Quando a superproteção materna é o disfarce de uma mãe dependente emocionalmente

 

Por: Simaia Sampaio  - Psicóloga, Psicopedagoga, Neuropsicológa

          Alguns podem achar que se trata de uma boa mãe, uma mãe presente, uma mãe que dá toda assistência, uma mãe que está sempre pronta para auxiliar, outros podem perceber que se trata de uma mãe que protege demais e que poderia dar mais autonomia para a criança. Esta criança cresce com alguns problemas e a escola sugere psicoterapia. A criança começa na psicoterapia e logo o profissional percebe que a criança não deve ser trabalhada sozinha, porque existe uma mãe por trás que, mesmo sem querer, mesmo tendo a melhor das intenções, está atrapalhando o processo. Então sugere psicoterapia para esta mãe. Nem todas aceitam, mas aquelas que aceitam, ao iniciar, nem imaginam que estão dando início a uma jornada de autoconhecimento, reconhecimento de emoções e sentimentos e que estarão caminhando para uma jornada de autonomia dela mesma e consequentemente dos filhos. Estamos falando das mães, mas é possível que muitos pais estejam também neste lugar de abandono de si mesmo. Irei concentrar minha fala nas mães, pois são as que estão mais diretamente ligadas no dia-a-dia com os cuidados dos filhos. Todavia é perfeitamente possível, durante a leitura, trocar o gênero ao se reconhecer como pai dependente.

         Embora pareçam fortes, pois parecem dar conta de tudo, estão no controle da casa, da vida do cônjuge, da vida escolar do filho de forma excessiva, pois é aquela que leva sempre o filho até a porta da sala e ainda carrega a mochila, está demasiadamente curiosa com o que o filho fez na sala de aula e aborrece frequentemente a professora com as mesmas perguntas, ainda que os filhos estejam indo bem. Com o cônjuge pode ser controladora, não dá espaço e por vezes o cônjuge sente-se sufocado, ocasionando brigas que são frequentemente presenciadas pelas crianças. Se algo não sai do jeito que planejou, perde o controle e culpa os outros por seu fracasso.

         Pessoas assim são carentes de afeto, vulneráveis e necessitam intensamente de cuidado, embora muitas vezes não se deem conta. Sua infância pode ter uma história de abandono físico e/ou emocional, de rejeição, de abuso, de decepção, de ausência de olhar e de escuta. Talvez suas necessidades não tenham sido atendidas e acreditam ser difícil encontrar alguém que a compreenda, que a olhe e ouça suas necessidades, que esteja presente. E então um dia encontra alguém que lhe dê atenção e tudo parece fazer sentido. Finalmente esta pessoa encontrou alguém que está lhe dando afeto e suprindo suas necessidades. Esta pessoa parece resgatá-la deste vazio e dor. Esta parece ser uma pessoa forte e que pode lhe dar segurança, uma segurança que nunca teve. Dá-se início à dependência do outro, ela passa a precisar desta pessoa para ser completa e feliz.

         Não é difícil imaginar, que tal dependência não ficará apenas na zona do relacionamento conjugal. Ela será transferida aos filhos. Bebês naturalmente precisam das mães. Elas se sentem importantes e se entregam totalmente a eles, muitas vezes esquecendo-se até de cuidar de si e do cônjuge. Nada é mais importante do que aquele filho, que lhe dá os braços, que a acaricia e que parece preencher toda falta de afeto que sempre a acompanhou. Este bebê, que agora é uma criança, mas ainda pequena, continua necessitando de alguém que lhe dê banho, comida na boca, que brinque, isto é natural e assim deve ser. Todavia, estas mães não parecem perceber que a criança está crescendo e já é capaz de comer sozinha, tomar banho sozinha, limpar-se sozinha e continua fazendo por ela. Dar-lhe autonomia é dar asas para um dia voar, e isto lhe parece assustador. Esta mãe, dependente, não quer isto. Ela quer alguém que precise dela, que lhe peça coisas e ela estará sempre ali pronta para oferecer. Enquanto este(a) filho(a) estiver dependente, ela se sentirá importante e necessária. Esta mãe não se dá conta que não só a criança é dependente dela, mas ela é igualmente ou mais dependente da criança.

         Assim como um dia depositou no marido a sua felicidade, agora passa a depositar no filho sua felicidade. A insegurança da infância ainda permanece, está traduzida pela dependência em estar sempre buscando no outro formas de preencher seu vazio, um vazio que talvez não reconheça porque está muito atarefada para perceber. A criança cresce e agora tem amigos com os quais quer estar mais, vira um adolescente e naturalmente passa a não a procurar como antes. Ele mesmo aprendeu a ter autonomia por sobrevivência. Esta mãe não suportará este distanciamento e sofrerá, fazendo sofrer a todos da casa, inclusive este adolescente. Culpa-o por estar lhe abandonando e quanto mais percebe se sentir abandonada mais quer fazer pelo filho numa idade em que ele não precisa mais que lhe faça sanduíche no café-da-manhã, ou que coloque o almoço no seu prato, ou que escolha a roupa com que vai sair. Alguns adolescentes aceitam toda esta presteza e passam a acreditar que o mundo será assim, que lhe darão coisas fáceis, o que certamente gerará um problema futuro, inclusive nas suas relações conjugais. Outros adolescentes não aceitam e se sentem cada vez mais sufocados, afastando-se mais e mais, o que deixa esta mãe ainda mais frágil emocionalmente.

 

         Pessoas dependentes de outras, seja de filhos ou do cônjuge, poderão um dia sentir-se tão cansadas, sufocadas que poderão apresentar sérios problemas de saúde. Não possuem forças para equilibrar aquela relação não permitindo que cada um possa ter vida própria, inclusive seus filhos, e tão pouco possuem forças para pensar em si. O resultado é o adoecimento físico ou emocional. A pessoa sufoca-se e sufoca a todos. Podem ir em direção a um caminho destrutivo: depressão, vícios ou mesmo suicídio são possibilidades reais para pessoas dependentes em excesso.

 

         Se esta mãe não reconhece que este comportamento é fruto da sua dependência em relação às pessoas, a tendência é sofrer e fazer sofrer a família. Se, pelo contrário, inicia uma terapia e se reconhece como alguém que foi abandonada emocionalmente e é uma sobrevivente, terá chances de trabalhar sua própria autonomia. Aos poucos irá se sentir fortalecida, aprenderá a se amar, conseguirá tempo para fazer coisas que gosta ou descobrirá outras que nem sabia gostar. Ela irá encorajar-se e aprenderá a tomar conta dela mesma. Aprenderá a ser responsável por sua própria vida, por suas escolhas. Aprenderá a reconhecer toda vez que estiver tendo atitudes dependentes dos outros. Sentir-se-á feliz ao ver a conquista e independência das pessoas com que convive.

 

           É preciso falar sobre assuntos inacabados de nossa infância. É preciso falar sobre dor e como ainda a carregamos. É preciso muitas vezes chorar, reconhecer emoções como raiva, tristeza, medo que estão por trás de uma aparente boa menina que faz tudo para agradar a todos e anula-se. É preciso dar atenção a esta criança interna, acolher seus medos, ouvi-la. A terapia é um ambiente seguro que aprendemos a confiar, a perceber que não seremos criticados, mas convidados a amadurecer. Neste lugar aprendemos que a felicidade está em nós, que podemos ressignificar nossa existência e parar de buscar a felicidade nos outros. Aprenderemos que não precisamos ser fortes o tempo todo, que nos sentiremos frágeis em alguns momentos e que existem pessoas ao nosso redor que irão nos apoiar e amar. A diferença é que não faremos destas pessoas responsáveis pela nossa felicidade, pois esse é um preço muito alto a exigir do outro.

 

         Por fim, filhos de mães que se cuidam emocionalmente, aprendem a resolver seus conflitos sem culpar os outros por seu fracasso, aprendem a não depender dos outros para serem felizes, a gostar da presença de outros porque estes lhe fazem bem e não porque precisam delas. Aprendem a ser autônomos, pois terão uma mãe que reconhece a importância de fazerem com que assumam suas responsabilidades do dia-a-dia, a guardar e valorizar seus pertences sem precisar que outros façam por eles numa idade em que já são capazes. Aprendem a reconhecer suas emoções e lidar melhor com cada uma delas, não se fazendo de vítima e não deixando os outros culpados. Aprenderão a viver sabendo que são livres em suas escolhas e que suas escolhas são frutos de sua responsabilidade consciente.

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