A
chegada de Vitor Ricardo da Silva à
1ª série da Escola Municipal Araci Amaral,
no início deste ano, em Senador Canedo
(GO), não foi nada tranqüila. Nascido com
deficiência mental congênita e surdez, o
aluno de 6 anos apresentava dificuldade
motora e de comunicação, o que o deixava
impaciente e agressivo quando não conseguia
se expressar. Era difícil segurar o garoto
dentro da sala de aula.
Começava
ali o trabalho conjunto entre a professora
de apoio Elaine Ferreira de Souza Lima e os
professores regulares da 1ª série. Nos
contra-turnos, Elaine passou a levar Vitor
para outros espaços da escola onde podia
usar recursos lúdicos para estimular a
coordenação motora e auditiva do aluno –
brinquedos emborrachados e de madeira, corda
para pular, bola para jogar. Vitor passou a
observar as atividades e, dia após dia, a
repeti-las. Com isso, aprendeu uma série de
coisas. O processo, alerta Elaine, é lento,
mas os resultados são visíveis. "Hoje
ele respeita as regras da sala de aula, fica
sentado, se atém ao rosto da professora e
faz leitura facial, come e vai ao banheiro
sozinho", conta Elaine.
O
trabalho de Elaine não é solitário. O
município goiano implantou a inclusão há
3 anos e tem se empenhado em aperfeiçoar a
adaptação curricular. Circula no conselho
municipal de educação um projeto de adaptação
curricular que pretende definir o que o
aluno especial tem de aprender ao deixar a série
em que está.
Autonomia
Na educação
especial, os métodos de ensino, o processo
de aprendizagem e os objetivos são
diferentes. De acordo com Helenir Santana
Moreira, diretora do Centro de Educação
Especial Síndrome de Down de Campinas, o
aluno com necessidade especial está sempre
adquirindo conhecimento, mesmo que não seja
o formal.
"A
socialização que ele aprende na escola lhe
traz algo essencial, a autonomia. Se o
professor percebe que o verdadeiro papel da
escola é o de despertar diversos
conhecimentos, a ansiedade com o aluno
especial diminui", diz Helenir.
Quando
o professor de recurso Lucas Rodrigues de
Moraes faz o planejamento semanal para
receber alunos com necessidades especiais,
na Escola Municipal Antonio Evaristo de
Moraes, também da rede pública de Senador
Canedo (GO), ele aposta em uma adaptação
curricular que prioriza a convivência em
sociedade e a autonomia do aluno.
"Acredito que a avaliação se guia no
que o aluno aprendeu e não no que ele
deixou de aprender", conta.
A
peculiaridade da chamada necessidade
especial de natureza intelectual é que ela
não é mensurável, como nos casos da
deficiência visual e auditiva. "Não
existe padrão, cada um responde a um estímulo",
diz Helenir. Por isso, para a criança com
necessidade especial acessar e construir
conhecimento, o professor deve conhecer a
história do aluno, reconhecer o que ele
sabe, como aprende, estudar a deficiência,
envolver a família e estabelecer vínculos,
considerando que ele ainda não aprendeu,
mas pode fazê-lo.
Apoio
A tarefa de
incluir um portador de deficiência mental não
pode ser solitária. A inclusão é missão
de toda a escola, que deve assumir a situação
e verificar que condições possui ou não,
o que pode e não pode fazer. "Inclusão
não é entregar o aluno especial para a
professora que tem mais jeitinho",
afirma Roseli Rocha Baumel, professora do
curso de pós-graduação em educação
especial da Faculdade de Educação da
Universidade de São Paulo.
"Imediatamente após a matrícula, toda
equipe deve se reunir para pensar na
socialização do aluno, na adaptação
curricular, na participação da família,
nas parcerias com postos de saúde e com
escolas especiais. É preciso criar um
projeto pedagógico orientado para a inclusão",
diz.
A
figura do professor de recurso, como mostra
a experiência do município goiano, é
muito importante. Ele chega com o
conhecimento sobre a deficiência e orienta
o professor regular. Em compasso com essas
orientações, você e ele podem criar práticas
pedagógicas baseadas no potencial do aluno
que visam desafios e avanços no
conhecimento e na autonomia. Também é
papel do professor de recurso acompanhar o
aluno aos centros especializados que prestam
serviço de psicoterapia, fonoaudiologia e
fisioterapia. "Ele é o facilitador da
inclusão, ajuda o aluno a interagir com o
meio, com o professor e vice-versa",
conta Elaine.
O
professor Lucas, por exemplo, tem claro que
a assimilação do conceito é mais difícil
para o aluno que tem comprometimento mental.
Por isso, ele sempre procura transformar
esse processo em atividades práticas
concretas e lúdicas. Os jogos, por exemplo,
são constantes no trabalho com a Língua
Portuguesa. Já no trabalho sobre educação
no trânsito deste ano, Lucas sugeriu ao
professor regular que levasse toda a turma
da 4ª série para a porta da escola. Lá,
os alunos observaram a faixa de pedestres,
as faixas de sinalização, a conduta dos
motoristas e a opinião dos vizinhos sobre o
tráfego local. Com as coisas erradas que
viram, as crianças escreveram uma carta
protesto que será encaminhada ao poder público
e à companhia de ônibus. A informação
ganhou a rua e envolveu a comunidade.
"Dessa forma, os alunos com
necessidades especiais tornam-se mais
participantes, passaram a se ver e a ser
vistos como parte ativa na sala de
aula", diz o professor.
Aprendizagem
cooperativa
Quando a turma
trabalha em conjunto, está pondo em prática
um dos princípios da inclusão – valer-se
da receptividade dos demais alunos para
acolher o colega que tem necessidades
especiais. Ana Paula Rodrigues do
Nascimento, coordenadora do Núcleo de Educação
para Diversidade de Senador Canedo percebe
que isso dá apoio ao professor.
Contar
com o improviso é outro princípio, de
acordo com Roseli Baumel, que constata:
"A inclusão tem trazido tensão para o
professor pois é um processo que avança e
recua". Por isso é necessário
envolver toda a escola, contar com serviços
de apoio, partilhar experiências com
escolas especiais, emprestando o
conhecimento que têm sobre como trabalhar,
que materiais utilizar. "A inclusão não
é preparar o aluno e sim adaptar a sala de
aula, a turma e a escola para receber esse
aluno especial", completa Helenir
Moreira.
Quer
saber mais?
Secretaria
Municipal de Educação de Senador Canedo
Tel. (62) 3275-3000
EM
Araci Amaral
Tel. (62) 3512-1737
EM
Antônio Evaristo de Moraes
Tel. (62) 3275-3072
Centro
de Educação Especial Síndrome de Down
Tel. (19) 3252-9889