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Simaia Sampaio

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Simaia Psicopedagoga

Inclusão do aluno com deficiência mental: missão de toda a escola

Por acontecer em níveis muito variados, a deficiência mental pede um trabalho de inclusão individualizado. Porém, socializar, adaptar o currículo e apostar na autonomia do aluno é tarefa que precisa ser abraçada por todos na escola

Tatiana Achcar

Nova escola on line - Sexta-feira, 16 de setembro de 2005

A chegada de Vitor Ricardo da Silva à 1ª série da Escola Municipal Araci Amaral, no início deste ano, em Senador Canedo (GO), não foi nada tranqüila. Nascido com deficiência mental congênita e surdez, o aluno de 6 anos apresentava dificuldade motora e de comunicação, o que o deixava impaciente e agressivo quando não conseguia se expressar. Era difícil segurar o garoto dentro da sala de aula.

Começava ali o trabalho conjunto entre a professora de apoio Elaine Ferreira de Souza Lima e os professores regulares da 1ª série. Nos contra-turnos, Elaine passou a levar Vitor para outros espaços da escola onde podia usar recursos lúdicos para estimular a coordenação motora e auditiva do aluno – brinquedos emborrachados e de madeira, corda para pular, bola para jogar. Vitor passou a observar as atividades e, dia após dia, a repeti-las. Com isso, aprendeu uma série de coisas. O processo, alerta Elaine, é lento, mas os resultados são visíveis. "Hoje ele respeita as regras da sala de aula, fica sentado, se atém ao rosto da professora e faz leitura facial, come e vai ao banheiro sozinho", conta Elaine.

O trabalho de Elaine não é solitário. O município goiano implantou a inclusão há 3 anos e tem se empenhado em aperfeiçoar a adaptação curricular. Circula no conselho municipal de educação um projeto de adaptação curricular que pretende definir o que o aluno especial tem de aprender ao deixar a série em que está.

Autonomia
Na educação especial, os métodos de ensino, o processo de aprendizagem e os objetivos são diferentes. De acordo com Helenir Santana Moreira, diretora do Centro de Educação Especial Síndrome de Down de Campinas, o aluno com necessidade especial está sempre adquirindo conhecimento, mesmo que não seja o formal.

"A socialização que ele aprende na escola lhe traz algo essencial, a autonomia. Se o professor percebe que o verdadeiro papel da escola é o de despertar diversos conhecimentos, a ansiedade com o aluno especial diminui", diz Helenir.

Quando o professor de recurso Lucas Rodrigues de Moraes faz o planejamento semanal para receber alunos com necessidades especiais, na Escola Municipal Antonio Evaristo de Moraes, também da rede pública de Senador Canedo (GO), ele aposta em uma adaptação curricular que prioriza a convivência em sociedade e a autonomia do aluno. "Acredito que a avaliação se guia no que o aluno aprendeu e não no que ele deixou de aprender", conta.

A peculiaridade da chamada necessidade especial de natureza intelectual é que ela não é mensurável, como nos casos da deficiência visual e auditiva. "Não existe padrão, cada um responde a um estímulo", diz Helenir. Por isso, para a criança com necessidade especial acessar e construir conhecimento, o professor deve conhecer a história do aluno, reconhecer o que ele sabe, como aprende, estudar a deficiência, envolver a família e estabelecer vínculos, considerando que ele ainda não aprendeu, mas pode fazê-lo.

Apoio
A tarefa de incluir um portador de deficiência mental não pode ser solitária. A inclusão é missão de toda a escola, que deve assumir a situação e verificar que condições possui ou não, o que pode e não pode fazer. "Inclusão não é entregar o aluno especial para a professora que tem mais jeitinho", afirma Roseli Rocha Baumel, professora do curso de pós-graduação em educação especial da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. "Imediatamente após a matrícula, toda equipe deve se reunir para pensar na socialização do aluno, na adaptação curricular, na participação da família, nas parcerias com postos de saúde e com escolas especiais. É preciso criar um projeto pedagógico orientado para a inclusão", diz.

A figura do professor de recurso, como mostra a experiência do município goiano, é muito importante. Ele chega com o conhecimento sobre a deficiência e orienta o professor regular. Em compasso com essas orientações, você e ele podem criar práticas pedagógicas baseadas no potencial do aluno que visam desafios e avanços no conhecimento e na autonomia. Também é papel do professor de recurso acompanhar o aluno aos centros especializados que prestam serviço de psicoterapia, fonoaudiologia e fisioterapia. "Ele é o facilitador da inclusão, ajuda o aluno a interagir com o meio, com o professor e vice-versa", conta Elaine.

O professor Lucas, por exemplo, tem claro que a assimilação do conceito é mais difícil para o aluno que tem comprometimento mental. Por isso, ele sempre procura transformar esse processo em atividades práticas concretas e lúdicas. Os jogos, por exemplo, são constantes no trabalho com a Língua Portuguesa. Já no trabalho sobre educação no trânsito deste ano, Lucas sugeriu ao professor regular que levasse toda a turma da 4ª série para a porta da escola. Lá, os alunos observaram a faixa de pedestres, as faixas de sinalização, a conduta dos motoristas e a opinião dos vizinhos sobre o tráfego local. Com as coisas erradas que viram, as crianças escreveram uma carta protesto que será encaminhada ao poder público e à companhia de ônibus. A informação ganhou a rua e envolveu a comunidade. "Dessa forma, os alunos com necessidades especiais tornam-se mais participantes, passaram a se ver e a ser vistos como parte ativa na sala de aula", diz o professor.

Aprendizagem cooperativa
Quando a turma trabalha em conjunto, está pondo em prática um dos princípios da inclusão – valer-se da receptividade dos demais alunos para acolher o colega que tem necessidades especiais. Ana Paula Rodrigues do Nascimento, coordenadora do Núcleo de Educação para Diversidade de Senador Canedo percebe que isso dá apoio ao professor.

Contar com o improviso é outro princípio, de acordo com Roseli Baumel, que constata: "A inclusão tem trazido tensão para o professor pois é um processo que avança e recua". Por isso é necessário envolver toda a escola, contar com serviços de apoio, partilhar experiências com escolas especiais, emprestando o conhecimento que têm sobre como trabalhar, que materiais utilizar. "A inclusão não é preparar o aluno e sim adaptar a sala de aula, a turma e a escola para receber esse aluno especial", completa Helenir Moreira.

Quer saber mais?
Secretaria Municipal de Educação de Senador Canedo
Tel. (62) 3275-3000

EM Araci Amaral
Tel. (62) 3512-1737

EM Antônio Evaristo de Moraes
Tel. (62) 3275-3072

Centro de Educação Especial Síndrome de Down
Tel. (19) 3252-9889

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Revisado em: 10/06/2011