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1. Para você, qual é a importância de
resgatar as brincadeiras e os brinquedos
antigos? O que eles têm de positivo e o
como favorecem as crianças?
Os brinquedos e brincadeiras antigas
proporcionam diversos benefícios às
crianças, favorecendo o desenvolvimento
de várias áreas tais como esquema
corporal, coordenação motora,
lateralidade, socialização, respeito às
regras, raciocínio, agilidade.
2. Como você vê as crianças de ontem, as
de hoje e as de amanhã? Quais são as
principais características e diferenças
de cada uma delas em relação à
brincadeira e à forma de se divertir?
Antigamente as crianças tinham mais
liberdade para brincar na rua de gude,
carrinho de mão, roda, amarelinha,
corda, por exemplo, situação que foi
mudando com o crescimento das cidades e
com a onda de violência que presenciamos
a cada dia. Diante disto as crianças
passaram a brincar em play graunds, sem
contato com a terra, areia e em
apartamentos tão pequenos que mal dá pra
dar uma cambalhota. A classe social da
criança, hoje, determina o tipo de
brinquedo ou brincadeiras. As crianças
de classe média, se divertem com
vídeo-games, computadores, barbies,
brinquedos eletrônicos em geral. Não
vemos incentivos, dos pais, em
proporcionar encontros de crianças, em
casas ou condomínios, para brincar de
velhas brincadeiras e as crianças
limitam-se a brincar de pega-pega,
esconder ou bola. Já as crianças da
periferia ou zona rural, são criadas com
mais liberdade, e como não possuem
recursos para comprar brinquedos caros,
são incentivados pela própria família a
criar seus brinquedos, inclusive com
sucata e a brincar com a terra, fazendo
amarelinha, brincando de gude, corda,
dentre outras brincadeiras, além das
cantigas de roda.
Acredito que as crianças de classe média
de amanhã terão, cada vez mais, acesso a
novos brinquedos, que serão ainda mais
eletrônicos, e as crianças da periferia
bem como as da zona rural, continuarão
com seus brinquedos, feitos por eles ou
pelos pais, como: gudes, pipas, cinco
marias, amarelinha, por exemplo.
3. Você poderia dizer que as crianças de
antigamente eram mais criativas ou, pelo
menos, tinham mais estímulo para criar?
Antigamente não havia tanta tecnologia,
tanta informação de produtos lançados
que pudessem influenciar as crianças.
Elas se contentavam em ganhar brinquedos
apenas no natal, aniversário e dia das
crianças. Havia um maior controle e um
maior limite dado pela família. O resto
do ano ficava por conta da criatividade
em criar brinquedos que recebiam
influência dos avós. Costuravam
saquinhos para fazer o jogo cinco
marias, costuravam bonecas de pano
inclusive para fazer fantoches,
brincavam com um simples elástico que
desenvolvia tantas habilidades corporais
e sociais, inventavam inúmeras
brincadeiras com o baralho, faziam
pipas.
Com a apelação da mídia, os pais
passaram a comprar brinquedos
eletrônicos, que não possibilitam à
criança nenhuma criação, nenhuma
utilização de sua coordenação ou
criatividade para produzir. Materiais
como: argila, gesso, tintas, sucatas,
são raramente vistos nos lares de classe
média para alta, salvo quando
encontramos neles uma mãe ou pai
pedagogos, psicólogos ou com clareza
suficiente para entender os benefícios
destas criações.
4. Qual o impacto que as brincadeiras e
entretenimento de hoje em dia
(computador, video-game, televisão) têm
sobre a socialização das crianças?
As crianças e adolescentes estão cada
vez mais viciadas em jogos de
computador, internet ou vídeo-games, e
este vício acaba isolando o sujeito num
quarto perdendo a vontade de sair e
brincar ao ar livre, jogar futebol,
encontrar os amigos, fazer novas
amizades ou mesmo estudar, porque acham
o computador mais interessante. Passam
horas jogando, e o que é pior, não são
jogos educativos, como a coleção do
coelho sabido, por exemplo, são jogos
violentos de luta, guerra, tiros, com
prejuízos graves no comportamento:
agressividade, isolamento, mau
rendimento escolar; e na saúde: dores de
cabeça, náuseas. Sou contra o
vídeo-game, mas não contra o computador
quando este é usado de forma adequada,
com um mediador ao lado da criança, que
ofereça um bom software educativo,
regule o tempo de jogo e utilize a
internet como um veículo importante para
pesquisas que não deverão ser copiadas,
mas lidas, entendidas e reescritas com
suas palavras.
5. Você acha que a violência das grandes
cidades contribuiu para que as crianças
deixassem de freqüentar as ruas e os
quintais?
Sim, presenciamos a cada dia seqüestros
relâmpagos, balas perdidas, assaltos,
cujas situações têm deixado os pais
apavorados. A conseqüência disto tudo é
o isolamento em apartamentos onde a
única opção da criança é descer para o
play ground. Aqui na Bahia, atendo no
bairro de Stella Maris e muitos pais me
dizem que optaram em vir morar aqui pela
qualidade de vida que podem proporcionar
aos filhos como estarem à beira da praia
e as crianças terem contato com a terra,
morarem em casas em condomínios fechados
onde as crianças podem correr como se
estivessem nas ruas e contando com
escolas de boa qualidade.
6. Que sugestão/dica você daria aos pais
para que eles não deixassem as crianças
esquecerem as brincadeiras antigas ou,
pelo menos, as resgatassem?
Esta iniciativa deve partir mesmo dos
pais, porque é difícil um brinquedo
simples competir com brinquedos tão
engenhosos. Se os pais não incentivarem
e tornarem aquela brincadeira gostosa e
prazerosa dificilmente a criança sentirá
vontade de, por si só, tomar a
iniciativa de pedir. Recomendo que os
pais tentem relembrar brincadeiras como
as que brincavam quando crianças e
tentem colocar magia nisto. Se não se
lembrarem, não tem problema, há inúmeros
sites que relatam brincadeiras,
inclusive no meu, vocês poderão
encontrar cantigas de roda e
brincadeiras antigas:
http://www.psicopedagogiabrasil.com.br
. Devem, também, propor desafios às
crianças, procurando estimular seu
raciocínio sem dar respostas prontas ou
ensinar logo as regras. Poderão propor
que a criança observe e explique o jogo,
ou que leia as instruções das regras e
interprete-as, ou estimular outras
regras para o jogo. Os pais devem,
definitivamente, tentar arranjar tempo
para brincar com seus filhos, nem que
seja à noite quando chegam do trabalho,
para que possam acompanhar seu
desenvolvimento e estimular a
afetividade. Com esta atitude, os pais
irão se aproximar mais dos filhos, irão
arrancá-los de seus quartos, ajudando no
desenvolvimento cognitivo, físico e
social da criança.
7. Você, como psicopedagoga, utiliza
jogos e brincadeiras antigas como
recurso para trabalhar com as crianças?
De que forma e em que situações?
Sim, num consultório psicopedagógico
deve-se oferecer, às crianças, um
material mais simples, principalmente em
se tratando de crianças que estejam
acostumadas com vídeo-games,
computadores ou com brinquedos
eletrônicos e que pouco contato têm com
estes materiais. A depender da idade e
das necessidades da criança
trabalharemos com materiais não
estruturados (tinta, argila, massa de
modelar, peças para montar, sucatas para
reciclagem) ou com materiais
semi-estruturados ou estruturados como
jogos. Muitos desses jogos são aqueles
antigos como cinco marias, bolas de
gude, jogos em madeira tais como:
mancala, resta um, quarto, torre de
brahma, pentaminós, tangram. Além de
jogos como dominó, baralho, senha, dama,
xadrez, pega-varetas, memória,
puzzles e
mosaicos, dentre outros. Devemos
sempre utilizar antigas brincadeiras,
porém adequando-as à cultura de hoje.
É importante destacar também o papel da
pré-escola, que tem resgatando antigas
brincadeiras e cantigas de roda. Além de
proporcionarem um espaço para a
realização destas brincadeiras, muitas
solicitam, às crianças, pesquisas sobre
a origem, maneiras diferentes de brincar
ou variações da música. Este é um ótimo
local para que a criança tenha a
oportunidade de, juntamente com outras,
compartilhar, socializar, negociar,
definir e respeitar as regras e, desta
forma, estarão se preparando para o
mundo dos adultos aprendendo a lidar com
perdas e ganhos, frustrações, alegrias e
tristezas.
Publicado em 22/12/2007 |