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1.
Professor Vicente, o que é dislexia?
VM –
Dislexia é uma dificuldade específica na
aprendizagem da leitura com repercussão,
muitas vezes, na ortografia
(disortografia). Os disléxicos, sem
consciência fonológica, apresentam
dificuldade de fazer o reconhecimento da
palavra escrita, ou seja, não conseguem
transformar as letras em sons da fala
(fonemas da língua como vogais,
semivogais e consoantes)
2.
Atualmente, parece existir uma epidemia
de disléxicos. Qualquer dificuldade de
leitura já se suspeita de dislexia por
parte de alguns professores. Como o
senhor vê estes diagnósticos informais?
VM – Mais
do que epidemia, a dislexia, da forma
como está divulgada e banalizada, é uma
praga, uma verdadeira pandemia. Todos
nós seríamos disléxicos. Nem epidemia
nem pandemia. A dislexia passou a ser
foco de preocupação de pais, educadores
e psicopedagogos porque a aprendizagem
passou a ser o centro de atenção da
educação escolar. Antes, a atenção era
voltada para o ensino, portanto, para o
professor. Agora, para a aprendizagem,
sendo assim, foca o aluno, o educando.
Os diagnósticos informais são válidos
desde que venha de pais, responsáveis e
educadores diretamente envolvidos com os
alunos. A partir, deve o educando, sob o
risco, ser encaminhado a um profissional
de psicopedagogia especialista em
dislexia.
3. Uma
criança com transtorno não verbal pode
ser confundida com uma criança dislexia.
Qual a diferença?
VM – No
campo da educação escolar, não falamos
em transtorno em se tratando das
competências e habilidades lingüísticas.
Reservamos o tempo para o pessoal da
saúde como neurologistas ou psicólogos
clínicos. A dislexia é uma dificuldade
específica na linguagem escrita,
portanto, um “transtorno verbal”. Um
surdo-mudo, por exemplo, com linguagem
não-verbal, não terá, jamais, dislexia.
4. Em
que proporção encontramos crianças
disléxicas confundidas com crianças
preguiçosas e distraídas por pais ou
professores?
VM – Os
dados internacionais (confirmados por
mim, no Brasil), apontam que numa sala
de 40 alunos, entre 4 a 5 alunos ou
mais, apresentam dificuldades de
aprendizagem. Essas crianças com DA, em
grande parte, são crianças com
dificuldades leitoras ou escritoras. Por
isso, o sinônimo de DA praticamente é o
de dislexia, disgrafia ou disortografia.
Como a escola, como disse, antes,
focaliza nos anos 90, do século passsado
e nos primeiros anos do século XXI, a
questão da aprendizagem, as crianças que
têm concentração em ou a atenção aos
estudos passam a preocupar a todos. As
crianças com hiperatividade, chamada
também dislexia maior, ao contrário das
disléxicas, são as que, em geral, são
rotuladas de preguiçosas ou distraídas.
Os rótulos colaboram na discriminação
das crianças perante os demais
coleguinhas da mesma idade e fazem com o
que os educadores simplifiquem o
problema e o transfira para outros
profissionais (saúde, como
fonoaudiólogos, terapeutas).
5.
Alguns profissionais afirmam que a
dislexia tem cura outros acreditam que
não. Qual a sua opinião?
VM –
Existem dois tipos básicos de dislexia.
A desenvolvimental ou verdadeira, aquela
em que a criança nasce com ela, herança
genética dos pais. É uma síndrome e não
desaparece ao longo dos anos. Existe a
dislexia pedagógica, aquela diretamente
relacionada com os métodos de ensino em
leitura (fônico, global etc). O método
global, de grande vitalidade no Brasil,
é um dos responsáveis pelo fracasso na
alfabetização em leitura. A criança
diante do texto inédito, no método
global, apresentará dificuldades de
soletração e compreensão leitora.
6.
Quais as especialidades mais indicadas
para diagnosticar e tratar a dislexia?
VM – O
ideal é que o diagnóstico da dislexia
seja multiprofissional. Especialidades
como médicos neurologistas, pediatras,
psicólogos clínicos ou educacionais,
lingüistas clínicos ou psicolingüistas e
psicopedagogos, clínicos ou
institucionais participem da descrição,
explicação, intervenção e prevenção da
dislexia.
7.
Quando um professor suspeita de dislexia
ele deve comunicar sua suspeita à
família ou apenas indicar um
profissional para que este avalie?
VM –
Quando se fala em suspeita de dislexia,
na verdade, estamos em
falando em criança em risco de
dislexia. A dislexia, se não
diagnosticada e levada em conta pela
família e escola, pode levar o aluno ao
fracasso escolar, pela via do abandono
dos estudos e reprovação anual. Os pais
devem ser informados das dificuldades
dos alunos. E os alunos, por sua vez,
devem ser orientados sobre o problema
para que todos: pais, alunos e escola se
envolvam em atividades de intervenção
psicopedagógica para que os alunos com
esse tipo de dificuldade possam superar
a dificuldade (dislexia pedagógica) ou
compensar seus déficits de aprendizagem
lectoescrita (dislexia
desenvolvimental)>
8. De
que maneira os pais podem ajudar um
filho disléxico?
VM – A
família é principal suporte dos
disléxicos. Quando temos notícia de uma
superação de dislexia por parte de
famosos, quase sempre, a mãe tem sido a
verdadeira mestra no acompanhamento
pedagógico e psicopedagógico. Ela é que
tem a iniciativa de procurar os melhores
profissionais para dar atenção especial
aos seus filhos disléxicos. Os
disléxicos observam também que são os
pais os mais tolerantes com relação à
sua dificuldade. São eles, os pais, que
encorajam os disléxicos e os ajudam a
construção de sua emancipação como
leitor e cidadão no mundo povoado de
incertezas, inquietações, dúvidas e
diferenças de todas as ordens.
9. E de
que maneira um professor poderá ajudar
um aluno disléxico em sala de aula?
VM -
Ao professor, cabe a tarefa de
aprofundar os estudos sobre dislexia. A
formação acadêmica é muito importante.
Por exemplo, hoje, é consenso que a
principal causa ou fator para o
surgimento e persistência da dislexia é
a falta de consciência fonológica. Se
isso é verdade – e é, realmente – cabe
ao professor montar atividades formais,
para em treinamento, ajudar seu aluno a
superar as dificuldades leitoras. A
leitura é base para todas as demais
disciplinas do currículo escolar.
10. A
dislexia é um caso de inclusão? Por quê?
VM -
Nas chamadas escolas
inclusivas, a dislexia é uma necessidade
educacional especial. Portanto, os
disléxicos são especiais e, como tal,
devem ser incluídos nas escolas. Há um
determinante legal, nacional e
internacional (Carta de Salamanca, por
exemplo) que asseguram as crianças com
DA um atendimento especial por parte da
escola. No Brasil, a LDB e uma farta
legislação educacional, emanada do
Conselho Nacional de Educação, através
de pareceres e resoluções, indicam a
dislexia como uma dificuldade muito
específica de crianças e que, portanto,
pelo menos, em nível, de poder público,
deve receber atenção por parte dos
governos federal, estadual e municipal.
11. Em
sua opinião, a avaliação escolar de uma
criança com dislexia deve ser
diferenciada ou igual aos demais? Por
quê?
VM – Como especial, a
criança disléxica deve receber uma
atenção especial por parte da escola, a
começar pela avaliação escolar. A escola
tem insistido muito, seja para normais
ou especiais, na avaliação somativa, em
que valoriza aspectos quantitativos da
criança, em geral, relacionadas com sua
memória, como cobrança de dados,
informações etc. O ideal, para os
disléxicos, é que a avaliação seja
formativa, valorize, pois, aspectos
qualitativos da criança, a que
chamaríamos avaliação formativa. Na
avaliação formativa, o importante é que
a criança disléxica aprenda, mesmo que
tenha que ter mais tempo na hora da
avaliação. Se apresenta dificuldade
crescente em escrever, temendo os erros,
em determinado momento pode ser
incentivado a responder oralmente as
perguntas de uma verificação de
rendimento. Ela faz tudo que os demais
fazem na escola. A diferença é que a
escola respeita seu ritmo e limitações
de aprendizagem em leitura, escrita
(planejar, produzir idéias, revisar
texto, por exemplo) e ortografia.
Publicado em 20/12/2007
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