel das pessoas
com necessidades especiais verificando assim que
estas também eram possuidoras de direitos e
deveres de ser, estar e fazer parte como indivíduos
democráticos. Toda esta transformação recai
sobre a escola. Acredito que o momento que estamos
vivendo não é mais de alongar as resoluções,
leis, portarias, mas o de trabalhar com a práxis
é o momento de ser, e fazer educação.
3.1 A prática do educador na escola dita inclusiva
O processo de inclusão
exposto em toda legislação que acerca o tema
propõe basicamente que todos os indivíduos
interajam em todas as situações fazendo que
assim ele torne-se sujeito ativo no processo de
aprendizagem. Incluir não é somente destinar a
criança um espaço físico dentro das salas de
aula, com uma classe e uma cadeira deixando-o lá
esquecido e tornando-o como um mero receptor de
conteúdos pré-estabelecidos sem nenhum
significado, incluir é inserir o aluno de forma
que toda aprendizagem promova seu desenvolvimento
e remova as barreiras da aprendizagem tornando-o
um sujeito ativo e participante em todo processo.
Ainda é comum
vivenciarmos em nossas escolas muitos educadores
com práticas alicerçadas na educação
tradicionalistas onde eles eram detentores do
saber, escolas onde a base educacional se emerge
no professor como o transmissor de conteúdos e o
aluno um reprodutor do conhecimento. Como as crianças
aprendem desta forma? Imagine crianças com
necessidades especiais que não conseguem ser
reprodutoras como a escola deseja, o que acontece
com estes alunos, são excluídos, tornam-se
repetentes ou são os considerados incapazes?
Ressalva-se que a
educação tradicionalista assim como as demais
tem grande influencia em nossa prática, o que não
pode acontecer é nossos educadores deterem-se
apenas a uma forma transmitir o conhecimento
descartando as demais. Os educadores tem que
refletir sobre seus papéis e acreditar que toda
esta base educacional é fundamental para
construirmos uma escola ideal.
Outro
fator que se faz de suma importância na prática
educacional, mas acreditamos estar esquecido é o
fato das necessidades de cada alunado. Todo e
qualquer indivíduo é dotado de limitações o
que não significa que ele seja incapaz. Está
na hora dos educadores, equipe diretiva, a escola
em si rever suas práticas desencadeando uma
atitude reflexiva e crítica no ensino. Re-pensar
e fazer uma diferenciação pedagógica antes de
incluir uma demanda que não são capazes de
atender e aqui mais uma vez concordo com Carvalho
(2007), todos os alunos mesmo os
que possuem necessidades educativas especiais são
capazes de aprender desde que contem com um
programa educativo adaptado as suas necessidades,
desenvolvido com os demais colegas de forma que
juntos descubram o melhor caminho a percorrer.
3.2 O trabalho docente na escola inclusiva: Fios que tecem a prática
inclusiva
“Não me pergunte quem sou, mas não me
diga para permanecer o mesmo” (Foucault, 2007).
Vamos iniciar esta
discussão sobre a prática educativa referenciado
o que Baptista (2009)
destaca necessário nas escolas hoje, o repensar
sua função curricular para assim podermos
construir o papel central do educador inclusivo.
De nada adianta trabalhar o educador, formar este
profissional com vistas à inclusão se a escola
continua centrada em práticas arcaicas e
excludentes que não visam o desenvolvimento
integral do aluno. Muitas escolas ainda acreditam
ser inclusivas pelo simples fato de matricularem o
aluno com necessidades especiais, porém
esqueceram-se que seu principal compromisso com
este aluno é o oferecimento de um ensino de
qualidade respeitando-o como parte do processo
ensino-aprendizagem.
Para
Mantoam (1997) o maior desafio da inclusão
recai sobre o humano, mas por que no humano?
Acredita-se que o professor é a peça fundamental
do quebra cabeça que transformou a escola
inclusiva. O ato de incluir requer um profissional
com uma atuação baseada em princípios igualitários,
bem como alguns aspectos técnicos que se fazem
necessários para desenvolver uma educação de
qualidade que atenda a todos sem distinção.
Sabemos que trabalhar
com a inclusão é um desafio não só para
educadores, mas principalmente para a instituição
escola que ainda esta centrada em apenas
transmitir os conteúdos e vencer os mesmos nos
prazos pré-determinados esquecendo-se do tempo de
aprendizado de cada aluno. No que tange o corpo
docente, acreditamos ainda ser necessário
aprender a trabalhar com esta nova perspectiva
educacional, uma prática centrada nos quatro
pilares da educação (Delors, 1999)
onde o educador estaria envolvido com o aprender a
aprender, aprender a fazer, aprender a ser e
aprender a conhecer, porém cabe ressaltar que
para todos este processo ocorrer os professores
tenham acima de tudo vontade de tornarem-se
educadores inclusivos tornando-os agentes de
transformação educacional.
Acreditamos que a
escola ainda tem uma longa trajetória, porém
cabe a todos os envolvidos unir forças, buscar idéias
e alternativas para transformar e construir uma
escola capaz de educar a todos sem distinção
alguma, fazendo que estes aprendam dentro de suas
capacidades e de seus tempos, porém com o
respeito quão necessário neste fabuloso processo
que é o ato de ensinar e aprender.
4 PSICOPEDAGOGIA E INCLUSÃO: A ARTE DE ROMPER BARREIRAS NA CONSTRUÇÃO
DE UMA ESCOLA POSSÍVEL
“Quando eu perdi as esperanças, você
estava lá para me lembrar: este é o começo.”
(AD).
A psicopedagogia é
uma área de estudos que dedica-se a compreender
os processos de ensino e aprendizagem humana. De
acordo com Porto (2005)
ela surgiu a partir da grande demanda de crianças
com dificuldades de aprendizagem e seus estudos
baseiam-se na Pedagogia e na Psicologia.
Tratando-se de estudar as dificuldades de
aprendizagem percebemos que ela tem um importante
papel no processo de inclusão de pessoas com
necessidades especiais.
O trabalho psicopedagógico
poderá contribuir não só para o aluno com
necessidades especiais (parte clínica), mas também
para a escola e a família (parte institucional).
Sua contribuição volta-se a auxiliar educandos e
educadores a adaptarem-se com diversas atividades
que tornarão a escola menos excludente
desmistificando assim a classificação e rotulação
dos alunos.
Acredita-se que a função
da psicopedagogia no processo inclusivo venha como
forma de orientar os educadores fazendo que estes
não fiquem focados na “doença” dos alunos
visto que muitas vezes este fato impõe limites
que acabam trazendo impossibilidades para que o
aluno aprenda. Sua função na escola inclusiva
está alicerçada em um trabalho voltado para o
desenvolvimento possível e não o que imaginem
ser o ideal para que o aluno chegue ao esperado.
A escola necessita
hoje de uma rede interligada de profissionais que
juntos trabalhem para romper toda forma de
discriminação e preconceito, focando o trabalho
do educador na elaboração de estratégias que
proporcionem o desenvolvimento integral do
educando.
O trabalho psicopedagógico
irá contribuir para desvendarmos muitos mitos
ultrapassando o preconceito e realizando
atividades a partir do potencial que cada aluno
tem vendo ele como um ser capaz de aprender desde
que seja respeitado seu tempo e suas limitações.
Temos que trabalhar para por fim na idéia que uma
criança com necessidades especiais tem de
aprender apenas atividades rotineiras, é nosso
dever como profissionais da educação capacitá-los
ao convívio, participação e auto-sustentação
na sociedade.
5 CAMINHOS DA PESQUISA: REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DE EDUCADORES NA REDE
REGULAR DE ENSINO NO MUNICÍPIO DE CANOAS/RS
“Cada um de nós é diferente. Tivemos
experiências diferentes. Recebemos o sol de
maneira diferente. Por que então não teríamos
cores diferentes?” Buscaglia (1982).
A
realidade educacional indica que ainda estamos
vivenciando dilemas e desafios frente à inclusão
de PNEE na rede regular de ensino. Estas questões
vivenciadas cotidianamente nas escolas não afetam
somente equipe diretiva e educadores como também
os discentes e suas famílias que convivem
diariamente com estes alunos e não sabem como
recebê-los.
Sabemos que este é
um fato o qual não envolve apenas a melhoria da
qualidade do ensino, mas também, é necessária
uma união por parte da escola e família assim
como uma equipe educacional preparada para atender
toda esta demanda de alunos que compõe nossa
sociedade trabalhando assim as diferenças.
Com
base no que foi exposto, cabe ressaltar que o foco
desta pesquisa é investigar como é realizada a
prática dos educadores nas escolas regulares da
rede pública e privada do município de
Canoas/RS, visto que muitos discursos vivenciados
na atualidade retratam uma integração destas
pessoas por parte das escolas e não a inclusão
que está prevista na legislação.
A
presente pesquisa a qual apresentaremos a seguir
buscou também investigar se a prática educativa
atende satisfatoriamente as pessoas com
necessidades especiais, assim como verificar se as
propostas pedagógicas das escolas estão
adaptadas para atender esta demanda de alunos com
projetos, salas e equipamentos os quais são de
grande importância para aprendizagem e permanência
destes em nossas salas de aula.
5.1 Metodologia
Nos período de junho
á outubro do corrente ano realizou-se uma
pesquisa qualitativa com aplicação de questionários
e realização de observação com educadores e
equipe diretiva de escolas da rede pública e
privada do município de Canoas, com vistas a
investigar como é realizada a prática bem como a
capacitação docente na inclusão de pessoas com
necessidades educativas especiais.
5.2 Análise dos dados coletados
Para melhor
apresentar os dados coletados nesta pesquisa o
trabalho foi dividido por eixos os quais faremos
uma breve reflexão sobre a temática abordada. O
primeiro eixo destinado a “Educação
Inclusiva” apresentará os questionamentos ‘O
que é inclusão. O que faz uma escola ser
inclusiva. E A escola integra ou inclui?’.
O
segundo eixo denominado “Capacitação do
trabalho docente”, o foco da presente pesquisa,
investigou como é realizado o trabalho docente
nas escolas quanto à inclusão social, para isto
verificamos se os professores sentem-se preparados
para trabalhar com PNEE?, Como é realizado o
trabalho?, O planejamento conta com atividades
diferenciadas?
e como é o processo de avaliação destes
alunos?
O
terceiro eixo nomeado “Recursos da Instituição”
buscou verificar o que a escola oferece para
realização deste trabalho. E o quarto e último
eixo denominado “Fatos Relevantes” investigou
como é o convívio dos alunos especiais com os
demais da turma.
5.2.1 Eixo 1: Educação Inclusiva
Gráfico
1
Com
base nos dados coletados conforme mostra o gráfico
1 à maioria dos educadores acreditam que a inclusão
é desenvolver as potencialidades do PNEE, ou
seja, trabalhar suas potencialidades na escola.
Porém, para Sassaki (2002)
a inclusão é um processo de mudança do sistema
social comum para acolher toda a diversidade
humana. Também esteve presente dentre as
respostas que a inclusão é a inserção
ponderada, inovação educacional e a participação
do convívio social dentre outras.
Gráfico 2
O segundo
questionamento abordado nesta pesquisa procura
evidenciar através do gráfico 2 o que faz uma
escola ser inclusiva. Para 37% dos entrevistados,
a escola torna-se inclusiva quando aceita todos os
alunos, seguida de 27% dos que acreditam ser
necessário uma formação adequada. As
respostas dos entrevistados são confrontadas com
o pensamento de Facion (2005)
o qual acredita que uma escola só poderá ser
chamada de inclusiva quando sofrer algumas adaptações
concretas desde a educação infantil das quais a
mais importante a salientar é o respeito à
individualidade da criança. Para este mesmo
autor, não basta apenas à boa vontade mas sim é
de grande necessidade um trabalho em conjunto com
todos os envolvidos neste processo.
Gráfico 3
O último
questionamento abordado neste eixo o qual
acreditamos ser de grande importância, busca
saber se as escolas incluem ou integram. Acreditam
os entrevistados que 37% das escolas ”excluem”
os alunos PNEE, seguidos de 25% integradoras e 25%
inclusivas. De acordo com Carvalho (2007),
a exclusão está presente em todos os processos
de nossa sociedade e é muito visível através de
preconceito e discriminação.
5.2.2 Eixo 2: Capacitação do trabalho docente
Gráfico 4
O primeiro
questionamento deste eixo aborda se os professores
sentem-se preparados para trabalhar com as crianças
PNEE, 78% dos entrevistados relatam não estar
preparados para este trabalho como mostra o gráfico
4, mas mesmo com o despreparo contam com alunos
especiais em suas turmas visto ser uma exigência
da legislação. Nesta questão voltamos a
salientar a importância da qualificação dos
educadores para o atendimento desta demanda de
alunos, consideramos que para um ensino de
qualidade é necessário uma formação adequada
que atenda a todos sem distinção.
Gráfico 5
A apresentação do
gráfico 5 buscou investigar como é realizado o
trabalho em sala de aula, 34% dos entrevistados
relatam ser de respeito ao ritmo de aprendizagem
de cada um , seguidos de 22% que se dispõe fazer
o melhor possível e 11% adaptam as propostas,
relevam situações, atendem de forma
diferenciadas e ministram aulas diversificadas. Baptista
(2009)
atenta que o trabalho docente na escola deve
valorizar as características do aluno em seu
contexto social, pois todas as crianças tem
direito a educação, conforme consta na própria
Declaração de Salamanca.
Gráfico 6
O gráfico 6,
demonstrado acima questiona acerca de saber se o
planejamento possui atividades diferenciadas, 56%
dos entrevistados relatam não trabalharem de
forma diferenciada e 44% proporcionam atividades
diferenciadas aos seus alunos. Facion (2005)
relata que o professor deve ensinar aquilo que o
aluno necessita e não o que ele pensa que ele
precisa. O autor acredita que o maior preconceito
existente nas escolas é tratar igualmente aquele
que não é igual. Quando nos remetemos ao ensino
igualitário a todos estamos falando em atender os
educandos da mesma forma, porém, cabe ressaltar
que isto não significa que todos tem de aprender
do mesmo jeito e com o mesmo ritmo (tempo), cada
um de nós possuímos potencialidades e
capacidades distintas o que nos fazem seres únicos.
Gráfico 7
O último
questionamento deste eixo procurou investigar como
é realizada a avaliação destes alunos. Mesmo não
achando-se preparados para atender esta demanda de
alunos, 40% dos educadores dizem avaliar os alunos
baseado em suas potencialidades e limitações,
40% dizem realizar atividades diferenciadas. E os
demais 20% dizem aplicar a mesma avaliação porém
respeitando o ritmo de realização das tarefas de
cada um.
5.2.3 Eixo 3: Recursos da Instituição
Gráfico 8
O presente gráfico
apresenta os recursos que a escola oferece para os
educadores trabalharem com as crianças especiais.
Dos profissionais entrevistados demonstrados no gráfico
8, 34% relatam que as escolas não possuem
recursos para atender esta demanda, seguidos de
11% que relatam ter acesso diferenciado, boa
estrutura, trabalho com a família, especialistas,
avaliação diferenciada e boa vontade. Neste eixo
acreditamos ser de grande importância ressaltar
que o primeiro passo para tornar-se uma escola
inclusiva é contarmos com recursos tanto
materiais quanto profissionais, visto que somente
desta maneira poderemos realizar um trabalho
qualificado focando-se no desenvolvimento das
potencialidades de cada aluno.
5.2.4 Eixo 4: Fatos Relevantes
Gráfico 9
O nono gráfico
demonstra um fato muito relevante no processo
inclusivo, pois, ele aponta como é o convívio
destes alunos especiais com a turma. Dos
entrevistados 60% dizem ser bem tranqüilo,
seguidos de 20% que tratam os colegas com respeito
e 10% excludente e complicado. Para Mantoan (1997)
o convívio da turma pode ser considerado um
grande fator excludente e de isolamento dos alunos
especiais dentro das instituições, a maneira que
estes são tratados pelos demais, muitas vezes os
fazem sentirem-se minimizados por não serem
“iguais” diante desta situação cabe
refletirmos de que maneira estamos trabalhando o
processo inclusivo na escola evidenciando sempre
que todos nós somos seres diferentes dotados de
características e potencialidades únicas, sendo
assim não podemos ser iguais.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A
escolha do tema do presente artigo constituíram a
mim um grande desafio, até mesmo por ser um tema
o qual gera tanta polêmica dentro das instituições
escolares e que se apresenta como um grande
desafio dos profissionais que atuam nesta área,
pois estes devem articular o que tem de ensinar
com o que a criança já construiu.
Inclusão,
um termo com tantos significados, porém ainda com
uma longa caminhada dentro das instituições
educacionais. Ao término da pesquisa realizada
podemos constatar que mesmo com a exigência
prevista na legislação, muitas escolas ainda têm
um grande desafio tanto com profissionais
qualificados como com as adequações necessárias
para receber esta demanda de alunos.
Com
base nos dados coletados podemos observar que
muitos educadores somente aceitam estes alunos nos
bancos escolares por eles terem um amparo legal,
mas esquecem que necessitam de um trabalho
diferenciado de forma a trabalhar todas as suas
potencialidades deixando de lado suas
“necessidades”.
Muitos
dos profissionais entrevistados ressaltam não
estar preparados para atender esta demanda de
alunos e mesmo assim tentam realizar o trabalho da
melhor forma possível. Mas o que será
“melhor” para estes educadores? Aqui cabe um
questionamento da necessidade de contarmos com
profissionais qualificados e preparados para
trabalhar com esta diversidade de alunos.
A qualificação profissional faz que
exercemos nosso trabalho de maneira a atender e
contemplar a aprendizagem de cada um, respeitando
seus ritmos diferenciados bem como elaborando
propostas que atendam as necessidades individuais
de cada alunado.
Acreditamos
também que as escolas têm de contar com um
planejamento aberto e flexível assim como
desenvolver atividades com especialistas, atentar
a uma boa estrutura e trabalhar em conjunto com a
família.
Detenho-me
mais uma vez na necessidade de todos os alunos
aprenderem juntos, pois, todos têm o direito a
uma educação de qualidade com tratamento de
forma igualitária e sem preconceitos. Sabemos que
o processo inclusivo causa extremas mudanças e
muitas vezes até mesmo um certo desconforto, porém,
se faz necessário buscarmos novos conhecimentos
os quais possibilitem um trabalho adequado que
atenda a todos sem discriminação.
Acreditamos
que todo conhecimento deve ser construído como já
mencionava Vygotski (2007),
o trabalho docente exige dedicação, reflexão,
busca e constante atualização visto que vivemos
em uma sociedade transitória e de constantes
mudanças às quais devemos acompanhar.
Mas o que é necessário para que este processo ocorra?
Acreditamos para que realmente ocorra à
inclusão em nossas escolas é imprescindível que
exista formação e recursos, ou seja, uma equipe
interdisciplinar atuando sempre que necessário
perto do professor do ensino regular bem como
contar com profissionais qualificados e com formação
em cursos de graduação com ênfase em educação
especial. Fica assim evidente, que é importante
um bom planejamento educacional, sendo este
coerente com o futuro social que desejamos. Se
quisermos uma sociedade inclusiva, é preciso o
favorecimento de valores na escola desde a educação
infantil.
Para finalizar ressalto mais uma vez que é
importante trabalharmos focados na incógnita a
qual somos todos iguais em direitos, porém
diferentes como pessoa, sendo assim, a educação
obrigatória deverá atender a todos, bem como
adaptar o sistema educativo ao aluno e não
pretender que o aluno se adapte ao sistema. A
estrutura escolar é quem deverá ajustar às
necessidades de todos educandos favorecendo a
integração e o desenvolvimento de todos. Nós,
educadores deveremos ser desenvolvedores das ações
do processo de inclusão, sempre focados em um
princípio de dedicação, preparo e compreensão
acerca da temática.
7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAPTISTA, Cláudio Roberto
(org), MACHADO, Adriana Marcondes. Inclusão
e Escolarização: múltiplas perspectivas.
Porto Alegre: Mediação: 2009
CARVALHO, Rosita Édler. Removendo
barreiras para aprendizagem. Porto Alegre:
Mediação, 2007.
DELORS, Jacques (org). Educação
um tesouro a descobrir: Relatório para UNESCO
da Comissão Internacional sobre a educação para
o século XXI. São Paulo: Cortez, 1999
FACION, José Raimundo. Inclusão
escolar e suas implicações. São Paulo:
Ibpx, 2005.
MANTOAN, Maria Tereza Égler. Integração
de pessoas com deficiência: contribuições para
uma reflexão sobre o tema. São Paulo:
Memnon, 1997
PORTO, Olívia. Bases
da Psicopedagogia: diagnóstico e intervenção
nos problemas de aprendizagem. Rio de Janeiro:
Wak, 2005.
SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão:
construindo uma sociedade para todos. Rio de
Janeiro: WVA, 2002
VYGOSTKY, Lev. A
formação social da mente: o desenvolvimento dos
processos superiores. São Paulo: Martins
Fontes: 2007
Maiores informações consultar a obra
(BAPTISTA, Cláudio Roberto (org), MACHADO,
Adriana Marcondes. Inclusão
e Escolarização: múltiplas perspectivas.
Porto Alegre: Mediação: 2009)
Maiores informações consultar a obra
(SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão:
construindo uma sociedade para todos. Rio
de Janeiro: WVA, 2002)
Maiores informações consultar a obra
(VYGOSTKY, Lev. A
formação social da mente: o desenvolvimento
dos processos superiores. São Paulo:
Martins Fontes: 2007)
Maiores informações consultar a obra
(CARVALHO, Rosita Édler. Removendo
barreiras para aprendizagem. Porto Alegre:
Mediação, 2007.)
Maiores informações consultar a obra
(DELORS, Jacques (org). Educação
um tesouro a descobrir: Relatório para
UNESCO da Comissão Internacional sobre a
educação para o século XXI. São Paulo:
Cortez, 1999)
Maiores informações consultar a obra (PORTO,
Olívia. Bases
da Psicopedagogia: diagnóstico e intervenção
nos problemas de aprendizagem. Rio de
Janeiro: Wak, 2005.)
Maiores informações consultar a obra
(FACION, José Raimundo. Inclusão
escolar e suas implicações. São Paulo:
Ibpx, 2005.)
Publicado
em 08/12/2009