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Entrevista: conversando sobre a dislexia

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Entrevistado: Vicente Martins

 

Cearense de Iguatu, tem 46 anos de idade. Mestre em educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pós-graduada em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Professor há catorze anos dos cursos de Letras e Psicopedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral, Ceará. Articulista de jornais e revistas educacionais no país.  Dedica-se, entusiasticamente, aos estudos de dificuldades de aprendizagem relacionadas com a leitura (dislexia), escrita (disgrafia) e ortografia (disortografia).  

 

Entrevistadora: Simaia Sampaio

 

1. Professor Vicente, o que é dislexia?

VM – Dislexia é uma dificuldade específica na aprendizagem da leitura com repercussão, muitas vezes, na ortografia (disortografia). Os disléxicos, sem consciência fonológica, apresentam dificuldade de fazer o reconhecimento da palavra escrita, ou seja, não conseguem transformar as letras em sons da fala (fonemas da língua como vogais, semivogais e consoantes)

2. Atualmente, parece existir uma epidemia de disléxicos. Qualquer dificuldade de leitura já se suspeita de dislexia por parte de alguns professores. Como o senhor vê estes diagnósticos informais?

VM – Mais do que epidemia, a dislexia, da forma como está divulgada e banalizada, é uma praga, uma verdadeira pandemia. Todos nós seríamos disléxicos. Nem epidemia nem pandemia. A dislexia passou a ser foco de preocupação de pais, educadores e psicopedagogos porque a aprendizagem passou a ser o centro de atenção da educação escolar. Antes, a atenção era voltada para o ensino, portanto, para o professor. Agora, para a aprendizagem, sendo assim, foca o aluno, o educando. Os diagnósticos informais são válidos desde que venha de pais, responsáveis e educadores diretamente envolvidos com os alunos. A partir, deve o educando, sob o risco, ser encaminhado a um profissional de psicopedagogia especialista em dislexia.

3. Uma criança com transtorno não verbal pode ser confundida com uma criança dislexia. Qual a diferença?

VM – No campo da educação escolar, não falamos em transtorno em se tratando das competências e habilidades lingüísticas. Reservamos o tempo para o pessoal da saúde como neurologistas ou psicólogos clínicos. A dislexia é uma dificuldade específica na linguagem escrita, portanto, um “transtorno verbal”. Um surdo-mudo, por exemplo, com linguagem não-verbal, não terá, jamais, dislexia.

4. Em que proporção encontramos crianças disléxicas confundidas com crianças preguiçosas e distraídas por pais ou professores?

VM – Os dados internacionais (confirmados por mim, no Brasil), apontam que numa sala de 40 alunos, entre 4 a 5 alunos ou mais, apresentam dificuldades de aprendizagem. Essas crianças com DA, em grande parte, são crianças com dificuldades leitoras ou escritoras. Por isso, o sinônimo de DA praticamente é o de dislexia, disgrafia ou disortografia. Como a escola, como disse, antes, focaliza nos anos 90, do século passsado e nos primeiros anos do século XXI, a questão da aprendizagem, as crianças que têm concentração em ou a atenção aos estudos passam a preocupar a todos. As crianças com hiperatividade, chamada também dislexia maior, ao contrário das disléxicas, são as que, em geral, são rotuladas de preguiçosas ou distraídas. Os rótulos colaboram na discriminação das crianças perante os demais coleguinhas da mesma idade e fazem com o que os educadores simplifiquem o problema e o transfira para outros profissionais (saúde, como fonoaudiólogos, terapeutas).

5. Alguns profissionais afirmam que a dislexia tem cura outros acreditam que não. Qual a sua opinião?

VM – Existem dois tipos básicos de dislexia. A desenvolvimental ou verdadeira, aquela em que a criança nasce com ela, herança genética dos pais. É uma síndrome e não desaparece ao longo dos anos. Existe a dislexia pedagógica, aquela diretamente relacionada com os métodos de ensino em leitura (fônico, global etc). O método global, de grande vitalidade no Brasil, é um dos responsáveis pelo fracasso na alfabetização em leitura. A criança diante do texto inédito, no método global, apresentará dificuldades de soletração e compreensão leitora.

6. Quais as especialidades mais indicadas para diagnosticar e tratar a dislexia?

VM – O ideal é que o diagnóstico da dislexia seja multiprofissional. Especialidades como médicos neurologistas, pediatras, psicólogos clínicos ou educacionais, lingüistas clínicos ou psicolingüistas e psicopedagogos, clínicos ou institucionais participem da descrição, explicação, intervenção e prevenção da dislexia.

7. Quando um professor suspeita de dislexia ele deve comunicar sua suspeita à família ou apenas indicar um profissional para que este avalie?

VM – Quando se fala em suspeita de dislexia, na verdade, estamos em  falando em criança em risco de dislexia. A dislexia, se não diagnosticada e levada em conta pela família e escola, pode levar o aluno ao fracasso escolar, pela via do abandono dos estudos e reprovação anual. Os pais devem ser informados das dificuldades dos alunos. E os alunos, por sua vez, devem ser orientados sobre o problema para que todos: pais, alunos e escola se envolvam em atividades de intervenção psicopedagógica para que os alunos com esse tipo de dificuldade possam superar a dificuldade (dislexia pedagógica) ou compensar seus déficits de aprendizagem lectoescrita (dislexia desenvolvimental)>

8. De que maneira os pais podem ajudar um filho disléxico?

VM – A família é principal suporte dos disléxicos. Quando temos notícia de uma superação de dislexia por parte de famosos, quase sempre, a mãe tem sido a verdadeira mestra no acompanhamento pedagógico e psicopedagógico. Ela é que tem a iniciativa de procurar os melhores profissionais para dar atenção especial aos seus filhos disléxicos. Os disléxicos observam também que são os pais os mais tolerantes com relação à sua dificuldade. São eles, os pais, que encorajam os disléxicos e os ajudam a construção de sua emancipação como leitor e cidadão no mundo povoado de incertezas, inquietações, dúvidas e diferenças de todas as ordens.  

9. E de que maneira um professor poderá ajudar um aluno disléxico em sala de aula?

VM -  Ao professor, cabe a tarefa de aprofundar os estudos sobre dislexia. A formação acadêmica é muito importante. Por exemplo, hoje, é consenso que a principal causa ou fator para o surgimento e persistência da dislexia é a falta de consciência fonológica. Se isso é verdade – e é, realmente – cabe ao professor montar atividades formais, para em treinamento, ajudar seu aluno a superar as dificuldades leitoras. A leitura é base para todas as demais disciplinas do currículo escolar.

10. A dislexia é um caso de inclusão? Por quê?

VM -  Nas chamadas escolas inclusivas, a dislexia é uma necessidade educacional especial. Portanto, os disléxicos são especiais e, como tal, devem ser incluídos nas escolas. Há um determinante legal, nacional e internacional (Carta de Salamanca, por exemplo) que asseguram as crianças com DA um atendimento especial por parte da escola. No Brasil, a LDB e uma farta legislação educacional, emanada do Conselho Nacional de Educação, através de pareceres e resoluções, indicam a dislexia como uma dificuldade muito específica de crianças e que, portanto, pelo menos, em nível, de poder público, deve receber atenção por parte dos governos federal, estadual e municipal.

11. Em sua opinião, a avaliação escolar de uma criança com dislexia deve ser diferenciada ou igual aos demais? Por quê?

VM – Como especial, a criança disléxica deve receber uma atenção especial por parte da escola, a começar pela avaliação escolar. A escola tem insistido muito, seja para normais ou especiais, na avaliação somativa, em que valoriza aspectos quantitativos da criança, em geral, relacionadas com sua memória, como cobrança de dados, informações etc. O ideal, para os disléxicos, é que a avaliação seja formativa, valorize, pois, aspectos qualitativos da criança, a que chamaríamos avaliação formativa. Na avaliação formativa, o importante é que a criança disléxica aprenda, mesmo que tenha que ter mais tempo na hora da avaliação. Se apresenta dificuldade crescente em escrever, temendo os erros, em determinado momento pode ser incentivado a responder oralmente as perguntas de uma verificação de rendimento. Ela faz tudo que os demais fazem na escola. A diferença é que a escola respeita seu ritmo e limitações de aprendizagem em leitura, escrita (planejar, produzir idéias, revisar texto, por exemplo) e ortografia.

   

Publicado em 20/12/2007

 

 

 

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Simaia Sampaio Maia Medrado de Araújo
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Revisado em: 01/02/2013