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PSICOPEDAGOGIA E ARTE CONTEMPORÂNEA: interfaces possíveis

Thiago André Nunes da Cruz

Bacharel em Artes Visuais e Licenciado Pleno em Arte pela Escola Superior Madre Celeste – ESMAC, Especialista Latu Sensu em Psicopedagogia e Especialista Latu Sensu em Educação Inclusiva pelas Faculdades Integradas Ipiranga.

Link no CNPq: http://lattes.cnpq.br/1519427813454767

E-mail:  tanc2008@hotmail.comthiandrenn@yahoo.com.br

 

http://www.unesp.br/~jroberto/escher/sky_water.jpg

RESUMO: O artigo propõe uma discussão a respeito da utilização da Arte Contemporânea como possibilidade na atuação do professor em sala de aula no processo de aprendizagem nas séries iniciais, bem como possibilidade de intervenção psicopedagógica, a partir da pesquisa do autor realizada em uma escola municipal de Ensino Fundamental localizada na área metropolitana do Município de Belém. Assim, surgiu a arte contemporânea como possibilidade no contexto metodológico em sala de aula, principalmente referente às múltiplas ações que podem ser desenvolvidas no campo artístico e suas contribuições para os aspectos mais relevantes referentes ao processo de aprendizagem: o psicomotor, a memória, a atenção, a linguagem expressiva e compreensiva, a percepção, a matemática e a lectoescrita.

PALAVRAS-CHAVE: Psicopedagogia. Processo de Aprendizagem. Arte Contemporânea.  

A INQUIETAÇÃO  

De acordo com os Planos Curriculares Nacionais (PCNs), de 2001, a organização do ensino fundamental em ciclos, apresenta-se mais por questões circunstanciais que por uma justificativa propriamente pedagógica, por não trazerem qualquer incompatibilidade com a atual estrutura do ensino fundamental. Constam ainda nos PCNs (2001), que a adoção de ciclos permite uma flexibilidade e, por conseguinte, uma possibilidade de o professor trabalhar melhor com as diferenças e possibilitar aos estudantes uma coerência com os fundamentos psicopedagógicos a partir da concepção de conhecimento e de função da escola.

A demanda de estudantes com dificuldade de aprendizagem, pela ótica de Silva (1998), começou a intensificar as constantes alterações na sociedade para a reivindicação de políticas educacionais e de metodologia que atendessem a essa demanda. Com isso a Psicopedagogia surgiu, conforme essa autora, em resposta a essa demanda cada vez maior que se iniciou a partir das desarticulações referentes à aprendizagem escolar.

Em relação a essa questão, percebe-se que muitas são as dificuldades que envolvem a Psicopedagogia, uma delas, de acordo com Bossa (2000), é a formação de educadores, fator de fundamental importância no que se refere à atuação psicopedagógica, principalmente em relação ao aporte teórico do psicopedagogo e em suas metodologias de intervenção, haja vista que, muitos professores apresentam o mesmo discurso: “O que deve ser feito quando a criança apresentar uma dificuldade na aprendizagem?”, “Como deve ser a metodologia de intervenção com essa criança?, ou que profissional é “responsável”, na escola, pela criança que apresente alguma dificuldade de aprendizagem? Assim, surge a arte contemporânea como possibilidade no contexto metodológico, principalmente referente às múltiplas ações que podem ser desenvolvidas no campo artístico.

Ferraz e Fusari (1993), afirmam que a arte está presente nas mais diversas atividades e, por isso, deve estar também presente nas diversas disciplinas do currículo escolar e nas diversas práticas pedagógicas, pois além da predisposição ao conhecimento, a arte, na educação, permite o tratamento das emoções, com o desenvolvimento da inteligência, da personalidade e do temperamento.

Ressalta-se que uma das principais questões na contemporaneidade é a de como ocorre o processo de aprendizagem dos estudantes nas séries iniciais do ensino fundamental e quais metodologias e tecnologias podem ser utilizadas pelo professor no processo educacional, já que hoje ocorrem muitas dificuldades para a utilização de novas ferramentas, metodologias e tecnologias por parte dos educadores no processo de aprendizagem de crianças que apresentam dificuldades nesse processo. Assim, para os PCNs (2001), existem algumas alternativas tecnológicas que o professor em sala de aula pode utilizar, entre elas a arte contemporânea, pois apresenta várias possibilidades de metodologias principalmente em relação à materialidade que pode ser empregada.

Como as práticas educativas podem ser diversificadas, surgiu a inquietação de se usar a arte contemporânea, em detrimento de um pensamento de que qualquer “coisa” é arte, pelo contrário, a arte contemporânea se apresenta abrangente principalmente se analisadas suas potencialidades e pluralidades, como metodologia no processo de aprendizagem nas escolas.

Foi ao observar esse contexto educacional que surgiu a necessidade de se realizar este artigo originado de uma inquietação que proporciona extrema relevância na práxis de um ensino que busque ampliar as possibilidades metodológicas do professor, motivo singular na justificativa da realização do presente artigo, que apresenta importância acadêmica, uma vez que permitirá a especificação e a aplicação de uma área de conhecimento – a arte contemporânea – como enriquecimento da proposta metodológica dos educadores, certamente, em todas as esferas educacionais o que pode ocasionar a contribuição da arte contemporânea no processo de aprendizagem nas séries iniciais, bem como para a comunidade que aprenderá mais uma metodologia para buscar facilitar esse processo e não só isso, mas também, a buscar entender a maneira como esse indivíduo se percebe em seu contexto social.  

AS INTERFACES POSSÍVEIS  

Se for feita uma análise das produções artísticas contemporâneas, conforme Freitas e Pereira (2007), serão percebidas diversas formas, práticas, linguagens, materiais, tecnologias e expressões. A arte produzida com essas características, atualmente, denominada de arte contemporânea, utiliza experiências artísticas com os indivíduos fruidores, pois a obra não é somente mostrada, não é percebida de forma meramente contemplativa, para ser vista, mas experienciada, interativa, manipulada. A arte contemporânea, então, transforma o sujeito em espectador ativo e não somente em um observador passivo.

A arte contemporânea proporciona uma visão e um pensamento mais abrangentes, conforme Freitas e Pereira (2007), pois a informação é a matéria prima da arte contemporânea e é o processo de transformação dessa matéria prima que irá se materializar na construção de um ser humano mais crítico e reflexivo.

Com isso, pode ser observado que a arte cria e altera opiniões a partir de questionamentos que, segundo Freitas e Pereira (2007), perpassam por questões de diversidade, classes sociais, etnia, corpo e gênero. A arte acompanha o homem e relata com imagens, seu movimento, suas intenções, seus pensamentos e aspirações, quer por linguagem não verbal ou verbal, pois existem obras de arte contemporânea que utilizam a linguagem verbal em suas composições.

A arte contemporânea, para Freitas e Pereira (2007), não introduz na sociedade somente questões relacionadas à estética, mas também questões relativas à própria cidadania, como por exemplo, o questionamento da estrutura social existente na contemporaneidade, o que é singular para o processo de aprendizagem do indivíduo, uma vez que esses questionamentos não ocorrem somente na escola, mas em um âmbito maior, no qual também a escola está inserida, ou seja, na própria sociedade.

Como a arte traduz, para Freitas e Pereira (2007), a subjetividade e os sentimentos humanos como rir, sofrer, sentir prazer, ela se apresenta também como um canal comunicacional que permite com que o outro perceba as ideias a partir do olhar de quem produz a obra, por isso a arte contemporânea apresenta-se como uma interface com a Psicopedagogia, em uma relação entre o ser cognoscente e o meio, pois parte de um sujeito, do produtor para o fruidor, a coletividade o que contribui para a formação do ser social.

Freitas e Pereira (2007), esclarecem que a atividade criadora é exclusiva do ser humano e por isso suas criações surgem do que já existe, assim, as relações sociais surgem da organização do ambiente cultural, o que permite a criação de símbolos que representam determinada cultura.

É nesse processo cultural que a arte contemporânea se apresenta potencial em relação à Psicopedagogia, pois para Lippmann (2002), ela é o exercício do sensível e, por conseguinte das relações sócio culturais presentes nos movimentos artísticos contemporâneos. As diferentes linguagens presentes na arte contemporânea são elaboradas em um conjunto de ideias que se estruturam com o sensível em relação a um determinado sujeito em um determinado contexto cultural. Esse sensível deve ser entendido como o sentir, o perceber e o experienciar.

A educação se origina do objetivo de desenvolver a percepção humana. Essa condição, para Lippmann (2002), se constrói com a história e com a cultura da sociedade na qual o indivíduo vive, condicionada aos modelos convencionados e/ou impostos, o que não significa que não sejam mutáveis. Essas mudanças podem ocorrer no momento em que o indivíduo educa-se esteticamente e, assim, passa a conhecer tanto a estética do povo em que vive quanto a estética de outros povos, o que lhe permite a ampliação de seu conhecimento em relação a todas as coisas.

Essa autora esclarece que é com a familiarização cultural e a sensibilização da estética e dos sentidos que a arte contemporânea pode contribuir diretamente para o processo de aprendizagem nas relações entre homem/homem, homem/mulher, homem/mundo, mulher/mulher e assim por diante. Nas diversas linguagens da arte contemporânea, possibilitam uma gama de experiências humanas, estéticas e sentimentais que permitirão ao indivíduo maior compreensão e respeito à diversidade e ao inusitado, a uma ruptura dos padrões culturais pré estabelecidos e da superação de modelos que só buscam tornar os indivíduos iguais.

Conforme essa teórica, a proposta de utilizar a arte contemporânea como contribuição para o processo de aprendizagem do indivíduo, parte do pensamento em que ela proporciona a libertação e a humanização na construção do ser que interaja e dialogue com seu tempo, pois, a necessidade nata do ser humano de expressar sua existência, faz da arte contemporânea um meio adequado para isso na medida em que cria objetos de conhecimento que se originam das relações sociais, econômicas, religiosas, éticas, políticas, filosóficas, estéticas, entre outras e que formam um conjunto de manifestações simbólicas em uma determinada cultura.

A criação artística contribui diretamente na construção da capacidade intelectual do indivíduo, pois atua conforme esclarece Lippmann (2002), no campo sensível e inteligível do ser humano, além de permitir o equilíbrio dessas duas instâncias no processo de aprendizagem, uma vez que a arte contemporânea não é uma simples aplicação de técnicas e nem essas técnicas são aplicadas sem certa quantidade de subjetividade, carinho e amor por parte de seu produtor.

Essa autora prossegue ao afirmar que as linguagens contidas na arte contemporânea oportunizam a construção dos sentidos humanos e de uma educação estética que se tornará instrumento, meio de manifestação da vida e mais uma maneira de se apropriar dela, pois a vantagem é que a arte é um campo de conhecimento, expressão, formação de consciência e realização pessoal, todos esses fatores são inerentes à condição humana, porque apesar de muitos pensarem ao contrário, o exercício artístico faz pensar a respeito da lógica produtiva da sociedade, ou seja, de como os grupos sociais se organizam e se comportam, o que reverbera em uma crítica social presente na formação de consciência e de realizações pessoais.

A percepção dos sentidos, das linguagens, das expressões e a formação de consciência poderão ser obtidas, por exemplo, do estudo da Gestalt, que para Antony, Dusi e Neves (2006), significa totalidade, configuração, plenitude. O conceito de totalidade envolve a relação entre as partes e o todo de um objeto que quando conectados formam uma unidade significativa.

Antony, Dusi e Neves (2006), esclarecem que a dialética entre o organismo e o ambiente explica as relações entre os fenômenos internos e externos. A abordagem gestáltica prima pelas relações emergentes entre o organismo e o ambiente, pois o indivíduo no aqui e agora age com o objetivo de alcançar sua completude com necessidades e ajustamentos que podem permitir o desenvolvimento integral desse indivíduo. Assim, por meio de sua percepção, esse indivíduo atribui um significado ao ambiente que observa, com a reestruturação do seu campo visual com o princípio de figura fundo ao selecionar o que é emergente e preferencial.

Segundo Antony, Dusi e Neves (2006), o aqui e agora, que se apresentam urgentes no princípio contemporâneo da Psicologia da Gestalt trabalham com os conceitos de tempo, de espaço e filosófico, pois é no aqui e agora que o indivíduo compreende a realidade como um todo com uma energia transformadora que permite a ele reestruturar e fortalecer seu campo perceptivo existencial.

Para elas, é o estudante que, com sua subjetividade e necessidades, direcionará sua percepção para aspectos específicos oferecidos pela escola. Desse processo de ensino surgirá uma configuração de elementos que constituirá o objeto de conhecimento o que permitirá a reconfiguração, reorganização e mudança desse processo de ensino. Finalmente essa mudança gerará conhecimento, uma vez que dela poderão emergir figuras em busca de significados.

Por isso que Antony, Dusi e Neves (2006), ressaltam a necessidade de perceber o estudante em sua totalidade, bem como os diversos sistemas no qual está inserido. O diagnóstico psicopedagógico então passa a se fundamentar em diversos sujeitos e sistemas que estão interligados como: escola, professor, estudante e família. Todos, nesse contexto, participam no processo de humanização do sujeito, pois na prática psicopedagógica deverão ser considerados aspectos interligados, tais como: orgânico, cognitivo, emocional, social e pedagógico. O estudo das interligações desses aspectos possibilita o entendimento de como a criança aprende e se relaciona com o meio.

Segundo essas autoras, a Psicopedagogia evidencia-se no processo de construção do conhecimento e não somente no conhecimento adquirido, uma vez que se destina, também, à forma de apropriação do conhecimento. Conforme a apropriação desse conhecimento, poderá ocorrer ainda a apropriação do conhecimento a partir da arte contemporânea. Plaza (2000), informa que entre o autor, a obra e a recepção da informação contida na obra deve haver uma relação. Esta está dividida em níveis de interação com a obra de arte, a qual poderá propiciar conhecimento ao indivíduo que se relacione com ela. Dessa maneira, para se entender a relação autor-obra-recepção é preciso estudar e/ou dividir essas relações em três etapas ou graus, a qual denominou de aberturas.

Plaza (2000), apresenta as aberturas de primeiro, segundo e terceiro graus, e esclarece que na abertura de primeiro grau, a relação que ocorre entre o indivíduo e a obra é relativamente simples, é o reconhecimento dos elementos de conteúdo visual presentes nela. A abertura de segundo grau está relacionada com as alterações estruturais e temáticas da obra, é a chamada arte de participação em que o fruidor manipula, interage fisicamente com a obra de arte. Nessa relação, há certa liberdade do fruidor em relação à obra. Dos constantes avanços tecnológicos e da intensa e progressiva relação homem máquina surge a abertura de terceiro grau que apresenta a intervenção da máquina como criadora de uma nova estética.

Segundo Plaza (2000), ainda é complicado trabalhar as questões da abertura por haver uma confusão conceitual decorrentes da mistura e hibridação de gêneros, poéticas e atitudes artísticas.

Ele afirma que as aberturas associadas aos graus de interação estão as seguintes participações: A participação passiva, que relacionada à abertura de primeiro grau, está associada à contemplação, percepção, imaginação, evocação dentre outros; a participação ativa que relacionada à abertura de segundo grau concerne à exploração, manipulação do objeto artístico, intervenção, modificação da obra, dentre outras características; e a participação perceptiva e interatividade – principalmente na arte cinética – numa relação recíproca entre o indivíduo fruidor e o sistema inteligente.

Para Plaza (2000), o início dos estudos das funções de linguagem, principalmente da função poética, iniciam os estudos da linguagem poética e emotiva, o que criou ou iniciou as bases para o estudo da abertura de primeiro grau.

Para ele, a partir da década de 1960, surgiram as noções artísticas de ambiente e de participação do espectador, porque o ambiente é considerado um espaço em que os fatos físicos e psicológicos acontecem, pois nesses espaços, a atividade criativa presente na obra se apresenta pluridisciplinar, uma vez que no ambiente não é só o olhar do espectador que pode se inscrever na obras, mas também o seu corpo.

Segundo esse autor, a arte de participação tem por objetivo encurtar a distância entre o criador e o espectador, pois o espectador se vê induzido a explorar o objeto, e, por conseguinte, marcar também sua presença, o que caracteriza o abandono do primeiro conceito – de fundamentação mais estética e política – ao promover atos de liberdade a partir também de temáticas sociais, orgânicas e psicológicas.

Plaza (2000), afirma que a relação entre a arte e a tecnologia fez surgir a abertura de terceiro grau o que originou questionamentos em relação ao computador criar obras de arte e/ou se obras de ate criadas com a ajuda da informática possuem valor estético.

Esse autor afirma que para muitos artistas importa mais o processo de criação artística e a exploração estética que a produção da obra acabada, já que ela se utiliza da multisensorialidade, para que os múltiplos meios, códigos e linguagens, permitam-lhe o questionamento a respeito da realidade na relação real/virtual.

Segundo esse autor, esse tipo de transmissão artística causa grande interação, pois provoca a emergência de criatividade e inteligência coletivas, que envolve não só o artista, mas também o público que irá explorar um novo espaço/tempo em uma relação imaginária e sensível.

Para Plaza (2000), na arte da interatividade, o destinatário torna-se co-autor e as obras tornam-se um campo aberto para infinitas possibilidades de interação e desdobra-se em uma produção denominada segundo o autor de inteligência distribuída ou coletiva.

De acordo com esse autor, um grande problema encontrado na abertura de terceiro grau é o fato de a leitura associada à iteratividade, ser do tipo de resposta obtida, ou seja, da qualidade do interpretante.

Entendida as possibilidades de interação com uma obra de arte, uma compilação dessas idéias deve ser realizada, assim como uma utilidade no processo de aprendizagem do indivíduo que possa apresentar alguma dificuldade nesse processo deve ser apresentada. Assim, segundo os PCNs (2001), o que se entende como lentidão, por exemplo, pode ser uma nítida dificuldade aliada a um sentimento de incapacidade no processo de aprendizagem que pode, inclusive, acabar em bloqueios e, por isso, é de fundamental importância que o educador esteja preparado para atuar frente a essas questões bem como interferir positivamente em situações que sejam desfavoráveis aos estudantes.

O objetivo geral do ensino fundamental, de acordo com os PCNs (2001), é utilizar diferentes linguagens: a verbal, a matemática, a gráfica, a plástica e a corporal como meios para expressar e comunicar suas ideias, interpretar e usufruir das produções da cultura, o que implica uma maior discussão a respeito da diversidade.

Em relação aos objetivos específicos do ensino fundamental, encontram-se, de acordo com os PCNs (2001): compreender a cidadania como participação social e política; entender o posicionamento crítico, responsável e construtivista de cada um; conhecer as características fundamentais nas dimensões sociais existentes no Brasil; conhecer e valorizar o patrimônio cultural brasileiro; entender-se um ser integrado, dependente e agente transformador do ambiente; desenvolver o conhecimento ajustado de si, ou seja, se conhecer como ser cognoscente, conhecer e cuidar do próprio corpo; utilizar as diferentes linguagens entre elas a plástica e a corporal, por exemplo; saber utilizar diferentes fontes de informação e recursos tecnológicos e saber questionar a realidade na qual vive, criar e resolver problemas e para isso, utilizar o pensamento lógico, a criatividade, a intuição e a capacidade de análise crítica.

Constam nos PCNs (2001), que as adaptações curriculares referem-se à necessidade de o professor adequar determinados conteúdos, objetivos e critérios de forma a entender a diversidade existente no país. Essa diversidade deve ser entendida como fundamental no momento de buscar uma qualidade de ensino e aprendizagem, uma vez que estar atento às singularidades apresentadas pelos estudantes requer, também, estar atento às possibilidades adotadas no processo de ensino deles.

A atenção a essa diversidade, para os PCNs (2001), deve levar em conta não só as capacidades intelectuais do indivíduo, mas também seus interesses e motivações, uma vez que esse conjunto constitui a capacidade global para a aprendizagem do estudante em um determinado momento. Assim, a atuação do educador, em sala de aula, deve levar em consideração diversos fatores como: os sociais, culturais e históricos de cada um dos estudantes, pois se trata de oferecer condições de aprendizagem a todos eles.

Mediante o exposto, são diversas as interfaces possíveis entre a Psicopedagogia e a arte contemporânea, pois como afirma Barbosa (2009), não se alfabetiza apenas ao fazer as crianças juntarem as letras, há uma alfabetização cultural que caso não ocorra a letra de nada adiantará, pois a leitura social, cultural e estética do meio ambiente dará sentido à leitura verbal.

A utilização da arte contemporânea também desenvolve, de acordo com essa autora, a discriminação visual que é essencial ao processo de alfabetização, pois somente uma visualidade estimulada, pode, em uma criança de seis anos de idade, por exemplo, diferenciar palavras com escritas semelhantes, além de ser a diferenciação visual elemento básico para a apreensão do código verbal que também é visual. Assim, uma criança com seis anos de idade, por exemplo, que possui em seu vocabulário uma média de setenta palavras, é reforçada com representações plásticas visuais o que contribui diretamente para sua comunicação verbal.

Finalmente, mais uma interface entre a Psicopedagogia e a arte contemporânea pode ser estabelecida, pois como afirma Cruz (2010), aprender a arte na contemporaneidade é também desenvolver um percurso de criação pessoal, com informações que são trazidas por outros estudantes e que podem contribuir diretamente no processo de aprendizagem. Essas informações podem ser trazidas não só por outros estudantes, mas também pelos professores, mostras, exposições ou até mesmo da leitura e releitura de uma obra de arte e, desse modo, os conhecimentos adquiridos farão parte não só do processo cognitivo dos estudantes das séries iniciais, mas de todo e qualquer estudante.

Cumpre salientar que não se pretendeu aqui, criar um manual ou afirmar que as atividades que envolvam a arte contemporânea são suficientes para o processo de aprendizagem da criança, uma vez que segundo Silva (1998), cada ser é um ser diferente e, portanto, aprende de maneira diferente, bem como focar nas disciplinas do currículo escolar, por exemplo, que a Op Art, pode contribuir em tal disciplina específica, mas sim apresentar algumas possibilidades que contribuam para o processo de aprendizagem das crianças.

Para melhor entendimento da contribuição da arte contemporânea no processo de aprendizagem nas séries inicias, serão apresentadas de acordo com Gómez e Terán (1999), algumas estratégias de atuação em aspectos que essas autoras afirmam serem mais relevantes no processo de aprendizagem da criança, entre eles: o psicomotor, a memória, a atenção, a linguagem expressiva e compreensiva, a percepção, a matemática e a lectoescrita.  

1 O Psicomotor  

De acordo com Gómez e Terán (1999), o comportamento motor abrange três dimensões: a cognitiva a motora e a afetiva. Para elas, atividades como ficar em pé, agachado, deitado, arrastar, caminhar, suspender e saltar, por exemplo, auxiliam no desenvolvimento psicomotor da criança e o conhecimento do corpo deve começar pelas partes fundamentais dele.

A Performance, a Body Art e a Instalação, apresentam-se como aliadas para o conhecimento corporal, pois estimulam o uso total do corpo. O corpo, para Sproccati (1999), é o suporte para a Body Art e a ferramenta da Performance, nesse sentido, o uso dessas linguagens pode contribuir para um melhor desenvolvimento motor, bem como desenvolver o equilíbrio estático e o equilíbrio dinâmico.

Nesse sentido, trabalhar com cubos e figuras geométricas, segundo Gómez e Terán (1999), também contribuem para o desenvolvimento motor. Com isso, as ilusões de ótica presentes na Op Art de acordo com Reichardt (2000), oferecem uma grande proposta de atuação, uma vez que em uma superfície bidimensional, abriga imagens tridimensionais, o que incita a investigação por parte do aprendiz.

Outro recurso seriam as figuras com palitos, para Gómez e Terán (1999), e não só com palitos, mas com fios e barbantes, podem se mostrar de grande valia se forem originadas da idéia Minimalista de obra de arte, que, segundo Gablik (2000), é composta por uma quantidade mínima de elementos visuais. Os recortes, dobraduras e exercícios gráficos, também são maneiras de estimular a coordenação motora fina e, na perspectiva da arte contemporânea, a Action Painting, que para Sproccati (1999), solicita do autor grande destreza física, na composição da obra que se caracteriza por finos fios e manchas de tinta, estimula a coordenação e, assim, as técnicas pictográficas, de acordo com Gómez e Terán (1999), divididas em desenho livre, arabescos e preenchimento de superfícies, servem como estímulo para os indivíduos a partir da Action Painting.  

2 A Memória  

Na concepção de Gómez e Terán (1999), existem dois tipos de memória, a memória de curto prazo ou memória de trabalho e a de longo prazo. Para elas, o que permite a utilização da memória de trabalho é a transferência da memória de longo prazo. Acrescentam que existem algumas possibilidades para a ativação da memória de curto prazo, uma delas é a criação de imagens visuais e como exemplo, no ponto de vista delas, estudar a partir de cores, contribui, para estratégias múltiplas de aprendizagem ao utilizar diferentes canais perceptivos.

As Histórias em Quadrinhos (HQs), de acordo com Pessoa (2011), apresentam uma ideia sequencial da imagem para ilustrar uma passagem de tempo. Essa arte sequencial é promissora em uma atividade para o estímulo da memória, pois é intermidiática e utiliza de uma vez só texto e imagem, que podem servir para criar imagens visuais ou visualizar o que será relembrado e sequência, que perpassa pelas questões referentes à temporalidade.

A Pop Art pode ser utilizada com esse mesmo objetivo, uma vez que de acordo com Lucie-Smith (2000), também utiliza as HQs em suas produções e, assim, ao utilizar as cores, textos e imagens presentes nela, pode contribuir também no processo mnemônico.

A Op Art pode ser utilizada com exercícios de reconhecimento de figuras, como afirma Gómez e Terán (1999), por exemplo: apresenta-se uma obra à criança e depois solicita-lhe que reconheça a imagem ou chegue à imagem mais próxima da observada. Não só sua observação, mas a releitura de obra de arte, apresenta-se nesse contexto, como mais um método de estímulo à memorização.  

3 A Atenção  

Segundo Gómez e Terán (1999), é salutar reconhecer que as crianças desenvolvem sua atenção de maneira melhor pelas vias visuais e auditivas, e apresentam um grande interesse pela natureza e pelo meio ambiente. De acordo com as afirmações dessas autoras, a Land Art, a Art Povera e a Intervenção Urbana podem ser fundamentais para a aquisição da atenção pelas crianças.

Para Sproccati (1999), a Land Art está diretamente associada aos elementos que se encontram na natureza, com uma característica de intervenção no local. Desenvolver atividades como: acrescentar caminhos onde não existiam antes ou traçar formas geométricas, ou inserir linhas ou parábolas no ambiente estimulam principalmente a relação do indivíduo com o espaço natural e não só o indivíduo enquanto ser, mas o indivíduo enquanto corpo físico.

Em relação à Art Povera, Archer (2001), reafirma a utilização de materiais orgânicos e naturais, ou seja, em sua maioria encontrados ou retirados da natureza, como a água e o gelo, que além de serem elementos eminentemente naturais, estimulam outros órgãos dos sentidos e possibilitam, dessa forma, maior atenção em relação ao fenômeno.

Finalmente, a Intervenção Urbana, de acordo com Barja (2008), requer a atenção do estudante, pois o obriga a perceber o espaço físico geográfico de uma maneira sem a intervenção e, de outra, com a intervenção realizada.

Esse autor afirma ainda que a atenção é solicitada do espectador no sentido que deverá perceber as dinâmicas espacial e social a partir da intervenção, ou seja, qual foi o impacto daquele objeto artístico instalado na urbe.

Uma descrição detalhada dos espaços em que ocorrem essas três manifestações artísticas contribui também para o desenvolvimento da memória, uma vez que solicitará do observador tal capacidade no momento da descrição tanto da obra quanto do espaço, Gómez e Terán (1999), esclarecem ainda que são excelentes para crianças impulsivas, que receberão um horário “livre” para desenvolver uma atividade e para crianças com grande atividade motora, que receberão oportunidade de movimentar-se em um espaço mais amplo.

Em relação à atenção visual, conforme Gómez e Terán (1999), o observar de imagens e objetos colaboram para o desenvolvimento dessa atenção. A Pop Art, de acordo com Lucie-Smith (2000), com suas imagens em HQs, repetições de imagens e rótulos de produtos, por exemplo, solicita do estudante a atenção visual no referente: a repetição de imagem e diferença entre elas e a composição visual. A maneira com que o indivíduo precisa distribuir a imagem no espaço físico, como em uma folha de papel, são possibilidades de utilização da Pop Art.  

4 A Linguagem Expressiva e Compreensiva  

Para Gómez e Terán (1999), s linguagens expressiva e compreensiva envolve o plano de estimulação da linguagem e o desenvolvimento do sistema fonológico que abrange a consciência fonológica e exercícios articulatórios. Assim soprar um canudinho, por exemplo, é realizar uma Action Painting, já que essa ação pode ser também realizada com a boca. Contar uma história e solicitar que os estudantes a desenhem, desenvolve habilidades auditivas.

A Action Painting, para Sproccati (1999), serviria não só para o entendimento da linguagem, mas para o entendimento da linguagem corporal e subjetiva do indivíduo, porque, de acordo com esse autor, pode também trazer à tona, emoções vividas, além de desenvolver os nervos e os músculos.

Ao ocorrer toda a estimulação psicomotora, conforme Gómez e Terán (1999), os órgãos dos sentidos apresentam-se mais sensíveis em relação aos estímulos do meio.

A linguagem expressiva e compreensiva não precisa reduzir-se à linguagem oral, pois a Body Art e a Performance, de acordo com Glusberg (2003) e Sproccati (1999), respectivamente, são linguagens corporais que podem se valer da expressão oral e estimulam várias linguagens expressivas o que pode originar uma maior compreensão da linguagem oral, ao utilizarem a onomatopéia ou a repetição de letras ou fonemas.  

5 A Percepção  

Gómez e Terán (1999), exemplificam diversas atividades voltadas para o desenvolvimento da Percepção. Estudar os elementos básicos da comunicação visual: o ponto, a linha, a forma, a direção, o tom, a cor, a escala, a textura, a dimensão e o movimento, como afirma Dondis (2007), facilita o entendimento da relação figura fundo, da discriminação visual, da organização visual e da sequência.

A Op Art pode ser utilizada por ser uma linguagem na arte, de acordo com Reichardt (2000), que trabalha com a falibilidade do olho o que solicita uma atenção maior em relação à obra, ou seja, há a necessidade de uma percepção maior em relação ao que se observa. Seguir as linhas com o olhar, sem mover a cabeça, ou acompanhar círculos e espirais ao olhar desenvolve a mobilidade ocular.

A leitura de imagem novamente, apresenta-se fundamental no processo perceptivo e para isso Gómez e Terán (1999), afirmam que ao realizar a leitura de imagens, mesmo que não sejam reproduzidas graficamente, deve ser realizada da esquerda para a direita em um exercício posto à leitura ocidental tradicional.

O Minimalismo apresenta-se potencial no processo perceptivo, pois visualmente se apresenta muito simples e prático, como afirma Gablik (2000), o objeto existe em si mesmo, e assim, exercícios com a arte minimalista, podem criar formas geométricas muito simples, além de trabalhar basicamente com o ponto e a linha, pois de acordo com Dondis (2007), a linha é o ponto que se “movimenta” no suporte.

As obras, no Minimalismo, de acordo com Gablik (2000), apresentavam-se de forma gestáltica como se fossem repetições de atividades bem parecidas. Criar atividades de cruzar linhas ou ligar um ponto ao outro com uma linha reta, são ações recorrentes no Minimalismo.

Para Gómez e Terán (1999), a percepção visual de formas geométricas também não se apresenta como tarefa fácil. Elas iniciam por formas imprecisas, as formas orgânicas, até chegarem às formas geométricas planas ou bidimensionais, pois se referem à altura e à largura: o círculo, o triângulo e o quadrado, até os sólidos geométricos ou tridimensionais, pois além da altura e da largura, a profundidade atribuída à forma geométrica, ou seja, a perspectiva, aparece e assim originam-se: a esfera, a pirâmide e o paralelepípedo.

A Instalação e o Redy Made, também contribuem para o exercício da percepção, pois a primeira, para Archer (2001), solicita do fruidor, sua presença tanto externa, quanto internamente e, nesse sentido, a ideia do expectador de estar na obra de arte auxilia-o para o entendimento da mesma, uma vez que sua percepção viso espacial será estimulada.

As Instalações também estão relacionadas aos objetos que possam por ventura estarem presentes no espaço em que a obra esteja instalada. Essa afirmação de Tedesco (2011), possibilita a utilização dos Ready Mades na composição da obra de Instalação. Reconhecer as formas geométricas dos objetos e diferenciar suas funções originais, antes de serem utilizados na obra e sua nova função, após serem utilizados na obra, requer certo grau de percepção devido à maneira como o objeto Ready Made foi apresentado no espaço, pois de acordo com Peled (2005), o sentido do objeto muda, conforme o seu método de exibição.  

6 A Matemática  

Gómez e Terán (1999), afirmam que o aprendizado da matemática deve ocorrer de experiências concretas, a manipulação de objetos e a vivência com eles a partir de sequências progressivas. No entanto, essas autoras afirmam que conhecer é diferente de compreender. No primeiro caso, é alcançar um êxito e, no segundo, é entender algo.

Aprender matemática não é só saber estruturar um problema ou reconhecer as operações básicas, mas também é entender uma gama de estruturas para esse fim, então, o estudante primeiro deverá ter noção de correspondência, classificação, seriação, conceito de numeração, agrupamento de unidades e dezenas, o valor de acordo com a posição do dígito e assim por diante.

A Op Art e o Minimalismo contribuiriam diretamente para o entendimento da linguagem matemática, porque conforme Oliveira e Hildebrand (2008, p. 89), o aprendizado da matemática envolve relações referentes também à “[...] interatividade, interconexão imersão e simulacro”, e não só a essas relações, mas a muitos outros conceitos, tais como: multiplicidade, segmentaridade, paradoxo, coexistência das diferenças e dos modelos elípticos, parabólico e hiperbólico.

Visualmente a Op Art contribuiria para o melhor entendimento de alguns desses conceitos, pois como afirma Reichardt (2000), parte da ilusão de ótica, ou seja, os processos considerados normais da visão são postos à prova, além de lidar com os significados da subjetividade de quem frui a obra, e, dependendo dela, muitos conceitos matemáticos estão presentes.

No estudo do Minimalismo, pode ser estimulado o estudo da projeção, da linha e de ângulos, temas referentes à matemática e, segundo Oliveira e Hildebrand (2008), poderiam ser estudadas as noções de infinidade e de continuidade, uma vez que permite o estudo da representação espacial e carrega em si as formas e a visualidade dessas duas noções.  

7 A Lectoescrita  

Para Gómez e Terán (1999), a lectoescrita é um fenômeno que envolve dois processos que se complementam: o ler e o escrever. Para elas, a memória visual de longo prazo é necessária para a aprendizagem referente à ortografia, pois associa a palavra com o desenho, ou seja, a forma espacial com a qual a palavra se apresenta graficamente.

Segundo Gómez e Terán (1999), quem aprende a ler deve compreender que essa aprendizagem tem um sentido que é um processo natural. O educador frente, a essa afirmação, deve realizar tal atividade com facilidade. Alguns métodos surgiram nesse sentido, por exemplo: o procedimento fundamentado na cor, ou seja, o sistema psicolinguístico de fônicos em cor: divide-se as letras em grupos ou subgrupos da seguinte maneira, as vogais são de tal cor, as consoantes de tal cor, e assim por diante.

Outro método para se estimular a lectoescrita, são as estratégias fundamentadas na integração inter hemisférica, que, para essas autoras, fundamenta-se em estimular o uso dos dois hemisférios do cérebro, ao construírem imagens mentais a partir de objetos concretos, visualizar e descrever objetos do cotidiano e utilizar histórias para que as crianças possam construir suas próprias imagens visuais.

No reconhecimento de letras, as HQs e a Pop Art oferecem essa possibilidade, pois a primeira utiliza três elementos básicos que servem para o estímulo da leitura: a imagem, o texto e a sequência dos fatos.

Essa forma intermidiática, de acordo com Pessoa (2011), estimula vários órgãos dos sentidos, assim, a leitura de HQs a partir da complexidade presente na produção da arte sequencial, resulta em grande estímulo para a lectoescrita.

A Pop Art pode contribuir nesse processo, tanto pelas HQs, quanto pelo trabalho desenvolvido com os rótulos de produtos de massa. A identificação das letras alfabéticas e da tipografia dessas letras, ou seja, da maneira viso espacial de sua configuração e organização espacial no rótulo.

Lucie-Smith (2000), afirma ainda que, esses rótulos eram retirados da vida cotidiana das pessoas, justamente com o objetivo de questionar a cultura de massa da época, então eram utilizados rótulos de lata de sopa, caixa de sabão, revista de ciências, ou seja, produtos presentes na casa de, se não todas, quase todas as pessoas. Nessa perspectiva, usar rótulos de sabão ou doces contribui principalmente em utilizar elementos do cotidiano das pessoas e assim, não causar tanto estranhamento em relação à arte contemporânea.

Outra possibilidade de desenvolver atividades atinentes à lectoescrita seria o uso da Arte Grafite que também perpassa pelo cotidiano escolar e mais uma vez não causaria grande estranhamento. A Arte Grafite é composta principalmente por imagens, no entanto, de uma maneira ou de outra há a presença da escrita, geralmente associada com a imagem, por isso, as palavras pequenas e simples ou poemas que acompanham essa linguagem artística são de grande valia para o processo alfabético, uma vez que envolve uma mensagem poética e/ou política combinada à expressões figurativas.

A Arte Política apresenta-se potencial nesse processo, pois segundo Chipp (1996), as relações entre arte e política são complexas e assim precisam de uma interpretação a respeito do fato. Ao ler a imagem da Arte Grafite e interpretá-la, não pode ser negado que a criança “leu” algo e, portanto, de acordo com Gómez e Terán (1999), pode ser capaz de realizar uma crítica em relação à imagem lida. Sua explicação oral a respeito do que viu, sua transcrição para o papel ou para qualquer outro tipo de suporte, constitui-se em um texto, e por isso, está no exercício da lectoescrita.

Quando o indivíduo chegar a esse patamar de leitura e interpretação, a Arte Conceitual pode ser evocada, pois é radical, de acordo com Smith (2000), no sentido da combinação entre posturas e posicionamentos em relação ao meio social em que vivem, além de como um método para formatar suas idéias, sem perder a sequência do pensamento, pois é esse pensamento, para Gómez e Terán (1999), que irá direcionar esse aprendiz para a decodificação e posterior registro de suas ideias.  

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES  

De maneira geral, a arte contemporânea contribui para o processo de aprendizagem nas séries iniciais na criação de um canal comunicacional; da possibilidade de ser mais uma ferramenta metodológica para o professor; da identificação de patologias com a realização de exercícios artísticos orientados em sala de aula; da possibilidade de o estudante frequentar espaços expositivos como: museus, galerias, espaços culturais entre outros, além de um campo rico em experimentações quando a escola propiciar diferentes olhares da realidade que cercam os indivíduos e o desenvolvimento progressivo do percurso de criação pessoal do estudante que como seu conhecimento, estruturar-se-á progressivamente de acordo com o tempo de cada um.

De maneira específica são inúmeras as contribuições da arte contemporânea no processo de aprendizagem nas séries inicias, entre elas: a Performance, a Body Art e a Instalação, que se apresentam como aliadas para que ocorra o conhecimento corporal, pois estimulam o uso total do corpo; a Action Painting, que solicita do autor grande destreza física; as HQs que apresentam uma ideia sequencial da imagem para ilustrar uma passagem de tempo. A contribuição dessa linguagem artística é promissora em uma atividade para o estímulo da memória bem como a Pop Art, uma vez que também utiliza as HQs.

A Land Art, a Art Povera e a Intervenção Urbana, contribuem para a aquisição da atenção pelas crianças, haja vista que elas, deverão perceber as dinâmicas espacial e social e na linguagem expressiva e compreensiva que não precisa se reduzir à linguagem oral. A Body Art e a Performance são linguagens corporais que podem também se valer da expressão oral; a Op Art, pode ser utilizada para a realização de atividades referente à atenção, pois trabalha com a falibilidade do olho, o que requer uma atenção maior em relação à obra; o Minimalismo, que permite o estudo da projeção, da linha, dos ângulos, das noções de infinidade e de continuidade e da representação espacial, todos temas referentes à matemática.

Na perspectiva da lectoescrita, as HQs, a Pop Art, a Arte Grafite e a Arte Política podem ser utilizadas, pois a forma intermidiática das HQs, com a produção da arte sequencial e do uso de rótulos de produtos de consumo doméstico, contribuem para o exercício da leitura e da escrita, bem como a Arte Grafite que é composta principalmente por imagens, no entanto, há a presença da escrita e a Arte Política se apresenta potencial nesse processo, porque, as relações entre arte e política são complexas e, assim, precisam de uma interpretação a respeito do fato. A explicação oral a respeito do que foi visto na Arte Grafite e sua transcrição para o papel ou para qualquer outro tipo de suporte constitui-se em um texto, e por isso, está no exercício da lectoescrita.

Ressalta-se que os benefícios de se utilizar a arte contemporânea no processo de aprendizagem nas séries iniciais não se encerram quando levado em consideração somente o processo pedagógico, pois eles também contribuem administrativamente, uma vez que são mais rápidos, práticos e baratos, e, não necessitam, portanto, da construção de grandes projetos educacionais ou de grande investimento financeiro.

Outro fator positivo no uso da arte contemporânea no processo de aprendizagem nas séries iniciais é que mesmo que existam espaços tradicionais para abrigar as mostras, hoje, em muitos casos, elas estão na própria rua, vinte e quatro horas por dia, enquanto durar a exposição. Nesse contexto, a saída dos estudantes do ambiente escolar contribui positivamente na assimilação de uma atividade concebida para ser realizada fora dos muros da escola, o que permite certa quebra da monotonia de um ensino mais tradicional realizado em sala de aula.

Todas essas contribuições devem ser analisadas de maneira que possam ser aplicadas de forma cotidiana dentro de sala de aula e, para isso, o entendimento de como o uso desses movimentos artísticos podem somar no processo de aprendizagem nas séries iniciais tornam-se estruturantes antes de serem utilizadas aleatoriamente, portanto, é preciso que se tenha um entendimento mínimo da arte contemporânea e seu objetivo enquanto período histórico da arte.

Quando uma criança apresentar dificuldade em sua aprendizagem, seja ela qual for, deverá ser dada atenção mais as suas potencialidades que as suas dificuldades. A metodologia de intervenção com essa criança deverá ser aquela em que ela sinta prazer, e principalmente, consiga realizá-la, adaptadas mediante a necessidade de cada criança e assim ser entendido que na escola não existe um único responsável pela criança com ou sem dificuldade no processo de aprendizagem, pois, dentro de sala de aula o educador até pode ser o responsável por esse processo, entretanto fora dela, mas ainda no prédio da escola, todos os profissionais, sem exceção, são responsáveis por toda e qualquer criança, sejam eles gestores, psicopedagogos, técnicos, pedagogos, coordenadores, além da própria família, e, sem uma sincronia entre todos eles, uma intervenção psicopedagógica pode se apresentar insuficiente para qualquer criança, independente de sua idade ou de sua dificuldade de aprendizagem.

O contexto sócio político da atualidade exige grande mudança no pensar e no agir do educador que precisa estar munido de alternativas para sua atuação no processo de aprendizagem nas séries iniciais. Hoje, muito mais que em décadas anteriores, os estudantes estão mais livres para associar o seu conhecimento de vida ao conhecimento científico ensinado em sala de aula e, por isso, as possibilidades de ensino devem se apresentar múltiplas.

É dessa multiplicidade de saberes, pessoas, culturas e manifestações artísticas que devem ser utilizadas novas propostas no ensino ou até mesmo propostas já existentes, porém, com um novo significado. A Psicopedagogia, juntamente com a arte contemporânea, apresentam-se no contexto educacional de maneira a contribuir no processo de aprendizagem, e, por isso, devem levar em consideração não a patologia ou dificuldade de aprendizagem de um estudante, mas, suas potencialidades e suas contribuições enquanto sujeito construtor de conhecimentos e ideias em uma sociedade cada vez mais pluri e, por conseguinte, aberta às diversas possibilidades de ser.

 

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 Publicado em 22/07/2011

 

 

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Simaia Sampaio Maia Medrado de Araújo
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Revisado em: 01/02/2013