Superproteção e a relação direta com o sentimento de incapacidade

Por: Simaia Sampaio - Psicóloga, Neuropsicóloga e Psicopedagoga     

     Por inúmeros motivos muitos pais se tornam superprotetores. Acreditam que fazendo pelos filhos ajudarão em suas tarefas do dia-a-dia, principalmente as crianças com algum déficit. Crianças com déficit, apresentam dificuldades em um ou mais setores da sua vida, o que, em geral, leva os pais a quererem amenizar seu sofrimento. Neste sentido, procuram compensar ofertando demasiadamente seus serviços maternos e paternos. Logicamente são crianças que, em alguma área irá necessitar de apoio, mas isso é bem diferente de fazer tudo por ela.

        A forma como crianças protegidas demais recebe estes cuidados é, a curto prazo, prazeroso. Todavia, nem a criança nem os pais, conseguem enxergar alguns anos à frente, o quanto esta atitude pode ser prejudicial para sua autonomia na escola e na vida.     

        A criança superprotegida torna-se essencialmente imatura. Não porque veio programada geneticamente para assim o ser, mas porque o ambiente lhe imputou esta condição, que, dada à condição de inocência e pouca experiência, aceita passivamente, por acreditar que os pais estão lhe ofertando o melhor, já que o amam.

       Determinadas características de personalidade vão sendo formadas a partir desta forma de vivenciar e experienciar as facilidades com que seus pais lhe atribuem nas situações diárias. Elas passam a acreditar, ainda pequenas, que o mundo também irá lhe tratar da mesma forma, com as mesmas facilidades. A inocência tem destas coisas.

       Como se não bastassem as limitações atribuídas pelos pais, as crianças começam a desenvolver, claro que inconscientemente, um sentimento de incompetência e menos valia. São filhos de pais que lhe arrancam a oportunidade de aprender como calçar e amarrar um sapato, como aprender a limpar-se sozinho, a tomar banho e escovar os dentes sem que a mãe verifique continuamente se o fez direito (numa idade que isto não cabe mais), arrumar a mochila tirando-lhe a oportunidade de aprender a organizar, selecionar, cuidar, limpar, ter zelo. Ao longo do tempo, o sentimento que se desenvolve é de que não é capaz de fazer minimamente tarefas e isto afeta, ao longo do tempo, sua autoestima.

      Além disto, a criança pode desenvolver medo diante do enfrentamento do novo, já que não amadureceu suficientemente neste sentido. Na escola essa criança pode mostrar-se retraída, com pouca iniciativa e com a sensação de que pode ser atacada pelo que está por vir, já que não aprendeu a desenvolver recursos para resolução de problemas e tomada de decisões. Podem tornar-se estudantes dependentes nos estudos, mesmo sem haver qualquer alteração neurológica ou transtornos de aprendizagem.

      Os pais precisam de suporte neste sentido. Profissionais da saúde e da educação podem fazer muito pela criança orientando os pais sobre os possíveis problemas que estão gerando, claro, sem nenhuma intenção de prejudicá-los, pelo contrário, “fazem porque amam demais”.

     A orientação aos pais segue no sentido de primeiramente aprenderem avaliar o quanto estão atrasando o desenvolvimento da autonomia de seus filhos e aprenderem a diferenciar o que são cuidados necessários e o que são cuidados exagerados. Após esta conscientização, devem libertar-se de algumas funções e permitir que a criança se arrisque, possibilitando o desenvolvimento de tomada de decisões e de escolhas dentre algumas possibilidades ofertadas. Deixar que a criança se arrisque em suas tarefas do cotidiano antes que os pais julguem que ela está fazendo algo errado, incompleto ou mal feito. Precisam cobrar que a criança se responsabilize pelos seus pertences, guardando seus brinquedos depois da brincadeira, que forre sua cama, que ajude a tirar a louça da mesa e, numa idade maior, que ajude a lavar, que se responsabilize pela limpeza e organização dos seus materiais escolares e sua mochila. Seguirem uma rotina de estudo sem que a mãe ou o pai estejam no papel de bengala, mas permitirem que antes da ajuda ela experimente.

       Pais que ofertam demais, sufocam. Além disso, os filhos não aprendem a identificar suas reais necessidades. Muitos pais não suportam o choro da criança, por julgar que estão sofrendo. A frustração é importante e faz parte do processo de amadurecimento e crescimento pessoal.

      Inteligência é a capacidade de resolver problemas. Assim sendo, se não lhe permitem resolver problemas, como os pais estarão ajudando seus filhos? Ao não ter algo, eles precisam se virar. Irão pedir e, na negativa, precisarão aprender a esperar, ou a juntar dinheiro, planejar para conseguir algo similar enquanto esperam. A cognição passa a se desenvolver quando a criança não tem de imediato tudo aquilo que deseja. A falta nos move.

       Na tentativa de não frustrar os filhos, oferecendo-lhe tudo, estes acabam desenvolvendo sentimentos ainda mais intensos de irritação, mau humor e birras. Com o tempo, podem aprender a ser desafiadores, opositoras e tiranos, não aceitando alternativas além daquelas que impõem. Não é preciso muito esforço para percebermos o quanto irão sofrer em outros ambientes como a escola, por exemplo.

      Temos, enquanto pais, muita responsabilidade na educação de nossos filhos, e neste pacote estão inclusos afeto, amor, diálogo, carinho, atenção, mas também cobranças, limites, negativas, pois este balanço irá promover o reconhecimento que a vida é feita de prazeres, mas também de esforços, que dependem muito de como a pessoa se coloca no mundo, a forma como ela respeite os ambientes e as demais pessoas com quem convive.

Permitido compartilhamento com citação da autoria do texto.

07 de abril de 2020.

Simaia Sampaio

Psicóloga - Psicopedagoga - Neuropsicóloga

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