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“A arte é uma
mentira que nos permite atingir a verdade”
(PABLO PICASSO, 2004, p.123).
O teste do desenho é
mais um dos recursos ao qual o psicológico recorre
como auxiliar da sua praxe seja na empresa,
indústria, clínica ou escola. Em suas variadas
formas, ele está presente nas atividades de
seleção, avaliação e ajuda psicológica. Mas,
afinal, o que se busca avaliar por meio do desenho
nessas situações? Este artigo pretende esclarecer
e contextualizar o teste do desenho, na tentativa
de dissipar dúvidas que, quase sempre, angustia os
candidatos quando submetidos, em particular, a
esse tipo de instrumento nos processos seletivos.
Campos (1999) destaca que o primeiro trabalho
sobre o desenho como fenômeno expressivo, digno de
menção, foi realizado em 1887, por Ricci, em
Bolonha. O H-T-P (House - casa,
Tree - árvore, Person
- pessoa), é o teste projetivo mais usado em exame
psicotécnico/seleção de pessoal, avaliação
clínica, etc. Outros testes, mas apenas por meio
da figura humana, a exemplo do Goodenough e do
Machover, estão voltados para mensuração da
inteligência infantil.
Nesse momento, se
faz necessário uma breve descrição do H-T-P. Este
teste é administrado à criança acima de 8 anos de
idade, adolescente e adulto, cuja aplicação pode
ser em nível individual ou em grupo. Seu tempo de
realização é livre, mas, geralmente, não
ultrapassa a média de 30 a 90 minutos. O material
utilizado é papel ofício A-4 (tamanho ideal, não
pode ser papel com pauta), lápis grafite n. 2 (de
modo geral grafite é mais apropriado para
desenhar, facilita o controle do tônus muscular
sobre os traços, ao passo que o estereográfico é
escorregadio). Os desenhos são feitos à mão livre,
ou seja, sem régua ou objetos que sirva a essa
função. Embora, o uso da borracha, por parte do
aplicador, seja optativo, quase sempre compõe o
kit, até porque que a sua utilização, por si,
já consiste em motivo de análise. Quando se trata
de criança, também se utiliza lápis coloridos, no
que se constitui, assim, a Bateria Acromática e
Cromática do H-T-P.
Na concepção de Buck
(2003), o H-T-P tem como objetivo obter informação
sobre como uma pessoa vivencia a sua
individualidade em relação aos outros, e em
facilitar a projeção de elementos da personalidade
e de áreas de conflitos, identificados como o
propósito de avaliação ou terapêutica. Ainda para
o autor, “os desenhos também estimulam o
estabelecimento de interesse, conforto e confiança
entre o examinador e o cliente”(p.2). Sua técnica
se respalda no “conceito de que os desenhos da
figura humana”, bem como os da casa e da
árvore, “são úteis para o estudo da
personalidade ou como meio de diagnóstico na
avaliação clínica, e se fundamenta na teórica na
psicologia da imagem de si mesmo, assim como na
teoria psicanalítica da projeção” (HARRIS, 1981,
p.57- grifo nosso).
Para Levy (apud TRINCA, 1987), o desenho além de
projetar a imagem corporal, usualmente compõe uma
gama de projeções relacionadas ao autoconceito, a
imagem ideal do eu, e as atitudes para com os
outros, mesmo com o examinador na situação da
testagem. O teste do desenho pode ser uma
expressão consciente, como também incluir símbolos
disfarçados e fenômenos inconscientes. O desenho
da figura humana, segundo Alves (apud WECHSLER,
2003), é uma das medidas mais utilizá-las pelos
psicólogos brasileiros, na maioria das vezes com o
intuito de avaliação emocional mais do que
cognitiva. A freqüência da utilização dessa
técnica, certamente, se deve a sua composição
simples, aparentemente objetiva e de baixo custo
financeiro (HUTZ e BANDEIRA apud WECHSLER, 2003).
Ao examinando é
solicitado, geralmente, um mínimo de três
desenhos, e, em seguida se conduz o Inquérito1.
Nessa etapa do Inquérito é extraído o maior número
possível de informações e descrições subjetivas
que o examinando discorre sobre cada uma das
figuras grafadas. Cabe ressaltar que, na clínica,
esse manejo é bem mais favorável de se consolidar
do que num exame psicotécnico, por se tratar,
quase sempre, de grupo. Para Deleuze (1997), o
devir não é imaginário, bem como uma vigem não é
real, ele faz do mínimo de um trajeto ou da sua
imobilidade no mesmo lugar, uma viagem; e é esse
percurso que leva o imaginário a um devir. Ao
trazer esta afirmativa deleuziana para o contexto
desta discussão, diríamos que este teste é o
“devir”, e que o examinando é o “imaginário”. Daí
a importância do Inquérito. Este, junto ao desenho
funda as disposições de acesso ao indivíduo, com
significativa e vertical compreensão do seu Eu.
Em outras palavras,
é a fala do examinado, no seu sincero propósito de
colaborar com o processo, que vai dar mais
sentido, e legitimar mais ainda as expressões dos
seus desenhos. Afinal, “toda linguagem é uma
linguagem exposta à emergência dos efeitos do
inconsciente” (NASIO, 1993, p.79). Nessa
perspectiva, Deleuze (2006) ressalta que a
estrutura se estabelece daquilo que é linguagem,
seja ela esotérica ou não-verbal, do mesmo modo em
que “só há estrutura do inconsciente à medida que
o inconsciente fala e é linguagem” (DELEUZE,
2006, pp.238-9). O
desenho é uma outra forma de linguagem por meio do
qual o inconsciente também se manifesta. Para
Campos (1999) o desenho na vez de técnica
projetiva reflete uma impressão do “todo” do
indivíduo, como uma “Gestalt”2
organizada, que aparece em toda a sua extensão,
pelo olhar do examinador experiente na técnica da
interpretação de desenho (grifos da autora).
A autora acredita
que tudo esta no desenho, cada linha e parte em
suas relações com as outras, o aspecto da sua
elaboração com um todo apresenta um efeito
unificado, diferente do Rorschach que, além de não
apresentar tal clareza de interpretação, necessita
de cálculos e escores. Enfim, “a projeção do
Desenho é apreendido pelo clínico com uma unidade;
o Rorschach deve ser tratado parte por parte”
(CAMPOS, 1999, p.27). Por questões inerentes à
conduta para com os testes psicológicos, não é
possível esmiuçar aqui o significado específico do
H-T-P, ou seja, em que se consubstanciam seus
itens, isto, se não o invalidaria, entretanto
retiraria um pouco do seu impacto avaliativo.
Existem os desenhos
projetivos a exemplo do Zulliger (aplicação
individual ou coletiva, por meio de slides
ou apresentação de 3 cartões ou lâminas), e do
Rorschach (aplicação somente individual, mediante
a apresentação de 10 cartões ou lâminas), com os
seus famosos borrões de tinta que se constituem de
estímulos ambíguos. O indivíduo descreve,
verbalmente, como os percebe. Feito isso, terá que
destacar com lápis de cores variadas nas folhas de
localização, uma espécie de marca d`água, os
locais nos quais as imagens inspiraram suas
respostas. O H-T-P é um teste projetivo, mas
gráfico, isto o diferencia destes outros citados.
Os três desenhos do H-T-P trabalham com a mesma
deliberação tendo em vista para a interpretação
das características da personalidade,estado
emocional, transtorno mental3
e outros. Convém salientar que, este teste, apesar
da sua relevância tende a denotar aspectos
patológicos dos quais quase ninguém escapa. Assim
sendo, a praxe recomenda a aplicação de mais de um
teste de personalidade quando da avaliação do item
específico: Personalidade, e da importância de que
o avaliador perceba em quais situações deve
relativisar os seus dados qualitativos.
Segundo Van Kolck
(1984), o indivíduo ao atender à solicitação -
“desenhe uma pessoa” - lança sobre o papel a
imagem corporal que possui e que se torna veículo
de expressão de sua personalidade (p.14). A autora
acrescenta que essa imagem não é apenas
consciente, mas também construída como base no
corpo do outro, e que não está ligada somente à
aparência, mas, em especial, a qualidade da
relação. A folha de papel em branco representa o
mundo externo do indivíduo que nos desenhos livres
é ocupada por objetos diversos sem conexão entre
si, ou, pelo contrário, isolados, ou mesmo vazios
de conteúdos (PICCOLO, 1995), e, por vezes, porque
não, bem distribuídos, relacionados e
harmonizados.
O sistema
inconsciente, estranhamente, é colocado em
dúvida por Nasio (1993), ao mesmo tempo em que
indica o suposto lugar do seu trânsito. Para o
autor, “se o inconsciente existe, ele só pode
existir no interior do campo da psicanálise e,
mais precisamente, no interior do campo do
tratamento analítico” (p.49). Diríamos que o
inconsciente está na vida, no cotidiano das
pessoas, e em toda atuação psicológicas, embora
umas abordagem priorizem, outras o pretira ou
ignore. O inconsciente não é uma invenção de
Sigmund Freud, nem patente da psicanálise. Segundo
Mueller e Hergenhahn (apud GORSKI, 2005), se
atribuem ao filósofo Gottfried W. Leibniz a
descoberta do inconsciente muito antes de Freud
tocar nessa tecla.
O desenho é uma das
mais autênticas expressões do testando, uma vez
que capta, em particular, conteúdos inconscientes,
sem a sua intervenção. Embora ele possa até intuir
que algo do seu interior, do seu Eu, irá torná-lo
conhecido, mas não consegue ter o controle sobre o
que será exposto. Isto certamente o angustia bem
mais, porque o deixa vulnerável. Porém, a intenção
não é deixá-lo numa situação desconfortável. Mas,
esse teste se estrutura de tal modo que o
examinando não consegue manipular informações ao
seu favor. Posto que, ele não tem noção de quais
aspectos dos desenhos serão considerados
favoráveis ao seu caso.
Com exceção de
figuras estereotipadas - a exemplo de coqueiro,
bananeira e pessoa unidimensional ou feita de
“palitos”-, que são impróprias para serem
analisados porque não oferecem material
suficiente, no teste do desenho não tem resposta
certa nem errada. Logo, todos os componentes dos
desenhos são analisáveis. A grosso modo, o H-T-P
se compara a uma radiografia psíquica. Considerado
o fato de que o candidato ou examinado não tem
controle sobre os testes, durante o processo de
seleção ou avaliação o mais sensato é procurar
relaxar (fazer exercícios respiratórios, e manter
os pés bem apoiados no chão, sobretudo e de
maneira moderada nos momentos antecedem a sua
realização, são fundamentais), e ariscar-se em:
“Ser a própria pessoa, sem subterfúgios, ou
representar algum personagem”, e ser cooperativo
às realizações e às solicitações da demanda
diagnóstica ou psicométrica. Uma vez que assim
proceda, e essa postura é válida para todos os
testes, estará facilitando uma melhor denotação do
seu potencial, e como conseqüência um resultado
mais satisfatório do seu desempenho.
Para um melhor
entendimento do trabalho prático com desenhos, a
seguir serão apresentadas quatro vinhetas de dois
casos clínicos, e de dois exames psicotécnicos. Um
paciente, médico, estava em crise no casamento. A
sua esposa se queixava que isto se devia, em
grande parte, à relação simbiótica do marido com
os parentes, em especial ao seu apego à mãe viúva.
O que era, veementemente, negado por ele, que se
dizia independente e acostumado a se “virar”
sozinho. Portanto, está casado ou solteiro lhe
parecia, apesar deste seu segundo matrimônio, ser
indiferente, etc. Solicitei que ele desenhasse a
sua família.
Depois de relutar,
de questionar a utilidade do desenho, meio
indisposto do tipo: “Só vou fazer porque não tenho
outra alternativa”, com o lápis esgrimiu rápidos
golpes no papel. Este gesto que também tem outras
significações, aqui se restringirá ao que foi
explicitado: Quatro esboços do mesmo tamanho,
similares, e um apêndice junto e a esquerda do
primeiro esboço da seqüência. Cada garatuja como
se fossem parênteses sobrepostos. Um menor “a
cabeça”, em cima de um outro maior “o tórax”, e a
base do primeiro, bastante rechonchuda em relação
aos demais, representando os quadris.
Quando do Inquérito,
apontei para que os nomeasse, o dos quadris largos
era sua mãe, o apêndice que sugeria algo como:
“Preso à barra da sua saia”, o paciente se
auto-reconheceu, e os outros eram seus irmãos.
Sugeri que fizesse um outro desenho, mas, com a
sua família: mulher e filho (esta fora a intenção
inicial). Desta vez apareceram figuras, mas sem se
tocarem: Um homem, na direita do papel, olha para
o oeste; uma mulher no seu lado esquerdo, olha
para o leste, e uma criancinha dava a impressão de
engatinhar alheia ao casal. Ao chamar sua atenção
para estes detalhes, o paciente se conscientizou
das suas dificuldades, e pareceu disposto a
repensar e a assumir seu casamento.
Um outro paciente,
este já em fase de ser liberado para cirurgia
bariátrica, se dizia muito bem, e que havia
superado o trauma de hospital, etc. Sugeri que ele
fizesse a cena desse dia tão sonhado. No desenho
bem elaborado - não quer dizer bonito, perfeito,
mas, que seus componentes estão nitidamente
representados -, se evidenciou uma figura de
barriga enorme, deitada na mesa de cirurgia sob um
grande refletor, e com os olhos arregalados em
direção à porta. Ao longo do seu corpo três
pessoas identificadas como o cirurgião, a
anestesiologista e uma enfermeira. Com base nesse
“olhar de pavor com desejo implícito de fuga”, ele
resolveu adiar a cirurgia, por uns quinze dias,
com o objetivo de explorar um pouco mais esse
medo.
Uma examinada, no
psicotécnico, achou que a perfeição do desenho
seria considerada, daí reforçou e retocou todos os
desenhos. Seu H-T-P ficou bizarro, e adquiriu uma
outra conotação. Esse fato junto à mesma atitude
no Teste Palográfico de reforçar os traços (palos),
quando da contagem dos mesmos, contribuíram para a
sua não indicação. Num concurso público bastante
concorrido, uma candidata à vaga de Agente de
investigação (função fictícia para dificultar
associações), de repente, por conta de uma
pergunta da sua concorrente, durante a realização
de um teste, ficou agressiva, e bastante exaltada.
Seu protesto tinha um pouco de pertinência, houve
de fato uma pequena interferência, mas que não
devia ter ocorrido. Porém, não chegara a
prejudicar o andamento do todo.
Quando reunidos para
discutirmos o caso, a psicóloga e o estagiário
responsáveis pela sala, estavam se sentindo
profundamente culpados e incompetentes. Na função
de um dos membros da coordenação do evento, chamei
a atenção de que lhes tinha faltado uma prontidão
para conter essa interferência, mas que a reação
da moça fora exageradamente desproporcional ao
incidente. Na análise do seu teste, todos os
desenhos, em especial o da figura humana
apresentava vários indicativos de intensa
agressividade. Chegou-se a conclusão de que a sua
agressividade e tensão não eram reacional a
situação da testagem, mas constitucional à sua
personalidade. A candidata foi considerada,
temporariamente, inapta para o cargo.
O desenho tem a
função de estabelecer contato, investigação e
tratamento. Na comunicação verbal o examinado
poderá tentar conduzir, com seus argumentos, o
interlocutor para determinado foco, persuadi-lo
para o que julga ser crucial para conquistar a
vaga. Daí a grande vantagem do desenho, o
indivíduo não tem a chance de exercitar esse
artifício. Assim como o corpo fala, o desenho diz
por meio do inconsciente, aquilo que, por cautela
ou autocensura, o seu autor não se permite
verbalizar. No psicotécnico, os traços de
personalidade identificados nos desenhos são
comparados ao perfil que se exige para o cargo.
Nesse caso, por vezes, sujeitos de elevado nível
cultural e consideráveis características pessoais,
não são contempladas. Do mesmo modo que, um outro,
com menos potencial poderá se adequar melhor a
essa função.
Num primeiro
momento, esse processo, parece meio sem lógica e,
em particular, cruel. Deve-se lembrar que este
sistema é capitalista, e que a escolha de um
candidato se dá em relação a diversos fatores.
Alguns são bem específicos de cada empresa ou
processo seletivo. Por exemplo, numa empresa na
qual não haja perspectiva de ascensão funcional,
colocar uma pessoa com elevado nível de
escolaridade, inteligente, e criatividade, numa
função “elementar”, sem possibilidade de
crescimento, seria condená-la ao desajuste. Também
seria motivo de constrangimento indicar uma outra
para uma colocação que está além do seu potencial.
Ela se desgastaria para atingir um nível razoável
de satisfação produtiva, ou não atingiria, gerando
frustração, ou mesmo, algo mais sério. Segundo
Codo e Vasques-Menezes (apud ABREU et al., 2002),
as pessoas entram em burnout4
ao se sentirem incapazes de investir em seu
trabalho, e em conseqüência da incapacidade de
lidar como o mesmo.
Um processo seletivo
não é pensado em ternos emergenciais. Entre
outros, também porque, contratação no Brasil,
implica em encargos sociais altíssimos, etc. Na
situação de desempregado há disposição sim, mas
que, se não forem seguidos os parâmetros racionais
de seleção, não há nenhuma segurança de que seja
mantida. Atendida as necessidades básicas de
subsistência, outras ocuparão o campo psicológico
do indivíduo. Assim sendo, vem à tona o velho
jargão, de que somente “o casamento da pessoa
certa com a função”, poderá resistir às
intempéries ocupacionais.
Entre os desenhos, é
o da figura humana geralmente o mais realizado,
mas, paradoxalmente, é também o mais rejeitado.
Para Buck (2003), isso está associado ao nível de
desajustamento do sujeito, uma vez que evidencia,
mais diretamente, as dificuldades das relações
interpessoais e a consciência corporal, mais do
que a casa ou árvore. No que se refere aos dados
de inteligência, aptidões, etc., feitas as suas
devidas ponderações, pode se considerar os mais
elevados escores ou percentuais. Ao passo que, na
avaliação ou análise da personalidade propriamente
dita, os aspectos mais comprometedores são vistos
em relação à capacidade adaptativa. Junto a outros
itens que poderão ajudar o paciente a superar as
suas dificuldade, e, no caso do examinado, no
psicotécnico, a enfrentar as situações. Por
conseguinte, tenta-se fazer prevalecer o princípio
de que, a parte mais saudável, uma vez destacada e
valorizada, favorece as outras mais afetadas:
“Como alguém conta comigo, eu sou responsável por
minha ação perante o outro” (RICOEUR apud SENNETT,
2002: 174). Todo paciente, etc., por mais
comprometido que pareça sempre apresenta algum
“gancho” como ponto de partida para a sua ajuda.
Porém, nem sempre é
fácil de desvelar áreas conflitivas, para perceber
os potencias de um candidato, é preciso técnica e
atenção, e, no caso clínico, paciência, bem como
persistência, para encontrar e alargar as arestas
que contribuam para a “cura” do paciente ou
remissão do seu sintoma. Van Kolck (1984) salienta
que além da projeção5,
mecanismos como identificação6
e introjeção7 podem se
manifestar, mas certamente a expressão e a
adaptação são os dois processos que ocupam lugar
de importância quando o desenho é concretizado. A
adaptação, expressão e projeção, segundo a autora,
estão explícitas no ato de desenhar. Assim sendo,
mais do que qualquer outra especificidade de
produção pessoal, deve ser visto com bastante
critério os aspectos: Adaptativo que diz respeito
à adequação à tarefa solicitada, sua
correspondência em relação à faixa etária, sexo e,
eventual, patologia; Expressivo que analisa o
estilo característico da resposta que se mostra
por meio gráfico da forma; e o Projetivo que
verifica as situações e objetos que denotam
conteúdo e a maneira de tratar o tema.
No teste do desenho,
embora seu enunciado se refira “ao melhor que o
examinado possa desenhar”, a estética ou beleza
artística não é considerada, mas os conteúdos que
estão representados. Histórias, críticas,
sentimentos e emoções verbalizados durante a
aplicação e no inquérito são dados complementares
que podem até colaborar com o fechamento do
Parecer de um Laudo. Tudo que o indivíduo faz,
diz, escreve, desenha é uma projeção do seu Eu, ou
são fragmentos de si mesmo. Ele pode até não ser
exatamente aquilo, mas está de alguma forma, por
meio desses sinais, representado. Van Kolck (1984)
cogitar que há “casos de rejeição em graus
diferentes de intensidade, a partir da negação
a desenhar até o não complemento do desenho”(p.10
- grifo da autora).
Na situação de
testagem, o discurso de que não sabe desenhar, a
priori pode sugerir uma preocupação com a
plástica do desenho, mas, na realidade, trata-se
de resistência, um mecanismo de defesa, receio de
se projetar. De modo geral, “todas as defesas
contêm aspectos adaptativos e são indispensáveis
para um ajuste adequado à
realidade” (PICCOLO, 1995, p.209). É a “melhor
solução” (grifo da autora) encontrada pelo sujeito
para lidar com as situações, a sua maneira de
perceber e conectar-se tanto com a realidade
interna quanto com a realidade externa. Em virtude
disto, interessa conhecer quais os perigos
fantasiados que o ego tenta evitar, e no que
acredita como de mais terrível que possa ocorrer
caso relaxe essa conduta defensiva (idem, ibid).
Assim como o corpo
não mente, e conta coisas sobre a história
emocional, e dos mais profundos sentimentos,
caráter e personalidade (KURTZ e PRESTERA, 1989),
o mesmo pode-se dizer do desenho, que também
funciona com uma estrutura similar à grafologia.
Assim como na grafologia, o teste do desenho é uma
série de atos, de registros gráficos dos
movimentos, “quer dizer, como um filme em que o
próprio indivíduo plasma, graficamente, seu tipo
de inteligência, sua sensibilidade, seus impulsos,
suas tendências, suas reações etc.” (VELS, 1997,
p.39).
Segundo Vels (1997),
a grafologia tem a vantagem de nos dar uma imagem
fiel do indivíduo revelada por ele mesmo, sem
intermediário e sem risco de inibição e nervosismo
que todo teste psicotécnico produz, quando o
indivíduo se sente “examinado” (p. 11 - grifo do
autor). É verdade que toda situação de testagem
gera algum tipo de tensão, mas, se o indivíduo é
conhecedor de que sua grafia é objeto de
avaliação, por que na grafologia seria diferente?
Enfim, no processo psicotécnico,, se destina um
tempo para o Rapport8 ou
“quebra gelo”, entre outras, para desmistificar os
testes, etc., e também para atenuar a ansiedade ou
nervosismo dos examinandos (SILVA, 2007).
Tomando por base o
exposto poder-se-ia indagar se o treinamento do
H-T-P, por exemplo, leva a exposição de desenhos
mais satisfatórios? Nunca é demais ressaltar, que
não é permitido o treino de qualquer teste
psicológico. Isto fere os princípios éticos que
regem a categoria, e que está sujeito à
invalidação e punição por parte do CFP (Conselho
Federal de Psicologia) que regulariza a profissão.
Mas, na hipótese de um sujeito recorrer a esse
expediente ilegal? Esse macete com o teste do
desenho pode até implicar numa vantagem, mas
aparente, uma vez que camufla determinados
aspectos, mas, dificilmente, não deixará de
transparecer as características que, de fato, são
inerentes a sua personalidade.
Provavelmente,
ficaria um desenho confuso, correndo o risco de
que, exatamente por isto, ser preterido, haja
vista as incoerências da expressão dos desenhos.
Também deve ser considerado o fato de que a
avaliação não se dá somente na exclusividade de um
desenho ou teste, mas no seu conjunto que subsidia
a decisão do examinador. Nesse sentido, Van Kolck
(1984) diz que um traço gráfico isolado nada
significa. Cada traço deve ser considerado em
conexão com os demais e no contexto geral do
desenho (p.6). Enfim, o treino não é garantia para
assegurar vaga ou carteira de habilitação.
Na perspectiva de
ser um psicanalista fazendo outra coisa mais
apropriada para a ocasião, Winnicott (apud
MENCARELLI e VAISBERG, 2005) propunha uma espécie
de jogo de traços e rabiscos no qual cada pessoa
deveria finalizar apenas com um desenho esboçado
pelo outro. Assim, em poucos encontros era
possível chegar ao núcleo problemático do
paciente. Apesar desta “deixa” de Winnicott, o
desenho na condição de modalidade de teste
psicológico é pouco estudado na academia, como
conseqüência seu uso, em termos proporcionais,
ainda é bem restrito.
Com exceção da
ênfase infantil, e do psicotécnico, o teste do
desenho não tem uma presença maciça em termo do
auxílio que esse recurso pode trazer. Talvez por
consistir-se num instrumento de característica
rudimentar - todo mundo, de uma forma ou de outra
desenha, rabisca, etc., desde os seus primórdios
de criança -, não tenha sido valorizado. Segundo
Lipovetsky (2005), “não é mais apenas a riqueza do
material que constitui o luxo, mas a aura do nome
e renome das grandes casas, o prestígio da grife,
a magia da marca” (p. 43). Mas este imperativo
simbólico, não é exclusivo da moda. Talvez, nesse
universo, seja mais explicitamente ditatorial,
todavia está também nos mais diversos universos
dos segmentos sociais, mesmo no acadêmico, e nem
sempre de modo subjacente.
Enfim, os trabalhos
mais expressivos em relação ao desenho estiveram
voltados para saúde mental a cargo da Nise da
Silveira. Esta psiquiatra que não aceitava o
eletrochoque - atualmente denominado
eletroconvulsoterapia9 - como meio
de tratamento, recorreu ao desenho, modelagem e
pintura, na sua assistência aos pacientes
psicóticos. Em 28 de setembro de 1956, no Engenho
de Dentro, no Rio de Janeiro, fundou o Museu de
Imagens do Inconsciente.
O desenho está
imerso na realidade social, nas suas mais diversas
matrizes de arte, seja mediante das obras
clássicas, sofisticadas, estilizadas, e até mesmo
nas manifestações dos anseios e protestos
populares por meio das grafites de rua.
Porém, o desenho na sua função de
Avaliação Psicológica, não pode se constituir numa
tarefa simplória, não se trata de deleitar ou
rejeitar conforme o conforto ou incômodo da
percepção. Mas, de ir além, traspassar para
enxergar, ali, uma vida imbricada noutras vidas,
que almejam pela realização de um sonho, atender
uma necessidade, e ter uma chance. Finalmente, o
teste do desenho tem o dom de veículo que
aproxima, e se faz explicitar dos fragmentos, das
nuances de luz e sombra, a compreensão. E, assim,
se fecha a gestalt de quem ajuda
(psicólogo), e de quem espera ser ajudado
(paciente, examinado).
NOTAS:
1. O Inquérito
consiste num roteiro padronizado de perguntas que
são feitas após a conclusão de cada desenho. Isto
não significa dizer que o aplicador não possa
explorar, de maneira mais espontânea, itens que
não ficaram claros, conforme a necessidade.
2. Teoria da Gestalt afirma que não se pode ter
conhecimento do todo por meio das partes, e sim
das partes pelo todo, uma vez que o conjunto
possui leis próprias que regem seus elementos. Só
mediante a totalidade é que o cérebro pode, de
fato, perceber, decodificar e assimilar uma imagem
ou um conceito. Esta teoria deu origem a
Psicologia da Gestalt que, por sua vez, enfatiza
os processos que envolvem figura e fundo, e a
percepção ativa do indivíduo no aqui e agora (FAGAN
e SHEPHERD, 1980). No entender de Rey (2003), a
Gestalt move-se claramente em função de uma
compreensão holística dos fenômenos psicólogicos.
3. A expressão doença mental foi substituída por
Transtorno mental (MATOS; MATOS; MATOS, 2005,
p.313).
4. Burnout é um termo de origem inglesa
que designa “algo que deixou de funcionar por
exaustão de energia” (OLIVEIRA apud SILVEIRA et
al., 2005, p.159). Esta síndrome também pode ser
definida como um estado de exaustão emocional,
física e mental causado por elevado nível de
exigência durante longo tempo (PINES e ARONSON
apud idem, ibid).
5. Projeção é a operação pela qual o sujeito
expulsa de si e localiza no outro, pessoa ou
coisa, qualidades, sentimentos, desejos que ele
desconhece ou recusa em si mesmo. Comum na
paranóia, e na superstição dos “normais”
(LAPLANCHE e PONTALIS, 2004).
6. Identificação é o processo psicológico pelo
qual se assimila aspecto, propriedade, atributo do
outro e se transforma, total ou parcial, segundo
esse modelo. Enfim, a personalidade constitui-se e
diferencia-se por uma série de identificações
(LAPLANCHE e PONTALIS, 2004).
7. Introjeção é processo de aproximar-se da
incorporação, que constitui o seu protótipo
corporal, mas não implica necessariamente ao seu
limite (introjeção do ego, do ideal do ego, etc.).
Está estreitamente relacionada com a identificação
(LAPLANCHE e PONTALIS, 2004).
8. Maiores informações sobre o Rapport
podem ser encontradas no texto:
Os Testes Psicológicos e as suas Práticas
(SILVA, 2007 -
http://www.algosobre.com.br/ - artigos /
psicologia).
9. Com base em Fink e Berrios, Perizzolo et al.
(2003) dizem que a eletroconvulsoterapia é o
tratamento mais controverso tanto quanto mais
polêmico da psiquiatria. Sua própria natureza,
histórico de abuso, apresentações desfavoráveis da
mídia, e testemunhos de pacientes tão convincentes
quanto desiformados contribuíram para o contexto
de tal visão.
REFERENCIAL
ABREU, K. L. et al.
(2002). Estresse ocupacional e síndrome de
Burnout no exercício profissional da
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Publicado
em 04/07/2008
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